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Quarto Capí­tulo

Lella Zainab, 64 anos, numeróloga

Athena? Que nome interessante! Vamos ver… o seu número Máximo é o nove. Otimista, social, capaz de ser notada no meio de uma multidí£o. Pessoas devem se aproximar dela em busca de compreensí£o, compaixí£o, generosidade, e justamente por isso deve ficar muito atenta, porque a tendíªncia í  popularidade pode subir í  sua cabeí§a, e terminará perdendo mais do que ganhando. Deve também ter cuidado com sua lí­ngua, pois tende a falar mais do que manda o bom senso.

Quanto ao seu número Mí­nimo: onze. Penso que ela almeja alguma posií§í£o de chefia. Interesse por temas mí­sticos; através deles procura trazer harmonia a todos que se encontram a sua volta.

Mas isso entra diretamente em confronto com o número Nove, que é a soma do dia, míªs, e ano do seu nascimento, reduzidos a um único algarismo: estará sempre sujeita í  inveja, tristeza, introversí£o, e decisíµes temperamentais. Cuidado com as seguintes vibraí§íµes negativas: ambií§í£o excessiva, intolerí¢ncia, abuso de poder, extravagí¢ncia.

Por causa deste conflito, sugiro que procure dedicar-se a algo que ní£o envolva um contato emocional com as pessoas, como trabalho na área de informática ou engenharia.

Está morta? Desculpe. O que ela fazia, afinal?

O que Athena fazia afinal? Athena fez um pouco de tudo, mas, se tivesse que resumir sua vida, diria: uma sacerdotisa que compreendia as forí§as na natureza. Melhor dizendo, era alguém que, pelo simples fato de ní£o ter muito o que perder ou esperar da vida, arriscou além do que os outros fazem, e terminou transformando-se nas forí§as que julgava dominar.

Foi assistente de supermercado, bancária, vendedora de terrenos, e em cada uma destas posií§íµes jamais deixou de manifestar a sacerdotisa que tinha dentro de si. Convivi com ela durante oito anos, e lhe devia isso: recuperar sua memória, sua identidade.

A coisa mais difí­cil ao recolher estes depoimentos foi convencer as pessoas a me permitirem usar seus nomes verdadeiros. Umas alegavam que ní£o queriam estar envolvidas neste tipo de história, outras procuravam esconder suas opiniíµes e seus sentimentos. Expliquei que minha verdadeira intení§í£o era fazer que todos os envolvidos a entendessem melhor, e ninguém acreditaria em depoimentos aní´nimos.

Como cada um dos entrevistados julgava possuir a única e definitiva versí£o de qualquer evento, por mais insignificante que ele fosse, terminaram aceitando. No decorrer das gravaí§íµes, vi que as coisas ní£o sí£o absolutas, elas existem dependendo da percepí§í£o de cada um. E a melhor maneira de saber quem somos, muitas vezes, é procurar saber como os outros nos víªem.

Isso ní£o quer dizer que vamos fazer o que esperam; mas pelo menos nos compreendemos melhor. Eu devia isso í  Athena. Recuperar sua história. Escrever o seu mito.

Samira R. Khalil, 57 anos, dona de casa, mí£e de Athena

Ní£o a chame de Athena, por favor. Seu verdadeiro nome é Sherine. Sherine Khalil, filha muito querida, muito desejada, que tanto eu como meu marido querí­amos ter gerado por nós mesmos!

Mas a vida tinha outros planos “” quando a generosidade do destino é muito grande, sempre há um poí§o onde todos os sonhos podem despencar.

Viví­amos em Beirute no tempo em que todos a consideravam como a mais bela cidade do Oriente Médio. Meu marido era um bem-sucedido industrial, casamos por amor, viajávamos í  Europa todos os anos, tí­nhamos amigos, éramos convidados para todos os acontecimentos sociais importantes, e certa vez cheguei a receber em minha casa um presidente dos Estados Unidos, imagine! Foram tríªs dias inesquecí­veis: dois deles onde o servií§o secreto americano esquadrinhou cada canto de nossa casa (eles já estavam no bairro há mais de um míªs, ocupando posií§íµes estratégicas, alugando apartamentos, disfarí§ando-se como mendigos ou casais apaixonados). E um dia “” melhor dizendo, duas horas de festa. Jamais me esquecerei da inveja nos olhos de nossos amigos, e da alegria de poder tirar fotos com o homem mais poderoso do planeta.

Tí­nhamos tudo, menos aquilo que mais desejávamos: um filho. Portanto, ní£o tí­nhamos nada.

Tentamos de todas as maneiras, fizemos promessas, fomos a lugares onde garantiam que era possí­vel um milagre, consultamos médicos, curandeiros, tomamos remédios e bebemos elixires e poí§íµes mágicas. Por duas vezes fiz inseminaí§í£o artificial, e perdi o bebíª. Na segunda, perdi também meu ovário esquerdo, e ní£o consegui mais encontrar nenhum médico que quisesse arriscar-se em uma nova aventura deste tipo.

Foi quando um dos muitos amigos que conhecia a nossa situaí§í£o, sugeriu a única saí­da possí­vel: adotar uma crianí§a. Disse que tinha contatos na Romíªnia, e que o processo ní£o demoraria muito.

Pegamos um avií£o um míªs depois; nosso amigo tinha negócios importantes com o tal ditador que governava o paí­s na época, e do qual ní£o me lembro o nome (N.R.: Nicolai Ceaucescu), de modo que conseguimos evitar todos os trí¢mites burocráticos e fomos parar em um centro de adoí§í£o em Sibiu, na Transilví¢nia. Ali já nos esperavam com café, cigarros, água mineral, e toda a papelada pronta, bastando apenas escolher a crianí§a.

Nos levaram até um berí§ário, onde fazia muito frio, e eu fiquei imaginando como é que podiam deixar aquelas pobres criaturas em tal situaí§í£o. Meu primeiro instinto foi adotar todas, levar para nosso paí­s onde havia sol e liberdade, mas claro que isso era uma idéia maluca. Passeamos entre os berí§os, escutando choros, aterrorizados pela importí¢ncia da decisí£o a tomar.

Por mais de uma hora, nem eu nem meu marido trocamos qualquer palavra. Saí­mos, tomamos café, fumamos cigarros, voltamos “” e isso se repetiu várias vezes. Reparei que a mulher encarregada da adoí§í£o já estava ficando impaciente, precisava logo decidir; neste momento, seguindo um instinto que eu ousaria chamar de maternal, como se tivesse encontrado um filho que tinha que ser meu nesta encarnaí§í£o mas que tinha chegado ao mundo através de outro ventre, apontei para uma menina.

A encarregada sugeriu que pensássemos melhor. Logo ela, que parecia tí£o impaciente com nossa demora! Mas eu já estava decidida.

Mesmo assim, com todo o cuidado, procurando ní£o ferir meus sentimentos (ela achava que tí­nhamos contatos com os altos escalíµes do governo romeno), sussurrou para que meu marido ní£o ouvisse:

-Sei que ní£o vai dar certo. É filha de cigana.

Respondi que uma cultura ní£o pode ser transmitida através dos genes “” a crianí§a, que tinha apenas tríªs meses, seria minha filha e do meu marido, educada segundo nossos costumes. Conheceria a igreja que freqüentamos, as praias onde vamos passear, leria seus livros em francíªs, estudaria na Escola Americana de Beirute. Além do mais, ní£o tinha qualquer informaí§í£o “” e continuo sem ter “” sobre a cultura cigana. Sei apenas que viajam, nem sempre tomam banho, enganam os outros, e usam brinco na orelha. Corre a lenda de que costumam raptar crianí§as para levar em suas caravanas, mas ali estava acontecendo justamente o contrário: tinham deixado uma crianí§a para trás, para que eu me encarregasse dela.

A mulher ainda tentou me dissuadir, mas eu já estava assinando os papéis, e pedindo que meu marido fizesse o mesmo. Na volta para Beirute, o mundo parecia diferente: Deus havia me dado uma razí£o para existir, para trabalhar, para lutar neste vale de lágrimas. Tí­nhamos agora uma crianí§a para justificar todos os nossos esforí§os.

Sherine cresceu em sabedoria e beleza “” acho que todos os pais dizem isso, mas penso que era uma crianí§a realmente excepcional. Certa tarde, ela já tinha cinco anos, um de meus irmí£os me disse que, se ela quisesse trabalhar no exterior o seu nome sempre denunciaria sua origem “” e sugeriu que o mudássemos para algo que ní£o dissesse absolutamente nada, como Athena. Claro que hoje sei que Athena ní£o apenas é a capital de um paí­s, mas também a deusa da sabedoria, da inteligíªncia, e da guerra.

E possivelmente o meu irmí£o ní£o apenas soubesse isso, mas estivesse consciente dos problemas que um nome árabe poderia causar no futuro “” estava metido em polí­tica, como toda nossa famí­lia, e desejava proteger sua sobrinha das nuvens negras que ele, mas só ele, conseguia enxergar no horizonte. O mais surpreendente é que Sherine gostou do som da palavra. Em uma única tarde, comeí§ou a referir-se a si mesma como Athena, e ninguém conseguiu mais tirar isso de sua cabeí§a. Para agradá-la, adotamos também este apelido, pensando que logo aquilo iria passar.

Será que um nome pode afetar a vida de uma pessoa? Porque o tempo passou, o apelido resistiu, e terminamos por nos adaptar a ele.

Aos doze anos, descobrimos que tinha uma certa vocaí§í£o religiosa “” vivia na igreja, sabia os evangelhos de cor, e isso era ao mesmo tempo uma bíªní§í£o e uma maldií§í£o. Em um mundo que comeí§ava a ser cada vez mais dividido pelas crení§as religiosas, eu temia pela seguraní§a de minha filha. A esta altura, Sherine já comeí§ava a nos dizer, como se fosse a coisa mais normal do mundo, que tinha uma série de amigos invisí­veis “” anjos e santos cujas imagens costumava ver na igreja que freqüentávamos. É claro que todas as crianí§as do mundo tíªm visíµes, embora raramente se lembrem disso depois que passam de determinada idade. Também costumam dar vida a coisas inanimadas, como bonecas ou tigres de pelúcia. Mas comecei a achar que estava exagerando quando um dia fui buscá-la na escola, e ela me disse ter visto “uma mulher vestida de branco, parecida com a Virgem Maria”.

Acredito em anjos, claro. Acredito até mesmo que os anjos conversem com crianí§as pequenas, mas quando as aparií§íµes sí£o de gente adulta, as coisas mudam. Conheí§o uma série de histórias de pastores e gente do campo que afirmaram ter visto uma mulher de branco “” e isso terminou por destruir suas vidas, já que as pessoas comeí§am a procurá-los em busca de milagres, os padres se preocupam, as aldeias se transformam em centros de peregrinaí§í£o, e as pobres crianí§as acabam suas vidas em um convento. Fiquei portanto muito preocupada com esta história; nesta idade Sherine devia estar mais preocupada com estojos de maquilagem, pintar as unhas, assistir novelas romí¢nticas ou programas infantis na TV. Algo estava errado com minha filha, e fui procurar um especialista.

“” Relaxe “” ele disse.

Para o pediatra especializado em psicologia infantil, como para a maioria dos médicos que cuidam destes temas, os amigos invisí­veis sí£o uma espécie de projeí§í£o dos sonhos, e ajudam a crianí§a a descobrir seus desejos, expressar seus sentimentos, tudo isso de uma maneira inofensiva.

“” Mas uma mulher de branco?

Ele respondeu que, talvez, a nossa maneira de ver ou explicar o mundo ní£o estivesse sendo bem compreendida por Sherine. Sugeriu que, pouco a pouco, comeí§ássemos a preparar o terreno para dizer que ela tinha sido adotada. Na linguagem do especialista, a pior coisa que podia acontecer, é que ela descobrisse por si mesma “” passaria a duvidar de todo mundo. Seu comportamento poderia tornar-se imprevisí­vel.

A partir daquele momento, mudamos nosso diálogo com ela. Ní£o sei se o ser humano consegue lembrar-se de coisas que lhe aconteceram quando era ainda bebíª, mas comeí§amos a tentar mostrar-lhe o quanto era amada, e que ní£o havia mais necessidade de refugiar-se em um mundo imaginário. Ela precisava entender que o seu universo visí­vel era tí£o belo quanto podia ser, seus pais a protegeriam de qualquer perigo, Beirute era linda, as praias estavam sempre cheias de sol e gente. Sem confrontar-me diretamente com a tal “mulher”, passei a ficar mais tempo com minha filha, convidei seus amigos de escola para freqüentarem nossa casa, ní£o perdia uma só oportunidade para demonstrar todo nosso carinho.

A estratégia deu resultado. Meu marido viajava muito, Sherine sentia falta, e em nome do amor resolveu mudar um pouco seu estilo de vida. As conversas solitárias comeí§aram a ser substituí­das por brincadeiras entre pai, mí£e e filha.

Tudo corria bem até que certa noite ela veio chorando ao meu quarto, dizendo que estava com medo, que o inferno estava próximo.

Eu estava sozinha em casa “” o marido mais uma vez tivera que se ausentar, e achei que esta era a razí£o de seu desespero. Mas inferno? O que será que estavam ensinando na escola ou na igreja? Decidi que no dia seguinte iria até lá conversar com a professora.

Sherine, entretanto, ní£o parava de chorar. Eu a levei até a janela, mostrei o Mediterrí¢neo lá fora, iluminado pela lua cheia. Disse que ní£o havia demí´nios, mas estrelas no céu e gente caminhando pelo boulevard diante de nosso apartamento. Expliquei que ní£o precisava ter medo, que ficasse tranqüila, mas ela continuava a chorar e tremer. Depois de quase meia hora tentando acalmá-la, comecei a ficar nervosa. Pedi que parasse com aquilo, ela já ní£o era mais uma crianí§a. Imaginei que talvez tivesse ocorrido sua primeira menstruaí§í£o; discretamente perguntei se algum sangue estava correndo.

“” Muito.

Peguei um pouco de algodí£o, pedi que deitasse para que eu pudesse cuidar do seu “ferimento”. Ní£o era nada, amanhí£ eu lhe explicaria. Entretanto, a menstruaí§í£o ní£o tinha chegado. Ela ainda chorou um pouco, mas devia estar cansada, porque logo dormiu.

E, no dia seguinte, o sangue correu de manhí£.

Quatro homens foram assassinados. Para mim, era apenas mais uma das eternas batalhas tribais a que meu povo estava acostumado. Para Sherine, ní£o devia ser nada, porque nem sequer mencionou o seu pesadelo da noite anterior.

Entretanto, a partir dessa data, o inferno estava chegando, e até hoje ní£o se afastou mais. No mesmo dia, 26 palestinos foram mortos em um í´nibus, como vinganí§a pelo assassinato. Vinte e quatro horas depois, já ní£o se podia caminhar pelas ruas, por causa dos tiros que vinham de todos os lados. As escolas fecharam, Sherine foi trazida í s pressas para casa por uma de suas professoras, e a partir daí­, todos perderam controle da situaí§í£o. Meu marido interrompeu sua viagem no meio e voltou para casa, telefonando dias inteiros para os seus amigos do governo, e ninguém conseguia dizer algo que fizesse sentido. Sherine ouvia os tiros lá fora, os gritos de meu marido dentro de casa, e “” para minha surpresa “” ní£o dizia uma palavra. Eu tentava sempre lhe dizer que era passageiro, que em breve poderí­amos ir de novo í  praia, mas ela desviava os olhos e pedia algum livro para ler, ou um disco para ouvir. Enquanto o inferno se instalava aos poucos, Sherine lia e escutava música.

Ní£o quero pensar muito nisso, por favor. Ní£o quero pensar nas ameaí§as que recebemos, quem estava com a razí£o, quais eram os culpados e os inocentes. O fato é que, poucos meses depois, quem quisesse atravessar determinada rua, deveria pegar um barco, ir até a ilha de Chipre, tomar outro barco, e desembarcar do outro lado da calí§ada.

Permanecemos praticamente dentro de casa por quase um ano, sempre esperando a situaí§í£o melhorar, sempre achando que tudo aquilo era passageiro, o governo iria terminar controlando a situaí§í£o. Certa manhí£, enquanto escutava um disco em sua pequena eletrola portátil, Sherine ensaiou uns passos de daní§a, e comeí§ou a dizer coisas como “vai demorar muito, muito tempo”.

Eu quis interrompíª-la, mas meu marido pegou-me pelo braí§o “” vi que estava prestando atení§í£o, e levando a sério as palavras de uma menina. Nunca entendi por que, e até hoje ní£o comentamos o assunto; é um tabu entre nós.

No dia seguinte, ele comeí§ou a tomar providíªncias inesperadas; em duas semanas estávamos embarcando para Londres. Mais tarde saberí­amos que, embora ní£o haja estatí­sticas concretas a respeito, nestes dois anos de guerra civil (N.R.: 1974 e 1975) morreram em torno de 44 mil pessoas, 180 mil ficaram feridas, milhares desabrigadas. Os combates continuaram por outras razíµes, o paí­s foi ocupado por forí§as estrangeiras, e o inferno continua até hoje.

“Vai durar muito tempo”, dizia Sherine. Meu Deus, infelizmente ela tinha razí£o.

Próximo Capí­tulo: 09.08.06

Edií§í£o nº 126: O cego e o Everest

Parece que aos poucos a gente vai se acostumando í s mesmas metáforas sobre a vida. Faz algum tempo, escrevi nesta coluna o “Manual de subir montanhas”, e de repente me encontro com um leitor em Hamburgo, que resolve dividir comigo sua experiíªncia a respeito das escaladas na vida. Descobriu em que hotel estou, tem uma série de crí­ticas sobre a minha página na internet. Faz comentários duros, e depois pergunta:

– Pode tirar uma foto com a minha namorada?

Claro que posso. Ele pega o celular, aperta um botí£o, ní£o diz nada, e a namorada aparece no minuto seguinte.

Tiramos a foto, mas a pergunta que segue é mais intrigante:

– Pode um cego escalar o monte Everest?

– Acho que ní£o – respondo.

– Por que vocíª ní£o responde: talvez?

Já tenho quase certeza que estou diante de um “otimista compulsivo.” Uma coisa é o universo inteiro conspirar para que nossos sonhos sejam realizados, outra coisa é colocar-se diante de desafios absolutamente desnecessários, que podem resultar em morte ou em fracassos previsí­veis.

Explico que tenho que sair para um compromisso, mas o leitor ní£o desiste.

– Cegos podem escalar o Everest, a montanha mais alta do mundo ( 8.848 metros). Ní£o apenas podem, como sei que pelo menos um deles escalou. Seu nome é Erik Weihenmayer. Seu compromisso pode esperar?

Se ele deu um nome, talvez exista uma história interessante. Meu compromisso pode esperar, claro.

– Em 2001, Weihenmayer conseguiu. E enquanto isso, as pessoas ficam se queixando que ní£o conseguem um carro melhor, uma roupa mais elegante, um salário í  altura de suas capacidades.

– Vocíª tem certeza? – Pesquise na internet. Mas o que me fascina é que Weihenmayer sabia exatamente o que desejava: ele transformou sua vida naquilo que achava que ela devia ser. Teve coragem de arriscar tudo para conseguir que o universo conspirasse a seu favor.

Concordo. O leitor continua, como se minha atitude já ní£o lhe interessasse mais:

– Se uma pessoa sabe o que deseja da vida, tem todas as condií§íµes para conseguir realizar seu sonho. Ní£o foi vocíª mesmo quem disse isso?

Claro. Mas existem limites, como cegos escalando a montanha mais alta do planeta.

– E se as pessoas ní£o tem sonhos, o que devem fazer? – Pensar em algo que gostariam de estar desenvolvendo, e dar o primeiro passo – respondo. -Sem medo de errar. Sem medo de ferir os que se “preocupam” por seu comportamento.

– Isso! – diz o leitor, pela primeira vez identificando claramente as minhas idéias.
– Em seguida, nos damos conta que para atingir o que desejamos é preciso correr riscos. Vocíª ní£o diz isso em seus livros?

Ní£o apenas digo, como procuro honrar estas palavras. Mas somos interrompidos em nossa conversa, é hora do compromisso que me trouxe até Hamburgo. Agradeí§o sua atení§í£o, peí§o que me envie sugestíµes sobre a minha página na internet, tiramos mais uma foto, e nos despedimos.

í€s tríªs horas da manhí£, voltando do tal evento, coloco a mí£o no bolso para pegar a chave do quarto, e descubro o papel onde havia anotado o tal nome. Mesmo sabendo que tenho que viajar para o Cairo em algumas horas, ligo o computador, e ali está:

“No dia 25 de maio de 2001, aos 32 anos de idade, Erik Weihenmayer se tornou o primeiro cego a atingir o topo da montanha mais alta do mundo. Ex-professor de ginásio, recebeu o príªmio da ESPN e da IDEA por sua coragem em ir além dos limites que sua condií§í£o fí­sica permitia. Além do Everest, Erik Weihenmayer escalou as outras sete montanhas mais altas do planeta, entre as quais o Aconcagua (Argentina) e o Kilimanjaro (Tanzania)”.

Se ní£o acreditarem, confiram.

The blind man and Everest

Little by little we seem to grow used to the same metaphors for life. Some time ago I wrote in this column the “Manual for climbing mountains”, and out of the blue I meet a reader in Hamburg who decides to share his experience with me about climbing in life. He discovered what hotel I am in, and has some criticism to make of my page in the Internet. After making some harsh comments, he asks:

“Do you mind if I take a photo with my girlfriend?”

Of course I don’t. He picks up his cellular, presses a button, says nothing, and his girlfriend turns up a minute later.

After the photo is taken comes the next question, this one more intriguing:

“Can a blind man climb Mount Everest?”

“I don’t think so,” I answer.

“Why don’t you answer ‘perhaps’?”

I am almost certain that I am in the company of a “compulsive optimist.” One thing is the whole universe conspiring for our dreams to become true, quite another is to place yourself in front of absolutely unnecessary challenges, which can lead to death or unpredictable failure.

I explain that I have to leave for an appointment, but the reader does not give up.

“The blind can climb Everest, the highest mountain in the world (8,848 meters). Not only can they do it, but I happen to know of at least one blind person who did it. His name is Erik Weihenmayer. Can your appointment wait?”

Since he gave me a name, there could an interesting story here. My appointment can wait, of course.

“In 2001, Weihenmayer managed the feat. Meanwhile, people complain that they cannot afford a better car, more elegant clothes, and a salary that matches their abilities.”

“Are you sure?”

“Look it up in the Internet. But what fascinates me is that Weihenmayer knew exactly what he wanted: he changed his life into what he thought it should be. He had the courage to risk everything to have the universe conspire in his favor.”

I agree. The reader goes on, as if my attitude is no longer of any interest to him:

“If you know what you want in life, then you have all you need to manage to make your dream come true. Didn’t you yourself say that?”

Of course. But there are limits, such as blind people climbing the highest mountain on earth.

“And if people have no dreams, what are they supposed to do?”

“Think about something that they would like to be doing, and then take the first step,” I answer. “Without being afraid of making a mistake. Without fear of offending those who ‘worry’ about their behavior.”

“That’s it!” said the reader, for the first time identifying my ideas clearly. “So we realize that to reach what we want we have to run risks. Don’t you say that in your books?”

Not only do I say it, but I also try to keep my word. But we are interrupted in our conversation; it is time for the appointment that has brought me to Hamburg. I thank him for his attention, ask him to send me suggestions for my page on the Internet, we take another picture and then say goodbye.

At three o’clock in the morning, returning from that event, I reach into my pocket for the key to my room and discover the piece of paper where he had jotted down the blind man’s name. Even knowing that I have to travel to Cairo in a couple of hours, I turn on the computer, and there it is:

“On 25 May 2001, at the age of 32, Erik Weihenmayer became the first blind person to reach the top of the highest mountain in the world. A former high-school teacher, he received the ESPN and IDEA prize for his courage in overcoming the limits that his physical condition permitted. Besides Everest, Erik Weihenmayer has climbed the other seven highest mountains in the world, including Aconcagua in Argentina and Kilimanjaro in Tanzania”.

If you don’t believe it, look it up.

Edición nº 126: El ciego y el Everest

Parece que poco a poco la gente se va acostumbrando a las mismas metáforas de la vida. Hace algún tiempo, escribí­a en esta columna el “manual para subir montañas”, y de repente me encuentro con un lector en Hamburgo que decide compartir conmigo su experiencia respecto a las escaladas de la vida. Descubrió en qué hotel estoy alojado, tiene una serie de crí­ticas sobre mi página de internet. Hace comentarios duros, y después pregunta:

-¿Puede hacerse una foto con mi novia?

Claro que puedo. Coge el teléfono móvil, aprieta un botón, no dice nada, y un minuto después aparece su novia.

Nos hacemos la foto, pero la pregunta que sigue es más intrigante:

-¿Puede un ciego escalar el monte Everest?

-Creo que no -respondo.

-¿Por qué no responde: tal vez?

Ya estoy casi convencido de que tengo delante a un “optimista compulsivo.” Una cosa es que el universo entero conspire para que se cumplan nuestros sueños, otra cosa es colocarse frente a desafí­os absolutamente innecesarios, que pueden acabar en accidentes fatales o en fracasos previsibles.

Explico que tengo que salir por un compromiso, pero el lector no se rinde.

-Los ciegos pueden escalar el Everest, la montaña más alta del mundo ( 8.848 metros). No sólo pueden, sino que sé que por lo menos uno de ellos lo ha hecho. Su nombre es Erik Weihenmayer. ¿Su compromiso puede esperar?

Si ha citado un nombre, puede que exista una historia interesante. Mi compromiso puede esperar, por supuesto.

-En 2001, Weihenmayer lo consiguió. Y mientras tanto, la gente se queja por no tener un coche mejor, ropa más elegante, o un sueldo a la altura de sus necesidades.

-¿Está usted seguro de que lo consiguió?

-Busque en internet. Pero lo que me fascina es que Weihenmayer sabí­a exactamente lo que querí­a: transformó su vida en aquello que él pensaba que debí­a ser. Tuvo el valor de arriesgarlo todo para conseguir que el universo conspirase a su favor.

Estoy de acuerdo. El lector continúa, como si mi actitud ya no le interesase más:

-Si una persona sabe lo que quiere de la vida, reúne todas las condiciones para hacer que se cumpla su sueño. ¿No fue usted mismo quien lo dijo?

Claro. Pero existen lí­mites, como ciegos escalando la montaña más alta del planeta.

-Y si las personas no tienen sueños, ¿qué tienen que hacer?

-Pensar en algo que les gustarí­a estar realizando, y dar el primer paso -respondo-. Sin miedo a errar. Sin miedo a herir a los que se “preocupan” por su comportamiento.

-¡Eso! -dice el lector, identificando claramente por primera vez mis ideas-. En seguida nos damos cuenta de que para lograr lo que queremos es preciso correr riesgos. ¿No es eso lo que dice usted en sus libros?

No sólo lo digo, sino que también procuro hacer honor a esas palabras. Pero nuestra conversación es interrumpida, ha llegado la hora de atender al compromiso que me trajo a Hamburgo. Agradezco su atención, le pido que me enví­e sugerencias sobre mi página web, nos hacemos una foto más, y nos despedimos.

A las tres de la mañana, regresando del evento, meto la mano en el bolso para sacar la llave de la habitación, y descubro el papel en el que habí­a anotado el nombre. Pese a que dentro de unas horas tengo que viajar a El Cairo, enciendo el ordenador, y allí­ está:

“El 25 de mayo de 2001, a los 32 años de edad, Erik Weihenmayer se convirtió en el primer invidente que alcanzó la cima de la montaña más alta del mundo. Este ex-monitor de gimnasio recibió el premio que otorgan ESPN e IDEA por su valor al ir más allá de los lí­mites que su condición fí­sica permití­a. Además del Everest, Erik Weihenmayer ha escalado las otras siete montañas más altas del planeta, entre ellas el Aconcagua (Argentina) y el Kilimanjaro (Tanzania)”.

Si no lo creen, compruébenlo.

Édition nº 126: L’aveugle et l’Everest

Il semble que peu í  peu les gens s’habituent aux míªmes métaphores pour décrire la vie. Il y a quelque temps, j’ai écrit dans cette colonne le « Manuel pour gravir des montagnes », et voilí  que je rencontre í  Hambourg un lecteur qui décide de partager avec moi son expérience des escalades dans la vie. Il a découvert l’hí´tel oí¹ je me trouve, il me soumet quelques critiques au sujet de ma page sur Internet. Il fait des commentaires sévères, puis il demande :

« Pouvez-vous faire une photo de ma petite amie ? »

Bien sí»r, je le peux. Il s’empare du téléphone mobile, appuie sur un bouton, ne dit rien, et la petite amie apparaí®t dans la minute suivante.

Nous prenons la photo, mais la question qui suit est plus intrigante.

« Un aveugle peut-il escalader le mont Everest ?

– Je ne crois pas, je réponds.

– Pourquoi ne pas répondre “peut-íªtre” ? »

Je suis déjí  quasi certain de me trouver devant un « optimiste compulsif ». Que tout l’univers conspire í  la réalisation de nos ríªves est une chose, nous imposer des défis absolument inutiles, qui peuvent entraí®ner la mort ou des échecs prévisibles, en est une autre.

J’explique que je dois sortir pour un rendez-vous, mais le lecteur ne renonce pas.

« Des aveugles peuvent escalader l’Everest, la montagne la plus haute du monde (8 846 mètres). Non seulement ils le peuvent, mais je sais que l’un d’eux au moins l’a fait. Il s’appelle Erik Weihenmayer. Votre rendez-vous peut-il attendre ? »

S’il a donné un nom, peut-íªtre y a-t-il une histoire intéressante. Mon rendez-vous peut attendre, bien sí»r.

« En 2001, Weihenmayer a réussi. Et cependant, les gens se plaignent de ne pas trouver une meilleure voiture, des víªtements plus élégants, un salaire í  la hauteur de leurs capacités.

– En íªtes-vous certain ?

– Faites une recherche sur Internet. Ce qui me fascine, c’est que Weihenmayer savait exactement ce qu’il désirait : il a fait de sa vie ce qu’il croyait qu’elle devait íªtre. Il a eu le courage de tout risquer pour obtenir que l’univers conspire en sa faveur. »

Je souscris. Le lecteur poursuit, comme si ma position ne l’intéressait déjí  plus.

« Si quelqu’un sait ce qu’il désire dans la vie, les conditions sont réunies pour qu’il parvienne í  réaliser son ríªve. N’est-ce pas vous-míªme qui avez dit cela ? »

Certes. Mais il y a des limites, par exemple des aveugles escaladant la montagne la plus élevée de la planète.

« Et si les gens n’ont pas de ríªves, que doivent-ils faire ?

– Penser í  un projet qu’ils aimeraient développer, et faire le premier pas, je réponds. Sans craindre de se tromper. Sans craindre de choquer ceux que leur comportement “inquiète”.

– C’est cela ! » dit le lecteur, reconnaissant clairement mes idées pour la première fois. « Ensuite, on se rend compte que pour atteindre ce que l’on désire, il faut prendre des risques. Ne dites-vous pas cela dans vos livres ? »

Non seulement je le dis, mais je m’efforce de faire honneur í  ces mots. Mais nous sommes interrompus dans notre conversation, c’est l’heure du rendez-vous qui m’a mené jusqu’í  Hambourg. Je le remercie de son attention, je le prie de m’envoyer des suggestions sur ma page sur Internet, nous prenons encore une photo, et nous nous séparons.

í€ trois heures du matin, de retour de l’événement en question, je mets la main dans ma poche pour attraper la clef de la chambre, et je découvre le papier sur lequel j’avais noté ce nom. Sachant que je dois partir pour Le Caire dans quelques heures, j’allume tout de míªme l’ordinateur, et je trouve ceci :

« Le 25 mai 2001, í  l’í¢ge de 32 ans, Erik Weihenmayer est devenu le premier aveugle qui ait atteint le sommet de la montagne la plus élevée du monde. Ex-professeur de gymnastique, il a reí§u le prix de l’ESPN et de l’IDEA pour son courage d’íªtre allé au-delí  des limites permises par son état physique. Outre l’Everest, Erik Weihenmayer a escaladé les sept autres plus hautes montagnes de la planète, parmi lesquelles l’Aconcagua (Argentine) et le Kilimandjaro (Tanzanie). »

Si vous ne le croyez pas, vérifiez.

Edizione nº 126: Il cieco e l’Everest

Sembra che a poco a poco ci si stia abituando alle stesse metafore sulla vita. Un po’ di tempo fa, ho scritto per questa sede il “Manuale per scalare le montagnes”, e tutt’a un tratto incontro un lettore, ad Amburgo, che decide di condividere con me la sua esperienza circa le scalate nella vita. Ha scoperto in quale albergo mi trovo, ha una serie di critiche sulla mia pagina in internet. Fa dei commenti duri, e poi domanda:

– Puí² fare una foto con la mia fidanzata?

Certo che posso. Lui prende il cellulare, preme un pulsante, senza dire niente, e l’attimo dopo compare la fidanzata.

Scattiamo la foto, ma la domanda che segue è pií¹ intrigante:

– Un cieco puí² scalare il monte Everest?

– Penso di no – rispondo.

– Perché non risponde: forse?

Ormai sono quasi certo di trovarmi davanti a un “ottimista compulsivo.” Una cosa è che l’universo intero cospiri affinchè i nostri sogni si realizzino, altra cosa è porsi davanti a certe sfide assolutamente non necessarie, che possono risultare nella morte o in fallimenti prevedibili.

Spiego che devo uscire perché ho un impegno, ma il lettore non desiste.

– I ciechi possono scalare l’Everest, la montagna pií¹ alta del mondo (8.848 metri). Non solo possono, ma so che almeno uno lo ha fatto. Il suo nome è Erik Weihenmayer. Il suo impegno puí² aspettare?

Se lui ha citato un nome, forse c’è una storia interessante. Il mio impegno puí² aspettare, certo.

– Nel 2001, Weihenmayer ci è riuscito. E intanto, le persone continuano a lamentarsi che non riescono ad avere un’auto migliore, un vestito pií¹ elegante, uno stipendio adeguato alle loro capacití .

– Ne è sicuro?

– Cerchi in internet. Ma quello che mi affascina è che Weihenmayer sapeva esattamente cií² che desiderava: ha trasformato la sua vita in quello che pensava dovesse essere. Ha avuto il coraggio di rischiare tutto per ottenere che l’universo cospirasse a suo favore.

Sono d’accordo. Il lettore continua, come se il mio atteggiamento ormai non gli interessasse pií¹:

– Se una persona sa cosa desidera dalla vita, ha tutte le condizioni per riuscire a realizzare il proprio sogno. Non è proprio lei che lo ha detto?

Certo. Ma ci sono dei limiti, come dei ciechi che scalano la montagna pií¹ alta del pianeta.

– E se qualcuno non ha dei sogni, cosa deve fare?

– Pensare a qualcosa che vorrebbe sviluppare, e fare il primo passo – rispondo. – Senza la paura di sbagliare. Senza la paura di ferire coloro che si “preoccupano” per il suo comportamento.

– Proprio cosí¬! – dice il lettore, per la prima volta identificando chiaramente le mie idee. – In seguito, ci rendiamo conto che per raggiungere cií² che desideriamo è necessario correre dei rischi. Lei non dice questo nei suoi libri?

Non solo lo dico, ma cerco di onorare queste parole. Ma la nostra conversazione si interrompe, è l’ora dell’impegno che mi ha portato ad Amburgo. Lo ringrazio per la sua attenzione, gli chiedo di inviarmi dei suggerimenti sulla mia pagina in internet, scattiamo ancora una foto e ci salutiamo.

Alle tre del mattino, di ritorno dal famoso evento, metto la mano in tasca per prendere la chiave della camera e scopro il pezzo di carta su cui avevo annotato quel nome. Pur sapendo di dover partire per il Cairo dopo qualche ora, accendo il computer, ed eccolo lí¬:

“Il giorno 25 maggio 2001, a 32 anni, Erik Weihenmayer è stato il primo cieco a raggiungere la vetta della montagna pií¹ alta del mondo. Ex-professore di scuola, ha ricevuto il premio della ESPN e della IDEA per il suo coraggio di spingersi oltre i limiti che la sua condizione fisica gli permetteva. Oltre all’Everest, Erik Weihenmayer ha scalato altre sette fra le montagne pií¹ alte della terra, fra cui l’Aconcagua (Argentina) e il Kilimanjaro (Tanzania)”.

Se non ci credete, controllate.