Edií§í£o nº 145: Como se fosse a primeira vez

Eu quero acreditar que vou olhar cada dia como se fosse a primeira vez. Ver as pessoas que me cercam com surpresa e espanto, alegre por descobrir que estí£o ao meu lado dividindo algo chamado amor, muito falado, pouco entendido.

Entrarei no primeiro í´nibus que passar, sem perguntar em que direí§í£o está indo, e saltarei assim que olhar algo que me chame atení§í£o. Passarei por um mendigo que me pedirá uma esmola. Talvez eu díª, talvez eu ache que irá gastar em bebida, e siga adiante – escutando seus insultos, e entendendo que esta é sua forma de comunicar-se comigo. Passarei por alguém que está tentando destruir uma cabine telefí´nica. Talvez eu tente impedi-lo, talvez eu entenda que faz isso porque ní£o tem ninguém com quem conversar do outro lado da linha, e desta maneira procura espantar sua solidí£o.

Eu olharei tudo e todos como se fosse a primeira vez – principalmente as pequenas coisas, com as quais já estou habituado, e esqueci-me da magia que me cerca. As teclas do meu computador, por exemplo, que se movem com uma energia que eu ní£o compreendo. O papel que aparece na tela, e que há muito tempo ní£o se manifesta de maneira fí­sica, embora eu acredite que esteja escrevendo em uma folha branca, onde é fácil corrigir apertando apenas uma tecla. Ao lado da tela do computador acumulam-se alguns papéis que ní£o tenho paciíªncia de colocar em ordem, mas se eu achar que escondem novidades, todas estas cartas, lembretes, recortes, recibos, ganharí£o vida própria, e terí£o histórias curiosas – do passado e do futuro – para me contar. Tantas coisas no mundo, tantos caminhos percorridos, tantas entradas e saí­das na minha vida.

Vou colocar uma camisa que costumo usar sempre, e pela primeira vez vou prestar atení§í£o í  sua etiqueta, a maneira como foi costurada, e vou procurar imaginar as mí£os que a desenharam, e as máquinas que transformaram este desenho em algo material, visí­vel.

E mesmo as coisas com as quais estou habituado – como o arco e as flechas, a xí­cara de café da manhí£, as botas que se transformaram em uma extensí£o de meus pés depois de muito uso – serí£o revestidas do mistério da descoberta. Que tudo que minha mí£o tocar, meus olhos virem, minha boca provar, seja diferente agora, embora tenha sido igual por muitos anos. Assim, elas deixarí£o de ser natureza morta, e passarí£o a me transmitir o segredo de estarem comigo por tanto tempo, e manifestarí£o o milagre do reencontro com emoí§íµes que já tinham sido desgastadas pela rotina.

Quero olhar pela primeira vez o sol, se amanhí£ fizer sol; o tempo nublado, se amanhí£ estiver nublado. Acima de minha cabeí§a existe um céu que a humanidade inteira, em milhares de anos de observaí§í£o, já deu uma série de explicaí§íµes razoáveis. Pois eu esquecerei todas as coisas que aprendi a respeito das estrelas, e elas se transformarí£o de novo em anjos, ou em crianí§as, ou em qualquer coisa que eu sentir vontade de acreditar no momento.

O tempo e a vida foram transformando tudo em algo perfeitamente compreensí­vel – e eu preciso do mistério, do troví£o que é a voz de um deus enraivecido, e ní£o uma simples descarga elétrica que provoca vibraí§íµes na atmosfera. Eu quero encher de novo minha vida de fantasia, porque um deus enraivecido é muito mais curioso, aterrador, e interessante, que um fení´meno fí­sico.

E, finalmente, que eu olhe a mim mesmo como se fosse a primeira vez que estivesse em contato com meu corpo e minha alma. Que eu olhe esta pessoa que caminha, que sente, que fala como qualquer outra, que eu fique admirado com seus gestos mais simples, como conversar com o carteiro, abrir a correspondíªncia, contemplar sua mulher dormindo ao lado, perguntando a si mesmo com o que ela estará sonhando.

E assim, permanecerei o que sou e o que gosto de ser, uma constante surpresa para mim mesmo. Este eu que ní£o foi criado nem por meu pai, nem por minha mí£e, nem pela minha escola, mas por tudo aquilo que vivi até hoje, que esqueci de repente, e estou descobrindo de novo.