Edição nº 157 : Fragmentos de um diario inexistente

by Paulo Coelho on October 10, 2007

O sermão de um padre peruano

No meu livro “O Alquimista”, o jovem pastor Santiago encontra-se de repente com um velho em uma praça. Está em busca de um tesouro, mas não sabe como chegar até ele. O velho começa a puxar conversa:
- Quantas ovelhas você tem?
- O suficiente – responde Santiago.
- Então estamos diante de um problema. Não posso ajudá-lo enquanto você achar que tem ovelhas suficientes.

Baseado neste trecho, o padre peruano Clemente Sobrado faz uma interessante reflexão, que transcrevo a seguir:
Um dos maiores problemas que todos nós arrastamos através da vida é querer acreditar que temos “ovelhas suficientes”.Estamos cercados de certezas, e ninguém deseja que alguém apareça propondo alguma coisa nova. Quem dera que pelo menos pudéssemos suspeitar que não temos tudo, nem somos tudo o que podíamos ser!
É possível que todo mundo esteja diante de um problema gravíssimo; e embora tenhamos a oportunidade de ajudar-nos uns aos outros, a verdade é que pouca gente se deixa ajudar.
Por quê? Porque acreditam que já tem “ovelhas suficientes”. Já sabem tudo, sempre tem razão, estão confortáveis em suas existências.
Quase todos nós somos assim: temos muitas coisas e poucas aspirações. Temos muitas idéias já resolvidas, e não queremos renunciar a elas. Nosso esquema de vida já está bem organizado, e não precisamos de ninguém que venha provocar uma mudança.
Já rezamos o suficiente, fizemos caridade, lemos as vidas de santos, fomos à missa, comungamos. Um amigo meu, disse certa vez:
- Não sei por que venho lhe procurar, padre. Eu já sou um bom cristão.
Naquele dia não consegui escutar isso sem dar uma resposta:
- Então não venha me procurar, porque tenho muita gente me esperando, que estão cheias de dúvidas. Mas quer saber uma coisa: Você não é mau o suficiente para ser mau, nem bom o suficiente para ser bom, nem santo o bastante para fazer milagres.
“É apenas um cristão satisfeito com o que conseguiu. E todos aqueles que estão satisfeitos, na verdade renunciaram a melhorar sempre. Conversaremos outro dia, de acordo?”
Desde então, quando conversamos ao telefone, ele começa dizendo: “aqui está falando uma pessoa que ainda não cresceu tudo o que podia”.

Senhor, dá-nos sempre um coração insatisfeito.
Dai-nos um coração onde possa se manifestar as perguntas que nunca queremos fazer.
Retira-nos do nosso conformismo.
Que possamos sentir o gosto pelo que temos, mas que entendamos que isso não é tudo.
Que possamos entender que somos pessoas boas.
Mas sobretudo, que nos perguntemos sempre onde podemos melhorar.
Porque, se perguntamos, é bem possivel que Tu venhas e nos abra horizontes que antes não conseguiamos enxergar.

Hakone, Japao

Consigo que meu editor, Masao Masuda, finalmente me convide para a tradicional cerimônia do chá. Vamos para uma montanha perto de Hakone, entramos num pequeno quarto, e sua irmã, vestida ritualmente em quimono, nos serve chá.
Só isso. Entretanto, tudo é feito com tanta seriedade e protocolo, que uma prática cotidiana transforma-se num momento de comunhão com o Universo.
O mestre do chá, Okakusa Kasuko, explica o que acontece: “a cerimônia é a adoração do belo. Todo seu esforço concentra-se na tentativa de atingir o Perfeito através dos gestos imperfeitos da vida cotidiana. Toda a sua beleza consiste em respeitar as coisas simples que fazemos, pois elas podem nos transportar até Deus”.

Copacabana, Rio de Janeiro

Estou andando pelo calçadão, e escuto uma moça dizendo para a outra, de maneira convicta: “Eu programei minha vida da seguinte maneira…”
Fiquei pensando: será que ela conta com as coisas  que aparecem justamente quando não estamos esperando? Pensou que Deus talvez tenha um plano diferente, e muito mais interessante? Levou a sério a hipótese de que – ao incluir outras pessoas na sua programação – esteja interferindo em idéias e projetos distintos?
Não sei se a frase que escutei era fruto da inexperiência ou do delírio total.

Melbourne, Australia

Piso no palco com a apreensão de sempre. Um escritor local me apresenta e começa a me fazer perguntas. Antes que eu possa terminar um raciocínio, ele me interrompe e faz uma nova pergunta. Quando respondo, comenta algo como “esta resposta não foi bem clara”.  Cinco minutos depois, nota-se um mal-estar na platéia. Lembro-me de Confúcio, e faço a única coisa possível:
- Você gosta do que eu escrevo? – pergunto.
- Isso não vem ao caso – responde. – Sou eu a entrevistá-lo, e não o contrário.
- Vem ao caso, sim. Você não me deixa concluir uma idéia. Confúcio disse: “sempre que possível, seja claro”. Vamos seguir este conselho e deixar as coisas claras: você gosta do que escrevo?
- Não, não gosto. Só li dois livros, e detestei.
- OK, então podemos continuar.
Os campos agora estavam definidos. A platéia relaxa, o ambiente enche-se de eletricidade, a entrevista vira um verdadeiro debate, e todos – inclusive o escritor – ficam satisfeitos com o resultado.

No avião de Melbourne para Los Angeles

Recorto da revista de bordo o trecho atribuído à Loren Eisley:
“A viagem é difícil, longa, às vezes impossível. Mesmo assim, conheço poucas pessoas que se deixaram deter por estas dificuldades. Entramos no mundo sem saber direito o que aconteceu no passado, quais as conseqüências que isto nos trouxe, e o que pode nos reservar o futuro”.
“Procuraremos viajar o mais longe que pudermos. Mas, olhando a paisagem a nossa volta, sabemos que não será possível  conhecer e aprender tudo”.
”Então, nos resta lembrar tudo sobre a nossa viagem, para que possamos contar histórias. Aos nossos filhos e netos, vamos relatar as maravilhas que vimos e os perigos que corremos. Eles também nascerão e morrerão, contarão suas histórias aos seus descendentes, e a caravana ainda não terá chegado ao seu destino”.

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Carina Franco October 13, 2007 at 11:48 pm

O eterno inconformismo…
A história da minha vida, provavelmente, resume-se a esta frase. De uma forma impressionante, aliás. Começando por não parar de navegar entre estações do rádio (porque a música da próxima pode ser sempre melhor que a anterior), e terminando na luta acesa por novos objectivos, novas metas, que crio e me obrigo a perseguir, como se disso se alimentasse o meu ser.
E digo-vos: não é fácil. Não é fácil perseguir sonhos, largar o que se tem e que conforta por saber que está errado, seguir princípios. Pelo contrário – dói muito. É uma viagem que se faz sozinho, e por vezes a mão que nos apazigua a alma é aquela que precisamos de afastar. Para crescer, para melhorar, sei lá…
Posso dizer que a minha filha é responsável por muita da minha estabilidade. Não o lamento – a minha filha foi o que de mais acertado fiz na vida. Mas precisa de uma certa estabilidade, a par e passo com pequenas mudanças para melhor. Aos poucos, quero que se aperceba que a vida não é certa nem estanque, e que dela depende.
Às vezes sinto-me presa. Mas vou procurando pequenos objectivos, sem prejudicar os que amo.
Sei lá que força é esta que me impele… e me faz feliz! :)

Foi um pequeno desabafo…

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Jhons Cassimiro October 11, 2007 at 11:33 pm

Acho que somos muito acomodados com nossa vida, com o sentido que ela toma. Em um primeiro momento parece que é muito mais fácil deixar ela nos levar, e irmos aceitando tudo que surge, mas com certeza no futuro iremos nos arrepender por não termos sonhado mais, desejado mais, conquistado mais. Não podemos apenas cotemplar as estrelas enquanto seguimos nosso caminho, temos que nos transformar em uma delas para que não chegamos no final da jornada sabendo que o evento mais importante da vida será a nossa morte.

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callis October 10, 2007 at 9:06 pm

É verdade….. por vezes queremos construir certezas onde apenas temos inseguranças,mas esta é a forma como o ser humano tenta dar resposta a algo que lhe foi dado e com o qual nao sabe lidar… capacidade de ajudar,de ir um pouco mais além… mas por vezes a vida é tao complexa que um “até logo”, é na realidade um “adeus”

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