Na margem do rio Adour

by Paulo Coelho on November 21, 2007

“Quando tiro os óculos, ainda posso ver o caminho. Não posso ver os detalhes, mas posso ver o caminho”.Diz minha mulher, com miopia de + 6,5 graus, enquanto andamos por um campo de milho, nestas férias européias.

Digo que a mesma coisa acontece comigo: embora não seja míope, às vezes não posso ver os detalhes, mas sempre procuro manter os olhos fixos nas minhas escolhas.

Terminamos em um rio no meio de lugar nenhum, perto do vilarejo de Arcizac-Adour. E de repente, me lembro que fiz uma promessa, e ainda não cumpri. Neste rio estávamos os dois sentados, três anos atrás, quando vimos uma linda mulher, com botas impermeáveis até os joelhos, caminhando pelo seu leito com um saco nos ombros. Ao nos ver, se aproximou:

- Conheço Jacqueline (uma amiga). Pedi que ela nos apresentasse, e ela me respondeu: você irá encontrá-lo quando menos esperar. Meu nome é Isabelle Labaune.

Explicou que estava ali limpando o rio de eventuais detritos (garrafas de plástico e latas de cerveja, que eram carregadas pela correnteza), mas que sua verdadeira paixão eram os cavalos. Naquela tarde fomos visitar seu haras.

Isabelle tinha uns doze animais, e fazia tudo absolutamente sozinha – alimentá-los, manter o lugar limpo, arrumar os estábulos, consertar as telhas, enfim tudo aquilo que deixaria qualquer pessoa alucinada com tanto trabalho.

- Criei uma associação para as pessoas com problemas mentais de nascença. Tenho absoluta certeza que a equitação permite que elas sintam-se amadas, integradas na sociedade.

Sempre que vinha passar férias na região, encontrava-me com Isabelle. Chegavam alguns micro-ônibus com jovens com Síndrome de Down, que montavam nos magníficos cavalos, e passeavam pelos rios, florestas, e parques. Nunca houve um acidente sequer. Os pais ficavam com lágrimas nos olhos, e Isabelle com um sorriso nos lábios. Tinha um imenso orgulho do que fazia: acordava as cinco da manhã, trabalhava o dia inteiro, e ia dormir cedo, exausta.

Era uma mulher jovem e muito atraente. Mas não tinha namorado:

- Todo homem que aparece em minha vida quer que eu seja dona-de-casa. Mas eu tenho um sonho. Sofro por estar sozinha, mas sofreria mais se abandonasse o sentido da minha vida.

A situação mudou logo no início de 2006. Certa tarde, quando fui visitá-la, me disse que estava apaixonada. E que seu namorado aceitava seu ritmo de vida e estava disposto a ajudá-la no que fosse necessário.

Alguns dias depois fui viajar para o Brasil. Penso que em outubro recebi uma mensagem sua na secretária eletrônica do meu celular: gostaria de me ver – mas eu estava longe e não dei muita importância, porque nas cidades do interior nada se passa com muita urgência.

Quando retornei aos Pirineus, já em dezembro, fui almoçar com Jacqueline. Foi aí que soube que Isabelle havia morrido de um câncer fulminante.

Naquela noite, acendi uma fogueira no meu jardim. Fiquei sozinho, olhando as chamas, pensando em uma mulher que só havia feito o bem em sua vida, e que Deus havia levado tão cedo. Não chorei, mas senti um profundo amor no ar, como se ela estivesse presente em tudo à minha volta. No dia seguinte, recebi o telefonema do namorado, que me pediu que escrevesse alguma coisa sobre ela: havia partido, e ninguém jamais conhecera o seu trabalho.

Prometi que faria isso. Mas só hoje, quando passamos diante do mesmo rio, e nos sentamos no mesmo lugar, foi que me lembrei que tinha assumido o compromisso, e agora o estou cumprindo. Das muitas pessoas que conheci em minha vida, uma das mais próximas da santidade é Isabelle Labaune.

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Dan Porto December 31, 2010 at 12:38 am

Que história linda Paulo. Quantas pessoas vivem no anonimato, cumprindo sua missão e nisso, se tornam santas?
Paz à Isabelle.

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Mireilli December 30, 2010 at 8:04 pm

Muito linda esta passagem que teve com ela..
Importante homenageá-la, muitas pessoas especiais como ela merecem isto, mesmo não sendo conhecidas..
Sempre será lembrada..

Beijos..

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Eduinio Pessoa December 30, 2010 at 7:32 pm

Amigo,

O chamo assim pq ja me sinto intimo, pois leio à algum tempo suas obras e citações, gostaria de receber um conselho seu a respeito de como adquirir inspiração para por no papel tudo o que tenho no coraçao.

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@caschemir December 30, 2010 at 7:20 pm

Linda a história por ser verdadeira.

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Ana Carolina December 30, 2010 at 6:57 pm

Gente, que coisa linda!
Que mulher incrivel, e de pensar que nesse mundão
há tantas pessoas pr ai com o coraçã transbordando de amor
e compaixao com o seu próximo.

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edileusa everto February 3, 2008 at 6:47 pm

Qurido,Paulo venho diante destas poucas linhas para lhe pedir uma ajuda.há tres noites não durmo pensando em um amigo que me disse que não tenho Deus e que preciso aceitar a Deus pois só ele salva,emtão fico me perguntando se sou filho de Deus e não o tenho o que estou fazendo aqui?penço que Deus sempre esta comigo e bem verdade que peco mas peço perdão.o que ainda não tenho e uma religião.pra ter deus tenho que ter uma religião?sabe ele aceitou a cristo agora porque emtrou para uma religião.já tivemos um romance no ano passado durou pouco mas de minha parte ficou uma amizade pois sou casada,por esse fato ele acha que não tenho deus em mim.que ele agora esta renovado em cristo.

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magdo carvalho December 30, 2010 at 7:05 pm

Querido Sr. Paulo, as vezes nos deparamos com coisas desse tipo. Pessoas boas que ninguem jamais teve algo a falar,só procura fazer o bem a todos. trabalho no samu e vejo muitas senas que pai de familia é assaltado, leva um tiro de raspão e vem a falecer. enquanto os bandidos assaltantes levam dezenas de tiros e ainda resiste. is that God is fair with these people? has something in another past life, perhaps! Strong Hug

Mara Rodrigues December 21, 2007 at 11:43 pm

Minha avó é também uma guerreira… admiro-a muito, pois sempre lutou pelo que considera correcto.
Apesar disso, ela ainda continua a considerar que o máximo que uma mulher pode alcançar é a formação de nova familia. Não é absurdo de todo, mas por vezes acho que só isso me faria sentir incompleta.
Por isso também admiro pessoas como Isabelle… Bem no fundo, devo admitir que admiro todas as mulheres, por motivos diferentes, mas simplesmente por ser Mulher.
Obrigada
Mara

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Rita Gavlak December 3, 2007 at 9:41 pm

querido Paulo,

sou a mae das meninas brasileiras estudantes em milao que voce encontrou na tarde de autografos do dia 14 de março deste ano na galeria vitorio emmanuele, desde o inicio das suas publicaçoes aprendi sobre o caminho ,e a lenda pesoal, fiquei muito feliz por voces terem se encontrado , elas ja leram tambem quase todos os seus livros e a karol sempre dizia que nunca pederia um autografo para nimguem , a nao ser para voce ,elas se emocionaram muito ,e foram as primeiras da fila ,foi um presente porque neste dia ela fazia 20 anos. Obrigada Paulo por voce existir,Deus te ilumine sempre,
com carinho

Rita Gavlak

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Eliane Rodrigues December 3, 2007 at 12:21 am

Querido Paulo,

A história é fascinante;
uma mulher guerreira,batalhadora,simplesmente demais
Isabelle Laubaune,com certeza um anjo enviado por Deus
para cuidar de crianças,e foi se embora,Deus a levou pra si
porque sua missão foi completada aqui na terra.

Abraços!

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J.S.H. November 24, 2007 at 12:12 pm

Caro Paulo,
normalmente quando nasce uma criança com necessidades especiais, o médico ou a enfermeira ao informarem aos pais, o fazem da forma mais suave possível, com palavras tais como: “Deus os presentearam com um anjinho”.
Acho ótimo esta frase, mas o contrário, também será verdadeiro. Estará correto se disserem: “Deus presenteou esta criança com vocês; anjos que vão amá-la, educá-la e protegê-la durante sua vida”.
Isabelle Labaune era um ajo, encarregada de cuidar várias crianças. Deus a chamou mais cedo, para outras missões tão nobres como esta!

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Lucia Helena Monteiro Torres November 23, 2007 at 12:41 pm

Oi Paulo,
Esse seu texto bonito me fez lembrar de duas pessoas especiais em minha vida, duas mulheres: uma tia e outra madrinha, que encheram de momentos felizes não só a minha infância,mas também o caminho de inúmeras pessoas que cruzaram por suas existências.
Acho que me deixei levar pela ilusão de nossos dias e parei de manter contato com as mesmas.
Tive uma chance de ouro pq anos mais tarde( recentemente para ser mais precisa)ambas me chamaram, pediram que eu as visitasse, queriam falar comigo. Cada uma de sua casa, em pontos geográficos distantes,mas quase que no mesmo espaço de tempo. Tiveram a percepção antecipada da própria morte. Eu não fui. Me escondi sob o pretexto da preguiça,me deixei levar pela crença do depois. Desperdicei não só a chance de revê-las,joguei fora também a oportunidade de agradecer por tudo o que foram e fizeram. Ambas morreram pouco tempo depois.
Hoje, deixando de lado qualquer tristeza ou culpa pelos fatos mencionados,sinto que até posso protelar algumas coisas,mas percebo que cada oportunidade é única, que cada pessoa é insubstituível e que cada chamado deve ser prontamente respondido.Uma solicitação de amor não deve ser adiada. Um grande abraço, Lucia

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mariangela November 22, 2007 at 6:07 pm

Querido Paulo,
Só você poderia escrever algo belo para I.Labaune.
Me emocionei com a historia , desde a primeira vez que li na sua coluna do jornal o globo no mês passado.
Achei linda, a homenagem que vc. fez a ela, lembrando o trabalho dessa mulher maravilhosa, que dedicou parte de seu tempo doando amor e fazendo o bem.
As crianças com sindrome de dawn podem desenvolver-se e atingir um potêncial favorável com o trabalho de estimulação fisioterapeutico, porque essa anomalia apresenta uma diminuição do tônus muscular.
Cada criança é diferente da outra e só posso falar como mãe de uma.
A equoterapia favorece o desenvolvimento mental, motor e da fala. É o segundo tratamento mais importante para essas crianças.
Na equoterapia o cavalo envia informações sensoriais ao paciente incentivando o trabalho postural. O movimento do cavalo é tridimensional auxiliando diretamente nos músculos controlando a postura, músculos da laringe e da respiração. A criança é levada a acompanhar os movimentos do cavalo, tendo que manter o equilíbrio e coordenação do tronco, cabeça e restante do corpo.
O movimento tridimensional do cavalo incentiva um deslocamento do centro gravitacional do praticante desenvolvendo o equilíbrio, controle da postura, músculos e circulação sangüinea.
Ajudam a estimular a auto-estima, auto-confiança , fala/liguagem e estimulação tátil.
São crianças que precisam de exercícios constantes de concentração e percepção de espaço onde a dança, canto, judô, capoeira e a pintura tem colaboração em setenta por cento .
Mas em primeiro lugar para que essas crianças progridam, está na aceitação da família, dos pais, do ambiente em que vive. Ou seja, para as glórias dos diversos tratamentos em primeiro lugar : Amor.
Paulo você é especial !
Beijos,
Mari Raphael.

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