Edição nº 172 : Entre o céu e o inferno

by Paulo Coelho on May 14, 2008

O lugar dos pecadores

O rabino Wolf entrou por acaso em um bar; algumas pessoas bebiam, outras jogavam cartas, e o ambiente parecia carregado.

O rabino saiu sem comentar nada; um jovem veio atrás dele.

- Sei que não gostou do que viu – disse o rapaz. – Ali só vivem os pecadores.

- Gostei do que vi – disse Wolf. – São homens que estão aprendendo a perder tudo. Quando tiverem mais nada de material neste mundo, só lhes sobrará voltar-se para Deus. E, a partir deste momento, que servos excelentes serão!

Buda e o demônio

O demônio disse para Buda:

- Ser o diabo não é fácil. Quando falo, tenho que usar enigmas, para que as pessoas não percebam a tentação. Sempre preciso parecer esperto e inteligente, para que me admirem. Gasto muita energia para convencer uns poucos discípulos que o inferno é mais interessante. Estou velho, quero passar meus alunos para você.

Buda sabia que aquilo era uma armadilha: se aceitasse a proposta, ele se transformaria em demônio, e o demônio viraria Buda.

- Você acha que é divertido ser Buda – respondeu. Além de ter que fazer as mesmas coisas que você faz, ainda preciso agüentar o que meus discípulos fazem comigo! Colocam em meus lábios palavras que não disse, cobram por meus ensinamentos, e exigem que eu seja sábio o tempo todo! Você jamais agüentaria uma vida como esta!

O diabo ficou convencido de que trocar de papel era realmente um mau negócio, e Buda escapou à tentação.

O céu e o inferno

Um samurai violento, com fama de provocar briga sem motivo, chegou às portas do mosteiro zen e pediu para falar com o mestre.

Sem titubear, Ryokan foi ao seu encontro.

- Dizem que a inteligência é mais poderosa que a força – comentou o samurai. – Será que o senhor consegue me explicar o que é céu e inferno?

Riokan ficou calado.

- Viu? – bradou o samurai. – Eu conseguiria explicar isso com muita facilidade: para mostrar o que é inferno, basta dar uma surra em alguém. Para mostrar o que é céu, basta deixar uma pessoa fugir, depois de ameaçá-la muito.

- Não discuto com gente estúpida como você – comentou o mestre zen.

O sangue do samurai subiu a cabeça. Sua mente ficou turva de ódio.

- Isto é inferno – disse Ryokan, sorrindo. – Deixar-se provocar por bobagens.

O guerreiro ficou desconcertado com a coragem do monge, e relaxou.

- Isso é o céu – terminou Ryokan, convidando-o para entrar. – Não aceitar provocações bobas.

O sacrifício e a benção

Um homem fez a promessa de carregar uma cruz até o alto de um monte, se tivesse certo desejo atendido.

Deus concedeu o que pedia.

Ele mandou fazer a cruz, e começou a caminhada. Depois de vários dias, achou que a cruz pesava mais do que supunha – e, com um serrote emprestado, cortou boa parte da madeira. Ao chegar no alto do monte, notou que – separada por uma fenda na terra – havia outra montanha.

Nela, tudo era paz e tranqüilidade; mas precisava de uma ponte para chegar até lá.

Tentou usar a cruz – mas era curta para isto.

E então reparou: o pedaço que havia cortado era exatamente o que estava faltando para que pudesse cruzar aquele abismo.

Outra história sobre a cruz

Num certo vilarejo da Umbria (Itália), havia um homem que se lamentava de sua sorte. Era cristão, e achava o peso de sua cruz muito difícil de ser carregado.

Certa noite, antes de dormir, rezou para que Deus permitisse trocar seu fardo.

Nesta noite teve um sonho; o Senhor lhe conduzia para um depósito. “Pode trocar”, dizia. O homem viu cruzes de todos os tamanhos e pesos, com nomes dos seus donos. Escolheu uma cruz média – mas, vendo o nome de um amigo gravado, deixou-a de lado.

Finalmente, como Deus havia permitido, escolheu a menor cruz que encontrou.

Para sua surpresa, viu gravado nela o seu próprio nome.

O guru de Mysore

Existia em Mysore, na Índia, um famoso guru. Conseguiu reunir um bom número de seguidores, e espalhou com generosidade sua sabedoria.

Na meia-idade, contraiu malária. Mas continuava a cumprir religiosamente seu ritual: banhar-se de manhã, dar aulas ao meio-dia, e orar durante à tarde, no templo.

Quando a febre e os tremores o impediam de concentrar-se, ele tirava a parte de cima de sua roupa e a atirava num canto. Seu poder era tão grande que a roupa continuava tremendo – enquanto o homem, livre das contrações, podia fazer suas preces com calma.
No final, voltava a vestir a roupa, e os sintomas retornavam.

“Por que você não abandona de vez esta roupa, e se livra da doença?”, perguntou um jornalista, ao ver o milagre.

“Já é uma benção poder fazer com tranqüilidade aquilo que devo fazer”, respondeu o homem. “O resto faz parte da vida; seria uma covardia não aceitar”.

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{ 4 comments… read them below or add one }

Steve Kaufmann May 20, 2008 at 6:32 am

Eu nao falo Portugues muito bem, mas he leido A Bruxa de Portobello.Acho que sus livros e su lenguajem podem incitar mais gente a aprender a lingua portuguesa. Gosta muito escutar audio livros. Ainda mais gostaria entender a voz de Paulo Coelho. Quero saber se un dia voce podria gravar su voz y fazer podcasts. A posibilidade de ler y escutar al mesmo tempo seria fantastico par a aprendizagem da lingua. Obrigado.

Steve
Vancouver, Canada

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renato May 20, 2008 at 4:50 am

Queria ter a oportunidade de conversa alguns instantes com vc ja que nao consigo viajar nos sonhos e encontra-lo para termos uma boua conversa.
Desejo que seu entendimento nunca se perca!

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Vanuza Pantaleão May 16, 2008 at 9:22 pm

Quanto ensinamento ao nosso alcance! Será que um dia vão valorizar esse Homem de ALMA NOBRE que se chama PAULO COELHO? Mas, acredito que você, meu Amigo, não espera esse tipo de recompensa.Aliás, tenho certeza! DEUS, apenas ELE, conhece e premia àqueles que buscam o seu próprio caminho. Eternos buscadores, é o que somos, no final das contas.Grande abraço, Vanuza

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Rafael May 15, 2008 at 4:07 am

Certa noite deitei na cama junto a pensamentos, que me faziam acreditar que eu poderia ser um dia aquilo que sempre quis, que me dá prazer. Mas eram apenas imagens e não podia tocá-las, meu corpo só as obedecia em cegos passos e movimentos se eu desse mais imaginação.

A medida que exercitava a criação em meio a esse transe, os caminhos a minha frente se alongavam, não conseguia enxergar os que estavam a minha volta. Havia muitas pessoas rindo, falando, mas não as escutava. Como um discípulo que se volta a seu mestre, precisa vencer essa tentação.

Quando respirei fundo e voltei a si, vi que meus dedos tocavam os móveis, o teclado do computador, escrevi, criei, senti o que fazia, ouvia o barulho das teclas, foi então que percebi que sou uma arma forte contra as magens de minhas tentações.

É sempre uma prazer e um aprendizado ler seus textos, eu escrevo para me aproximar de você e de todos aqueles que sintonizam autor, caneta, palavra e texto. Um grande abraço!

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