Edição nº 192 – A segunda chance

by Paulo Coelho on February 18, 2009

As Sibilas, feiticeiras capazes de prever o futuro, viviam na antiga Roma. Um belo dia, uma delas apareceu no palácio do imperador Tibério com nove livros; disse que ali estava o futuro do Império, e pediu dez talentos de ouro pelos textos. Tibério achou caríssimo e não quis comprar.

A sibila saiu, queimou três livros, e voltou com os seis restantes. “São dez talentos de ouro”, disse. Tibério riu, e mandou-a embora; como tinha coragem de vender seis livros pelo mesmo preço de nove?

A sibila queimou mais três livros e voltou para Tibério com os únicos três volumes que restavam: ” custam os mesmos dez talentos de ouro”. Intrigado, Tibério terminou comprando os três volumes, e só pode ler uma pequena parte do futuro.

Estava contando esta história para Monica, minha agente e amiga, enquanto viajávamos de carro para Portugal. Quando terminei, me dei conta que estávamos passando por Ciudad Rodrigo, na fronteira com a Espanha. Ali, quatro anos antes, um livro me havia sido oferecido, e eu não comprei.

Na primeira viagem de divulgação de meus livros na Europa, resolvera almoçar naquela cidade. Depois, fui visitar a catedral, e encontrei um padre. “Veja como o sol da tarde faz tudo mais bonito aqui den­tro”, disse ele. Gostei do comentário, conversamos um pouco, e ele me guiou pelos altares, claustros, jardins interiores do templo. No final, ofereceu-me um livro que havia escrito sobre a igreja; mas eu não quis comprar. Quando saí, senti-me culpado; sou escritor, e estava na Europa tentando vender meu trabalho – por que não comprar o livro do padre, por solidariedade? Mas esqueci o episódio, até aquele momento.

Parei o carro; não fora por acaso que eu me lembrara da história dos livros sibilinos. Nos encaminhamos para a praça em frente à igreja, onde uma mulher olhava o céu.

- Boa tarde. – Vim aqui encontrar um padre que escreveu um livro sobre esta igreja.

- O padre, que se chamava Stanislau, morreu faz um ano – respondeu ela.

Senti uma imensa tristeza. Por que eu não tinha dado ao padre Stanislau a mesma alegria que eu sentia quando via alguém com um dos meus livros?

- Foi um dos homens mais bondosos que conheci – continuou a mulher.- Vinha de uma família humilde, mas chegou a tornar-se um espe­cialista em arqueologia; ajudou a conseguir para meu filho uma bolsa no colégio.

Contei a ela o que fazia ali.

- Não se culpe à toa, meu filho – disse. –Vá visitar de novo a catedral.

Achei que era um sinal, e fiz o que ela mandava. Havia apenas um padre num confessio­nário, esperando os fiéis que não vinham. Pediu que me ajoelhasse, mas disse que estava ali apenas comprar um livro sobre esta igreja, escrito por um homem chamado Stanislau.

Os olhos do padre brilharam. Ele saiu do confessionário e voltou minutos depois com um exemplar.

- Que alegria você ter vindo só por isso! – disse. – Sou irmão do padre Stanislau, e isto me enche de orgulho! Ele deve estar no céu, contente por ver que seu tra­balho tem importância!

Paguei o livro, agradeci, ele me abraçou. Quando eu já ia saindo, escutei sua voz.

- Veja como o sol da tarde faz tudo mais bonito aqui dentro! – disse.

Eram as mesmas palavras que o padre Stanislau me dis­sera quatro anos antes. Sempre há uma segunda chance na vida.

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Mariazinha April 28, 2011 at 12:56 pm

Amém.
Tão bom ler o q vc escreve, obrigada.

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May Aguamar September 15, 2009 at 4:57 am

Nossa…. muito boa historia e que bom que você acha comprado o livro… tomara que tudos tivesemos as mesmas chansas na vida… como pra dizer te quero as pesoas que já nao estao conosco neste mundo… cumprimentos

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Maria Cardoso August 28, 2009 at 6:01 pm

Ciudad Rodrigo, que boas recordaçoes me chegam á memória. As suas ruas estreitas, as portas com vasos de flores, o silêncio de mel devido ao sol escaldante, a simpatia das pessoas, a simplicidade.
A história que se sente no ar, através das suas muralhas, as pedras quantes, o sumo de uma laranja a escorrer pelo pescoço, o amor…
Andei naquelas calçadas sentindo que aquele lugar queria dizer-me algo. È bom lembrar, vou lá voltar. Talvez encontre lembranças suas.
Um grande e fraterno abraço.

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julio April 8, 2009 at 1:04 pm

Bom dia Paulo!
sempre gostei muito dos seus contos e aprendi muito com isso
e o que me trouxe aqui foi justamente um desses contos, conto este
que não me recordo bem e gostaria de tê-lo em meus arquivos. Ele é conta a história de um sábio que se controlaria diante de um pote de ouro, diante de uma mulher…
desde já agradeço

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Marcilio Bezerra Cruz February 21, 2009 at 11:25 am

bom dia paulo!!
nossa, lendo essa sua historia, lembrei-me o que aconteçeu comingo recentemente, foi algo parecido.
estava eu, andando pela rua quando vi uma garota, sentada na calçada,
brincando com uma buneca velha, senti um imenso aperto no coração, mais não tinha dinheiro nem tinha nada que pude-se ajuda-la.
seguir em frente, e ela não saia da minha cabeça, começei a rezar para que o destino desse uma segunda chance a ela;
No onibus que eu estava achei uma nota de 50$, achei que fosse um sinal, voltei, e quando fui entregar aquela nota a menina, ela não estava mais la, procurei tudo, perguntei as pessoas ao redor, e nada…

hoje em dia, eu penso que Deus podia estar min testando naquele instante…

Paulo Coelho, sou muitoo fã seu, tenho quase todos os livros, recentemente, mandei um e-mail no seu site, para receber um cartão seu para colocar junto aos meus livros. espero que chegue!!

obrigado, com isso pude desabafar esse episodio com alguem!!
:D

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