Edição nº 198 – E o que faço, afinal?

by Paulo Coelho on May 13, 2009

Muitos leitores às vezes se queixam de que falo pouco de minha vida pessoal nesta coluna. Falo muito – principalmente de minhas indagações no mundo imaginário. Eles insistem: “mas como é sua vida?” Pois bem: durante uma semana saí com um caderno e anotei mais ou menos o que acontece em sete dias:

Domingo: 1] dirijo em silêncio os 540 kms de Paris a Genebra. Seis horas e nenhuma conclusão importante, nenhuma revelação extraordinária. Como adoro meu trabalho, me impus jamais pensar no tema aos domingos, de modo que procuro me controlar.

2] Posto de gasolina: vejo uma coleção interessantíssima de maquetes de metal. Penso em comprar tudo, mas imagino que mais adiante terei excesso de bagagem, e muitas podem quebrar na viagem. Usarei a internet para isso.

3] Banho. Cochilo. Jantar com uma amiga. Ela me conta que o homem no qual está interessada quer apenas fazer amor, nada mais. Não sei o que responder.

Segunda-feira: 1] o despertador toca as 10:15, e como Plano B (os nascidos em Virgem sempre tem um Plano B) a telefonista do hotel também chama o quarto. Estou aqui na condição de membro da diretoria de uma respeitada fundação, e hesito em usar ou não as botas de cowboy trabalhadas em vermelho, branco, e negro. Decido que irei com elas – aos artistas certas coisas são toleradas.

2] Rápido café-da-manhã com um amigo que trabalha em banco. Pergunto o que pensa da crise atual – e me dá uma série de respostas nas quais nem ele mesmo acredita. Mostro o jornal do dia: uma conferência de banqueiros, para contornar a crise. Um deles afirma que não conhecem direito os “produtos financeiros” que estão vendendo. Ótimo que tenho meu dinheiro na poupança: os nascidos em Virgem não correm riscos nesta área.

3] Almoço com a diretoria. Pergunto o que acham da situação na Geórgia. Ninguém quer falar do assunto, mas adoraram minhas botas de cowboy.

4] A reunião é ótima, sem stress. Aprendo muito. No final, ao entrar no carro, esqueço os documentos no teto.

5] quando saio, os documentos caem no meio da rua. Fico meia-hora juntando tudo, com carros buzinando e me insultando. Um membro da diretoria passa, pára mais adiante, pergunta se quero ajuda. Digo que não, basta um arriscando a vida por razão tão estúpida.

6] Hoje posso telefonar usando o sistema “mãos livres”, enquanto dirijo. Peço que Mônica, minha agente, cancele Praga e Berlim (cada vez que viajo, sinto menos vontade de viajar). Ela diz que precisamos nos encontrar antes da Feira de Frankfurt para “acertar uns detalhes”. Paris ou Barcelona? Paris, ela decide. Chamo Paula, minha assistente, para perguntar por que o meu blog teve poucos comentários ontem – ela explica que mudaram a configuração, e acaba de aprovar cem comentários.

7] Chego em Paris às onze horas da noite. Esperava ter uma montanha de coisas me esperando, mas ali estão apenas dois pacotes de livros para autografar, e umas poucas cartas. Mas eu viajei! Estive em outro país! Me dou conta que viajei um pouco mais de 24 horas.

8] Jantar. Deixo o computador ligado, para baixar “American History X”. Vou dormir em torno de duas da manhã, depois de ler algumas páginas de “Meu ano como membro do Islã radical”, de Daveed Gartstenstein-Ross. O livro é ótimo, mas não consigo avançar muito.

Terça-feira: 1] As 10:00 hs, café com leite, suco de laranja, pão com azeite – é sempre a mesma coisa, mesmo quando estou em hotéis, o que acontece a maior parte do ano. Três comprimidos de Echinacea, uma erva que dizem fortalecer o organismo contra gripes, e que tem se mostrado fiel à sua reputação (mesmo que não haja base científica para isso).

2] Internet: Leitura de e-mails de leitores. Leitura de e-mails de trabalho (meu escritório filtra os mais relevantes), ler os clippings, visitar um portal no Brasil e outro nos Estados Unidos para ler as notícias do dia. Vejo que os assuntos são mais ou menos os de sempre: permissão para citar algum trecho meu em livros (sempre dada), convites para conferências (sempre recusados). Hoje tenho uma entrevista para um jornal na Finlândia, que irá publicar estas colunas. Fico uma hora diante do computador.

3] Caminhar uma hora sem parar – esteja onde estiver, raramente deixo de fazer isso. Hoje convidei minha assistente para me acompanhar; acaba de voltar de férias no Brasil, e deve se casar em Outubro. Conversamos sobre as férias.

4] de volta ao computador. Atualizando o blog, lendo uma entrevista que o ator estúpido David Thewlis, que diz que seu papel em “Veronika decide morrer” (que estréia ano que vem) foi “só mais duas semanas de trabalho”.Fico irritado. Leio o resto da entrevista e vejo que reclama de tudo que fez na vida. A irritação vai embora.

5] Tiro com arco. Banho. Computador de novo. Peço que chequem mais uma vez se não há problema com o vôo de domingo para o Brasil. Em princípio, não há.

6] Esqueci de anotar onde jantei. Assisto “Bem-vindo a Sarajevo”. Leio, de cabo a rabo, o Herald Tribune. Tento pegar o “Meu ano no Islã radical”, mas não passo de poucas páginas.

Quarta-feira: 1] o mesmo que 1, 2, 3 acima, exceto que desta vez minha companheira de caminhada se chama Maarit, uma leitora que encontrei na comunidade social Myspace. Ela está estudando para ser freira. Conversamos muito sobre a situação da Igreja Católica, e prometemos que vamos manter o contato.

2] Mônica chega. Conversamos de 15:00 hs até as duas da manhã do dia seguinte, discutindo o programa de lançamento do novo livro, o que devo dizer em Frankfurt, e onde será a festa de aniversário dela (faz 40 anos em novembro). Sugiro que seja em sua casa em Barcelona, mas ela diz que colocaram um andaime e não dá para ver a vista da cidade. Respondo que de noite todas as vistas de cidade são iguais – um monte de luzes piscando. Mesmo assim ela não se convence. Diz que eu preciso dar mais entrevistas. Passamos todo este tempo trancados no apartamento, já que Mônica simplesmente odeia andar. Chris preparou o jantar e já foi dormir há muito tempo.

3] As 2:15 da manhã eu digo que estou cansado, quero dormir, mas ela parece tão brejeira como se tivesse acordado naquele momento; e foi ela quem viveu hoje a experiência na câmara de torturas que conhecemos sob o nome de “aeroporto.”

4] Consigo convencê-la a dormir as 2:30 da manhã. Ainda com uma série de assuntos pendentes. Hoje nada de Herald Tribune, ou “Meu ano no Islã radical”.

Quinta-feira: 1] Café da manhã com Mônica, minha agente e amiga, que passou menos de um dia em Paris, e gastou 10 horas conversando comigo (no mesmo lugar, pois detesta andar, apesar do lindo dia de outono). Ela parte para Barcelona, e eu vou para o computador verificar os e-mails, os pedidos de autorização, os convites (tudo já devidamente filtrado pelo escritório). Leitura de e-mails de leitores.

2] a bobagem do dia fica por conta de Frei Betto, um religioso brasileiro, que até minutos antes eu considerava meu amigo, mas que é autor de uma coluna publicada em um jornal do interior, onde me ataca gratuitamente – melhor dizendo, ataca tudo que signifique “cultura popular”. Com a internet, sabemos tudo. Mando um e-mail para ele cortando qualquer laço de amizade. Por precaução, mando cópias para todos os amigos comuns que temos, de modo a ter certeza que chegará em suas mãos.

3] Juliette chega para pegar emprestado um sistema de som que ganhei enquanto estava em St. Moritz, na Suíça. É para a festa surpresa de seu marido, que comemora 40 anos (parece que todo mundo ao meu redor está comemorando 40 anos). O sistema de som parece uma torradeira elétrica, mas na verdade emite impulsos digitais, o que permite que a música seja ouvida com a mesma intensidade e altura em uma sala para 200 pessoas. Nunca usei, mas pelo menos está ajudando uma amiga.

4] Caminhar uma hora, como sempre. Tiro com arco, como sempre. Escrever minha coluna semanal (que estão lendo agora).

5] Jantar com Chris em um restaurante japonês. Peço o mesmo prato. Não sei porque, sempre que vou a um restaurante novo e gosto do que comi, termino repetindo. Falta de imaginação, eu acho.

Sexta-feira: 1] café da manhã, computador, caminhada. Atualização do blog diário.

2] Pego meu jornal e vou passar o dia no Champ de Mars, perto de meu apartamento em Paris. Fico olhando as pessoas se preparando para o inverno: a maior parte está tirando fotos da Torre Eifell ou falando no celular. Passo diante de um museu (Museu Branly), vejo que não tem fila e decido entrar. Exposição de arte indígena de vários continentes do mundo – começo a imaginar que há alguma coisa de errado com nossa civilização, já que estas tribos e pessoas são capazes de fazer trabalhos muito mais interessantes e contundentes que o que vemos hoje no terreno das artes plásticas. Mas não adianta reclamar nem escrever a respeito – existem teses e mais teses sobre os “conceitos artísticos” contemporâneos, que incluem uma vaca embebida em formol (vendida por 30 milhões de dólares) e duas paredes de ferro oxidado (preço em torno de 5 milhões de dólares). Acho que Frei Betto, em sua nova encarnação como intelectual de vanguarda, deve ter também uma tese defendendo isso.

3] Volto para casa, as malas estão prontas, o chofer espera, o carro se dirige para o aeroporto Charles de Gaulle. O vôo está marcado para as 22:15, mas a atual câmara de tortura (conhecida como “aeroporto”) exige que estejamos lá uma eternidade antes.

4] Decolagem as 23:50 (uma hora de atraso). Passarei uns vinte dias no Brasil antes de ir para Frankfurt. Mas como sempre, não irei a nenhum restaurante da moda, o que significa que em breve estarei escutando a mesma pergunta: “quando é que você vem à sua terra?”

Pelo que entendo, quem não vai a restaurante da moda não existe.

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Maria Cardoso August 28, 2009 at 5:52 pm

Uf… Paulo e eu pensava que vivia numa roda viva!

Um abraço

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Rosana Thereza Christina Massimiani Brito. June 29, 2009 at 7:07 pm

AMEI,AMEI,MESMO, saber algo mais sobre o que faz quando esta as voltas pela Europa, AH!! os Cafes a tarde de Paris!! minhas telas a beira do Sena, quantas, saudades, as flores nas janelas,colorindo,aquela parte do mundo ,que tenho certeza em outra encarnação eu vivia por la, entre europa oriente etc, sou apaixonada por tudo aquilo.Mas Paulo,me escreva, me diz, o que David Thewlis,disse sobre Veronika decide morrer??? eu vivi isso na pele, como ja lhe disse anteriormente,amo essa historia ,amo tudo o que vc escreve, e inadimissivel,alguem,criticar,dessa forma,algo que talvez nao tenha sequer entendido a profundidade, mas todos tem o direito a critica, quanto ao padre existem alguns que so servem mesmo para rezaar a missa, sequer tem o dom para um sermao.que fique entre nos!! kkkkkkk
AH!! aeroporto Chales de Gaulle,certa vez trombei com a Silvia Popovic, ela estava indo com o marido para a ilha de caras, foi comico,imagine eu com 1,65 ela com todo aquele tamanho,quase me faz virar pastel, eu estava super nervosa, por que a segurança,exigiu que eu abrisse minha necessaire, eu nao pressa, para nao perder o voo,em retorno ao Brazil,deu uma que nao entendikkkkkkkkkk
tudo bem, pegaram-se carinhosamente pelo braço, Madame s’il vous plaît ouvre necessarie, délicatement, ni croire, mais de si fossse dans une autre paiz, avec certitude serait detida kkkkkkk juro que nao me lembrava da maldita senha,eu simplesmente joguei a pobre necessarie que eu havia ganho da minha cunhada no japao,comecei a chutar, ate que a infeliz abriu, porem la se foram todos meus lancomes,etcccccc. quando viram que nada havia de tao assassinokkkkk
me solicitaram desculpas, e fui liberada, foi quando sai correndo e trombei com a Silvia, eu nao sabia,a principio que se tratava dela,
ao vivo e super diferente ,entao falei am sorry pelase, gomenasai,kkk
entre outros palavroes,apos 12 hs, consegui chegar no meu paiz amado e venerado Brazile, eu amo contar minhas historias,e sao muitas, porem adorei, ler algo sobre sua pessoa, que ate entao para mim era um pouco desconhecido, e isso ai, viva, curta,cada momento como se fosse o seu ultimo, e delete do chip da sua memoria, os que nao lhe fazem bem,ok
beijos
ro
tatuape-sp

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mariza taciano leite June 24, 2009 at 12:38 pm

Realmente vc tem uma vida gostosa, dou glória a Deus por isto, abraços.

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Andréia Araujo May 25, 2009 at 9:28 pm

Como é facil sentir a simplicidade da vida lendo o que escreve o maravilhoso Paulo Coelho!
Como é facil sentir a alegria que transborda de seu coração!
Adoro tudo que escreve, sou encantada por suas palavras, e você torna os meus dias muito mais felizes.
Espero também estar andando por ai, numa leve caminhada matinal, ou em qualquer outro lugar, até o aeroporto serve…rs, e encontrar a sua pessoa… isso com certeza me causará espanto e muita, mas muita alegria.
Te adoro Paulo Coelho!
E obrigada por existir.

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Paloma Cândido May 19, 2009 at 2:23 pm

Talvez, o que gostariamos de ouvir é: -hoje mentalizei a paz no mundo, subi uma montanha sagrada, escrevi dois livros altamente interessantes, tive sonhos loucos, conheci uma bruxa linda que conhece o verdadeiro sentido da vida…..rsrsrsrsr, idealizamos vc irreal, esquecemos que vc sente dor , que toma vitaminas pra não ficar gripado, que caminha todos os dias (como muita gente comum), que vai aos restaurantes que gosta, que faz coisas triviais, quando todo mundo te imagina intocavel….acho que gosto de imaginar meus heróis intocaveis também!!

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Pedro May 17, 2009 at 3:43 am

É, vai, realmente cruzar com você na rua seria algo difícil!
Mas que a impressão de proximidade e de real que você passa é muito grande! Dá a impressão de que, numa leve caminhada matinal, ou na fila da padaria poderemos assim, corriqueiramente, dar-te bom dia como qualquer outro dia…

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Mary May 14, 2009 at 6:19 pm

Não querendo dar palpites mais pela sua idade e tudo mais…vc pode fazer o que quizer, todas as coisas loucas ou simples da vida…se ja não o fez bastante…rsrs sua vida lembra a rotina de muitos (não a mesma é claro).É verdade que muitos esperam saber de vc, compartilhar de sua vida e vice versa,isso porque vc é simbolo de força e inspiração´pra sei lá o que…nao sei se vc queria isso mas está ai!! Nós leitores sempre esperando algo de ti…
Engraçado ler esta coluna hoje…no momento estou ouvindo Meu Mundo Caiu ( Maysa) me perguntando o que fazer…Agora sei que eu não sou a unica no mundo…e nessas ocasiões opino por fazer uma das unicas coisas que me alivia de uns certos fardos e tristezas que é compartilhar alguma ou outra besteira que provavelmente poucos entendam…
A verdade é que vc é um Ser humano maravilhoso e muito amado!! O escritor que vai ficar na história !!!! e na vida de muitos!!
Beijo Paulo Coelho…Quem sabe um dia eu te encontro nesta terrinha amada e louca que é o brasil e levo um baita susto!! …e depois vem a alegria é claro…rsrs

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Mari Raphael May 13, 2009 at 6:01 pm

Eu já havia lido essa coluna que estava em inglês. Acho que foi o ano retrasado. Com a tradução pessoal, em portugues, é bem melhor.
Pena não ter encontrado com vc. na época que esteve aqui.
No final da coluna, sobre restaurante da moda, acho uma grande besteira. Acho que o bom é estar com quem a gente está afim no lugar que nos faz bem, seja qual for.
Espero que tenha renovado parte de suas energias quando esteve por aqui na sua terra e VOLTE SEMPRE, PORQUE AMAMOS VOCÊ.
beijos,
Mari

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