O Bom Combate

by Paulo Coelho on January 3, 2010

Em 1986, fiz pela primeira e única vez a peregrinação conhecida como Caminho de Santiago, experiência que descrevo em meu primeiro livro. Tínhamos acabado de subir uma pequena elevação e meu guia, a quem chamo de Petrus (embora não seja esse o seu nome), me disse:

– O homem nunca pode parar de sonhar; o sonho é o alimento da alma, como a comida é o alimento do corpo. Muitas vezes, em nossa existência, vemos nossos sonhos desfeitos e nossos desejos frustrados, mas é preciso continuar sonhando, senão nossa alma morre. Muito sangue já rolou no campo diante dos seus olhos, e aí foram travadas algumas das batalhas mais cruéis da Reconquista. Quem estava com a razão, ou com a verdade, não tem importância: o importante é saber que ambos os lados estavam combatendo o Bom Combate.

“O Bom Combate é aquele que é travado em nome de nossos sonhos. Quando eles explodem em nós com todo o seu vigor – na juventude – nós temos muita coragem, mas ainda não aprendemos a lutar.

“Depois de muito esforço, terminamos aprendendo a lutar, e então já não temos a mesma coragem para combater. Por causa disto, nos voltamos contra nós e combatemos a nós mesmos, e passamos a ser nosso pior inimigo. Dizemos que nossos sonhos eram infantis, difíceis de realizar, ou fruto de nosso desconhecimento das realidades da vida. Matamos nossos sonhos porque temos medo de combater o Bom Combate.

” O primeiro sintoma de que estamos matando nossos sonhos é a falta de tempo. As pessoas mais ocupadas que conheci na minha vida sempre tinham tempo para tudo. As que nada faziam estavam sempre cansadas, não davam conta do pouco trabalho que precisavam realizar, e se queixavam de que o dia era curto demais: na verdade, elas tinham medo de combater o Bom Combate.

“O segundo sintoma da morte de nossos sonhos são nossas certezas. Porque não queremos aceitar a vida como uma grande aventura a ser vivida, passamos a nos julgar sábios, justos e corretos no pouco que pedimos da existência. Olhamos para além das muralhas do nosso dia-dia, ouvimos o ruído de lanças que se quebram, o cheiro de suor e de pólvora, as grandes quedas e os olhares sedentos de conquista dos guerreiros. Mas nunca percebemos a alegria, a imensa Alegria que está no coração de quem está lutando, porque para estes não importa nem a vitória nem a derrota, importa apenas combater o Bom Combate.

“Finalmente, o terceiro sintoma da morte de nossos sonhos é a Paz. A vida passa a ser uma tarde de Domingo, sem nos pedir grandes coisas, e sem exigir mais do que queremos dar. Achamos então que estamos maduros, deixamos de lado as fantasias da infância, e conseguimos nossa realização pessoal e profissional. Mas na verdade, no íntimo de nosso coração, sabemos que o que aconteceu foi que renunciamos à luta por nossos sonhos, a combater o Bom Combate.

” Quando renunciamos aos nossos sonhos e encontramos a paz, temos um pequeno período de tranqüilidade. Mas os sonhos mortos começam a apodrecer dentro de nós, e infestar todo o ambiente em que vivemos.

“Começamos a nos tornar cruéis com aqueles que nos cercam, e finalmente passamos a dirigir esta crueldade contra nós mesmos. Surgem as doenças e as psicoses. O que queríamos evitar no combate – a decepção e a derrota – passa a ser o único legado de nossa covardia. E um belo dia, os sonhos mortos e apodrecidos tornam o ar difícil de respirar e passamos a desejar a morte, que nos livra de nossas certezas, de nossas ocupações, e daquela terrível paz das tardes de domingo.”

do livro “O Diario de um Mago” (1987)
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marta pinheiro September 2, 2011 at 3:44 pm

e depois decidimos morrer…

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Valeria Garcia Bastos April 16, 2011 at 3:08 pm

Admiro , contemplo suas idéias como aspirante a poeta inspira-me a ser cada vez mais fiel aos meus pensamentos e sentimentos, sem medo de chegar ao mais fundo da alma.

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nydia soto January 16, 2010 at 5:57 pm

PAULO AMIGO, ME GOZO CON TUS LIBROS, ERES LO MAXIMO, GRACIAS PORQUE ESTAS AHY, PORQUE TUS REFLECIONES ME AYUDAN A CONTINUAR LA RUTA. NYDIA SOTO

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nydia soto January 16, 2010 at 5:55 pm

paulo ere lo maximo, me gozo con tus libros, mi preferido “en el rio piedras me sente y llore”. te felicito,adelante amigo. nydia

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Sônia Vianna Landeo January 4, 2010 at 6:32 pm

Já vivenciei essa paz, renunciando a tudo e a todos, e me convencendo ser por amor eu morri por dentro e literalmente meu corpo caiu! E caminhando em direção a uma luz violeta de tão branca, sim, isso mesmo! Então eu ouvia alguém me dizendo sobre duas coisas importantes a fazer, meu pequeno menino e um livro a terminar. A paz que eu senti ao ver essa luz e ouvir essa voz era tamanha, que então descobri que a paz que eu andava sentindo era falsa. Ao acordar desse incidente, então voltei ao caminho dos sonhos. E muitos outros sonhos foram surgindo e então o livro, era minha própria vida que eu precisava escrever; escolher e vivenciar, experimentar a cada escolha e assim escrever mais e mais capítulos da minha história. Estamos assim escrevendo a novela de Deus, cada personagem cuidando de si, cada ser humano escrevendo e vivendo o seu ser. Então, decidimos em sermos ou não, figurantes ou os guerreiros da luz! Adivinhe o que eu escolhi viver?…

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Cristhian January 4, 2010 at 3:12 pm

Muito interessante o texto, Sr. Paulo, nunca imaginaria que o Bom Combatente seria, os obstáculos de realização e os próprios sonhos em si.

Penso que por usar a palavra sonho, o texto fica esteticamente romântico, preferiria a palavra objetivos, essa sim conota a grandeza que a alma precisa para se livrar da escuridão da inércia e ignorância, que a maioria dos homens médios se encontram.

Uma coisa muito lucida e verdadeira foi, tratar as resoluções e lutas com o Bom Combatente, como uma aventura a ser especialmente vivida, pela inexperiência do jovem ou pela ousadia do velho, o que vale a pena mesmo é lutar (me encanta muito tudo isso), como dizem alguns sábios, o que importa é a viajem, o destino é o só um fim.

Parabéns Sr. Paulo, muito lindo o texto.

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Maria Arroyo January 4, 2010 at 1:53 am

Bellisimas palabras inspiradoras y alentadoras a la misma vez.El 2009 un año de dificiles decisiones pero valieron la pena y el 2010 con mas entusiasmo que nunca, decidida a ganar mi mejor batalla y la ganare porque soy bien optimista y sobre todo bien perseverante.

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Clara January 4, 2010 at 2:11 am

Perseverança,indulgencia e amor fazem parte do Bom Combate.
Parar de sonhae é para de viver.Os sonhos não podem morrer.

Cynthia January 4, 2010 at 12:13 am

Um bom escritor é como um deus: ele pode transformar qualquer situação para seu objetivo. Parabéns ao trabalho, muito bem feito, entretanto não concordo e nem gostei da a comparação. Realmente ouve batalhas sangrentas, algo que considero uma deshonra a humanidade. Sonhos não estão na mesma categoria, pelo menos os meus.

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erick Avila January 3, 2010 at 10:53 pm

eh leido “El demonio y la señorita prym” q” libro pa mas buenoO…
eres el mejor pauloO.

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Sheila Renk January 3, 2010 at 10:16 pm

Acho que estou matando os meus sonhos, porque tenho medo de combater, porque não tenho mais a coragem, a juventude, o impulso, mas continuarei tentando. O inicio do ano me dá a força e a vontade. Tenho grandes caminhos para percorrer ainda e não quero a decepção e a derrota como legado da minha covardia.
Eu preciso caminhar e preciso acreditar! Preciso cometer loucuras e ter sonhos perfumados

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Ísis January 3, 2010 at 9:46 pm

o “sentido da vida” são os sonhos. :)

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Renan January 3, 2010 at 5:07 pm

Twitter é uma boa ferramenta para ter um contato mais direto com os leitores. É uma ótima iniciativa, Tnks!
Existe fórmula para a felicidade e o bem estar? Estar bem com vc mesmo e de alguma forma fazer diferença positiva aqui nessa Terra. Vamos junto nessa Paulo!!!

Abraço

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Mariazinha January 3, 2010 at 4:41 pm

Creio que esse início do ano é um bom momento para reler “O Diário de Um Mago”, faz tempo que li a última vez.

Hj sei que muitas vezes a dor é um sinal de que estamos vivos, e que as certezas, quando desabam,estendem pontes.

São Paulo, rogai por nós…e nos ajude a sermos grandes lutadores do Bom Combate!

Um dia iluminado pra vc, Paulo!
Deus te guie!

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alice catarina alvim lopes January 3, 2010 at 3:55 pm

Esse foi o único livro seu que li até agora,e tenho a coleção faz um tempão,acho que tudo tem o seu tempo.Foi a que comecei a entender o meu caminho,estou engatinhando é claro,mas vejo com outro olhar a minha vida.Obrigada por ter sido uns dos responsáveis por isso.
Alice
P.S:estou lendo agora o Guerreiro da luz,queria até te pedi permissão de colocar alguma coisa no meu twitter.

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Jéssica Silveira January 3, 2010 at 3:33 pm

belas palavras ..cada vez mais que leio coisas escritas vindas de você mais cresce minha admiração pela inteligência e sua capacidade de nos transferir inspiração para as coisas do mundo afora

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Bianca January 3, 2010 at 2:50 pm

É incrível como as sensações explicadas são fiéis à realidade, e me sinto privilegiada por ter vencido uma pequena batalha interna e voltar ao bom combate em 2010, realmente os sonhos estavam começando a morrer e não achei justo com a criança dentro de mim que os concebeu.Ela merece o combate.

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carmen alice January 3, 2010 at 2:33 pm

A cada dia tento ter mais tempo para fazer as coisas que gosto e as que não curto tanto. Assim fico feliz e compenso o mau estar de algumas atividades passando mais tempo com quem amo!

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Alexandre Itagiba Cobra January 3, 2010 at 2:12 pm

Gosto bastante de o Diario de um Mago, e também do Manual do Guerreiro da Luz.

Em minha vida houveram 3 pilares que me levaram a combater o bom combate: Um tio amado e distante, Esses dois livros e meu pai. Um pilar ideal, corintio; Outro pilar com inscricoes sobre como construir um pilar; E um pilar caido.
Agradeco a todos esses pilares.

A partir desse trino minha espada sempre ficou honrada. Com vitorias e derrotas, mas como disse: o que vale é o bom combate.

E sigo combatendo, 2009 foi um otimo ano! 2010 o combate vai ser cruel… e bem mais interessante. Divertido!

(PS:. Nao entendo os acentos neste teclado frances. Desculpe.)

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Gracyene January 3, 2010 at 2:01 pm

Como tudo o mais de sua autoria que eu já li: inspirador…Foi bom relembrar… já faz um tempo que li esse livro…

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