Em busca dos sinais

Paulo Coelho

Podemos achar que tudo que a vida nos oferece amanhí£ é repetir o que fizemos ontem e hoje. Mas, se prestarmos atení§í£o, vamos reparar que nenhum dia é igual ao outro.
Cada manhí£ traz uma bení§í£o escondida; uma bení§í£o que só serve para este dia, e que ní£o pode ser guardada ou reaproveitada. Se ní£o usarmos este milagre hoje, ele se perderá.
Este milagre está nos detalhes do cotidiano; é preciso viver, a cada instante temos a saí­da para o problema, a maneira de encontrar o que está faltando, a pista certa para a decisí£o que precisa ser tomada para mudar todo o nosso futuro.

Mas como ter coragem para isso? No meu entender, Deus fala conosco através de sinais. É uma linguagem individual, que requer fé e disciplina para ser totalmente absorvida.

Santo Agostinho, por exemplo,foi convertido desta maneira. Durante anos procurou – em várias correntes filosóficas – uma resposta para o sentido da vida, até que certa tarde, no jardim de sua casa em Milí£o, refletindo sobre o fracasso de sua busca, escutou uma crianí§a na rua, cantando: “Pega e líª! Pega e líª!”
Apesar de sempre ter sido governado pela lógica, resolveu – num impulso – abrir o primeiro livro ao seu alcance. Era a Bí­blia, e ele leu um trecho de Sí£o Paulo – com as respostas que procurava. A partir daí­, a lógica de Agostinho abriu espaí§o para que a fé também pudesse participar, e ele se transformou num dos maiores teólogos da Igreja.

Os monges do deserto afirmavam que era necessário deixar a mí£o dos anjos agir. Para isto, de vez em quando faziam coisas absurdas – como falar com flores ou rir sem razí£o. Os alquimistas seguem os “sinais de Deus”; pistas que muitas vezes ní£o fazem sentido, mas que terminam levando a algum lugar.
“O homem moderno quis eliminar as incertezas e dúvidas de sua vida. E terminou por deixar sua alma morrendo de fome; a alma se alimenta de mistérios” – diz o deí£o da Catedral de San Francisco.

Existe um exercí­cio de meditaí§í£o que consiste em acrescentar – geralmente durante dez minutos por dia – um motivo para cada uma de nossas aí§íµes. Um exemplo: “eu agora leio este blog porque vi um link no Tweeter ou no Facebook. Eu pensei agora em tal pessoa, porque tal assunto que li me levou a isto. Eu andei até a porta, porque vou sair de casa”. E daí­ por diante.
Buda chama isto de “atení§í£o consciente”. Quando nos vemos repetindo a mais comum das rotinas, nos damos conta da riqueza que cerca nossa vida. Compreendemos cada passo, cada atitude. Descobrimos coisas importantes, e pensamentos inúteis.

No final de uma semana – a disciplina é sempre fundamental – estamos mais conscientes de nossas faltas e distraí§íµes, mas também entendemos que, em certos momentos, ní£o havia nenhum motivo para agirmos como agimos, e seguimos nosso impulso, nossa intuií§í£o; é aí­ que comeí§amos a compreender esta linguagem silenciosa que Deus usa para nos mostrar o caminho certo. Chamem de intuií§í£o, sinal, instinto, coincidíªncia, ní£o importa o nome – o que importa é que, através da “atení§í£o consciente”, nos damos conta que estamos muitas vezes sendo guiados para a decisí£o certa.

E isso nos deixa mais confiantes e mais fortes.