Quebre o copo!

(trecho de “Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei”)

O vinho tornava as coisas mais fáceis para ele. E para mim.

– Por que vocíª parou de repente? Por que ní£o quer falar de Deus, da Virgem, do mundo espiritual?

– Quero falar de outro tipo de amor – insistiu. – Aquele que um homem e uma mulher compartilham, e em que também se manifestam os milagres.

Segurei suas mí£os. Ele podia conhecer os grandes mistérios da Deusa – mas de amor sabia tanto quanto eu. Mesmo que tivesse viajado tanto.

E teria que pagar um preí§o: a iniciativa. Porque a mulher paga o preí§o mais alto: a entrega.

Ficamos de mí£os dadas por um longo tempo. Lia em seus olhos os medos ancestrais que o verdadeiro amor coloca como provas a serem vencidas. Li a lembraní§a da rejeií§í£o da noite anterior, o longo tempo que passamos separados, os anos no mosteiro em busca de um mundo onde estas coisas ní£o aconteciam.

Lia em seus olhos as milhares de vezes em que havia imaginado este momento, os cenários que construí­ra ao nosso redor, o cabelo que eu devia estar usando e a cor da minha roupa. Eu queria dizer “sim”, que ele seria bem-vindo, que o meu coraí§í£o havia vencido a batalha. Queria dizer o quanto o amava, o quanto o desejava naquele momento.

Mas continuei em silíªncio. Assisti, como se fosse um sonho, í  sua luta interior. Vi que tinha diante dele o meu “ní£o”, o medo de me perder, as palavras duras que escutou em momentos semelhantes – porque todos passamos por isto, e acumulamos cicatrizes.

Seus olhos comeí§aram a brilhar. Sabia que estava vencendo todas aquelas barreiras.

Entí£o soltei uma das mí£os, peguei um copo e coloquei na beirada da mesa.

– Vai cair – disse ele.

– Exato. Quero que vocíª o derrube.

– Quebrar um copo?

Sim, quebrar um copo. Um gesto aparentemente simples, mas que envolvia pavores que nunca chegaremos a compreender direito. O que há de errado em quebrar um copo barato – quando todos nós já fizemos isto sem querer alguma vez na vida?

– Quebrar um copo? – repetiu ele. – Por quíª?

– Posso dar algumas explicaí§íµes – respondi. – Mas, na verdade, é apenas por quebrar.

– Por vocíª?

– Claro que ní£o.

Ele olhava o copo de vidro na beira da mesa – preocupado com que caí­sse.

“É um rito de passagem, como vocíª mesmo fala”, tive vontade de dizer. “É o proibido. Copos ní£o se quebram de propósito. Quando entramos em restaurantes ou em nossas casas, tomamos cuidado para que os copos ní£o fiquem na beira da mesa. Nosso universo exige que tomemos cuidado para que os copos ní£o caiam no chí£o.

Entretanto, continuei pensando, quando os quebramos sem querer, vemos que ní£o era tí£o grave assim. O garí§om diz “ní£o tem importí¢ncia”, e nunca na vida vi um copo quebrado ser incluí­do na conta de um restaurante. Quebrar copos faz parte da vida e ní£o causamos qualquer dano a nós, ao restaurante, ou ao próximo.

Dei um esbarrí£o na mesa. O copo balaní§ou, mas ní£o caiu.

– Cuidado! – disse ele, instintivamente.

– Quebre o copo – eu insisti.

Quebre o copo, pensava comigo mesma, porque é um gesto simbólico. Procure entender que eu quebrei dentro de mim coisas muito mais importantes que um copo, e estou feliz por isto. Olhe para a sua própria luta interior e quebre este copo.

Porque nossos pais nos ensinaram a tomar cuidado com os copos, e com os corpos. Ensinaram que as paixíµes de infí¢ncia sí£o impossí­veis, que ní£o devemos afastar homens do sacerdócio, que as pessoas ní£o fazem milagres, e que ninguém sai para uma viagem sem saber aonde vai.

Quebre este copo, por favor – e nos liberte de todos estes conceitos malditos, esta mania que se tem de explicar tudo e só fazer aquilo que os outros aprovam.

– Quebre este copo – pedi mais uma vez.

Ele fixou seus olhos nos meus. Depois, devagar, deslizou sua mí£o pelo tampo da mesa, até tocá-lo. Num rápido movimento, empurrou-o para o chí£o.

O barulho do vidro quebrado chamou a atení§í£o de todos. Em vez de disfarí§ar o gesto com algum pedido de desculpas, ele me olhava sorrindo – e eu sorria de volta.

– Ní£o tem importí¢ncia – gritou o rapaz que atendia as mesas.

Mas ele ní£o escutou. Havia se levantado, me agarrado pelos cabelos, e me beijava.

Eu também o agarrei nos cabelos, abracei-o com toda forí§a, mordi seus lábios, senti sua lí­ngua se movendo dentro de minha boca. Era um beijo que havia esperado muito – que havia nascido junto dos rios de nossa infí¢ncia, quando ainda ní£o compreendí­amos o significado do amor. Um beijo que ficou suspenso no ar quando crescemos, que viajou pelo mundo através da lembraní§a de uma medalha, que ficou escondido atrás de pilhas de livros de estudos para um emprego público. Um beijo que se perdeu tantas vezes e que agora tinha sido encontrado. Naquele minuto de beijo estavam anos de buscas, de desilusíµes, de sonhos impossí­veis.

Eu o beijei com forí§a. As poucas pessoas que estavam naquele bar devem ter olhado, e pensavam estar vendo apenas um beijo. Ní£o sabiam que naquele minuto de beijo estava o resumo de minha vida, da vida dele, da vida de qualquer pessoa que espera, sonha e busca o seu caminho debaixo do sol.

Naquele minuto de beijo estavam todos os momentos de alegria que vivi.