Matando os sonhos

” O primeiro sintoma de que estamos matando nossos sonhos é a falta de tempo. As pessoas mais ocupadas que conheci na minha vida sempre tinham tempo para tudo. As que nada faziam estavam sempre cansadas, ní£o davam conta do pouco trabalho que precisavam realizar, e se queixavam de que o dia era curto demais: na verdade, elas tinham medo de combater o Bom Combate.

“O segundo sintoma da morte de nossos sonhos sí£o nossas certezas. Porque ní£o queremos aceitar a vida como uma grande aventura a ser vivida, passamos a nos julgar sábios, justos e corretos no pouco que pedimos da existíªncia. Olhamos para além das muralhas do nosso dia-dia, ouvimos o ruí­do de laní§as que se quebram, o cheiro de suor e de pólvora, as grandes quedas e os olhares sedentos de conquista dos guerreiros. Mas nunca percebemos a alegria, a imensa Alegria que está no coraí§í£o de quem está lutando, porque para estes ní£o importa nem a vitória nem a derrota, importa apenas combater o Bom Combate.

“Finalmente, o terceiro sintoma da morte de nossos sonhos é a Paz. A vida passa a ser uma tarde de Domingo, sem nos pedir grandes coisas, e sem exigir mais do que queremos dar. Achamos entí£o que estamos maduros, deixamos de lado as fantasias da infí¢ncia, e conseguimos nossa realizaí§í£o pessoal e profissional. Mas na verdade, no í­ntimo de nosso coraí§í£o, sabemos que o que aconteceu foi que renunciamos í  luta por nossos sonhos, a combater o Bom Combate.

” Quando renunciamos aos nossos sonhos e encontramos a paz, temos um pequeno perí­odo de tranqüilidade. Mas os sonhos mortos comeí§am a apodrecer dentro de nós, e infestar todo o ambiente em que vivemos.

“Comeí§amos a nos tornar cruéis com aqueles que nos cercam, e finalmente passamos a dirigir esta crueldade contra nós mesmos. Surgem as doení§as e as psicoses. O que querí­amos evitar no combate – a decepí§í£o e a derrota – passa a ser o único legado de nossa covardia. E um belo dia, os sonhos mortos e apodrecidos tornam o ar difí­cil de respirar e passamos a desejar a morte, que nos livra de nossas certezas, de nossas ocupaí§íµes, e daquela terrí­vel paz das tardes de domingo.”

__________________________
Petrus foi o meu guia no Caminho de Santiago, experiíªncia que contei em do livro “O Diario de um Mago” (1987)