O intelectual está morto. Viva o internectual

Paulo Coelho, especial para Revista Época

As notícias do chamado “mundo literário” parecem retiradas do livro das lamentações de Jó: já não há mais espaço nos grandes veículos de mídia para discussões sérias, a lista dos mais vendidos só publica coisas para a garotada, os brasileiros não são lidos no exterior porque ninguém se interessa em traduzi-los. O Ministério da Cultura gastou uma fortuna na Europalia, um dos mais importantes eventos culturais do Velho Continente, sem conseguir absolutamente qualquer resultado além de dilapidar seu orçamento. Eventos como a Flip chamam atenção provisória, mas os autores que ali se apresentam, depois que tudo é dito e discutido, não ganham outra projeção além da que já tinham junto aos seus pares.

Mas quem são esses pares?

Para detectar intelectuais, pergunte o que é um “efeito viral”: dirão que trata-se de uma epidemia (possivelmente de dengue). Vá mais adiante e procure saber o que é uma “campus party”: respondem que são festas organizadas em campi de universidades americanas na formatura de alunos. Finalmente, para tirar qualquer dúvida, peça que digam o que pensam dos livros eletrônicos. A resposta inevitável será: “gosto do cheiro do papel”, como se odor interferisse na leitura ou nas idéias expostas no texto.
Não vou sequer sugerir que procurem saber com eles o que é “nerd”, pois será olhado de alto a baixo com desprezo, e retirado a força do recinto onde estão discutindo a morte da leitura, a atualidade de Gilles Deleuze, ou as teorias de Ludwig Wittgenstein. Para eles, suas perguntas são irrelevantes.

Pois bem, vamos esclarecer os termos citados acima usando um exemplo. O efeito viral ( comentários na internet sobre determinada obra, que se propaga independente da crítica especializada) fez com que Eduardo Spohr colocasse seu livro “A Batalha do Apocalipse” em todas as listas dos mais vendidos, com a ajuda de uma gigantesca e espontânea máquina de divulgação surgida nas campus parties (mega-eventos de blogueiros que acampam durante alguns dias em diversas partes do planeta para discutir idéias). Os “nerds”, termo até entao depreciativo e cuja tradução mais próxima seria nosso famoso CDF, organizam os encontros, criam vasos comunicantes, e ocupam de maneira avassaladora – sem pedir licença – o espaço então reservado para os pseudo-eruditos, que sempre julgaram conhecer melhor o que o povo deve ou não deve ler (embora em quase sua totalidade se digam democratas).

Então, o que está acontecendo?

Pela primeira vez na história temos acesso irrestrito aos bens culturais. Com o advento da internet, todos puderam expressar o que pensam a respeito de qualquer tema – incluindo aí as obras literárias. Quando alguém deseja comprar um livro não vai procurar os comentários da crítica especializada, mas daqueles que já leram. Isso pode determinar o sucesso global ou a morte súbita de um texto.
Sempre foi assim?
Claro, pois não há melhor propaganda que o boca-a-boca. Entretanto, por causa da velocidade da propagação viral (repito, não estou falando de gripe asiática), o autor desconhecido começa a ter a possibilidade de encontrar seu lugar ao sol de maneira rápida e efetiva, independente do apoio tradicional da mídia (a revista Época foi uma exceção, ao colocar antes de todo mundo o escritor Eduardo Sphor como uma das personalidades de 2011).

Mas o que é necessário para que isso aconteça? Em primeiro lugar, saber que a internet não é uma ameaça para a leitura – sobretudo porque ainda é um meio escrito, e para que se escreva é preciso ler. Em seguida, entender que da mesma maneira que o mercado está mudando, o estilo de escrever também se transforma.
Dirão os puristas: “estão matando a qualidade”. Será que é isso mesmo? Voltemos um pouco ao passado para ver o que pensavam:
“Seu nome é super-valorizado; logo será esquecido” ( 1814,Lord Byron falando de Shakespeare). “Flaubert não é um escritor”( 1857, jornal Le Figaro, França). “Esse livro dura apenas uma temporada”( NY Herald Tribune comentando ‘O Grande Gatsby’de F.S. Fitzgerald)
Os três autores criticados acima – que hoje podem ser encontrados em qualquer livraria brasileira – romperam radicalmente com o estilo em vigor na época em que viviam. Escolheram contar uma boa história, ao invés do exercício inútil da meta-linguagem. Seus críticos pertenciam a respeitáveis jornais, e um deles, Byron, continua sendo uma referencia da literatura mundial. Mesmo assim, o poder do leitor foi mais forte.

E eu com isso? Devo dizer: sou parte interessada.

Não tenho nada a reclamar. Embora a crítica nem sempre tenha sido gentil comigo, nunca me faltou espaço na imprensa. Celebrei neste abril de 2012 o Jubileu de Prata da publicação do meu primeiro livro, “O diário de um mago”, apesar das previsões, muito comuns no final da década de 80, de que eu era apenas um fenômeno de moda. Com o advento da internet, passei a escrever para blogs e comunidades sociais, ampliando assim o alcance daquilo que julgo importante dizer.
Mas sou parte interessada quando vejo que toda uma nova geração de escritores brasileiros não está prestando a devida atenção à todas as possiblidades que tem diante de si. Ainda sofrem daquilo que chamo de “Sindrome de Van Gogh”( ser reconhecido apenas após a morte). Tentam agradar o sistema falido da cultura construída com verbas de ministérios e cimentada com resenhas misteriosas e ilegíveis. Gastam uma imensa energia em busca de reconhecimento que já não está nas mãos daqueles que pensam dete-lo.
A esses eu digo: os meios de produção e divulgação estão ao seu alcance – e isso nunca aconteceu antes. Se ninguém presta atenção ao que estão fazendo, não se preocupem: continuem adiante, porque cedo ou tarde (mais cedo que tarde) alguém entenderá o que dizem.
Aproveitem esse momento único. E mãos à obra, porque qualquer sonho dá muito trabalho.
No ano de 2001, quando Jimmy Wales criou a Wikipedia (uma enciclopédia online, administrada por 100 mil voluntários em diversas línguas e em diversos países), escutei de um editor: “não tem credibilidade, e nada substituirá a Encyclopædia Britannica”. Em março deste ano a vetusta enciclopédia anunciou que já não mais publicará edições impressas – depois de quase 250 anos reluzindo nas estantes de nossos pais, avós, e antepassados distantes (aqui volto a pensar nos viciados em “cheiro de papel”, coisa que devo confessar jamais ter sentido).
O intelectual está morto. Longa vida ao internectual.