É permitido trollar

Voltemos um pouco ao passado.

Mais precisamente, para uma pequena cidade perto de Estrasburgo, onde possivelmente existe um mosteiro. Uma grande peste ameaí§a destruir a cultura. Os monges já detectaram o perigo, e estí£o fazendo um esforí§o gigantesco para acabar com ela antes que se espalhe pelo mundo inteiro.

Quem é o responsável por tudo isso? Um charlatí£o, um polidor de espelhos que prometia “captar a luz sagrada das relí­quias de santos”. Um expatriado, sempre devendo dinheiro aos seus vizinhos. Mas ní£o basta atacar sua honra; é preciso também destruir a máquina infernal que inventou, e onde reproduziu, sem muito esforí§o, cópias em série de um poema. E se resolver fazer a mesma coisa com a Biblia, tratada com respeito e dignidade por homens que dedicaram a vida inteira a copiar exemplares únicos? O livro sagrado já poderá ser lido por todos – e isso fará com que surjam outras opiniíµes a respeito do que está escrito ali.

O polidor de espelhos, com sua infernal máquina onde as letras podem ser utilizadas mais de uma vez e em ordem diferente, continua seu trabalho apesar de toda a oposií§í£o. E decide que a Bí­blia deverá ser o primeiro livro a ser impresso, desta maneira preservando o saber ali contido. Em meados do século XV, saem os primeiros exemplares. O polidor de espelhos – hoje em dia conhecido apenas pelo seu nome de famí­lia, Gutenberg – morre na miséria. Mas seu invento chama a atení§í£o dos ricos mercadores de Veneza, que o disseminam rapidamente. Pouco tempo depois, estí£o sendo impressos livros de todos os tipos; o pensamento comeí§a a viajar, as heresias se multiplicam, a sabedoria se espalha e a poderosa Igreja – que mantinha a cultura debaixo de seu jugo – assiste impotente o que a história chamaria mais tarde de Renascimento.

Essa historia todo mundo conhece.

A cultura foi democratizada ní£o porque apareceu um escritor capaz de inventar um estilo diferente – mas porque apareceu uma tecnologia nova. Cada mudaní§a de tecnologia provoca gigantescas comoí§íµes sociais, que podem atrasar um pouco sua disseminaí§í£o, mas que termina se impondo. Lembrem-se dos quebra-quebras da revoluí§í£o industrial. Ou das greves de camponeses provocadas pelo advento da máquina de colher grí£os.

Ou entí£o, dando um salto para o momento presente, do surgimento da internet. A industria cultural é pega de surpresa. Em vez de procurar entender o que está acontecendo, chama um batalhí£o de advogados para resolver o problema. Os advogados proí­bem um site de distribuií§í£o de música, e surgem vários para substitui-lo.

A massa “anárquica” de internautas se une em nome de uma causa única e faz com que congressistas americanos mudem da noite para o dia seus votos que aprovavam a lei que Hollywood tentava impor – conhecida pelo acrí´nimo de SOPA (Stop Online Piracy Act).

Essa história quase todo mundo conhece.

Mas será que conhecem o que está acontecendo no Brasil neste momento? O histórico do caso é simples e uso as palavras de um amigo meu para descreve-lo.

O blog “Livros de Humanas”, mantido por um estudante da USP, Thiago Candido, ( @_tcandido ) compartilhava PDFs de livros adotados em cursos de ciíªncias humanas. Muitos autores testemunharam que o compartilhamento aumentava as vendas dos livros (o que eu já sabia, como podem LER AQUI ). O responsável pelo blog recebeu agradecimentos em teses e dissertaí§íµes, porque possibilitava que muita gente lesse o que jamais teria condií§íµes se tivesse que comprar tudo. A Associaí§í£o Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR) entrou com uma aí§í£o em nome de duas editoras, mas exigiu a retirada de todo o site do ar. Desde entí£o, a Editora Contexto, uma das supostamente representadas na aí§í£o, já se desfiliou da ABDR.

Os autores que tinham livros pirateados lá e que já declararam apoio ao Livros de Humanas incluem: o maior antropólogo brasileiro, Eduardo Viveiros de Castro, o poeta Eduardo Sterzi, o poeta e jurista Pádua Fernandes, a ficcionista Veronica Stigger, o premiado escritor inglíªs Neil Gaiman, o designer gráfico e poeta André Vallias, a tradutora Denise Bottmann, o ensaí­sta e Doutor em Literatura Alexandre Nodari, a editora Cultura e Barbárie, a Azougue Editorial, o professor Pablo Ortellado, da USP, o professor de literatura latino-americana na Universidade de Tulane, Idelber Avelar etc. etc.

É uma lista imensa onde faltava o meu nome – simplesmente porque ní£o sabia que isso estava acontecendo. Agora que sei, estou assinando embaixo.

Ní£o embaixo de petií§íµes, que julgo absolutamente ineficientes; é muito fácil assinar e depois esquecer o assunto.

Estou assinando embaixo deste post, pedindo que enviem í  ABDR uma cópia do mesmo, ou algo que vocíª mesmo(a) escreveu a respeito.

Aqui está o site deles: http://www.abdr.org.br/site/ e o telefone: (011) 5052 5965

Neste caso, é permitido trollar.