2013: 13 perguntas para Paulo Coelho

“A humanidade terá de ser mais responsável e menos destrutiva”
O escritor diz que 2013 é tempo para as pessoas assumirem as responsabilidades sobre seus atos e aprenderem a entender outras culturas em nome da paz mundial
Luí­s Antí´nio Giron

Em 2011, o escritor Paulo Coelho sofreu uma obstruí§í£o nas artérias do coraí§í£o que o laní§ou ao limite entre a vida e a morte e o estimulou a repensar toda sua carreira de autor de sucessos. “Os momentos difí­ceis nos ensinam a viver melhor”, disse a ÉPOCA de sua casa em Genebra, na Suí­í§a. Hoje, aos 64 anos, menos viajante e mais preocupado com a qualidade de vida, ele encontra tempo para meditar, planejar um romance a ser laní§ado em 2013 e fazer previsíµes. Nesta entrevista, discorre sobre o futuro do Brasil e do mundo. Segundo ele, a palavra de ordem para os meses que virí£o é “responsabilidade”.

1 – ÉPOCA – Que sentimento o senhor recomenda í  humanidade para os próximos meses?
Paulo Coelho – O sentimento da responsabilidade. A humanidade terá de ser mais responsável e menos destrutiva. A comunidade social permite que qualquer pessoa tenha uma voz que será ouvida. É preciso aproveitar isso para se fazer ouvir. É o contrário do que acontece hoje, nas caixas de comentários de notí­cias. Em vez de se dar conta de que sí£o responsáveis pelo que dizem, elas se dedicam a criticar qualquer coisa e pessoa de forma violenta e indiscriminada. É o que se chama de “trolar” no jargí£o da internet. Faí§a com que sua voz seja ouvida com responsabilidade, e ní£o como uma brincadeira. Mais responsabilidade e menos “trolagem”!

2 – ÉPOCA – Que lugar inspirador ou para peregrinar o senhor recomenda para 2013?
Coelho – Peregrine por seu coraí§í£o. Ele é inspirador. As pessoas estí£o freqüentando muito a lógica e deixando de lado o sentimento. O coraí§í£o tem uma caixa de ferramentas de que vocíª precisará em 2013. Ali, vocíª encontra a intuií§í£o e a capacidade de reagir rápido sem pensar muito. Com isso, ní£o quero ser irracional. Refiro-me ao coraí§í£o como metáfora, ní£o como órgí£o. A linguagem do coraí§í£o será cada vez mais importante. Usando seu coraí§í£o, vocíª volta ao estado de crianí§a. Sem a ingenuidade da crianí§a. Isso lhe dará condií§íµes de ser criativo para os desafios do ano. Fará vocíª se adaptar í s crises do mundo, como lidar com as novas linguagens. O coraí§í£o pode ní£o ser pragmático, mas é sábio. Procure conhecer o interior de sua alma. E assim estará no meio da tempestade, com raios e trovíµes a sua volta, e se sentirá bem. Vocíª é um desconhecido, e seu potencial é maior do que vocíª sabe. Passeando pela alma, vocíª ficará feliz com o que encontrará. As pessoas temem a confrontaí§í£o. No outono, as folhas brincam entre si que ní£o querem cair, mas ní£o adianta: elas cairí£o. A paz é uma utopia se associada í  idéia de ausíªncia de conflito. Aceite os conflitos, díª boas-vindas a eles e toque para a frente, porque isso é parte da condií§í£o humana.

3 – ÉPOCA – Quais serí£o os maiores obstáculos para o crescimento pessoal humano em 2013?

Coelho – A zona de conforto será o pior obstáculo. Vocíª cria essa zona achando que tem controle sobre tudo. Ora, isso é uma ilusí£o completa. No momento em que vocíª acha que está tudo bem í  sua volta, aí­ é que reside o perigo. Estou aqui parado, mas ní£o me sinto tranquilo. Persigo a atividade, evitando a crení§a no controle. Aprendi isso em duas situaí§íµes. A primeira foi em 1974, quando me achava o rei do mundo, porque tinha acabado de laní§ar a caní§í£o “Gita”, com Raul Seixas. Foi quando fui preso, desapareci – e aí­ meu mundo caiu. A segunda foi em 1979. Era um executivo de gravadora, achava que sabia aonde queria chegar. Troquei a Polygram pela CBS e aí­ fui mandado embora. Ní£o consegui mais arranjar emprego. Foi uma bíªní§í£o. Mas na hora vocíª sofre. Vocíª ní£o tem controle sobre nada.

4 – ÉPOCA – Que poder espiritual ou habilidade o senhor pretende desenvolver no ano que vem?
Coelho – Quero fazer algo de que ní£o tenho certeza se conseguirei: aprender árabe e hebraico. Acredito que, no caso de lí­nguas em conflito, como essas duas, quem sabe as palavras “ní£o estí£o sendo mal traduzidas”? Quando Lutero traduziu a Bí­blia e ela se tornou a base do idioma alemí£o, demonstrou que as palavras do latim eram imprecisas. A lí­ngua necessita de uma precisí£o. Se vocíª entende os idiomas, passa a entender melhor as pessoas que falam aquelas lí­nguas. Eu gostaria de manter um diálogo entre essas duas lí­nguas distintas. Sí£o lí­nguas mí­sticas. O hebraico com o misticismo da cabala e o árabe com a poesia do Corí£o.Quem sabe ní£o consigo aproximar esses dois universos?

5 – ÉPOCA – O ano de 2012 foi marcado pela ascensí£o da literatura erótica para mulheres. O senhor acha que a tendíªncia continuará? Quais as consequíªncias desse tipo de literatura paraas mulheres?
Coelho – Vejo como uma coisa positiva. Se gente como a Erika (Leonard James, autora da trilogia erótica Cinqüenta tons de cinza,) vende tantos livros, é porque tocou numa veia sensí­vel que estava oculta. Esse tipo de literatura é liberadora. A relaí§í£o das pessoas em relaí§í£o ao sexo é ainda travada. Minha geraí§í£o experimentou o sexo como livre. Depois, houve um retrocesso tremendo. É hora de as pessoas repensarem a sexualidade.

6 – ÉPOCA – A literatura continuará a contribuir para o aperfeií§oamento das pessoas ou perderá terreno para a tecnologia?
Coelho – A literatura viverá uma transformaí§í£o radical, por causa das pessoas. A primeira delas é a linguagem. Ní£o há mais espaí§o para escrever a seus pares. Isso é perder a releví¢ncia. A literatura é beneficiada pela busca da simplicidade. O blogueiro se educa em concentrar-se na essíªncia do que escreverá. É essa a transformaí§í£o na literatura. Ela se tornará importante, mas ní£o será como a conhecemos hoje. Literatura precisa de estilo, de conteúdo e de uma plataforma. A literatura está mudando nos tríªs ní­veis. Como escritor, tenho de me adaptar í  nova linguagem. Minha literatura sempre seguiu o princí­pio da objetividade que evita a superficialidade, sem perder a poesia. Escrever pelas redes sociais é fazer literatura. Hoje em dia, a literatura, como tudo, está migrando para a tela dos celulares. A literatura será lida pelo telefone.

7 – ÉPOCA – O torcedor brasileiro tem pela frente dois eventos internacionais sediados no paí­s: a Copa das Confederaí§íµes em 2013 e a Copa do Mundo em 2014. Vamos vencer?

Coelho – Minha esperaní§a é que o Brasil díª o show que ele dará. Ní£o tenho dúvida de que venceremos. A Olimpí­ada de Londres foi criticada, mas foi responsável pela recuperaí§í£o do paí­s. Espero que aprendamos com os erros alheios.

8 – ÉPOCA – Os brasileiros estí£o ficando mais ricos. A riqueza nos trará felicidade?
Coelho – O Brasil se livrou do complexo de vira-lata. Demos um passo gigantesco. Antes, o brasileiro batia no peito e dizia que tinha orgulho, mas, no fundo, admirava outras culturas. Agora ele é brasileiro, está contente de ser brasileiro, porque sua voz é ouvida. O brasileiro está conquistando a vida plena. Demorou!

9 – ÉPOCA – Ficaremos mais sábios ou mais superficiais?

Coelho – Ní£o sei. Se escolhermos combinar os lados masculino com feminino, a intuií§í£o e a forí§a, ficaremos mais sábios. Mas é impossí­vel saber ao certo. Estamos sendo arrastados ao mar da banalidade. Quando vocíª sofre o excesso de informaí§í£o, a tendíªncia é voltar í  simplicidade. Bater papo no bar ou na praí§a foi a origem da filosofia na ágora de Atenas. A saturaí§í£o faz com que a gente queira voltar ao simples. E a tecnologia colabora nessa volta. Por mais que pareí§a uma contradií§í£o, a tecnologia nos ajuda a voltar aos fundamentos, í  escolha das fontes de informaí§í£o. Se, antes, sentí­amos o fascí­nio pela internet, agora vivemos um momento de seleí§í£o e concentraí§í£o da informaí§í£o. Indo mais fundo, vocíª acaba simplificando. E a simplicidade nos deixará mais sábios.

10 – ÉPOCA – De onde virí£o os ventos da vL^ mudaní§a polí­tica e cultural para o mundo, se é que haverá mudaní§as?
Coelho -A tecnologia está mudando tudo. As pessoas estí£o passivas ou ativas de uma maneira errada. Fazem “trolagem”, porque acham que estí£o colaborando, mas ní£o estí£o fazendo nada.

11 – ÉPOCA – O senhor víª um mundo unido por uma ideologia, como dizia John Lennon na caní§í£o “Imagine”?

Coelho -Ní£o. É o oposto de John Lennon. Acredito num mundo em que as diferení§as serí£o respeitadas. Estamos caminhando para um mundo de minorias. A globalizaí§í£o econí´mica dissolveu as fronteiras. Isso nos leva a voltar í  condií§í£o tribal, tendo a tecnologia como ajuda. As minorias terí£o de ser respeitadas.

12 – ÉPOCA – Devemos temer a intolerí¢ncia religiosa?

Coelho – O grande problema deste milíªnio é que ele aponta para a intolerí¢ncia religiosa. As pessoas, por ausíªncia de fé, precisam provar a elas próprias que tíªm fé. As agendas polí­ticas sí£o determinadas pelas agendas religiosas.

13 – ÉPOCA – A que pergunta o senhor gostaria de responder, caso um repórter do futuro aparecesse na sua frente?
Coelho – Gostaria de responder a uma só pergunta: “Vocíª viveu com dignidade?” Esperaria responder ao repórter com um sonoro “sim!”.