Publishnews: ní£o seja tí£o crí­tico com o gosto dos outros

Na Publishnews, o portal de referencia no mercado editorial brasileiro, uma excelente matéria sobre o mercado editorial, escrita por Pedro Almeida, jornalista e professor de literatura.
Na semana passada, a Folha de Sí£o Paulo publicou outro grande artigo sobre as mudaní§as do mercado editorial.
Pelo visto, vozes sensatas comeí§am a ser a regra, e ní£o a exceí§í£o.
Quem lucra sí£o os autores e os leitores.

A seguir, trechos do artigo “Um novo mercado, um novo olhar”:

Penso que as opiniíµes sobre o mercado, muitas tratadas como regras ou verdades, sí£o frutos de opiniíµes obsoletas, sensaí§íµes, frutos do senso comum. Já escrevi aqui algumas vezes sobre nossa mania de tratar a literatura como algo sagrado, complexo, o que a tornou elitista e distante e que nos fez estabelecer valores tí£o arraigados sobre o que é bom e ruim, o que deve ou ní£o ser publicado.

***

Uma série de autores/artistas hoje tratados como cult, no passado, ou mesmo em sua época, eram tratados como beberríµes, filósofos de esquina ou equivalentes. De modo que ou a inteligíªncia de sua época estava toda errada, ou os valores mudaram, ou nosso gosto piorou bastante.

***

“Valor cultural dos livros”. Ainda é uma expressí£o que circula livremente. Cresci ouvindo que ler sempre é bom. Com o tempo elegi meus autores preferidos, sempre pautado por dois aspectos: conhecendo autores/obras e escolhendo aqueles que me diziam algo. Quando a oferta do número de livros e autores aumentou no mercado, comeí§ou-se um discurso sobre o que era bom ou ruim. […] Penso que falta ainda respeito pelo gosto dos outros, é como se vivíªssemos numa ditadura literária. Livro é como musica, roupa, sapato, comida. Cada um tem uma dialética para defender seu gosto e contar suas vantagens. Para uns é instruí§í£o, para outros, prazer, autoconhecimento, evoluí§í£o pessoal.

***

Essa crí­tica de valor parece um coro de pessoas que pertencem ao mesmo clube, fazem as mesmas coisas e frequentam os mesmos lugares (ou gostariam de frequentar). Entí£o a crí­tica acaba sempre se referindo a um tipo de leitor, como se fosse uma defesa dos valores de um grupo. Um erro. Estamos tratando os livros como se fí´ssemos uma torcida de time de futebol, fingindo ser mais civilizados que as torcidas, quando na verdade somos irí´nicos, sarcásticos, mais perversos que torcedores, e por isso podemos provocar danos mais profundos, porque sí£o elaborados.

***

Por que, por exemplo, um programa de apoio a traduí§íµes no Brasil contempla apenas autores consagrados pela crí­tica? Porque essa crí­tica, que representa apenas um grupo de leitores, continua guiando desde premiaí§íµes, estilos e escolas literárias a oficinas e palestras em bienais. Devemos buscar uma visí£o mais democrática, pensar mais nos leitores, no público, no incentivo para que o bolo (número de leitores) cresí§a e ní£o continue pautado pelas mesmas visíµes de sempre.

***

A literatura que vocíª aprova hoje, se ní£o for por afinidade muito pessoal, talvez o fará sentir vergonha no futuro, da mesma forma que ri hoje dos penteados e moda dos anos 80. Comentário: ní£o seja tí£o crí­tico com o gosto dos outros.