Minha vida em 750 GB

Em 1996 realizei, junto com minha mulher Christina Oticica, um grande sonho. A criação do Instituto Paulo Coelho, uma instituição sem fins lucrativos, financiada exclusivamente por meuss direitos autoraisinst00
Em seguida, veio aquela pergunta de sempre: caso o meu trabalho ainda seja lembrado no futuro, o que fazer com todo o material que tenho, e que pode servir para pesquisas? Costuma-se ver o sucesso como um mar de rosas, e eu queria dar a todos a possibilidade de ver que não é bem assim. Desta maneira, as pessoas lutariam por seus sonhos com mais segurança, sabendo que existem muitas armadilhas no caminho.
A resposta para tal pergunta me pareceu simples:
a] criar uma Fundação com todo o material que tenho, da certidão de nascimento dos meus pais às críticas negativas,
das fotos de infância às fotos da carreira
dos originais digitalizados de todos os meus livros até os recibos de viagem que guardava em minhas prinmeiras andanças pelo mundo.
infancia1[1]Paulo-Coelho--008

b] permitir que pessoas do planeta inteiro tivessem acesso a ela, já que meus livros estão editados em 72 línguas e presentes em mais de 150 países.

A partir de 2001 o arquivo começou a ser digitalizado, e desde então é atualizado sistematicamente.
Tal material é colocado na “nuvem” (ainda com acesso restrito), e poderá no futuro ser visualizado em qualquer canto da Terra.

Mas com dezenas de milhares de documentos, fotos, certidões, etc., de 1947 até hoje, onde chegamos?
750
Até o momento, em 750 GB. O disco em questão cabe no bolso do meu paletó.

Começamos a procurar um lugar para a Fundação física. Mas honestamente, quem se interessaria por isso?
O meu ego. O ego da minha mulher.
E mais ninguém.
E as dores de cabeça resultantes de uma fundaçao física, com funcionários, exposição, programação cultural, etc. não compensam. Resolvemos, portanto, manter apenas a Fundação Virtual, e uma sala de 150 m2 onde todo o material será guardado em papel.
Desistimos da idéia.

Lembrei disso hoje por causa da conferência de Silvio Meira, Professor do Centro de Informação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e cientista-chefe do Centro de Estudos de Sistemas Avançados do Recife. Na excelente matéria de Raquel Cozer, na Folha de São Paulo, Silvio diz:
“Me perguntaram quando vai ter livraria em Taperoá, cidade de 12 mil habitantes onde nasci. Respondi: ‘Nunca. Nem vai precisar. Provavelmente nem de biblioteca vai precisar’.”

Fica o registro.

“Follow your destiny” byFernando Pessoa (1888 – 1935 Lisbon, PT)

Follow your destiny,
Water your plants,
Love your roses.
The rest is shadow
Of unknown trees.

Reality is always
More or less
Than what we want.
Only we are always
Equal to ourselves.

It’s good to live alone,
And noble and great
Always to live simply.
Leave pain on the altar
As an offering to the gods.

See life from a distance.
Never question it.
There’s nothing it can
Tell you. The answer
Lies beyond the Gods.

But quietly imitate
Olympus in your heart.
The gods are gods
Because they don’t think
About what they are.