“Por que recusou o convite do Ministério da Cultura?”

 
 

[ACIMA: HANGOUT COM JOVEM NERD, íšNICA ENTREVISTA QUE DEI PARA BRASIL
ABAIXO, ALGUNS TRECHOS DA ENTREVISTA. A MATERIA SAIU NO DOMINGO, DIA DE OUTUBRO, NA ALEMANHA.]

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logo_die_welt>Martin Scholz_Interview with Paulo Coelho for Welt am Sonntag, Sunday 06 October 2013


WELT AM SONNTAG: Na próxima semana, a maior feira literária do mundo abre suas portas em Frankfurt. O Brasil é o paí­s de honra, mas vocíª que é o autor brasileiro de maior sucesso ní£o participará. Por que recusou o convite do Ministério da Cultura?

PAULO COELHO: Estou em constante contato com jovens escritores do meu paí­s. Mas quando o governo chega para apresentar oficialmente a cultura brasileira em outros lugares, infelizmente esses sí£o ignorados e a polí­ticagem interna acaba predominando. O Ministério da Cultura do Brasil convidou 70 pessoas para irem í  Frankfurt…

WaS: 70 escritores.
PC: Eu duvido que sejam todos escritores profissionais. Dos 70 escritores convidados (LISTA AQUI) , eu conheí§o apenas 20, entí£o os outros 50 nunca ouvi falar. Presumo que sejam amigos de amigos de amigos. Nepotismo. O que me incomoda mais: EXISTE uma nova e excitante cena literária brasileira. Mas a maioria desses jovens autores ní£o está nessa lista.

WaS: Por que vocíª ní£o exerceu sua influíªncia como membro da Academia?
PC: Falei publicamente e conversei com muitos colegas escritores que ní£o foram convidados para Frankfurt como Eduardo Spohr, Carolina Munhóz, André Vianco, Felipe Neto e Raphael Draccon, só para mencionar alguns nomes. Eu tentei ao máximo levá-los para a feira, mas sem sucesso. Entí£o, por protesto, eu DECIDI ní£o ir mais para Frankfurt, o que foi uma decisí£o difí­cil por diversos motivos. Primeiro porque eu sempre quis ser convidado para um evento como este pelo meu governo, mas também porque tenho fortes laí§os com a Feira de Frankfurt, especialmente com seu diretor Jürgen Boos, que ní£o só reconheceu o processo de transformaí§í£o do impresso para o digital, como colocou o tópico até na programaí§í£o da feira. Ele iniciou vários fóruns e painéis com o assunto. Outras feiras do mesmo molde, como a de Genebra e Paris estí£o deteriorando porque se prendem a antigos conceitos. Eu NíƒO vou para Frankfurt mesmo com a alta estima que tenho por essa feira porque simplesmente ní£o aprovo o modo que está sendo representada a literatura brasileira. Ní£o quero posar de um Robin Hood brasileiro. Nem de Zorro ou Cavaleiro Solitário. Mas ní£o pareceria certo ser parte da delegaí§í£o oficial brasileira, do qual ní£o conheí§o a maioria dos escritores e que exclui tantos outros.

WaS: Isso te deixa claramente chateado.

PC: Porque isso é apenas um dos diversos pontos crí­ticos do atual cenário governamental brasileiro. Eu apoiei esse governo e estou muito decepcionado com isso. Existe uma lei que permite grandes empresas como a Volkswagen investirem parte de seus impostos em projetos culturais. Essa lei foi modificada de tal forma que a alta costura brasileira é sustentada por essas taxas – uma indústria que ní£o precisava desse tipo de apoio de forma alguma. Esse é apenas um detalhe, mas é um exemplo do que acontece em larga escala. Para mim, o atual governo brasileiro é um desastre. Onde quer que eu vá, as pessoas sempre me perguntam o que está acontecendo de errado em meu paí­s. O governo fez grandes promessas e ní£o as manteve. Isso é o que está acontecendo de errado.

WaS: Recentemente centenas de milhares de pessoas em mais de 140 cidades protestaram contra a corrupí§í£o, má gestí£o e desigualdade social. O que passa pela sua mente quando víª todas essas imagens de tumultos nos noticiários?
PC: Estou muito preocupado, sobretudo porque ní£o parece ter um fim breve. Tudo comeí§ou quando aumentaram as tarifas de í´nibus. E quando, após a Copa das Confederaí§íµes, um paí­s louco por futebol como o Brasil admitiu publicamente que temos problemas mais urgentes que modernizar nossos estádios para o Campeonato Mundial – isso já foi uma grande declaraí§í£o. No entanto, todo mundo foi pego de surpresa pelo escopo de raiva pública. Porque o Brasil tinha sido cotado como o novo paí­s do momento. O problema é que uma grande parte da populaí§í£o ní£o tem sido capaz de lucrar com esse momento. A violíªncia no Rio de Janeiro é um grande problema. O governador prometeu encontrar uma soluí§í£o, mas ele ní£o manteve sua promessa. Sí£o Paulo ní£o tem uma situaí§í£o melhor. Ní£o importa onde vocíª olha, o demí´nio da corrupí§í£o está olhando de volta pra vocíª. Em uma situaí§í£o tí£o tensa, elevar as tarifas de í´nibus parece ter sido a gota d’água para quebrar as costas do camelo. Pessoas respondem coisas desse tipo. Com a minha fundaí§í£o apoio crianí§as carentes de favelas durante anos, sem nunca ter recebido apoio financeiro ou até mesmo uma palavra de reconhecimento por parte do governo. Eu me encontro em uma situaí§í£o semelhante í  de muitos colegas brasileiros. Eu votei no governo de esquerda, pelo qual tinha grandes esperaní§as. Estive cego por muito tempo, ní£o querendo ver o que acontecia de errado. E eu me mantenho pela minha crí­tica.


WaS: Nestas circunstí¢ncias, o que vocíª espera do campeonato mundial no próximo ano? O ex-craque Ronaldinho mostrou pouca simpatia pelos manifestantes. Ele disse que campeonatos ní£o eram sobre construí§íµes de hospitais ou ruas, mas sim de estádios.

PC: Essa foi uma observaí§í£o muito estúpida. Ronaldinho deveria ter mantido sua boca fechada. Claro que hospitais, escolas e acima de tudo um bom sistema de transporte público sí£o mais importantes para um paí­s como o Brasil que estádios de futebol. O transporte público ainda é um grande problema no Brasil. A infraestrutura ní£o é apenas ruim, mas uma decadíªncia total. No entanto, ní£o perdi por completo a esperaní§a que antes da Copa vamos chegar aos nossos sentidos e usar os investimentos para o campeonato de uma forma que os brasileiros possam lucrar, mesmo após os jogos. Estou em dúvida, no entanto. Mas agora estou falando há um tempo sobre o Brasil e percebi que ní£o pintei um quadro muito positivo do meu paí­s.

WaS: Isso é ruim?
PC: Ní£o, vocíª pode manter isso. Especialmente porque já expresso parte dessa crí­tica no Facebook e no Twitter, embora em pequenos pedaí§os e ní£o em um grande bloco como está sendo agora em nossa conversa. Essa é a grande coisa sobre redes sociais. Se eu tenho algo a dizer, digo. Ní£o preciso dar longas entrevistas a jornalistas que predominantemente ví£o procurar fraquezas e argumentos falhos e focar neles diversas vezes. Hoje em dia, eu prefiro dividir os meus comentários imediatamente com os meus 8,5 milhíµes de seguidores no twitter, ou com meus 12 milhíµes de amigos no Facebook. Instantaneamente. Globalmente.

WaS: A revista Forbes declarou que vocíª é a segunda personalidade mais influente no twitter depois de Justin Bieber. No Facebook vocíª agora tem mais seguidores do que Madonna. Ní£o se torna assustador ter este número crescente de devotos on-line esperando que vocíª díª um significado a suas vidas?
PC: Nem um pouco. Eu gosto de participar de redes sociais porque é divertido e acho gratificante. Agora estou ligado aos meus leitores de todo o mundo de uma maneira que antes das redes sociais emergirem ní£o era possí­vel. Deixe-me dar-lhe um exemplo: sessíµes de autógrafos costumavam ser frustrante. 200 ou 300 pessoas ficavam muito felizes, porque conseguiam um autógrafo meu. Muitos outros ficavam irritados porque tinham esperado na fila e foram mandados para casa de mí£os vazias, já que ní£o posso assinar livros por oito horas a fio.

WaS: Mas para enviar mensagens no Twitter e no Facebook para seus fí£s em todos os cantos do mundo, todos os dias, pode ser cansativo também, certo?

PC: Eu ní£o preciso estar on-line todos os dias e ní£o estou. Vocíª ní£o tem que escrever um livro a cada dia a fim de se considerar um escritor, ní£o é? Eu uso o twitter e posto no Facebook quando quero.

WaS: Vocíª tem vontade de salvar o mundo através das redes sociais?

PC: Eu ní£o quero salvar o mundo, eu meramente construo algumas pontes. E atualmente ní£o sou o único. O novo presidente iraniano abriu sua conta própria no Twitter (ou teve alguém para fazer isso por ele) e escreveu: “Feliz ano novo, meus amigos judeus”. Uma pequena mudaní§a paradigmática, que ní£o deve passar despercebida.

WaS: O que vocíª diz a seus colegas escritores que consideram Blogs e Twitter uma perda de tempo?
PC: Francamente, eu ní£o entendo a recusa. As redes sociais permitem que vocíª experimente novas formas de escrita. Eu escrevo de uma forma diferente para um blog, um romance, tweet ou em um post no Facebook. Nas redes sociais, posso discutir temas que meus leitores ou eu consideramos importantes. Isso ní£o significa que todos esses posts tenha que transformar em um livro. Mas através dessas redes posso chegar a uma comunidade gigantesca. Pessoas que ní£o ví£o mais a muitas livrarias e sí£o pouco interessadas em livros. Eles pensam que livros sí£o chatos. Minha experiíªncia é a seguinte: se eu publicar textos na internet, posso interessa-los em os meus livros. Ní£o devemos demonizar essas novas formas de comunicaí§í£o.
Também acho desconcertante quando os meus colegas escrevem: “a internet mata literatura” e em seguida publicam esses textos online. Eles escrevem na internet para reclamar da internet. Isso é como ser casado e só falar com sua esposa a fim de reclamar dela. Isso ní£o funciona.

WaS: Vocíª recentemente chocou o mundo editorial com um experimento altamente incomum. Em seu site incentiva usuários a baixar vários formatos e traduí§íµes de seus próprios livros. Gratuitamente. No entanto, as vendas de seus livros impressos continuam a aumentar apesar disso ou por causa desses downloads gratuitos, o que causa curiosidade entre a indústria editorial que está convenientemente ignorada. Por que ninguém lhe imitou ainda?

PC: Eu ní£o tenho resposta para isso. Eu fico me repetindo: se vocíª é um verdadeiro artista, entí£o o seu principal objetivo é ser notado.

WaS: Na verdade, vocíª já era um autor best-seller antes mesmo da chegada de downloads – que acabou sendo uma ferramenta de marketing interessante para impulsionar ainda mais suas vendas.
PC: Isso é o que eu continuo ouvindo: Paulo Coelho pode se dar ao luxo de permitir downloads gratuitos de seus livros, porque ele já é famoso. Eu sempre discordo: “eu sou quem eu sou hoje porque sempre tomo riscos e porque estou aberto a novas ideias”. Muitos colegas dizem: “eu ní£o dou os meus livros gratuitamente na internet”. O que já mostra que eles ní£o entendem o núcleo do mundo digital – que compartilhar termina somando ao invés de dividir.  Ní£o consigo explicar por que meus livros impressos vendem melhor hoje do que antes dos meus compartilhamentos, mas o que parece ser o caso é que a maioria dos leitores que baixa o primeiro livro de graí§a, depois sentem certa obrigaí§í£o de comprar o livro impresso. Pelo menos os jovens escritores ní£o parecem pessimistas com as redes sociais. Muitos jovens escritores brasileiros abraí§am essas oportunidades. Para eles sou um pouco de modelo. Eles até inventaram um bom apelido para mim: me chamam de Mago dos Nerds.

WaS : Isso é um elogio?
PC: Eu acredito realmente que sim.