Culpar os outros é fácil

Hoje sou surpreendido com uma matéria no Valor Economico, que coloca em Luis Ruffato toda a culpa pelo fiasco que foi Frankfurt. O injusto tí­tulo é “O efeito Luis Ruffato nas letras”. Como o portal é fechado, aqui vai um trecho

Seja pelo alto orí§amento, pela seleí§í£o dos 70 escritores que faziam parte da delegaí§í£o oficial, pela ausíªncia-presení§a de Paulo Coelho ou pelo politizado e franco discurso de abertura que proferiu Luiz Ruffato, as crí­ticas marcaram a presení§a brasileira, pelo menos no que diz respeito í  imprensa nacional e também í  alemí£. O já batizado “Efeito Ruffato” pode ser traduzido nas palavras que o diretor da feira, Juergen Boos, laní§ou durante uma coletiva de imprensa: “A participaí§í£o brasileira destruiu a imagem que se fazia aqui na Alemanha de um paí­s colorido no qual ninguém trabalha, que é como 90% dos alemí£es viam o Brasil”.
Tantos poréns í  participaí§í£o brasileira em Frankfurt – e aí­ aparece outro desdobramento do efeito Ruffato – parece ter provocado medo a mais crí­ticas e, portanto, certa retraí§í£o que ameaí§a as novas homenagens que víªm aí­. A 50ª Feira do Livro Infantil de Bolonha (24 a 27 de marí§o) é o primeiro exemplo, com um orí§amento inicialmente de R$ 2,5 milhíµes anunciado pela Biblioteca Nacional para as atividades do Brasil, que foi reduzido a R$ 1,3 milhí£o e agora segue indefinido.

Isso é um absurdo. Nao estava lá, mas uma coisa sei: o discurso de Ruffato, muito bem feito, nao teve absolutamente nenhuma repercussí£o fora do Brasil. Alias, nenhum discurso de abertura da Feira de Frankfurt jamais teve – o interesse é zero. Sei disso porque em 2008 fui um dos convidados para a entrevista coletiva de abertura, e meus comentários tiveram repercussí£o apenas na Turquia, que era o paí­s homenageado.

Coloquemos os pingos nos “ii”: Por que eu me recusei a ir í  Feira?
Aqui está a razí£o: “Porque recusei o convite do Ministério da Cultura”
E, sem querer dar uma de profeta, acabei tomando uma das decisíµes mais acertadas de meu 2013.

O que listei foi o que fez com que a presení§a do Brasil ní£o tivesse nenhuma repercussí£o: falta de representatividade da delegaí§í£o convidada.
Hoje o ufanismo diz que “existem agora mais de 200 tí­tulos traduzidos para o alemí£o”, mas onde estí£o estes livros?
Em recente viagem í  Alemanha, NENHUMA das livrarias que visitei os tem em estoque.
Acompanhei tudo que saiu sobre a Feira durante o mes de outubro, e além da doení§a de nossos queridos Ziraldo e Cony, até mesmo a imprensa brasileira se esforí§ava para descobrir notí­cias inexistentes.
Pobres dos escritores que passaram o ano inteiro esperando por este momento, e que nem em jornais brasileiros tiveram seus nomes mencionados.

A imagem que saia nos poucos jornais estrangeiros que publicaram algo a respeito da presení§a brasileira era de gente deitada em uma rede, lendo um livro. Pode?

De quem é a culpa?
A curadoria listou 20 escritores representativos e outros 50 que praticamente ninguém tinha ouvido falar – uma visí£o sem visí£o, ultrapassada, regida pelas leis da pseudo-intelectualidade, totalmente obscurantista. A literatura brasileira ní£o estava representada ali. E seguramente a culpa NíƒO é de Luis Ruffato, que – pelo que li no jornal O Globo na semana passada – terminou com medo de ser agredido por outros participantes brasileiros.
(Nota: ní£o conheí§o Manuel da Costa Pinto, o curador da feira e crí­tico da Folha de Sí£o Paulo. O vi apenas uma vez, durante uma entrevista que dei para o progrma “Roda Viva”. Ní£o tenho absolutamente nada contra a pessoa, mas questiono seus critérios, assim como ele tem o direito de questionar meus critérios literários)

Ou seja: o Brasil perdeu uma excelente oportunidade de mostrar a forí§a de sua literatura jovem, diní¢mica, que atrai leitores para as livrarias.
O autor Nassim Nicholas Taleb, em seu livro “Black Swan”, usa um termo muito próprio: a falácia da narrativa. As pessoas desenvolvem toda uma teoria, comeí§am a repetir umas as outras a mesma história, terminam se convencendo que estí£o certas, e assim vivem felizes por algum tempo até que essa narrativa, totalmente falsa, cai por terra quando a teoria é aplicada.

A presení§a do Brasil na Feira de Frankfurt foi uma demonstraí§í£o clássica desta “falácia da narrativa”. Deu no que deu, e custou 19 milhíµes de reais.