CONVERSA COM O MAGO (por Bruno Astuto)

POR QUE MATA HARI?
Escrevo normalmente de dois em dois anos, e este ano estava decidido a não escrever. Mas, de repente, senti uma presença, algo forte que me indicou coisas na minha vida em que sempre quis me aprofundar e nunca me aprofundei, como é o caso da Mata Hari. Comecei a pesquisar sobre ela e descobri que era
uma mulher muito mais interessante que a imagem que temos dos filmes ou dos livros de história. E veio a coincidir que, no ano que vem, seu fuzilamento completará cem anos.

ESCRITORES DE ROMANCES HISTÓRICOS TENDEM A REDIMIR SEUS PERSONAGENS. COMO FOI O PROCESSO DE INCORPORAR MATA HARI PARA ESCREVER O LIVRO EM PRIMEIRA PESSOA, SEM EXIMI–LA DE SUAS CULPAS?
Eu sempre desperto meu lado feminino quando escrevo e, no caso de Mata Hari,foi uma catarse. Ela era o que era: fria, pragmática, manipulou os homens de forma magistral. Por isso não tentei redimi-la. Ela sabia de seu poder, de sua sexualidade, de sua sensualidade e usou a inteligência para chegar aonde queria.

MATA HARI ERA UMA FASHIONISTA INVETERADA. VOCÊ, POR OUTRO LADO, FEZ SUA PRÓPRIA MODA, VESTINDO-SE SEMPRE DE PRETO…

Ela era uma gastadora compulsiva, o que mais amava na vida era a moda. Eu me visto de preto porque tenho uma preguiça fora do comum de pensar em que roupa vou usar. É uma das minhas falhas, reconheço. Mas sei apreciar uma pessoa bem-vestida, uma pessoa com classe, o que não tem nada a ver com grife.

ONDE O MAGO ENTROU EM CENA EM A ESPIÃ? RECEBEU ALGUM SINAL AO ESCREVER O LIVRO?
Numa tarde, depois de terminar o livro, eu estava deitado e, de repente, ouvi Mata Hari falar comigo. Ela me chamou. Minha primeira reação foi: “Tô fora, não vou publicar mais. O que ela quer comigo?”.
Mas, depois, refleti sobre essa mulher que foi acusada injustamente, baseado em documentos, testemunhos e cartas que me mostraram que não havia prova concreta nenhuma de sua traição à França. Existem muitas pessoas inocentes que pagam até hoje por crimes que não cometeram, e Mata Hari paga por essa fama injusta há cem anos.

O LIVRO TEM A VER COM A ATUAL MOBILIZAÇÃO FEMININA CONTRA A CULTURA DO ASSÉDIO?

Tenho acompanhado muito esse movimento, não só no Brasil, onde o machismo é um horror, mas no mundo inteiro. Eu sou um homem, mas também sou uma mulher, pois assim me sinto quando escrevo. O livro toca nessa questão porque mostra como uma mulher pode ser insultada, destruída e aterrorizada quando ela exerce sua liberdade. Mata Hari não seria fuzilada hoje, mas certamente seria desmoralizada,o que pode ser às vezes pior que a morte.

(publicado originalmente na edição de Agosto da Revista VOGUE. “A Espiã” estará em todas as livrarias brasileiras e portuguesas dia 6 de setembro)