15 de Outubro 1917, Cela 12, Prisão de Saint-Lazare (Paris)

Estimado Dr. Clunet,

Não sei o que irá acontecer no final desta semana. Sempre fui uma mulher otimista, mas o tempo está me deixando amarga, solitária e triste.
Se tudo correr como espero, o senhor jamais receberá esta carta. Terei sido perdoada. Afinal de contas, minha vida foi feita cultivando amigos influentes. Eu a guardarei para que, um dia, minha única filha possa lê-la para descobrir quem foi sua mãe.
Mas se estiver errada, não tenho muita esperança de que estas páginas, que consumiram minha última semana de vida na face da Terra, sejam guardadas. Sempre fui uma mulher realista e sei que, para um advogado, quando um caso está encerrado ele parte para o próximo sem olhar para trás.
Imagino o que acontecerá agora; o senhor é um homem ocupadíssimo, que ganhou notoriedade defendendo uma criminosa de guerra. Terá muita gente à sua porta implorando por seus serviços; mesmo derrotado, conseguiu uma imensa publicidade. Encontrará jornalistas interessados em saber a sua versão dos fatos, frequentará os restaurantes mais caros da cidade e será olhado com respeito e ciúme pelos seus confrades. Sabe que nunca houve uma prova concreta contra mim – apenas manipulações de documentos –, mas nunca poderá admitir em público que deixou morrer uma inocente.

Inocente? Talvez esta não seja a palavra exata. Nunca fui inocente, desde que pisei nesta cidade que tanto amo. Achei que podia manipular os que queriam os segredos de estado, achei que alemães, franceses, ingleses, espanhóis jamais resistiriam a quem sou – e terminei eu sendo a manipulada. Escapei de crimes que cometi, sendo que o maior deles foi ser uma mulher emancipada e independente em um mundo governado por homens. Fui condenada por espionagem quando tudo que consegui de concreto foram fofocas nos salões da alta sociedade.
Sim, eu transformei estas fofocas em “segredos” porque queria dinheiro e poder. Mas todos os que hoje me acusam sabiam que não estava contando nada de novo.
Pena que ninguém jamais saberá disso. Estes envelopes encontrarão seu lugar certo – um arquivo empoeirado, cheio de outros processos, de onde talvez saiam apenas quando seu sucessor, ou o sucessor do seu sucessor, resolva abrir espaço e jogar fora os casos antigos.
A esta altura meu nome já terá sido esquecido; mas não é para ser lembrada que eu escrevo. O que tento é entender a mim mesma. Por quê? Como é que uma mulher que durante tantos anos conseguiu tudo o que queria, pode ser condenada à morte por tão pouco?
Neste momento, olho para minha vida e entendo que a memória é um rio que corre sempre para trás.

Memórias são cheias de caprichos, imagens de coisas que vivemos e que ainda podem nos sufocar com um pequeno detalhe, um ruído insignificante. Um cheiro de pão sendo feito sobe até a minha cela e me relembra dos dias em que caminhava livre pelos cafés; isso me destrói mais do que o medo da morte e da solidão em que me encontro.
Memórias trazem com ela um demônio chamado Melancolia; oh, demônio cruel do qual não consigo escapar. Ouvir uma prisioneira cantando, receber algumas poucas cartas de admiradores que nunca me trouxeram rosas e jasmins, lembrar de uma cena em determinada cidade, que na hora me passou completamente despercebida, e que agora é tudo que me resta deste ou daquele país que visitei.

As memórias sempre vencem; e, com elas, chegam demônios ainda mais pavorosos que a Melancolia: os remorsos; meus únicos companheiros nesta cela, exceto quando as irmãs resolvem entrar e conversar um pouco. Não falam sobre Deus nem me condenam por aquilo que a sociedade chama de “pecados da carne”. Geralmente dizem uma ou duas palavras e de minha boca jorram memórias, como se quisesse voltar no tempo, mergulhando neste rio que corre para trás.

Uma delas me perguntou:
– Se Deus lhe desse outra chance, faria tudo diferente?

Respondi que sim, mas na verdade eu não sei. Tudo que sei é que meu coração é hoje uma cidade fantasma, povoado por paixões, entusiasmo, solidão, vergonha, orgulho, traição, tristeza. E não consigo me desvencilhar de nada disso, mesmo quando sinto pena de mim mesma e choro em silêncio.
Sou uma mulher que nasceu na época errada e nada poderá corrigir isso. Não sei se o futuro se lembrará de mim mas, caso isso ocorra, que jamais me vejam como uma vítima, mas sim como alguém que deu passos com coragem e pagou sem medo o preço que precisava pagar.


(primeiro capítulo de “A Espiã”, de Paulo Coelho)