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	<title>Bruxa de Portobello</title>
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	<pubDate>Mon, 27 Aug 2007 13:49:17 +0000</pubDate>
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		<title>Espaço dos leitores da Bruxa de Portobello</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Sep 2006 09:18:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Coelho</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[A Bruxa de Portobello]]></category>

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		<description><![CDATA[Este espaço está dedicado aos leitores para discutirem o livro. Todas as críticas serão colocadas aqui, positivas ou negativas, e teremos que moderar apenas as que forem muito agressivas. Criticar e comentar é sadio, e seremos rigorosos, deixando espaço apenas para os que leram &#8220;A Bruxa de Portobello&#8221;. Para quem ainda não leu os primeiros [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="center"><em>Este espaço está dedicado aos leitores para discutirem o livro. Todas as críticas serão colocadas aqui, positivas ou negativas, e teremos que moderar apenas as que forem muito agressivas. Criticar e comentar é sadio, e seremos rigorosos, deixando espaço apenas para os que leram &#8220;A Bruxa de Portobello&#8221;. Para quem ainda não leu os primeiros capitulos, pode clicar na coluna à direita da tela. Entretanto, os comentários ali estar</em><em>ão</em><em> encerrados. </em></p>
<div align="center"><em>Um grande abraço, Paula Braconnot</em></div>
<div align="center"><small></p>
<div class="tags">tags technorati : <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Paulo%20Coelho">Paulo Coelho</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Paulo%20Coehlo">Paulo Coehlo</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/livros">livros</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Brasil">Brasil</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Athena">Athena</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Religião">Religião</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Feminino">Feminino</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Mulher">Mulher</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Vida">Vida</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Alquimista">Alquimista</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Alma">Alma</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Alma%20do%20Mundo">Alma do Mundo</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Bestsellers">Bestsellers</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Espiritualidade">Espiritualidade</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Espiritual">Espiritual</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Inspiração">Inspiração</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Literatura%20Contemporânea">Literatura Contemporânea</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Romance">Romance</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Novo">Novo</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/grande%20mãe">grande mãe</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Oriente">Oriente</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Médio">Médio</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/cigana">cigana</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Transilvânia">Transilvânia</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Líbano">Líbano</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/Romênia">Romênia</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/magia">magia</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/mistério">mistério</a> <a rel="tag" href="http://technorati.com/tag/oculto">oculto</a></div>
<p></small></div>
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		<title>Décimo Terceiro Capítulo</title>
		<link>http://paulocoelhoblog.com/bruxadeportobello/27.09.2006/decimo-terceiro-capitulo/</link>
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		<pubDate>Wed, 27 Sep 2006 10:02:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Coelho</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[A Bruxa de Portobello]]></category>

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		<description><![CDATA[Heron Ryan, jornalista
Durante toda aquela manhã de 1990, tudo que eu podia ver da janela no sexto andar daquele hotel era o prédio do governo. Acabavam de colocar em seu teto uma bandeira do país, indicando o local exato onde o ditador megalomaníaco havia fugido de helicóptero, para encontrar-se com a morte poucas horas depois, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Heron Ryan, jornalista</strong></p>
<p>Durante toda aquela manhã de 1990, tudo que eu podia ver da janela no sexto andar daquele hotel era o prédio do governo. Acabavam de colocar em seu teto uma bandeira do país, indicando o local exato onde o ditador megalomaníaco havia fugido de helicóptero, para encontrar-se com a morte poucas horas depois, nas mãos daqueles que havia oprimido por 22 anos. As casas antigas tinham sido arrasadas por Ceaucescu, no seu plano de fazer uma capital que se rivalizasse com Washington. Bucareste ostentava o título da cidade que sofrera a maior destruição fora de uma guerra ou de uma catástrofe natural.</p>
<p>No dia de minha chegada, ainda tentei caminhar um pouco por suas ruas com meu intérprete, mas não havia muita coisa além de miséria, desorientação, senso de que não havia nem futuro, nem passado, nem presente: as pessoas viviam em uma espécie de limbo, sem saber exatamente o que estava se passando em seu país e no resto do mundo. Dez anos mais tarde, quando voltei e vi o país inteiro ressurgindo das cinzas, entendi que o ser humano pode superar qualquer dificuldade — e o povo romeno era um exemplo disso.</p>
<p>Mas naquela manhã cinzenta, naquele cinzento hall de um hotel triste, tudo que me preocupava era saber se o intérprete conseguiria um carro e combustível suficiente para que eu pudesse fazer a pesquisa final do documentário para a BBC. Ele estava demorando, e comecei a encher-me de dúvidas: seria obrigado a voltar para a Inglaterra sem conseguir meu objetivo? Já havia investido uma quantidade significativa de dinheiro em contratos com historiadores, na elaboração do roteiro, na filmagem de algumas entrevistas — mas a televisão, antes de assinar o compromisso final, exigia que eu fosse até o tal castelo e saber em que estado se encontrava. A viagem que estava custando mais caro do que eu imaginara.</p>
<p>Tentei telefonar para minha namorada; disseram-me que para conseguir uma linha era necessário esperar quase uma hora. Meu intérprete poderia chegar a qualquer momento com o carro, não havia tempo a perder, resolvi não correr o risco.</p>
<p>Procurei ver se conseguia algum jornal em inglês, mas foi impossível. Para matar a ansiedade, comecei a reparar, da maneira mais discreta possível, nas pessoas que estavam ali tomando o seu chá, possivelmente alheias a tudo que havia se passado no ano anterior — as revoltas populares, os assassinatos a sangue-frio de civis em Timisoara, os tiroteios nas ruas entre o povo e o temido serviço secreto, que tentava desesperadamente manter o poder que lhe escapava das mãos. Notei um grupo de três americanos, uma mulher interessante, mas que não desgrudava os olhos de uma revista de moda, e uma mesa cheia de homens que conversavam em voz alta, mas cuja língua eu não conseguia identificar.</p>
<p>Ia levantar-me pela milésima vez, caminhar até a porta de entrada ver se o intérprete estava chegando, quando ela entrou. Devia ter pouco mais de vinte anos <em>(N.R.: Athena tinha 23 anos quando foi visitar a Romênia)</em>. Sentou-se, pediu algo para o café-da-manhã, e vi que falava inglês. Nenhum dos homens presentes pareceu notar sua chegada, mas a mulher interrompeu a leitura da revista de moda.</p>
<p>Talvez por causa da minha ansiedade, ou do lugar, que estava me fazendo entrar em depressão, eu tomei coragem e me aproximei.</p>
<p>— Desculpe-me, não costumo fazer isso. Acho que o café-da-manhã é a refeição mais íntima do dia.</p>
<p>Ela sorriu, disse seu nome, e eu imediatamente me coloquei em guarda. Tinha sido muito fácil — podia ser uma prostituta. Mas seu inglês era perfeito, e estava discretamente vestida. Resolvi não perguntar nada, e comecei a falar compulsivamente de mim, reparando que a mulher na mesa ao lado tinha deixado a revista e prestava atenção à nossa conversa.</p>
<p>— Sou um produtor independente, trabalho para a BBC de Londres, e neste momento tento conseguir uma maneira de ir para a Transilvânia&#8230;</p>
<p>Vi que seus olhos mudaram de brilho.</p>
<p>-&#8230; completar meu documentário a respeito do mito do vampiro.</p>
<p>Aguardei: o assunto sempre despertava curiosidade nas pessoas, mas ela perdeu o interesse assim que mencionei o motivo de minha visita.</p>
<p>— Basta tomar um ônibus — respondeu. — Embora não creia que vá encontrar o que procura. Se quiser saber mais sobre Drácula, leia o livro. O autor nunca esteve nesta região.</p>
<p>— E você, conhece a Transilvânia?</p>
<p>— Não sei.</p>
<p>Aquilo não era uma resposta; talvez fosse um problema com a língua inglesa, apesar do seu sotaque britânico.</p>
<p>— Mas também estou indo para lá — continuou. — De ônibus, claro.</p>
<p>Por suas roupas, não parecia ser do tipo aventureira, que sai pelo mundo visitando lugares exóticos. A teoria da prostituta voltou; talvez estivesse procurando aproximar-se.</p>
<p>— Não quer uma carona?</p>
<p>— Já comprei minha passagem.</p>
<p>Eu insisti, achando que aquela primeira recusa fazia parte do jogo. Mas ela tornou a negar, dizendo que precisava fazer a viagem sozinha. Perguntei de onde era, e notei uma grande hesitação, antes de me responder:</p>
<p>— Da Transilvânia, já disse.</p>
<p>— Não disse exatamente isso. Mas, se for o caso, poderia me ajudar a fazer as locações para o filme e&#8230;</p>
<p>O meu inconsciente dizia que eu devia explorar o terreno um pouco mais, ainda estava com a idéia da prostituta na cabeça, e gostaria muito, muitíssimo, que ela me acompanhasse. Com palavras educadas, ela recusou minha oferta. A outra mulher entrou na conversa como se resolvesse proteger a moça, eu achei que estava sendo inconveniente, e resolvi me afastar.</p>
<p>O intérprete chegou pouco depois, esbaforido, dizendo que tinha arranjado todo o necessário, mas que iria custar um pouco mais caro (eu já esperava). Subi para meu quarto, peguei a mala, que já estava arrumada, entrei em um carro russo caindo aos pedaços, atravessei as largas avenidas quase sem trânsito, e notei que estava carregando minha pequena câmera fotográfica, meus pertences, minhas preocupações, garrafas de água mineral, sanduíches, e a imagem de alguém que insistia em não sair da minha cabeça.</p>
<p>Nos dias que se seguiram, ao mesmo tempo que eu procurava construir um roteiro sobre o Drácula histórico, e entrevistava — sem sucesso, como previsto — camponeses e intelectuais a respeito do mito do vampiro, ia me dando conta que não estava mais procurando apenas fazer um documentário para a televisão inglesa. Eu gostaria de encontrar de novo aquela moça arrogante, antipática, auto-suficiente, que tinha visto em um café, num hotel de Bucareste, e que naquele momento devia estar ali, perto de mim; sobre a qual eu não sabia absolutamente nada além do seu nome, mas que, como o mito do vampiro, parecia sugar toda a minha energia em sua direção.</p>
<p>Um absurdo, uma coisa sem sentido, algo inaceitável para o meu mundo, e para o mundo daqueles que conviviam comigo.</p>
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		<title>Décimo Segundo Capítulo</title>
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		<pubDate>Sat, 23 Sep 2006 10:21:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Coelho</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[A Bruxa de Portobello]]></category>

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		<description><![CDATA[Samira R. Khalil, mãe de Athena
Foi como se todas as suas conquistas profissionais, sua capacidade de ganhar dinheiro, sua alegria com o novo amor, seu contentamento quando brincava com meu neto, tudo isso tivesse sido jogado para um segundo plano. Eu fiquei simplesmente aterrorizada quando Sherine me comunicou a decisão de ir em busca da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Samira R. Khalil, mãe de Athena</strong></p>
<p>Foi como se todas as suas conquistas profissionais, sua capacidade de ganhar dinheiro, sua alegria com o novo amor, seu contentamento quando brincava com meu neto, tudo isso tivesse sido jogado para um segundo plano. Eu fiquei simplesmente aterrorizada quando Sherine me comunicou a decisão de ir em busca da sua mãe de sangue.</p>
<p>No início, é claro, consolava-me a idéia de que já não existia mais o centro de adoção, as fichas tivessem sido perdidas, os funcionários se mostrassem implacáveis, o governo tinha acabado de cair e era impossível viajar, ou o ventre que a trouxe a esta terra já não estivesse mais neste mundo. Mas foi um consolo momentâneo: minha filha era capaz de tudo, e conseguia superar situações que pareciam impossíveis.</p>
<p>Até aquele momento, o assunto era um tabu na família. Sherine sabia que fora adotada, já que o psiquiatra em Beirute me aconselhara a contar logo que tivesse suficiente idade para compreender. Mas nunca demonstrou curiosidade em saber de que região viera — seu lar tinha sido Beirute, quando ainda era um lar para todos nós.</p>
<p>Como o filho adotado de uma amiga minha terminou se suicidando quando ganhou uma irmã biológica — e ele tinha apenas 16 anos! —, nós evitamos ampliar nossa família, fizemos todos os sacrifícios necessários para que entendesse que era a única razão de minhas alegrias e minhas tristezas, dos meus amores e das minhas esperanças. Mesmo assim, parecia que nada disso contava; meu Deus, como os filhos podem ser tão ingratos!</p>
<p>Conhecendo minha filha, sabia que não adiantava argumentar nada disso com ela. Eu e meu marido passamos uma semana sem dormir, e todas as manhãs, todas as tardes, éramos bombardeados com a mesma pergunta: em que cidade da Romênia eu nasci? Para agravar a situação, Viorel chorava, porque parecia estar entendendo tudo que acontecia.</p>
<p>Resolvi consultar de novo um psiquiatra. Perguntei por que uma moça que tinha tudo na vida estava sempre tão insatisfeita.</p>
<p>— Todos nós queremos saber de onde viemos — disse ele. — Essa é a questão fundamental do ser humano no plano filosófico. No caso de sua filha, acho perfeitamente justo que procure saber suas origens. A senhora não teria esta curiosidade?</p>
<p>Não, eu não teria. Muito pelo contrário, acharia um perigo ir em busca de alguém que me recusou e me rejeitou, quando ainda não tinha forças para sobreviver.</p>
<p>Mas o psiquiatra insistiu:</p>
<p>— Ao invés de entrar em confronto com ela, procure ajudá-la. Talvez, vendo que isso não é um problema para a senhora, ela desista. O ano que passou distante de todos os seus amigos deve ter criado uma carência emocional, que agora ela está procurando compensar através de provocações sem importância. Apenas para ter certeza que é amada.</p>
<p>Teria sido melhor que Sherine tivesse ido, ela mesma, ao psiquiatra: assim compreenderia as razões do seu comportamento.</p>
<p>— Demonstre confiança, não veja nisso uma ameaça. E se no final ela realmente quiser ir adiante, resta apenas dar os elementos que pede. Pelo que entendo, ela sempre  foi uma menina problemática; quem sabe sairá mais fortalecida através desta busca.</p>
<p>Perguntei se o psiquiatra tinha filhos. Ele disse que não, e logo entendi que não era a pessoa indicada para me aconselhar.</p>
<p>Naquela noite, quando estávamos diante da televisão, Sherine voltou ao assunto:</p>
<p>— O que estão assistindo?</p>
<p>— O noticiário.</p>
<p>— Para quê?</p>
<p>— Para saber as novidades do Líbano — respondeu meu marido.</p>
<p>Eu percebi a armadilha, mas já era tarde. Sherine aproveitou-se imediatamente da situação.</p>
<p>— Enfim, vocês também estão curiosos para saber o que está acontecendo na terra em que nasceram. Estão bem estabelecidos na Inglaterra, têm amigos, papai ganha muito dinheiro aqui, vivem em segurança. Mesmo assim, compram jornais libaneses. Mudam de canal até que surja alguma notícia relacionada com Beirute. Imaginam o futuro como se ele fosse o passado, sem se dar conta que esta guerra não acaba nunca.</p>
<p>“Ou seja: se não estão em contato com suas origens, sentem que perderam o contato com o mundo. Custa entender o que estou sentindo?”</p>
<p>— Você é nossa filha.</p>
<p>— Com muito orgulho. E serei para sempre a filha de vocês. Por favor, não tenham dúvidas de meu amor e minha gratidão por tudo que fizeram; eu não estou pedindo nada além de colocar meus pés no verdadeiro lugar onde nasci. Talvez perguntar à minha mãe de sangue por que me abandonou, ou talvez deixar o assunto para lá, quando olhar nos seus olhos. Se não tentar fazer isso, vou me achar covarde, e não poderei jamais entender os espaços em branco.</p>
<p>— Os espaços em branco?</p>
<p>— Aprendi caligrafia enquanto estava em Dubai. Danço sempre que posso. Mas a música só existe porque existem as pausas. As frases só existem porque existem os espaços em branco. Quando estou fazendo algo, me sinto completa; mas ninguém pode viver em atividade durante as 24 horas do dia. No momento em que paro, sinto que algo está faltando.</p>
<p>“Vocês disseram mais de uma vez que sou uma pessoa inquieta por natureza. Mas não escolhi esta maneira de viver: gostaria de poder estar aqui, tranqüila, também assistindo televisão. É impossível: minha cabeça não pára. Às vezes penso que vou enlouquecer, preciso estar sempre dançando, escrevendo, vendendo terrenos, cuidando de Viorel, lendo qualquer coisa que me cai adiante. Acham normal?”</p>
<p>— Talvez seja seu temperamento — disse meu marido.</p>
<p>A conversa terminou ali, da maneira que sempre terminava: Viorel chorando, Sherine fechando-se em seu mutismo, e eu certa de que os filhos nunca reconhecem o que os pais fazem por eles. Entretanto, durante o café-da-manhã no dia seguinte, foi meu marido quem puxou o assunto:</p>
<p>— Há algum tempo, quando você estava no Oriente Médio, eu tentei ver as condições de voltar para casa. Fui até a rua onde vivemos; a casa não existe mais, embora o país esteja sendo reconstruído, mesmo com a ocupação estrangeira e as invasões constantes. Experimentei uma sensação de euforia; quem sabe era o momento de recomeçar tudo de novo? E foi justamente esta palavra, “recomeçar”, que me trouxe de volta à realidade. Eu já passei do tempo onde podia me dar a esse luxo; hoje em dia, quero continuar o que estou fazendo, não preciso de novas aventuras.</p>
<p>“Procurei as pessoas que costumava encontrar para beber uns copos de uísque no final da tarde. A maioria não está mais ali, as que ficaram vivem se queixando da constante sensação de insegurança. Caminhei pelos lugares onde passeava, e me senti um estranho, como se nada daquilo me pertencesse mais. O pior de tudo é que o sonho de retornar um dia ia desaparecendo à medida que eu me encontrava com a cidade onde nasci.</p>
<p>“Mesmo assim, foi necessário. As canções do exílio ainda continuam em meu coração, mas sei que não tornarei nunca mais a viver no Líbano. De alguma maneira, os dias passados em Beirute me ajudaram a entender melhor o lugar onde estou agora, e valorizar cada segundo que passo em Londres.”</p>
<p>— O que você está querendo me dizer, papai?</p>
<p>— Que você está certa. Talvez seja melhor mesmo entender estes espaços brancos. Podemos ficar com Viorel enquanto estiver viajando.</p>
<p>Ele foi até o quarto, e voltou com uma pasta amarelada. Eram os papéis de adoção — que estendeu para Sherine. Deu-lhe um beijo, e disse que já era hora de partir para o trabalho.</p>
<p><em>Próximo e último texto: 27.09.06 </em></p>
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		<title>Décimo Primeiro Capítulo</title>
		<link>http://paulocoelhoblog.com/bruxadeportobello/18.09.2006/decimo-primeiro-capitulo/</link>
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		<pubDate>Mon, 18 Sep 2006 10:42:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Coelho</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[A Bruxa de Portobello]]></category>

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		<description><![CDATA[Nabil Alaihi, idade desconhecida, beduíno
Fico muito contente em saber que Athena tinha uma foto minha no lugar de honra de seu apartamento, mas não creio que o que lhe ensinei tenha qualquer utilidade. Ela veio até aqui, no meio do deserto, trazendo pelas mãos uma criança de três anos. Abriu sua bolsa, retirou um radiogravador, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Nabil Alaihi, idade desconhecida, beduíno</strong></p>
<p>Fico muito contente em saber que Athena tinha uma foto minha no lugar de honra de seu apartamento, mas não creio que o que lhe ensinei tenha qualquer utilidade. Ela veio até aqui, no meio do deserto, trazendo pelas mãos uma criança de três anos. Abriu sua bolsa, retirou um radiogravador, e sentou-se diante da minha tenda. Sei que pessoas na cidade costumavam indicar meu nome para estrangeiros que gostariam de provar a cozinha local, e logo disse que ainda era muito cedo para jantar.</p>
<p>— Vim por outra razão — disse a mulher. — Soube através de seu sobrinho Hamid, cliente do banco onde trabalho, que o senhor é um sábio.</p>
<p>— Hamid é apenas um jovem tolo, que embora diga que sou sábio, jamais seguiu meus conselhos. Sábio foi Mohammed, o Profeta, que a bênção de Deus esteja com ele.</p>
<p>Apontei para seu carro.</p>
<p>— Você não devia dirigir sozinha em um terreno a que não está acostumada, e tampouco se aventurar por aqui sem um guia.</p>
<p>Em vez de me responder, ela ligou o aparelho. Em seguida, tudo que pude ver era aquela mulher flutuando nas dunas, a criança olhando espantada e alegre, e o som que parecia inundar o deserto inteiro. Quando terminou, perguntou se eu havia gostado.</p>
<p>Disse que sim. Em nossa religião existe uma seita que dança para encontrar-se com Allah — louvado seja Seu nome! <em>(N.R.: a seita em questão é o sufismo). </em></p>
<p>— Pois bem — continuou a mulher, apresentando-se como Athena. — Desde criança sinto que devo aproximar-me de Deus, mas a vida termina por me afastar Dele. A música foi uma das maneiras que encontrei; não é o bastante. Sempre que danço, vejo uma luz, e esta luz agora me pede que vá mais adiante. Não posso continuar aprendendo apenas comigo mesmo, preciso que alguém me ensine.</p>
<p>— Qualquer coisa é bastante — respondi. — Porque Allah, o misericordioso, está sempre próximo. Tenha uma vida digna, isso basta.</p>
<p>Mas a mulher parecia não estar convencida. Eu disse que estava ocupado, precisava preparar o jantar para os poucos turistas que deviam aparecer. Ela respondeu que esperaria o quanto fosse necessário.</p>
<p>— E a criança?</p>
<p>— Não se preocupe.</p>
<p>Enquanto tomava as providências de sempre, observava a mulher e seu filho, os dois pareciam ter a mesma idade; corriam pelo deserto, riam, faziam batalhas de areia, atiravam-se no chão e rolavam pelas dunas. Chegou o guia com três turistas alemães, que comeram, pediram cerveja, precisei explicar que minha religião me impedia de beber ou servir bebidas alcoólicas. Convidei a mulher e seu filho para jantarem, e um dos alemães logo ficou bastante animado com a inesperada presença feminina. Comentou que estava pensando em comprar terrenos, tinha uma grande fortuna acumulada, e acreditava no futuro da região.</p>
<p>— Ótimo — foi a resposta dela. — Também acredito.</p>
<p>— Será que não seria bom jantarmos em outro lugar, para poder discutir melhor a possibilidade de&#8230;</p>
<p>— Não — ela cortou, estendendo-lhe um cartão. — Se desejar, pode procurar minha agência.</p>
<p>Quando os turistas foram embora, nos sentamos na frente da tenda. O menino logo dormiu em seu colo; peguei cobertores para todos nós, e ficamos olhando o céu estrelado. Finalmente ela quebrou o silêncio.</p>
<p>— Por que Hamid diz que o senhor é sábio?</p>
<p>— Talvez porque tenha mais paciência que ele. Houve uma época em que tentei lhe ensinar minha arte, mas Hamid parecia mais preocupado em ganhar dinheiro. Hoje deve estar convencido que é mais sábio que eu; tem um apartamento, um barco, enquanto eu estou aqui no meio do deserto, servindo aos poucos turistas que aparecem. Não entende que estou satisfeito com o que faço.</p>
<p>— Entende perfeitamente, porque fala a todos do senhor, com muito respeito. E o que significa sua “arte”?</p>
<p>— Vi hoje você dançando. Eu faço a mesma coisa, só que, em vez de mover meu corpo, são as letras que dançam.</p>
<p>Ela pareceu surpresa.</p>
<p>— Minha maneira de me aproximar de Allah — que seu nome seja louvado! — foi através da caligrafia, a busca do sentido perfeito para cada palavra. Uma simples letra requer que coloquemos nela toda a força que contém, como se estivéssemos esculpindo o seu significado. Assim, quando os textos sagrados são escritos, ali está a alma do homem que serviu de instrumento para divulgá-los ao mundo.</p>
<p>“E não apenas os textos sagrados, mas cada coisa que colocamos no papel. Porque a mão que traça as linhas reflete a alma de quem as escreve.”</p>
<p>— Você me ensinaria o que sabe?</p>
<p>— Em primeiro lugar, não creio que uma pessoa tão cheia de energia tenha paciência para isso. Além do mais, não faz parte do seu mundo, onde as coisas são impressas — sem que pensem muito no que estão publicando, se me permite o comentário.</p>
<p>— Gostaria de tentar.</p>
<p>E durante mais de seis meses, aquela mulher que eu julgava agitada, exuberante, incapaz de ficar quieta por um só momento, passou a me visitar todas as sextas-feiras. O filho sentava-se em um canto, pegava alguns papéis e pincéis, e dedicava-se, também ele, a manifestar em seus desenhos aquilo que os céus assim determinavam.</p>
<p>Eu via seu esforço gigantesco para manter-se quieta, na postura adequada, e perguntava: “você não acha melhor procurar outra coisa para distrair-se?”. Ela respondia: “Preciso disso, preciso acalmar minha alma, e ainda não aprendi tudo que você pode me ensinar. A luz do Vértice me disse que eu devo seguir adiante”. Nunca perguntei o que era Vértice, não me interessava.</p>
<p>A primeira lição, e talvez a mais difícil, foi:</p>
<p>— Paciência!</p>
<p>Escrever não era apenas um ato de expressar um pensamento, mas de refletir sobre o significado de cada palavra. Juntos começamos a trabalhar em textos de um poeta árabe, já que não creio que o Alcorão fosse indicado para uma pessoa educada em outra fé. Eu ia ditando cada letra, e assim ela se concentrava no que estava fazendo, em vez de querer saber logo o significado da palavra, da frase, ou do verso.</p>
<p>— Certa vez, alguém me disse que a música tinha sido criada por Deus, e que o movimento rápido era necessário para que as pessoas entrassem em contato consigo mesmas — disse Athena em uma das tardes que passamos juntos. — Durante anos, vi que isso era verdade, e agora estou sendo forçada à coisa mais difícil do mundo, desacelerar meus passos. Por que a paciência é tão importante?</p>
<p>— Porque ela nos faz prestar atenção.</p>
<p>— Mas eu posso dançar obedecendo apenas a minha alma, que me obriga a concentrar-me em algo maior do que eu mesma, e me permite entrar em contato com Deus — se é que posso utilizar esta palavra. Isso já me ajudou a transformar muitas coisas, inclusive meu trabalho. A alma não é mais importante?</p>
<p>— Claro. Entretanto, se sua alma conseguir comunicar-se com seu cérebro, poderá transformar mais coisas ainda.</p>
<p>Continuamos nosso trabalho juntos. Eu sabia que, em determinado momento, teria que dizer algo que ela talvez não estivesse pronta para escutar, de modo que procurei aproveitar cada minuto para ir preparando seu espírito. Expliquei que antes da palavra existe o pensamento. E, antes do pensamento, existe a centelha divina que o colocou ali. Tudo, absolutamente tudo nesta terra fazia sentido, e as menores coisas deviam ser levadas em consideração.</p>
<p>— Eduquei meu corpo para que pudesse manifestar por inteiro as sensações da minha alma — dizia ela.</p>
<p>— Agora eduque apenas seus dedos, de modo que eles possam manifestar por inteiro as sensações do seu corpo. Assim, sua imensa força estará concentrada. — O senhor é um mestre.</p>
<p>— O que é um mestre? Pois eu lhe respondo: não é aquele que ensina algo, mas aquele que inspira o aluno a dar o melhor de si para descobrir o que ele já sabe.</p>
<p>Pressenti que Athena já havia experimentado isso, embora ainda fosse muito jovem. Como a escrita revela a personalidade da pessoa, descobri que tinha consciência de que era amada, não apenas por seu filho, mas por sua família e eventualmente por um homem. Descobri também que tinha dons misteriosos, e procurei jamais demonstrar isso — já que estes dons podiam causar seu encontro com Deus, mas também sua perdição.</p>
<p>Não me limitava a adestrá-la na técnica; procurava também transmitir-lhe a filosofia dos calígrafos.</p>
<p>— A pena com que agora escreve estes versos é apenas um instrumento. Ela não tem consciência, segue o desejo daquele que a segura. E nisso se parece muito com aquilo que chamamos de “vida”. Muitas pessoas estão neste mundo apenas cumprindo um papel, sem entender que existe uma Mão Invisível que as guia.</p>
<p>“Neste momento, em suas mãos, no pincel que traça cada letra, estão todas as intenções de sua alma. Procure entender a importância disso.”</p>
<p>— Entendo, e vejo que é importante manter certa elegância. Porque o senhor exige que eu me sente em determinada posição, reverencie o material que vou utilizar, e só comece quando tiver feito isso.</p>
<p>Claro. Na medida em que respeitava o pincel, descobria que era necessário ter serenidade e elegância para aprender a escrever. E a serenidade vem do coração.</p>
<p>— A elegância não é uma coisa superficial, mas a maneira que o homem encontrou para honrar a vida e o trabalho. Por isso, quando você sentir que a postura a está incomodando, não pense que ela é falsa ou artificial: ela é verdadeira porque é difícil. Ela faz com que tanto o papel como a pena sintam-se orgulhosos por seu esforço. O papel deixa de ser uma superfície plana e incolor, e passa a ter a profundidade das coisas que ali são colocadas.</p>
<p>“A elegância é a postura mais adequada para que a escrita seja perfeita. Assim também é com a vida: quando o supérfluo é descartado, o ser humano descobre a simplicidade e a concentração: quanto mais simples e mais sóbria a postura, mais bela ela será, embora no início pareça desconfortável.”</p>
<p>De vez em quando, ela me comentava sobre seu trabalho. Dizia que estava entusiasmada com o que fazia, e que acabara de receber uma proposta de um poderoso emir. Ele fora ao banco para ver um amigo que era diretor (os emires jamais vão aos bancos para retirar dinheiro, têm muitos empregados para fazer isso), conversando com ela mencionou que estava procurando alguém para cuidar da venda de terrenos, e gostaria de saber se estava interessada.</p>
<p>Quem se interessaria por comprar terrenos no meio do deserto, ou em um porto que não estava no centro do mundo? Resolvi não comentar nada; olhando para trás, fico contente por ter ficado em silêncio.</p>
<p>Uma única vez falou do amor de um homem, embora sempre que turistas chegavam para jantar, e a encontravam ali, procurassem seduzi-la de alguma maneira. Normalmente Athena sequer se incomodava, até o dia em que um deles insinuou que conhecia seu namorado. Ela ficou pálida, e imediatamente olhou para o menino, que felizmente não estava prestando atenção à conversa.</p>
<p>— Conhece de onde?</p>
<p>— Estou brincando — disse o homem. — Queria apenas saber se estava livre.</p>
<p>Ela não respondeu nada, mas entendi que o homem que estava em sua vida não era o pai do garoto. Um dia chegou mais cedo que de costume. Disse que tinha deixado o emprego no banco, começara a vender terrenos, e assim teria mais tempo livre. Expliquei que não podia ensiná-la antes da hora marcada, tinha uma série de coisas para fazer.</p>
<p>— Posso juntar as duas coisas: movimento e quietude. Alegria e concentração.</p>
<p>Foi até o carro, pegou o gravador, e a partir daquele momento, Athena dançava no deserto antes de começar as aulas, enquanto a criança corria e sorria à sua volta. Quando se sentava para praticar caligrafia, sua mão estava mais segura do que normalmente.</p>
<p>— Existem dois tipos de letras — eu explicava. — A primeira é feita com precisão, mas sem alma. Neste caso, embora o calígrafo tenha um grande domínio da técnica, ele concentrou-se exclusivamente no ofício — e por causa disso não evoluiu, tornou-se repetitivo, não conseguiu crescer, e um dia irá deixar o exercício da escrita, porque acha que tudo se transformou em rotina.</p>
<p>“O segundo tipo é a letra feita com técnica, mas também com alma. Para isso, é necessário que a intenção de quem escreve esteja de acordo com a palavra; neste caso, os versos mais tristes deixam de ser revestidos de tragédia, e se transformam em simples fatos que estavam em nosso caminho.”</p>
<p>— O que você faz com os seus desenhos? — perguntou o menino, em árabe perfeito. Embora não estivesse entendendo nossa conversa, fazia o possível para participar do trabalho da mãe.</p>
<p>— Eu os vendo.</p>
<p>— Posso vender meus desenhos?</p>
<p>— Deve vender seus desenhos. Um dia vai ficar rico com isso, e ajudar sua mãe.</p>
<p>Ele ficou contente com meu comentário, e voltou para o que estava fazendo naquele momento: uma borboleta colorida.</p>
<p>— E que faço com os meus textos? — perguntou Athena.</p>
<p>— Você sabe o esforço que custou sentar-se na posição correta, acalmar sua alma, ter clara sua intenção, respeitar cada letra de cada palavra. Mas, por enquanto, continue apenas praticando.</p>
<p>“Depois de muito praticar, já não pensamos em todos os movimentos necessários: eles passam a fazer parte de nossa própria existência. Antes de chegar a este estado, entretanto, é preciso treinar, repetir. E, como se não bastasse, é preciso repetir e treinar.</p>
<p>“Observe um bom ferreiro trabalhando o aço. Para o olhar destreinado, ele está repetindo as mesmas marteladas.</p>
<p>“Mas quem conhece a arte da caligrafia, sabe que cada vez que ele levanta o martelo e o faz descer, a intensidade do golpe é diferente. A mão repete o mesmo gesto, mas, à medida que se aproxima do ferro, ela compreende se deve tocá-lo com mais dureza ou mais suavidade. Assim é com a repetição: embora pareça a mesma coisa, é sempre distinta.</p>
<p>“Vai chegar o momento em que não é mais preciso pensar no que se está fazendo. Você passa a ser a letra, a tinta, o papel, e a palavra.&#8221;</p>
<p>Este momento chegou quase um ano depois. A esta altura, Athena já era conhecida em Dubai, indicava clientes para jantar na minha tenda, e através deles pude entender que sua carreira ia muito bem: estava vendendo pedaços de deserto! Certa noite, precedido de um grande séquito, apareceu o emir em pessoa. Eu fiquei assustado; não estava preparado para aquilo, mas ele me tranqüilizou e me agradeceu o que estava fazendo por sua funcionária.</p>
<p>— É uma pessoa excelente, e atribui suas qualidades ao que está aprendendo com o senhor. Estou pensando em dar-lhe uma parte na sociedade. Talvez seja bom enviar meus vendedores para aprender caligrafia, principalmente agora que Athena deve sair de férias por um mês.</p>
<p>— Não iria adiantar nada — respondi. — Caligrafia é apenas uma das maneiras que Allah — louvado seja Seu Nome! — colocou diante de nós. Ensina objetividade e paciência, respeito e elegância, mas podemos aprender tudo isso&#8230;</p>
<p>— &#8230; na dança — completou Athena, que estava perto.</p>
<p>— Ou vendendo imóveis — completei.</p>
<p>Quando todos saíram, quando o menino estendeu-se em um canto da tenda, os olhos quase se fechando de sono, eu trouxe o material de caligrafia e pedi que escrevesse alguma coisa. No meio da palavra, retirei a pena de sua mão. Era a hora de dizer o que precisava ser dito. Sugeri que caminhássemos um pouco pelo deserto.</p>
<p>— Você já aprendeu o que precisava — disse. — Sua caligrafia está cada vez mais pessoal, mais espontânea. Já não é apenas uma repetição da beleza, mas um gesto de criação pessoal. Você entendeu o que os grandes pintores entendem: para esquecer as regras, é preciso conhecê-las e respeitá-las.</p>
<p>“Já não precisa dos instrumentos que a fizeram aprender. Já não precisa do papel, da tinta, da pena, porque o caminho é mais importante que aquilo que a levou a caminhar. Certa vez você me contou que a pessoa que a ensinou a dançar ficava imaginando músicas em sua cabeça — e mesmo assim, era capaz de repetir os ritmos necessários e precisos.&#8221;</p>
<p>— Isso mesmo.</p>
<p>— Se as palavras estivessem todas unidas, elas não fariam sentido, ou complicariam muito o seu entendimento: é necessário que existam espaços.</p>
<p>Ela concordou com a cabeça.</p>
<p>— E apesar de você dominar as palavras, ainda não domina os espaços em branco. Sua mão, quando está concentrada, é perfeita. Quando salta de uma palavra para a outra, ela se perde.</p>
<p>— Como o senhor sabe isso?</p>
<p>— Tenho razão?</p>
<p>— Tem toda razão. Em algumas frações de segundo, antes de concentrar-me na próxima palavra, eu me perco. Coisas que eu não quero pensar insistem em dominar-me.</p>
<p>— E você sabe exatamente o que é.</p>
<p>Athena sabia, mas não disse nada, até voltarmos à tenda, e poder segurar o filho adormecido no colo. Seus olhos pareciam cheios de lágrimas, embora fizesse o possível para controlar-se.</p>
<p>— O emir disse que você iria tirar férias.</p>
<p>Ela abriu a porta do carro, colocou a chave na ignição, e deu a partida. Por alguns momentos, apenas o ruído do motor quebrava o silêncio do deserto.</p>
<p>— Sei o que o senhor está falando — disse ela afinal. — Quando escrevo, quando danço, sou guiada pela Mão que tudo criou. Quando olho Viorel dormindo, sei que ele sabe que é fruto de meu amor pelo pai dele, embora já não o veja há mais de um ano. Mas eu&#8230;</p>
<p>Ficou em silêncio de novo. O silêncio que era o espaço em branco entre as palavras.</p>
<p>— &#8230; mas eu não conheço a mão que me embalou pela primeira vez. A mão que me escreveu no livro deste mundo.</p>
<p>Apenas balancei a cabeça em sinal afirmativo.</p>
<p>— O senhor acha isso importante? — Nem sempre. Mas no seu caso, enquanto não tocar esta mão, não irá melhorar&#8230; digamos&#8230; sua caligrafia.</p>
<p>— Não creio que seja necessário descobrir quem jamais se deu ao trabalho de me amar.</p>
<p>Fechou a porta, sorriu, e arrancou com o carro. Apesar de suas palavras, eu sabia qual seria seu próximo passo.</p>
<p><em>Próximo texto: 23.09.06</em></p>
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		<title>Décimo Capítulo</title>
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		<pubDate>Wed, 13 Sep 2006 10:07:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Coelho</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[A Bruxa de Portobello]]></category>

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		<description><![CDATA[Peter Sherney, 47 anos, diretor-geral de uma filial do Bank of (eliminado) em Holland Park, Londres
Aceitei Athena apenas porque sua família era um dos nossos clientes mais importantes — afinal de contas, o mundo gira em torno dos interesses mútuos. Como era agitada demais, coloquei-a para trabalhar em um serviço burocrático, na doce esperança de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Peter Sherney, 47 anos, diretor-geral de uma filial do Bank of (eliminado) em Holland Park, Londres</strong></p>
<p>Aceitei Athena apenas porque sua família era um dos nossos clientes mais importantes — afinal de contas, o mundo gira em torno dos interesses mútuos. Como era agitada demais, coloquei-a para trabalhar em um serviço burocrático, na doce esperança de que terminasse por pedir demissão; desta maneira, eu poderia dizer ao seu pai que havia tentado ajudá-la, sem sucesso.</p>
<p>Minha experiência como diretor havia me ensinado a conhecer o estado de espírito das pessoas, mesmo que elas não digam nada. Haviam ensinado em um curso de gerenciamento: se você quiser livrar-se de alguém, faça tudo para que ele termine lhe faltando com o respeito, e assim poderá ser demitido por justa causa.</p>
<p>Fiz todo o possível para atingir meu objetivo com Athena; como ela não dependia deste dinheiro para sobreviver, ia terminar descobrindo que o esforço de acordar cedo, deixar o filho na casa da mãe, trabalhar o dia inteiro em um serviço repetitivo, voltar para pegar o filho, ir ao supermercado, cuidar da criança, fazê-la dormir, no dia seguinte tornar a gastar três horas em meios de transporte coletivo, tudo absolutamente desnecessário, já que havia outras maneiras mais interessantes de passar seus dias. Aos poucos estava cada vez mais irritadiça, e fiquei orgulhoso de minha estratégia: ia conseguir. Ela começou a reclamar do lugar onde vivia, dizendo que em seu apartamento o proprietário costumava colocar música altíssima durante a noite, e já não conseguia nem sequer dormir direito.</p>
<p>De repente, alguma coisa mudou. Primeiro apenas em Athena. E logo em toda a agência.</p>
<p>Como posso notar esta mudança? Bem, um grupo de pessoas que trabalha é sempre uma espécie de orquestra; um bom gerente é o maestro, e sabe qual instrumento está desafinado, qual transmite mais emoção, e qual simplesmente segue o resto do grupo. Athena parecia tocar seu instrumento sem o menor entusiasmo, sempre distante, jamais dividindo com seus companheiros as alegrias ou tristezas de sua vida pessoal, dando a entender que, quando saía do trabalho, o resto do tempo se resumia a cuidar do seu filho, e nada mais. Até que começou a parecer mais descansada, mais comunicativa, contando para quem quisesse ouvir que havia descoberto um processo de rejuvenescimento.</p>
<p>Claro que isso é uma palavra mágica: rejuvenescimento. Partindo de alguém com apenas 21 anos de idade, soa absolutamente fora de contexto — e, mesmo assim, as pessoas acreditaram, e começaram a pedir o segredo desta fórmula.</p>
<p>Sua eficiência aumentou — embora o serviço continuasse o mesmo. Seus colegas de trabalho, que antes se limitavam ao “bom dia” e “boa noite”, passaram a convidá-la para almoçar. Quando voltavam, pareciam satisfeitos, e a produtividade do departamento deu um gigantesco salto.</p>
<p>Sei que pessoas apaixonadas terminam por contagiar o meio em que vivem, deduzi imediatamente que Athena devia ter encontrado alguém muito importante para sua vida.</p>
<p>Perguntei, e ela concordou, acrescentando que jamais tinha saído com um cliente, mas neste caso foi impossível recusar o convite. Em uma situação normal, teria sido imediatamente despedida — as regras do banco eram claras, contatos pessoais estavam terminantemente proibidos. Mas, a esta altura, notara que o seu comportamento havia contagiado praticamente todo mundo; alguns de seus colegas começaram a se reunir com ela depois do trabalho, e, pelo que eu saiba, pelo menos dois ou três deles estiveram em sua casa.</p>
<p>Eu estava com uma situação muito perigosa nas mãos; a jovem estagiária, sem qualquer experiência anterior de trabalho, que antes era tímida e às vezes agressiva, tornara-se uma espécie de líder natural dos meus funcionários. Se a despedisse, achariam que foi por ciúme — e perderia o respeito deles. Se a mantivesse, corria o risco de em poucos meses perder o controle do grupo.</p>
<p>Resolvi aguardar um pouco; enquanto isso, a “energia” (eu detesto esta palavra, porque na verdade não quer dizer nada de concreto, a não ser que estejamos falando de eletricidade) da agência começou a melhorar. Os clientes pareciam mais satisfeitos, e começaram a recomendar outros. Os funcionários estavam alegres, e embora o serviço tivesse dobrado, eu não fui obrigado a contratar mais gente para o trabalho, já que todos davam conta de suas funções.</p>
<p>Um dia, recebi uma carta de meus superiores. Eles queriam que eu fosse até Barcelona, onde seria realizada uma convenção do grupo, para poder explicar o método administrativo que estava usando. Segundo eles, tinha conseguido aumentar o lucro sem crescer a despesa, e isso é tudo que interessa aos executivos — no mundo inteiro, diga-se de passagem.</p>
<p>Qual método?</p>
<p>Meu único mérito era saber onde tudo tinha começado, e resolvi chamar Athena ao meu escritório. Cumprimentei-a pela excelente produtividade, ela me agradeceu com um sorriso.</p>
<p>Dei um passo cuidadoso, já que não queria ser mal interpretado:</p>
<p>— E como vai seu namorado? Sempre achei que quem recebe amor, termina dando mais amor ainda. O que ele faz?</p>
<p>— Trabalha na Scotland Yard <em>(N.R.: departamento de investigação ligado à polícia metropolitana de Londres)</em>.</p>
<p>Preferi não entrar em maiores detalhes. Mas precisava continuar a conversa a qualquer custo, e não tinha muito tempo a perder.</p>
<p>— Notei uma grande mudança em você, e&#8230;</p>
<p>— Notou uma grande mudança na agência?</p>
<p>Como responder a uma questão dessas? De um lado, estaria lhe dando mais poder do que seria aconselhável, de outro lado, se não fosse direto, jamais teria as respostas que precisava.</p>
<p>— Sim, notei uma grande mudança. E estou pensando em promovê-la.</p>
<p>— Preciso viajar. Quero sair um pouco de Londres, conhecer novos horizontes.</p>
<p>Viajar? Agora que tudo estava dando certo em meu ambiente de trabalho, ela queria ir embora? Mas, pensando melhor, não era exatamente esta saída que eu estava precisando e desejando?</p>
<p>— Posso ajudar o banco se me der mais responsabilidades — continuou.</p>
<p>Entendido — e ela estava me dando uma excelente oportunidade. Como é que não havia pensado antes nisso? “Viajar” significava afastá-la, retomar minha liderança, sem ter que arcar com os custos de uma demissão ou de uma rebelião. Mas precisava refletir sobre o assunto, porque, antes de ajudar o banco, ela precisava me ajudar. Agora que meus chefes haviam notado o crescimento de nossa produtividade, eu sei que precisaria mantê-la, sob o risco de perder o prestígio e ficar em pior posição que antes. Às vezes entendo por que grande parte de meus companheiros não procuram fazer muita coisa para melhorar: se não conseguem, são chamados de incompetentes. Se conseguem, são obrigados a crescer sempre, e terminam seus dias tendo um enfarte do miocárdio.</p>
<p>Dei com cuidado o próximo passo: não é aconselhável assustar a pessoa antes que ela revele o segredo que precisamos saber; melhor fingir que concordamos com o que está pedindo.</p>
<p>— Tentarei fazer chegar seu pedido aos meus superiores. Por sinal, vou me encontrar com eles em Barcelona, e justamente por causa disso é que resolvi chamá-la. Estaria certo se dissesse que o nosso desempenho melhorou desde que, digamos, as pessoas passaram a ter um melhor relacionamento com você?</p>
<p>— Digamos&#8230; um melhor relacionamento com elas mesmas.</p>
<p>— Sim. Mas provocado por você – ou estou enganado?</p>
<p>— O senhor sabe que não está enganado.</p>
<p>— Andou lendo algum livro de gerenciamento que não conheço?</p>
<p>— Não leio este tipo de coisa. Mas gostaria que me prometesse que vai realmente considerar o que pedi.</p>
<p>Pensei em seu namorado da Scotland Yard; se prometesse e não cumprisse, estaria sujeito a uma represália? Será que ele havia lhe ensinado alguma tecnologia de ponta, que consegue obter resultados impossíveis?</p>
<p>— Posso contar absolutamente tudo, mesmo que o senhor não cumpra sua promessa. Mas não sei se terá algum resultado, se não fizer o que estou lhe ensinando.</p>
<p>— A tal “técnica de rejuvenescimento”?</p>
<p>— Isso mesmo.</p>
<p>— Será que não basta conhecer apenas em teoria?</p>
<p>— Talvez. Foi através de algumas folhas de papel que ela chegou até quem me ensinou.</p>
<p>Fiquei contente que não estivesse me forçando a tomar decisões que estão além do meu alcance e dos meus princípios. Mas, no fundo, devo confessar que também estava com um interesse pessoal nesta história, já que também sonhava com uma reciclagem de meu potencial. Prometi que faria o possível, e Athena começou a narrar uma longa e esotérica dança em busca de um tal Vértice (ou Eixo, agora não me lembro direito). À medida que íamos falando, eu procurava colocar de maneira objetiva suas reflexões alucinadas. Uma hora apenas não foi suficiente, de modo que pedi que voltasse no dia seguinte, e juntos preparamos o relatório para ser apresentado à diretoria do banco. Em determinado momento de nossa conversa, ela me disse, sorrindo:</p>
<p>— Não tenha receio de escrever algo muito próximo ao que estamos conversando. Penso que mesmo a diretoria de um banco é feita de gente como nós, de carne e osso, e deve estar interessadíssima em processos não convencionais.</p>
<p>Athena estava completamente enganada: na Inglaterra, as tradições falam sempre mais alto que as inovações. Mas o que custava arriscar um pouco, desde que não colocasse em perigo o meu trabalho? Já que a coisa me parecia completamente absurda, era preciso resumi-la e colocá-la de forma que todos pudessem entender. Bastava isso.</p>
<p>Antes de começar minha conferência em Barcelona, repeti a manhã inteira: o “meu” processo está dando resultado, e isso é tudo que interessa. Li alguns manuais, descobrindo que, para apresentar uma idéia nova com o máximo de impacto possível, é preciso também criar uma estrutura de palestra que provoque a audiência, de modo que a primeira coisa que disse para os executivos reunidos em um hotel de luxo foi uma frase de São Paulo: “Deus escondeu as coisas mais importantes dos sábios, porque eles não conseguem entender o que é simples, e resolveu revelá-las aos simples de coração” <em>(N. R.: impossível saber aqui se ele está se referindo a uma citação do evangelista Mateus (11, 25) onde diz “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos”. Ou a uma frase de Paulo (Cor 1, 27): “Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes”).</em></p>
<p>Quando disse isso, o auditório inteiro, que passara dois dias analisando gráficos e estatísticas, ficou em silêncio. Achei que tinha perdido meu emprego, mas resolvi continuar. Primeiro, porque havia pesquisado o tema, estava seguro do que dizia, e merecia o crédito. Segundo, porque, embora em determinados momentos eu fosse obrigado a omitir a influência gigantesca de Athena em todo o processo, eu tampouco estava mentindo:</p>
<p>— Descobri que, para motivar hoje em dia os funcionários, é preciso mais do que um bom treinamento em nossos centros extremamente qualificados. Todos nós temos nossa parte desconhecida, que, quando vem à tona, é capaz de produzir milagres.</p>
<p>“Todos nós trabalhamos por alguma razão: alimentar os filhos, ganhar dinheiro para sustentar-se, justificar sua vida, conseguir uma parcela de poder. Mas existem etapas aborrecidas durante este percurso, e o segredo consiste em transformar estas etapas em um encontro consigo mesmo, ou com algo mais elevado.</p>
<p>Por exemplo: nem sempre a busca da beleza está associada a alguma coisa prática, e mesmo assim a procuramos como se fosse a coisa mais importante do mundo. Os pássaros aprendem a cantar, o que não significa que isso irá ajudá-los a conseguir comida, evitar os predadores, ou afastar os parasitas. Os pássaros cantam, segundo Darwin, porque só desta maneira conseguem atrair o parceiro e perpetuar a espécie.”</p>
<p>Fui interrompido por um executivo de Genève, que insistia em uma apresentação mais objetiva. Mas o Diretor-Geral me encorajou a seguir adiante, o que me deixou entusiasmado.</p>
<p>— Ainda segundo Darwin, que escreveu um livro capaz de mudar o curso da humanidade (N.R.: A origem das espécies, 1871, onde mostra que o homem é uma evolução natural de um tipo de macaco), todos aqueles que conseguem despertar paixões estão repetindo algo que se passa desde o tempo das cavernas, onde os ritos para cortejar o próximo eram fundamentais para que a espécie humana pudesse sobreviver e evoluir. Ora, que diferença existe entre a evolução da espécie humana e a evolução de uma agência bancária? Nenhuma. As duas obedecem às mesmas leis — só os mais capazes sobrevivem e se desenvolvem.</p>
<p>Neste momento, fui obrigado a citar que havia desenvolvido esta idéia graças à espontânea colaboração de uma de minhas funcionárias, Sherine Khalil.</p>
<p>— Sherine, que gosta de ser chamada de Athena, trouxe para o seu lugar de trabalho um novo tipo de comportamento, ou seja, a paixão. Isso mesmo, a paixão, algo que nunca consideramos quando estamos tratando de empréstimos ou planilhas de gastos. Meus funcionários passaram a usar a música como um estímulo para atender melhor seus clientes.</p>
<p>Outro executivo interrompeu, dizendo que isso era uma idéia antiga: os supermercados faziam a mesma coisa, usando melodias que induziam o cliente a comprar.</p>
<p>— Eu não estou dizendo que colocamos música no ambiente de trabalho. As pessoas passaram a viver de maneira diferente, porque Sherine, ou Athena se preferirem, ensinou-os a dançar antes de enfrentarem sua labuta diária. Não sei exatamente que mecanismo isso pode despertar nas pessoas; como gerente, sou apenas responsável pelos resultados, e não pelo processo. Não dancei. Mas entendi que, através daquele tipo de dança, todos se sentiam mais conectados com o que faziam.</p>
<p>“Nascemos, crescemos, e fomos educados com a máxima: tempo é dinheiro. Sabemos exatamente o que é dinheiro, mas qual o significado da palavra tempo? O dia compreende 24 horas e uma infinidade de momentos. Precisamos ter consciência de cada minuto, saber aproveitá-lo naquilo que estamos fazendo ou apenas na contemplação da vida. Se desaceleramos, tudo dura muito mais. Claro, pode durar mais a lavagem de pratos, ou a soma de saldos, ou a compilação de créditos, ou a contagem de notas promissórias, mas por que não usar isso para pensar em coisas agradáveis, alegrar-se com o fato de estar vivo?”</p>
<p>O principal executivo do banco me olhava com surpresa. Tenho certeza que ele desejava que eu continuasse a explicar detalhadamente tudo o que aprendera, mas alguns dos presentes começavam a sentir-se inquietos.</p>
<p>— Entendo perfeitamente o que o senhor quer dizer — comentou ele. — Sei que seus funcionários passaram a fazer o trabalho com mais entusiasmo, porque tinham pelo menos um momento do dia em que entravam em contato consigo mesmos. Gostaria de cumprimentá-lo por ter sido flexível o bastante para permitir a integração de ensinamentos não ortodoxos, que estão dando excelentes resultados.</p>
<p>“Mas, já que estamos em uma convenção, e estamos falando de tempo, o senhor tem apenas cinco minutos para concluir sua apresentação. Seria possível tentar elaborar uma lista de pontos principais que nos permitam aplicar estes princípios em outras agências?”</p>
<p>Ele tinha razão. Aquilo tudo podia ser bom para o emprego, mas podia também ser fatal para minha carreira, de modo que resolvi resumir o que tínhamos escrito juntos.</p>
<p>— Baseando-me em observações pessoais, desenvolvi junto com Sherine Khalil alguns pontos, que terei o maior prazer em discutir com quem se interessar. Aqui vão os principais:</p>
<p>“A] todos nós temos uma capacidade desconhecida, e que permanecerá desconhecida para sempre. Mesmo assim, ela pode ser nossa aliada. Como é impossível medi-la ou dar a esta capacidade um valor econômico, nunca é levada em consideração, mas estou falando aqui com seres humanos, tenho certeza que entendem o que estou dizendo, pelo menos em teoria.</p>
<p>“B] Na minha agência, tal capacidade foi provocada através de uma dança baseada em um ritmo que, se não me engano, vem dos desertos da Ásia. Mas o lugar onde nasceu é irrelevante, desde que as pessoas possam expressar com seu corpo o que a alma pretende dizer. Sei que a palavra ‘alma’ pode ser mal compreendida aqui, portanto aconselho que a troquemos por ‘intuição’. E se esta palavra também não for bem assimilada, usaremos então ‘emoções primárias’, que parece ter uma conotação mais científica, embora queira dizer menos do que as palavras anteriores.</p>
<p>“C] Antes de ir ao trabalho, em vez de ginástica ou exercícios de aeróbica, estimulei meus funcionários a dançarem pelo menos durante uma hora. Isso estimula o corpo e a mente, começam o dia exigindo criatividade de si mesmos, e passam a utilizar esta energia acumulada em suas tarefas na agência.</p>
<p>“D] os clientes e os empregados vivem em um mesmo mundo: a realidade não passa de estímulos elétricos em nosso cérebro. Aquilo que achamos que ‘vemos’ é um impulso de energia em uma zona completamente escura da cabeça. Portanto, podemos tentar modificar esta realidade, se entramos na mesma sintonia. De alguma maneira que não posso entender, a alegria é contagiosa, como o entusiasmo e o amor. Ou como a tristeza, a depressão, o ódio — coisas que podem ser percebidas ‘intuitivamente’ pelos clientes e por outros funcionários. Para melhorar o desempenho, é preciso criar mecanismos que mantenham estes estímulos positivos presentes.”</p>
<p>— Muito esotérico — comentou uma mulher que dirigia os fundos de ações de uma agencia no Canadá.</p>
<p>Perdi um pouco a compostura — não havia conseguido convencer ninguém. Fingindo ignorar seu comentário, e usando toda minha criatividade, busquei um desfecho técnico:</p>
<p>— O banco devia dedicar uma certa verba para pesquisar como é que este contágio é feito, e desta maneira teríamos muito mais lucro. Aquele final me parecia razoavelmente satisfatório, de modo que preferi não usar os dois minutos que ainda me restavam. Quando acabou o seminário, no final de um dia exaustivo, o Diretor-Geral me chamou para jantarmos — na frente de todos os outros colegas, como se estivesse procurando mostrar que me apoiava em tudo que dissera. Nunca havia tido esta oportunidade antes, e procurei aproveitar o melhor possível; comecei a falar de desempenhos, planilhas, dificuldades nas bolsas de valores, novos mercados. Mas ele me interrompeu: estava mais interessado em saber tudo que eu havia aprendido de Athena.</p>
<p>No final, para minha surpresa, levou a conversa para assuntos pessoais.</p>
<p>— Eu sei o que você estava falando na conferência, quando mencionou o tempo. No início deste ano, enquanto estava aproveitando minhas férias durante as festas, resolvi sentar-me um pouco no jardim de minha casa. Peguei o jornal na caixa de correio, nada de importante — exceto as coisas que os jornalistas decidiram que devemos saber, acompanhar, tomar posição a respeito.</p>
<p>“Pensei em telefonar para alguém de minha equipe, mas seria um absurdo, já que todos estavam com suas famílias. Almocei com minha mulher, filhos e netos, tirei um cochilo, quando acordei fiz uma série de anotações, e de repente vi que ainda eram duas horas da tarde, tinha mais três dias sem trabalho, e, por mais que adorasse a convivência com minha família, comecei a me sentir inútil.</p>
<p>“No dia seguinte, aproveitando o tempo livre, fui fazer um check-up do estômago, que felizmente não mostrou nada de grave. Fui ao dentista, que disse não haver qualquer problema. Tornei a almoçar com mulher, filhos e netos, tornei a dormir, acordei de novo às duas da tarde, e dei-me conta que não tinha absolutamente nada em que concentrar minha atenção.</p>
<p>“Fiquei assustado: não devia estar fazendo alguma coisa? Se quiser inventar trabalho, não precisa muito esforço — sempre temos projetos a serem desenvolvidos, lâmpadas que precisam ser trocadas, folhas secas que devem ser varridas, arrumação de livros, organização dos arquivos do computador, etc. Mas que tal encarar o vazio total? E foi neste momento que me lembrei de algo que me pareceu extremamente importante: precisava ir até a caixa de correio, que fica a um quilômetro de minha casa de campo, colocar um dos cartões de boas-festas que ficara esquecido em cima de minha mesa.</p>
<p>“E fiquei surpreso: por que preciso enviar este cartão hoje? Será que é impossível ficar como estou agora, sem fazer nada?</p>
<p>“Uma série de pensamentos cruzou minha cabeça: amigos que se preocupam com coisas que ainda não aconteceram, conhecidos que sabem preencher cada minuto de suas vidas com tarefas que me parecem absurdas, conversas sem sentido, telefonemas longos para não dizer nada de importante. Já vi meus diretores inventando trabalho para justificar seus cargos, ou funcionários que ficam com medo porque não lhes foi dado nada de importante para fazer aquele dia e isso pode significar que não são mais úteis. Minha mulher que se tortura porque meu filho se divorciou, meu filho que se tortura porque meu neto teve notas baixas na escola, meu neto que morre de medo porque entristece seus pais — embora todos nós saibamos que estas notas não são tão importantes assim.</p>
<p>“Travei uma longa e difícil luta comigo mesmo para não me levantar dali onde estava. Pouco a pouco, a ansiedade foi cedendo lugar à contemplação, e eu comecei a escutar minha alma — ou intuição, ou emoções primitivas, dependendo do que você acredite. Seja o que for, esta parte de mim estava louca para conversar, mas eu vivo ocupado.</p>
<p>“Neste caso não foi a dança, mas a completa ausência de ruído e de movimento, o silêncio, que me fez entrar em contato comigo. E, acredite se quiser, aprendi muitas coisas sobre os problemas que me preocupavam — embora todos estes problemas tivessem se afastado por completo enquanto eu estava ali sentado. Não vi Deus, mas pude entender mais claramente as decisões a tomar.”</p>
<p>Antes de pagar a conta, ele sugeriu que eu enviasse a tal funcionária a Dubai, onde o banco estava abrindo uma nova agência, e os riscos eram grandes. Como um excelente diretor, sabia que eu já aprendera tudo que precisava, e agora era apenas uma questão de dar continuidade — a funcionária podia ser mais útil em outro lugar. Sem que soubesse, estava me ajudando a cumprir a promessa que havia feito.</p>
<p>Quando voltei a Londres, imediatamente comuniquei o convite a Athena. Ela aceitou na hora; disse que falava árabe fluentemente (eu sabia, por causa das origens de seu pai). Mas não pretendíamos fazer negócios com árabes, e sim com estrangeiros. Agradeci sua ajuda, ela não demonstrou qualquer curiosidade sobre minha palestra na convenção — perguntou apenas quando devia preparar as malas.</p>
<p>Até hoje não sei se é fantasia esta história de namorado da Scotland Yard. Acho que, se fosse verdade, o assassino de Athena já estaria preso — porque não acredito em nada do que os jornais contaram a respeito do crime. Enfim, posso entender muito bem de engenharia financeira, posso até mesmo dar-me ao luxo de dizer que a dança ajuda os funcionários de banco a trabalharem melhor, mas jamais conseguirei compreender por que a melhor polícia do mundo consegue prender alguns assassinos, e deixar outros soltos.</p>
<p>Isso, entretanto,já não faz mais diferença.</p>
<p><em>Próximo texto: 18.09.06</em></p>
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		<title>Nono Capítulo</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Sep 2006 10:42:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Coelho</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[A Bruxa de Portobello]]></category>

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		<description><![CDATA[Pavel Podbieslki, 57 anos, proprietário do apartamento
Eu e Athena tínhamos uma coisa em comum: éramos ambos exilados de guerras, chegamos à Inglaterra ainda crianças, embora minha fuga da Polônia tenha acontecido há mais de cinqüenta anos. Nós dois sabíamos que, embora sempre haja uma mudança física, as tradições permanecem no exílio — as comunidades tornam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Pavel Podbieslki, 57 anos, proprietário do apartamento</strong></p>
<p>Eu e Athena tínhamos uma coisa em comum: éramos ambos exilados de guerras, chegamos à Inglaterra ainda crianças, embora minha fuga da Polônia tenha acontecido há mais de cinqüenta anos. Nós dois sabíamos que, embora sempre haja uma mudança física, as tradições permanecem no exílio — as comunidades tornam a se reunir, a língua e a religião continuam vivas, as pessoas tendem a se proteger umas às outras no ambiente que será para sempre estrangeiro.</p>
<p>Da mesma maneira que as tradições permanecem, o desejo de voltar vai sumindo. Ele precisa permanecer vivo em nossos corações, uma esperança com a qual gostamos de nos enganar — mas que nunca será colocada em prática; eu jamais tornarei a viver em Czestochowa, ela e sua família jamais retornariam a Beirute.</p>
<p>Foi este tipo de solidariedade que me fez alugar o terceiro andar de minha casa em Basset Road — caso contrário, eu teria preferido inquilinos que não tivessem crianças. Já havia cometido este erro antes, e duas coisas aconteciam: eu me queixava do barulho que eles faziam durante o dia, e eles se queixavam do barulho que eu fazia durante a noite. Ambos tinham suas raízes em elementos sagrados — o choro e a música —, mas, como pertenciam a dois mundos completamente diferentes, era difícil que um tolerasse o outro.</p>
<p>Avisei-a, mas ela não ligou, e disse que ficasse tranqüilo quanto ao seu filho: ele passava o dia inteiro na casa da avó. E o apartamento tinha a conveniência de ser perto de seu trabalho, um banco nas redondezas.</p>
<p>Apesar dos meus avisos, apesar de ter resistido bravamente no inicio, oito dias depois a campainha de minha porta tocou. Era ela, com o menino nos braços:</p>
<p>— Meu filho não consegue dormir. Será que apenas hoje não dá para abaixar a música&#8230;</p>
<p>Todos na sala a olharam.</p>
<p>— O que é isso?</p>
<p>O menino em seu colo parou imediatamente de chorar, como se estivesse tão surpreso como a mãe ao ver aquele grupo de gente, que subitamente parara de dançar.</p>
<p>Apertei o botão que dava uma pausa na fita cassete, acenei com uma das mãos para que entrasse, e logo destravei de novo o aparelho de som, de modo a não perturbar o ritual. Athena sentou-se em um dos cantos da sala, embalando o bebê em seus braços, vendo que ele dormia com facilidade apesar do ruído do tambor e dos metais. Assistiu a toda a cerimônia, saiu quando os outros convidados também saíram e — como eu podia imaginar — tocou a campainha de minha casa na manhã seguinte, antes de ir para o trabalho.</p>
<p>— Não precisa me explicar o que vi: gente dançando de olhos fechados, e sei o que isso significa, porque muitas vezes faço a mesma coisa, são os únicos momentos de paz e de serenidade na minha vida. Antes de ser mãe, freqüentava boates com meu marido e meus amigos; ali também via gente na pista de dança com os olhos fechados, algumas apenas para impressionar os outros, outras como se fossem movidas por uma força maior, mais poderosa. E, desde que me entendo por gente, encontrei na dança uma maneira de conectar-me com algo mais forte, mais poderoso que eu. Mas queria saber que música é essa.</p>
<p>— O que vai fazer neste domingo?</p>
<p>— Nada de especial. Passear com Viorel no Regent’s Park, respirar um pouco de ar puro. Terei muito tempo para minha própria agenda — neste momento de minha vida, escolhi seguir a agenda do meu filho.</p>
<p>— Pois irei com você.</p>
<p>Nos dois dias antes de nosso passeio, Athena vinha assistir ao ritual. O filho dormia depois de alguns minutos, e ela apenas olhava, sem dizer nada, o movimento ao redor. Embora permanecesse imóvel no sofá, tinha certeza que sua alma estava dançando.</p>
<p>Na tarde de domingo, enquanto passeávamos no parque, pedi que prestasse atenção a tudo que estava vendo e ouvindo: as folhas que balançavam ao vento, as ondas na água do lago, os pássaros cantando, os cães latindo, os gritos de crianças que corriam de um lado para o outro, como se obedecessem a uma estranha lógica, incompreensível para os adultos.</p>
<p>— Tudo se move. E tudo se move com um ritmo. E tudo que se move com um ritmo provoca um som; isso está acontecendo aqui e em qualquer lugar do mundo neste momento. Nossos ancestrais notaram a mesma coisa, quando procuravam fugir do frio em suas cavernas: as coisas se moviam e faziam barulho.</p>
<p>“Os primeiros seres humanos talvez tivessem olhado isso com espanto, e logo em seguida com devoção: entenderam que esta era a maneira de uma Entidade Superior comunicar-se com eles. Passaram a imitar os ruídos e os movimentos à sua volta, na esperança de comunicar-se também com esta Entidade: a dança e a música acabavam de nascer. Há alguns dias você me disse que, dançando, consegue comunicar-se com algo mais poderoso que você.”</p>
<p>— Quando danço, sou uma mulher livre. Melhor dizendo, sou um espírito livre, que pode viajar pelo universo, olhar o presente, adivinhar o futuro, transformar-se em energia pura. E isso me dá um imenso prazer, uma alegria que está sempre muito mais além das coisas que já experimentei, e que terei que experimentar ao longo de minha existência.</p>
<p>“Em uma época da minha vida estava determinada a transformar-me em santa — louvando Deus através da música e dos movimentos do meu corpo. Mas este caminho está definitivamente fechado para mim.”</p>
<p>— Que caminho está fechado?</p>
<p>Ela ajeitou a criança no carrinho de bebê. Vi que não tinha vontade de responder à pergunta, insisti: quando as bocas se fecham, é porque algo de importante está para ser dito.</p>
<p>Sem demonstrar nenhuma emoção, como se tivesse que agüentar sempre em silêncio as coisas que a vida lhe impunha, ela contou-me o episódio da Igreja, quando o padre — talvez seu único amigo — lhe havia recusado a comunhão. E a maldição que lançara naquele minuto; abandonara para sempre a Igreja Católica.</p>
<p>— Santo é aquele que dignifica sua vida — expliquei. — Basta entender que todos nós estamos aqui por uma razão, e basta comprometer-se com ela. Assim, podemos rir de nossos grandes ou pequenos sofrimentos, e caminhar sem medo, conscientes de que cada passo tem um sentido. Podemos deixar-nos guiar pela luz que emana do Vértice.</p>
<p>— O que é o Vértice? Em matemática, é o ponto superior de um triângulo.</p>
<p>— Na vida também é o ponto culminante, a meta de todos aqueles que erram como todo mundo, e, mesmo em seus momentos mais difíceis, não perdem de vista uma luz que emana de seu coração. Isso procuramos fazer em nosso grupo. O Vértice está escondido dentro de nós, e podemos chegar até ele se o aceitarmos, e se reconhecermos sua luz.</p>
<p>Expliquei que a dança que vira nos dias anteriores, realizada por pessoas de todas as idades (no momento éramos um grupo de dez pessoas, entre 19 e 65 anos), tinha sido batizada por mim de “a busca do Vértice”. Athena perguntou onde eu havia descoberto isso.</p>
<p>Contei-lhe que, logo depois do final da Segunda Guerra, parte de minha família tinha conseguido escapar do regime comunista que estava sendo instalado na Polônia, resolvendo mudar-se para a Inglaterra. Escutaram dizer que, entre as coisas que deviam trazer, estavam objetos de arte e livros antigos, muito valorizados nesta parte do mundo.</p>
<p>De fato, quadros e esculturas foram logo vendidos, mas os livros ficaram em um canto, enchendo-se de poeira. Como minha mãe queria obrigar-me a ler e falar polonês, eles serviram para minha educação. Um belo dia, dentro de uma edição do século XIX de Thomas Malthus, descobri duas folhas de anotações de meu avô, morto em um campo de concentração. Comecei a ler, acreditando tratar-se de referências sobre herança, ou cartas apaixonadas para alguma amante secreta, já que corria a lenda de que um dia se apaixonara por alguém na Rússia.</p>
<p>De fato, havia uma certa relação entre a lenda e a realidade. Era um relato de sua viagem à Sibéria durante a revolução comunista; ali, na remota aldeia de Diedov, apaixonou-se por uma atriz <span style="font-style: italic">(N.R.: foi impossível localizar no mapa tal aldeia; ou o nome foi propositadamente trocado, ou o lugar desapareceu depois das imigrações forçadas de Stalin)</span>. Segundo meu avô, ela fazia parte de uma espécie de seita, que julga encontrar em determinado tipo de dança o remédio para todos os males, já que ela permite o contato com a luz do Vértice.</p>
<p>Estavam temerosos que toda aquela tradição pudesse desaparecer; os habitantes seriam em breve deslocados para outro lugar, e o local passaria a ser usado para testes nucleares. Tanto a atriz como seus amigos pediram que escrevesse tudo que tinham aprendido. Ele assim o fez, mas não deve ter dado muita importância ao caso, esquecendo suas anotações dentro de um livro que carregava, até que um dia eu as descobri.</p>
<p>Athena me interrompeu:</p>
<p>— Mas não se pode escrever sobre dança. É preciso dançar.</p>
<p>— Exato. No fundo, as anotações diziam apenas isso: dançar até a exaustão, como se fôssemos alpinistas subindo esta colina, esta montanha sagrada. Dançar até que, por causa da respiração ofegante, nosso organismo possa receber oxigênio de uma maneira que não está acostumado, e isso termina por fazer com que percamos nossa identidade, nossa relação com o espaço e o tempo. Dançar ao som de percussão apenas, repetir o processo todos os dias, entender que em determinado momento os olhos se fecham naturalmente, e passamos a enxergar uma luz que vem de dentro de nós, que responde nossas perguntas, que desenvolve nossos poderes escondidos.</p>
<p>— O senhor já desenvolveu algum poder?</p>
<p>Em vez de responder, sugeri que se juntasse ao nosso grupo, já que o menino parecia sempre estar à vontade mesmo quando o som dos pratos e instrumentos de percussão parecia muito alto. No dia seguinte, na hora que sempre começávamos a sessão, ela estava ali. Apresentei-a aos meus companheiros, explicando apenas que se tratava da vizinha do apartamento de cima; ninguém disse nada sobre sua vida, nem perguntou o que ela fazia. Quando chegou a hora marcada, liguei o som e começamos a dançar.</p>
<p>Ela iniciou seus passos com o menino no colo, mas ele logo dormiu, e Athena o colocou no sofá. Antes de fechar meus olhos e entrar em transe, vi que ela tinha entendido exatamente o caminho do Vértice.</p>
<p>Todos os dias — exceto aos domingos — ali estava ela com a criança. Trocávamos apenas umas poucas palavras de boas-vindas; eu colocava a música que um amigo meu conseguira nas estepes russas, e todos começávamos a dançar até estarmos exaustos. No final de um mês, ela me pediu uma cópia da fita.</p>
<p>— Gostaria de fazer isso de manhã, antes de deixar Viorel na casa de mamãe e ir para o trabalho.</p>
<p>Eu relutei:</p>
<p>— Em primeiro lugar, penso que um grupo que está conectado na mesma energia termina criando uma espécie de aura e facilitando o transe de todo mundo. Além do mais, fazer isso antes de ir ao trabalho é preparar-se para ser despedida, já que passará o dia inteiro cansada.</p>
<p>Athena pensou um pouco, mas logo reagiu:</p>
<p>— O senhor tem razão quando fala na energia coletiva. Vejo que no seu grupo existem quatro casais e sua mulher. Todos, absolutamente todos — encontraram o amor. Por isso, podem dividir uma vibração positiva comigo.</p>
<p>“Mas estou só. Melhor dizendo, estou com meu filho, mas seu amor ainda não pode se manifestar de maneira que possamos entender. Então prefiro aceitar minha solidão: se procurar fugir dela neste momento, jamais tornarei a encontrar um parceiro. Se aceitá-la ao invés de ficar lutando contra ela, talvez as coisas mudem. Vi que a solidão é mais forte quando tentamos nos confrontar com ela — mas torna-se fraca quando simplesmente a ignoramos.</p>
<p>— Você veio para o nosso grupo em busca do amor?</p>
<p>— Acho que seria um bom motivo, mas a resposta é não. Vim em busca de um sentido para a minha vida, cuja única razão é meu filho, e por isso temo que acabe destruindo Viorel, seja com uma proteção exagerada, seja porque terminarei projetando nele os sonhos que não consegui realizar. Em um destes dias, enquanto dançava, me senti curada. Se estivesse com algo físico, sei que poderíamos chamar um milagre; mas era algo espiritual, que me incomodava, e que de repente se afastou.</p>
<p>Eu sabia do que ela estava falando.</p>
<p>— Ninguém me ensinou a dançar ao som desta música — continuou Athena. — Mas eu pressinto que sei o que estou fazendo.</p>
<p>— Não é necessário aprender. Lembre-se de nosso passeio no parque, e do que vimos: a natureza criando o ritmo e adaptando-se a cada momento.</p>
<p>— Ninguém me ensinou a amar. Mas eu já amei a Deus, amei meu marido, amo meu filho e minha família. E mesmo assim, falta algo. Embora eu fique cansada enquanto danço, quando termino pareço estar em estado de graça, em um êxtase profundo. Quero que este êxtase se prolongue durante o dia. E que ele me ajude a encontrar o que falta: o amor de um homem.</p>
<p>“Posso sempre ver o coração deste homem enquanto danço, embora não consiga ver sua face. Sinto que ele está próximo, e para isso preciso estar atenta. Preciso dançar de manhã, de modo que possa passar o resto do dia prestando atenção a tudo que acontece à minha volta.</p>
<p>— Você sabe o que quer dizer a palavra “êxtase”? Ela vem do grego, e significa: sair de si mesmo. Passar o dia inteiro fora de si mesmo, é pedir demasiado do corpo e da alma.</p>
<p>— Tentarei.</p>
<p>Vi que não adiantava discutir, e fiz uma cópia da fita. A partir de então, todos os dias acordava com aquele som no andar de cima, podia ouvir seus passos, e me perguntava como era capaz de encarar seu trabalho em um banco depois de quase uma hora de transe. Em um de nossos encontros casuais nos corredores, sugeri que viesse tomar um café. Athena me contou que tinha feito outras cópias da fita, e que agora muita gente em seu trabalho estava procurando o Vértice.</p>
<p>— Agi errado? Era algo secreto?</p>
<p>Claro que não; pelo contrário, estava me ajudando a preservar uma tradição quase perdida. Nas anotações do meu avô, uma das mulheres dizia que um monge em visita pela região havia afirmado que todos os nossos antepassados e todas as gerações futuras estão presentes em nós. Quando nos libertávamos, estávamos fazendo a mesma coisa com a humanidade.</p>
<p>— Então as mulheres e homens daquela cidadezinha da Sibéria devem estar presentes, e contentes. O trabalho deles está renascendo neste mundo, graças ao seu avô. Mas eu tinha uma curiosidade: por que resolveu dançar, depois que leu o texto? Se tivesse lido algo sobre esporte, teria decidido ser jogador de futebol?</p>
<p>Era a pergunta que ninguém me fazia.</p>
<p>— Porque estava doente, na época. Tinha uma espécie de artrite rara, e os médicos diziam que eu devia me preparar para estar em uma cadeira de rodas aos 35 anos. Vi que tinha pouco tempo diante de mim, e resolvi me dedicar a tudo que não poderia fazer mais adiante. Meu avô tinha escrito, naquele pequeno pedaço de papel, que os habitantes de Diedov acreditavam nos poderes curativos do transe.</p>
<p>— Pelo visto, eles tinham razão.</p>
<p>Eu não respondi nada, mas não estava tão certo assim. Talvez os médicos tivessem se enganado. Talvez o fato de ser um imigrante junto com minha família, sem poder dar-se ao luxo de ficar doente, tenha agido com tal força no meu inconsciente que provocou uma reação natural do organismo. Ou talvez fosse mesmo um milagre, o que iria absolutamente contra o que prega minha fé católica: danças não curam.</p>
<p>Lembro-me que, na minha adolescência, já que não tinha a música que julgava adequada, costumava colocar um capuz preto na minha cabeça e imaginar que a realidade em torno de mim deixava de existir: meu espírito viajava para Diedov, com aquelas mulheres e homens, com meu avô e sua atriz tão amada. No silêncio do quarto eu pedia que me ensinassem a dançar, ir além dos meus limites, porque em pouco tempo estaria paralisado para sempre. Quanto mais meu corpo se movia, mais a luz do meu coração se mostrava, e mais eu aprendia — talvez comigo mesmo, talvez com os fantasmas do passado. Cheguei mesmo a imaginar que música escutavam em seus rituais, e quando um amigo visitou a Sibéria, muitos anos mais tarde, pedi que me trouxesse alguns discos; para minha surpresa, um deles era muito parecido com o que julgava ser a dança de Diedov.</p>
<p>Melhor não dizer nada a Athena — ela era uma pessoa facilmente influenciada, e seu temperamento me parecia instável.</p>
<p>— Talvez você esteja agindo corretamente — foi meu único comentário.</p>
<p>Tornamos a conversar mais uma vez, pouco antes de sua viagem ao Oriente Médio. Parecia contente, como se tivesse encontrado tudo que desejava: o amor.</p>
<p>— As pessoas no meu trabalho criaram um grupo, e chamam a si mesmas “os peregrinos do Vértice”. Tudo graças ao seu avô.</p>
<p>— Graças a você, que sentiu necessidade de dividir isso com os outros. Sei que está de partida, e quero lhe agradecer por ter dado outra dimensão àquilo que eu fiz durante anos, tentando difundir esta luz com alguns poucos interessados, mas sempre de maneira tímida, sempre achando que as pessoas iam achar ridícula toda esta história.</p>
<p>— Sabe o que eu descobri? Que embora o êxtase seja a capacidade de sair de si mesmo, a dança é uma maneira de subir ao espaço. Descobrir novas dimensões, e mesmo assim continuar em contato com seu corpo. Com a dança, o mundo espiritual e o mundo real conseguem conviver sem conflitos. Acho que os bailarinos clássicos ficam na ponta dos pés porque estão ao mesmo tempo tocando a terra e alcançando os céus.</p>
<p>Que eu possa me lembrar, estas foram suas últimas palavras. Durante qualquer dança à qual nos entregamos com alegria, o cérebro perde o seu poder de controle, e o coração toma as rédeas do corpo. Só neste momento o Vértice aparece.</p>
<p>Desde que acreditemos nele, claro.</p>
<p><em>Pr<em>óximo</em> Capítulo: 13.09.06 </em></p>
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		</item>
		<item>
		<title>Oitavo Capítulo</title>
		<link>http://paulocoelhoblog.com/bruxadeportobello/29.08.2006/oitavo-capitulo/</link>
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		<pubDate>Tue, 29 Aug 2006 09:33:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Coelho</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[A Bruxa de Portobello]]></category>

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		<description><![CDATA[Padre Giancarlo Fontana
Vi quando ela entrou para a missa de domingo, como sempre carregando o bebê nos braços. Sabia das dificuldades que estavam passando, mas até aquela semana tudo não passava de um desentendimento normal entre casais, que eu esperava fosse resolvido mais cedo ou mais tarde, já que ambos eram pessoas que irradiavam o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Padre Giancarlo Fontana</strong></p>
<p>Vi quando ela entrou para a missa de domingo, como sempre carregando o bebê nos braços. Sabia das dificuldades que estavam passando, mas até aquela semana tudo não passava de um desentendimento normal entre casais, que eu esperava fosse resolvido mais cedo ou mais tarde, já que ambos eram pessoas que irradiavam o Bem a sua volta.</p>
<p>Há um ano não vinha tocar seu violão e louvar a Virgem na parte da manhã; dedicava-se a cuidar de Viorel, que eu tive a honra de batizar, embora não me lembre de nenhum santo com este nome. Mas continuava freqüentando a missa todos os domingos, e sempre conversávamos no final, quando todos já tinham ido embora. Dizia que eu era seu único amigo; juntos participamos das adorações divinas, mas agora precisava dividir comigo as dificuldades terrenas.</p>
<p>Amava Lukás mais do que qualquer homem que havia encontrado; era o pai do seu filho, a pessoa que escolhera para dividir sua vida, alguém que renunciara a tudo e tivera coragem bastante para constituir uma família. Quando as crises começaram, ela tentava fazê-lo entender que era passageiro, precisava dedicar-se ao filho, mas não tinha a menor intenção de transformá-lo em uma criança mimada; logo deixaria que enfrentasse sozinho certos desafios da vida. A partir daí, voltaria a ser a esposa e a mulher que ele havia conhecido nos primeiros encontros, talvez até com mais intensidade, porque agora conhecia melhor os deveres e as responsabilidades da escolha que fizera. Mesmo assim, Lukás sentia-se rejeitado; ela procurava desesperadamente dividir-se entre os dois, mas sempre era obrigada a escolher — e nestes momentos, sem a menor sombra de dúvida, escolhia Viorel.</p>
<p>Com meus parcos conhecimentos psicológicos disse que não era a primeira vez que escutava este tipo de história, e que os homens geralmente sentem-se rejeitados em uma situação como essa, mas logo passa; já assistira a este tipo de problema antes, conversando com meus paroquianos. Em uma destas conversas, Athena reconheceu que talvez tivesse se precipitado um pouco, o romantismo de ser uma jovem mãe não lhe deixou ver com clareza os verdadeiros desafios que surgem depois do nascimento do filho. Mas agora era tarde demais para arrependimentos.</p>
<p>Perguntou se eu poderia conversar com Lukás — que jamais aparecia na igreja, seja porque não acreditava em Deus, seja porque preferisse usar as manhãs de domingo para estar mais próximo de seu filho. Eu me prontifiquei a fazê-lo, desde que ele viesse por sua própria vontade. E quando Athena estava prestes a pedir-lhe este favor, a grande crise aconteceu, e o marido saiu de casa.</p>
<p>Aconselhei-a a ter paciência, mas ela estava profundamente ferida. Já tinha sido abandonada uma vez na infância, e todo o ódio que sentia de sua mãe de sangue foi automaticamente transferido para Lukás — embora mais tarde, pelo que soube, tenham voltado a ser bons amigos. Para Athena, romper os laços de família era talvez o pecado mais grave que alguém pudesse cometer.</p>
<p>Continuou a freqüentar a igreja aos domingos, mas voltava logo para casa — já que não tinha mais com quem deixar o filho, e o menino chorava muito durante a cerimônia, incomodando a concentração dos outros fiéis. Em um dos raros momentos que pudemos conversar, disse que estava trabalhando em um banco, tinha alugado um apartamento, e que não me preocupasse; o “pai” (ela deixara de pronunciar o nome do marido) estava cumprindo com suas obrigações financeiras.</p>
<p>Até que veio aquele domingo fatídico.</p>
<p>Eu sabia o que tinha se passado durante a semana — um dos paroquianos me havia contado. Fiquei algumas noites pedindo que algum anjo me inspirasse, explicando-me se devia manter meu compromisso com a Igreja ou meu compromisso com os homens. Como o anjo não apareceu, entrei em contato com meu superior, e ele disse que a Igreja só consegue sobreviver porque sempre foi rígida com seus dogmas — se começasse a abrir exceções, estaríamos perdidos desde a Idade Média. Sabia exatamente o que ia acontecer, pensei em telefonar para Athena, mas não me havia deixado seu novo número.</p>
<p>Naquela manhã, minhas mãos tremeram quando eu levantei a hóstia, consagrando o pão. Disse as palavras que a tradição milenar me havia transmitido, usando o poder passado de geração em geração pelos apóstolos. Mas logo meu pensamento se voltou para aquela moça com seu filho no colo, uma espécie de Virgem Maria, o milagre da maternidade e do amor manifestos no abandono e na solidão, que acabara de entrar na fila como sempre fazia, e, pouco a pouco, se aproximava para comungar.</p>
<p>Penso que grande parte da congregação ali presente sabia o que estava acontecendo. E todos me olhavam, aguardando minha reação. Vi-me cercados de justos, pecadores, fariseus, sacerdotes do Sinédrio, apóstolos, discípulos, gente de boa e de má vontade.</p>
<p>Athena parou diante de mim e repetiu o gesto de sempre: fechou os olhos, e abriu a boca para receber o corpo de Cristo.</p>
<p>O Corpo de Cristo permaneceu nas minhas mãos.</p>
<p>Ela abriu os olhos, sem entender direito o que estava acontecendo.</p>
<p>— Conversamos depois — sussurrei.</p>
<p>Mas ela não se movia.</p>
<p>— Tem gente atrás de você na fila. Conversamos depois.</p>
<p>— O que está acontecendo? — todos que estavam próximos puderam escutar sua pergunta.</p>
<p>— Conversamos depois.</p>
<p>— Por que não me dá a comunhão? Não vê que está me humilhando diante de todos? Não basta tudo aquilo que já passei?</p>
<p>— Athena, a Igreja proíbe que pessoas divorciadas recebam o sacramento. Você assinou os papéis esta semana. Conversamos depois — insisti mais uma vez.</p>
<p>Como não se movia, fiz menção para que a pessoa atrás dela passasse pelo lado. Continuei dando a comunhão até que o último paroquiano a tivesse recebido. E foi então que, antes de voltar ao altar, escutei aquela voz.</p>
<p>Já não era a voz da moça que cantava para adorar a Virgem, que conversava sobre seus planos, que se comovia ao contar o que aprendera sobre a vida dos santos, que quase chorava ao dividir suas dificuldades no casamento. Era a voz de um animal ferido, humilhado, com o coração repleto de ódio.</p>
<p>— Pois maldito seja este lugar! — disse a voz. — Malditos sejam aqueles que jamais escutaram as palavras de Cristo, e que transformaram sua mensagem em uma construção de pedra. Pois Cristo disse: “vinde a mim os que estão agoniados, e eu os aliviarei”. Eu estou agoniada, ferida, e não me deixam ir até Ele. Hoje aprendi que a Igreja transformou estas palavras: vinde a mim os que seguem as nossas regras, e deixem os agoniados para lá!</p>
<p>Escutei uma das mulheres na primeira fila dizendo que se calasse. Mas eu queria ouvir, eu precisava ouvir. Voltei-me e fiquei diante dela, com a cabeça baixa — era a única coisa que podia fazer.</p>
<p>— Juro que jamais tornarei a colocar os pés em uma igreja. Mais uma vez sou abandonada por uma família, e agora não são dificuldades financeiras, ou imaturidade de gente que casa cedo. Malditos sejam todos os que fecham a porta para uma mãe e um filho! Vocês são iguais àqueles que não acolheram a Sagrada Família, iguais ao que negou Cristo quando Ele mais precisava de um amigo!</p>
<p>E, dando meia-volta, saiu aos prantos, com o filho nos braços. Eu terminei o ofício, dei a bênção final, e fui direto para a sacristia — naquele domingo não haveria confraternização com os fiéis, nem conversas inúteis. Naquele domingo, eu estava diante de um dilema filosófico: tinha escolhido respeitar a instituição, e não as palavras na qual a instituição é baseada.</p>
<p>Já estou velho, Deus pode me levar a qualquer minuto. Continuei fiel à minha religião, e acho que, apesar de todos os seus erros, está sinceramente se esforçando para corrigir-se. Isso levará décadas, talvez séculos, mas um dia tudo que será levado em conta é o amor, a frase de Cristo: “vinde a mim os agoniados, e eu os aliviarei”. Dediquei minha vida inteira ao sacerdócio, e não me arrependo um segundo da minha decisão. Mas em momentos como o que ocorreu naquele domingo, embora não duvidasse da fé, passei a duvidar dos homens.</p>
<p>Sei agora o que aconteceu com Athena, e me pergunto; será que tudo começou ali, ou já estava na sua alma? Penso nas muitas Athenas e Lukás do mundo, que se divorciaram, e por causa disso já não podem receber o sacramento da Eucaristia, resta-lhes apenas contemplar o Cristo sofredor e crucificado, e escutar Suas palavras — que nem sempre estão de acordo com as leis do Vaticano. Em uns poucos casos estas pessoas se afastam, mas a maioria continua vindo à missa dos domingos, porque estão habituados com isso, mesmo conscientes que o milagre da transmutação do pão e do vinho na carne e no sangue do Senhor lhes é proibida.</p>
<p>Penso que, ao sair da igreja, Athena pode ter encontrado Jesus. E, chorando, se atirou em seus braços, confusa, pedindo que lhe explicasse por que estava sendo obrigada a ficar do lado de fora só por causa de um papel assinado, uma coisa sem a menor importância no plano espiritual, e que só interessava mesmo a cartórios e imposto de renda.</p>
<p>E Jesus, olhando para Athena, possivelmente teria respondido:</p>
<p>— Veja bem, minha filha, também estou do lado de fora. Há muito tempo eles não me deixam entrar ali.</p>
<p><em>Próximo texto: 08.09.06</em></p>
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		<title>Sétimo Capítulo</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Aug 2006 10:12:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Coelho</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[A Bruxa de Portobello]]></category>

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		<description><![CDATA[Lukás Jessen-Petersen, ex-marido
Quando Viorel nasceu eu acabara de completar 22 anos. Já não era mais o estudante que acaba de casar com uma ex-companheira de faculdade, mas um homem responsável pelo sustento de sua família, com uma enorme pressão sobre meus ombros. Meus pais, é claro, que nem sequer tinham comparecido ao casamento, condicionaram qualquer [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: bold">Lukás Jessen-Petersen, ex-marido</span></p>
<p>Quando Viorel nasceu eu acabara de completar 22 anos. Já não era mais o estudante que acaba de casar com uma ex-companheira de faculdade, mas um homem responsável pelo sustento de sua família, com uma enorme pressão sobre meus ombros. Meus pais, é claro, que nem sequer tinham comparecido ao casamento, condicionaram qualquer ajuda financeira à separação e à guarda do filho (melhor dizendo, meu pai comentou isso, porque minha mãe costumava telefonar chorando, dizendo que eu era um louco, mas que gostaria muito de segurar seu neto nos braços). Eu esperava que, na medida em que entendessem meu amor por Athena e minha decisão de continuar com ela, esta resistência devia passar.</p>
<p>Mas não passava. E agora eu precisava prover minha mulher e meu filho. Tranquei a matrícula na Faculdade de Engenharia. Recebi um telefonema do meu pai, com ameaças e afagos: dizia que, se eu continuasse assim, terminaria sendo colocado fora da herança, mas se voltasse à universidade, ele iria considerar ajudar-me “provisoriamente”, segundo suas palavras. Eu me recusei; o romantismo da juventude exige que tenhamos sempre posições radicais. Disse que podia resolver meus problemas sozinho.</p>
<p>Até a data que Viorel nasceu, Athena começava a fazer com que eu me entendesse melhor. E isso não tinha ocorrido através de nossa relação sexual — muito tímida, devo confessar — mas através da música.</p>
<p>A música é tão antiga quanto os seres humanos, me explicaram depois. Nossos ancestrais, que viajavam de caverna em caverna, não podiam carregar muitas coisas, mas a arqueologia moderna mostra que, além do pouco que necessitavam para comer, na bagagem havia sempre um instrumento musical, geralmente um tambor. A música não é apenas algo que nos conforte, ou que nos distraia, mas vai além disso — é uma ideologia. Você conhece as pessoas pelo tipo de música que elas escutam.</p>
<p>Vendo Athena dançar enquanto estava grávida, escutando-a tocar seu violão para que o bebê pudesse tranqüilizar-se e entender que era amado, eu comecei a deixar que sua maneira de ver o mundo contagiasse também a minha vida. Quando Viorel nasceu, a primeira coisa que fizemos quando ele chegou em casa foi fazê-lo escutar um adágio de Albinoni. Quando discutíamos, era a força da música — embora eu não consiga estabelecer nenhuma relação lógica entre uma coisa ou outra, exceto pensar nos hippies — que nos ajudava a enfrentar os momentos difíceis.</p>
<p>Mas todo este romantismo não bastava para ganhar dinheiro. Já que eu não tocava nenhum instrumento, e não podia sequer oferecer-me para distrair clientes em um bar, terminei conseguindo apenas um emprego como estagiário em uma firma de arquitetura, fazendo cálculos estruturais. Pagavam muito pouco por hora, de modo que eu saía de casa cedo e voltava tarde. Quase não podia ver meu filho — que estava dormindo — e quase não podia conversar ou fazer amor com minha mulher, que estava exausta. Toda noite eu me perguntava: quando será que vamos melhorar nossa condição financeira, e ter a dignidade que merecemos? Embora concorde quando Athena fala da inutilidade de diploma para a maioria dos casos, em engenharia (e direito, e medicina, por exemplo) é fundamental uma série de conhecimentos técnicos, ou estaremos arriscando a vida dos outros. E eu havia sido obrigado a interromper a busca de uma profissão que tinha escolhido, um sonho que era muito importante para mim.</p>
<p>As brigas começaram. Athena se queixava que eu dava pouca atenção à criança, que ela precisava de um pai, que se fosse apenas para ter um filho ela poderia fazer isso sozinha, sem precisar ter criado tantos problemas para mim. Mais de uma vez bati a porta de casa e fui caminhar, gritando que ela não me entendia, que eu tampouco entendia como terminara concordando com esta “loucura” de ter filho aos 20 anos, antes que tivéssemos sido capazes de ter um mínimo de condições financeiras. Pouco a pouco deixamos de fazer amor, fosse por cansaço, fosse porque um sempre vivia irritado com o outro.</p>
<p>Comecei a entrar em depressão, achando que tinha sido usado e manipulado pela mulher que amava. Athena notou meu estado de espírito cada vez mais estranho, e, em vez de ajudar-me, decidiu concentrar sua energia apenas em Viorel e na música. Minha fuga passou a ser o trabalho. De vez em quando conversava com meus pais, e sempre ouvia aquela história de que “ela teve um filho para conseguir prendê-lo”.</p>
<p>Por outro lado, sua religiosidade aumentava muito. Exigiu logo o batizado, com um nome que ela mesma havia decidido — Viorel, de origem romena. Penso que, exceto por uns poucos imigrantes, ninguém na Inglaterra se chama Viorel, mas eu achei criativo, e mais uma vez entendi que estava fazendo uma estranha conexão com um passado que nem chegara a viver — os dias no orfanato em Sibiu.</p>
<p>Eu procurava me adaptar a tudo — mas senti que estava perdendo Athena por causa da criança. Nossas brigas se tornaram mais freqüentes, ela começou a ameaçar sair de casa, porque achava que Viorel estava recebendo as “energias negativas” de nossas discussões. Certa noite, depois de mais uma ameaça, quem saiu de casa fui eu, achando que voltaria logo que me acalmasse um pouco.</p>
<p>Comecei a caminhar por Londres sem qualquer rumo, blasfemando a vida que tinha escolhido, o filho que tinha aceitado, a mulher que parecia já não ter mais nenhum interesse na minha presença. Entrei no primeiro bar, perto de uma estação de metrô, e tomei quatro doses de uísque. Quando o bar fechou às 11 da noite, fui até uma loja, destas que ficam abertas de madrugada, comprei mais uísque, sentei-me em um banco de praça, e continuei bebendo. Um grupo de jovens se aproximou, pediu um que dividisse com eles a garrafa, eu recusei, e fui espancado. A polícia logo apareceu, e terminamos todos na delegacia.</p>
<p>Eu fui liberado logo após prestar depoimento. Evidente que não acusei ninguém, disse que tinha sido uma discussão a toa, ou passaria alguns meses de minha vida tendo que comparecer a tribunais, como vítima de agressão. Quando estava pronto para sair, o meu estado de embriaguez era tal que caí por cima da mesa de um inspetor. O homem se irritou, mas ao invés de me prender por desacato à autoridade, empurrou-me para fora.</p>
<p>E ali estava um dos meus agressores, que me agradeceu por não ter levado o caso adiante. Comentou que eu estava completamente sujo de lama e sangue, e sugeriu que eu arranjasse roupas novas, antes de voltar para casa. Em vez de continuar meu caminho, pedi que ele me fizesse um favor: que me escutasse, porque eu estava com uma imensa necessidade de falar.</p>
<p>Durante uma hora ele ouviu em silêncio minhas queixas. Na verdade eu não estava conversando com ele, mas comigo mesmo, um rapaz com toda uma vida pela frente, uma carreira que poderia ser brilhante, uma família que tinha contatos suficientes para facilitar abrir muitas portas, mas que agora parecia um dos mendigos de Hampstead <span style="font-style: italic">(N.R.: bairro de Londres)</span>, embriagado, cansado, deprimido, sem dinheiro. Tudo por causa de uma mulher, que nem sequer me dava atenção.</p>
<p>No final de minha história, já enxergava melhor a condição em que me encontrava: uma vida que eu tinha escolhido, acreditando que o amor sempre pode salvar tudo. E não é verdade: às vezes ele termina nos levando ao abismo, com a agravante de que geralmente carregamos conosco pessoas queridas. Neste caso, eu estava a caminho de destruir não apenas a minha existência, mas também Athena e Viorel.</p>
<p>Naquele momento, repeti mais uma vez para mim mesmo que era um homem, e não o rapaz que tinha nascido em berço de ouro, e enfrentado com dignidade todos os desafios que me tinham sido colocados. Fui para casa, Athena já estava dormindo com o bebê em seus braços. Tomei um banho, saí de novo para jogar as roupas sujas na lixeira da rua, deitei-me, estranhamente sóbrio.</p>
<p>No dia seguinte, disse que desejava o divórcio. Ela perguntou por quê.</p>
<p>— Porque te amo. Amo Viorel. E tudo que tenho feito é culpar vocês dois por ter abandonado meu sonho de ser engenheiro. Se tivéssemos esperado um pouco, as coisas seriam diferentes, mas você pensou apenas em seus planos — esqueceu de incluir-me neles.</p>
<p>Athena não reagiu, como se já estivesse esperando por isso, ou como se inconscientemente estivesse provocando esta atitude.</p>
<p>O meu coração sangrava, porque esperava que me pedisse por favor para ficar. Mas ela parecia calma, resignada, preocupada apenas em fazer com que o bebê não escutasse nossa conversa. Foi nesse momento que tive certeza que jamais havia me amado, eu fora apenas um instrumento para a realização deste sonho louco de ter um filho aos 19 anos.</p>
<p>Disse que podia ficar com a casa e os móveis, mas ela recusou-se: iria para a casa da mãe algum tempo, procuraria um emprego, e alugaria seu próprio apartamento. Perguntou-me se podia ajudar financeiramente com Viorel. Eu concordei na hora.</p>
<p>Levantei-me, dei-lhe um último e longo beijo, tornei a insistir que ela ficasse ali, ela voltou a afirmar que iria para casa de sua mãe assim que tivesse arrumado todas as suas coisas. Hospedei-me em um hotel barato, e fiquei esperando todas as noites que ela me telefonasse pedindo para voltar, recomeçar uma nova vida — eu estava inclusive pronto para continuar com a vida antiga se fosse necessário, já que o afastamento me fizera dar conta que não havia ninguém ou nada mais importante no mundo que a minha mulher e meu filho.</p>
<p>Uma semana depois, recebi finalmente sua chamada. Mas tudo que me disse foi que já tinha retirado suas coisas, e não pretendia voltar. Mais duas semanas, soube que alugara um pequeno sótão em Basset Road, onde precisava subir todos os dias três lances de escada com um menino no colo. Dois meses se passaram, e terminamos por assinar os papéis.</p>
<p>Minha verdadeira família partia para sempre. E a família onde nasci me recebia de braços abertos.</p>
<p>Logo depois de nossa separação e do imenso sofrimento que a seguiu, eu me perguntei se realmente não tinha sido uma decisão errada, inconseqüente, própria de pessoas que leram muitas histórias de amor na adolescência, e queriam repetir a todo custo o mito de Romeu e Julieta. Quando a dor acalmou — e só existe um remédio para isso, a passagem do tempo —, entendi que a vida me permitira encontrar a única mulher que seria capaz de amar em toda a minha vida. Cada segundo passado ao seu lado valera a pena, apesar de tudo que aconteceu tornaria a repetir cada passo que dei.</p>
<p>Mas o tempo, além de curar as feridas, mostrou-me algo curioso: é possível amar mais de uma pessoa durante a existência. Casei-me novamente, estou feliz ao lado de minha nova mulher, e não posso imaginar o que seria viver sem ela. Isso porém não me obriga a renunciar a tudo que vivi, desde que tome o cuidado de jamais tentar comparar as duas experiências; não se pode medir o amor como medimos uma estrada ou a altura de um prédio.</p>
<p>Algo muito importante ficou da minha relação com Athena: um filho, seu grande sonho, que me foi comunicado abertamente antes de nos decidirmos casar. Tenho outro filho com minha segunda mulher, agora estou bem preparado para todos os altos e baixos da paternidade, diferente de doze anos atrás.</p>
<p>Certa vez, em um dos encontros quando fui pegar Viorel para ficar o final de semana comigo, resolvi tocar no assunto: perguntei por que tinha se mostrado tão calma quando soube que eu desejava me separar.</p>
<p>— Porque aprendi a sofrer em silêncio toda a minha vida — respondeu.</p>
<p>E só então abraçou-me e chorou todas as lágrimas que gostaria de ter derramado naquele dia.</p>
<p><span style="font-style: italic">Próximo texto: 29.08.06</span></p>
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		<title>Sexto Capítulo</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Aug 2006 10:00:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Coelho</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[A Bruxa de Portobello]]></category>

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		<description><![CDATA[Padre Giancarlo Fontana, 72 anos
Claro que fiquei muito surpreso quando aquele casal, jovem demais, veio até a igreja para que organizássemos a cerimônia. Eu pouco conhecia Lukás Jessen-Petersen, e naquele mesmo dia aprendi que sua família, de uma obscura nobreza da Dinamarca, era frontalmente contra a união. Não apenas contra o casamento, mas também contra [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Padre Giancarlo Fontana, 72 anos</strong></p>
<p>Claro que fiquei muito surpreso quando aquele casal, jovem demais, veio até a igreja para que organizássemos a cerimônia. Eu pouco conhecia Lukás Jessen-Petersen, e naquele mesmo dia aprendi que sua família, de uma obscura nobreza da Dinamarca, era frontalmente contra a união. Não apenas contra o casamento, mas também contra a Igreja.</p>
<p>Seu pai, baseando-se em argumentos científicos realmente incontestáveis, dizia que a Bíblia, onde toda a religião está baseada, na verdade não era um livro — mas uma colagem de 66 manuscritos diferentes, onde não se conhece nem o verdadeiro nome, nem a identidade do autor; que entre o primeiro e o último livro escrito se passaram quase mil anos, mais do que o tempo em que a América foi descoberta por Colombo. E que nenhum ser vivo em todo o planeta — dos macacos aos pássaros — precisa de dez mandamentos para saber como comportar-se. Tudo que importa é que sigam as leis da natureza, e o mundo se manterá em harmonia.</p>
<p>Claro que leio a Bíblia. Claro que sei um pouco de sua história. Mas os seres humanos que a escreveram foram instrumentos do Poder Divino, e Jesus forjou uma aliança muito mais forte que os dez mandamentos: o amor. Os pássaros, os macacos, seja lá de que criatura de Deus estivermos falando, obedecem aos seus instintos e seguem apenas aquilo que está programado. No caso do ser humano, as coisas ficam mais complicadas porque ele conhece o amor e as suas armadilhas.</p>
<p>Pronto. Já estou eu fazendo de novo um sermão quando na verdade devia estar falando do meu encontro com Athena e Lukás. Enquanto conversava com o rapaz — e eu digo conversar, porque não pertencemos à mesma fé, e portanto não estou submetido ao segredo da confissão, soube que, além do anticlericalismo que reinava em casa, havia uma imensa resistência pelo fato de Athena ser estrangeira. Tive vontade de pedir que citasse pelo menos um trecho da Bíblia, onde não está nenhuma profissão de fé, mas um alerta ao bomsenso:</p>
<p><em>“Não abominarás o edomeu, pois é teu irmão; nem abominarás o egípcio, pois estrangeiro foste na sua terra.”</em></p>
<p>Perdão. De novo começo a citar a Bíblia, e prometo que irei me controlar a partir de agora. Após a conversa com o rapaz, passei pelo menos umas duas horas com Sherine — ou Athena, como preferia ser chamada.</p>
<p>Athena sempre me intrigou. Desde que começou a freqüentar a igreja, me parecia ter um projeto muito claro em mente: tornar-se santa. Disse-me que, embora seu namorado não soubesse, pouco antes da guerra civil estourar em Beirute tivera uma experiência muito semelhante à de Santa Teresa de Lisieux: tinha visto sangue nas ruas. Podemos atribuir tudo isso a um trauma de infância e adolescência, mas o fato é que tal experiência, conhecida como “a possessão criativa pelo sagrado” acontece com todos os seres humanos, em maior ou menor escala. De repente, por uma fração de segundo, sentimos que toda a nossa vida está justificada, nossos pecados perdoados, o amor sempre é mais forte, e pode nos transformar definitivamente.</p>
<p>Mas também é neste momento que temos medo. Entregar-se por completo ao amor, seja ele divino ou humano, significa renunciar a tudo — inclusive ao seu próprio bem-estar, ou sua própria capacidade de tomar decisões. Significa amar no mais profundo sentido da palavra. Na verdade, não queremos ser salvos da maneira que Deus escolheu para nos resgatar: queremos manter o absoluto controle de todos os passos, ter plena consciência de nossas decisões, sermos capazes de escolher o objeto de nossa devoção.</p>
<p>Com o amor não é assim — ele chega, instala-se, e passa a dirigir tudo. Só mesmo almas muito fortes deixam-se levar, e Athena era uma alma forte.</p>
<p>Tão forte que passava horas em profunda contemplação. Tinha um dom especial para a música; diziam que dançava muito bem, mas como a Igreja não é um local apropriado para isso, costumava trazer seu violão todas as manhãs, e ficar pelo menos algum tempo cantando para a Virgem, antes de ir para a universidade.</p>
<p>Ainda me recordo de quando a escutei pela primeira vez. Já havia celebrado a missa matinal para os poucos paroquianos que se dispõem a acordar cedo no inverno, quando me lembrei que havia esquecido de recolher o dinheiro que depositaram na caixa de oferendas. Voltei, e escutei uma música que me fez ver tudo de maneira diferente, como se o ambiente tivesse sido tocado pela mão de um anjo. Em um canto, numa espécie de êxtase, uma jovem de aproximadamente 20 anos de idade tocava em seu violão alguns hinos de louvor, com os olhos fixos na imagem da Imaculada Conceição.</p>
<p>Fui até a caixa de oferendas. Ela notou minha presença, e interrompeu o que fazia — mas fiz um sinal afirmativo com a cabeça, incentivando-a a continuar. Depois, sentei-me em um dos bancos, fechei os olhos, e fiquei escutando.</p>
<p>Neste momento, a sensação do Paraíso, “a possessão criativa pelo sagrado” pareceu descer dos céus. Como se entendesse o que se passava no meu coração, ela começou a combinar o seu canto com o silêncio. Nos momentos em que parava de tocar, eu dizia uma prece. Em seguida, a música recomeçava.</p>
<p>Tive consciência de que estava vivendo um momento inesquecível na minha vida — estes momentos mágicos que só conseguimos entender depois que já foram embora. Estava ali por inteiro, sem passado, sem futuro, vivendo apenas aquela manhã, aquela música, aquela doçura, a prece inesperada. Entrei em uma espécie de adoração, de êxtase, de gratidão por estar neste mundo, contente por ter seguido minha vocação apesar dos confrontos com minha família. Na simplicidade daquela pequena capela, na voz da menina, na luz da manhã que tudo inundava, mais uma vez entendi que a grandeza de Deus se mostra através das coisas simples.</p>
<p>Depois de muitas lágrimas e do que me parece uma eternidade, ela parou. Virei-me, descobri que era uma das paroquianas. Desde então nos tornamos amigos, e sempre que podíamos participávamos desta adoração através da música.</p>
<p>Mas a idéia do casamento me deixou completamente surpreso. Como tínhamos uma certa intimidade, quis saber como esperava que a família do marido a recebesse.</p>
<p>— Mal. Muito mal.</p>
<p>Com todo cuidado, perguntei se estava sendo forçada a casar por alguma razão.</p>
<p>— Sou virgem. Não estou grávida.</p>
<p>Quis saber se já tinha comunicado sua própria família, e me disse que sim — a reação foi de espanto, acompanhada de lágrimas da mãe e ameaças do pai.</p>
<p>— Quando venho aqui louvar a Virgem com minha música, não estou pensando no que os outros vão dizer: estou apenas dividindo com ela os meus sentimentos. E, desde que me entendo por gente, sempre foi assim; sou um vaso onde a Energia Divina pode manifestar-se. E esta energia agora me pede que eu tenha uma criança, de modo que possa dar-lhe aquilo que minha mãe de sangue jamais me deu: proteção e segurança.</p>
<p>Ninguém está seguro nesta terra, respondi. Tinha ainda um longo futuro pela frente, havia bastante tempo para o milagre da criação se manifestar. Mas Athena estava decidida:</p>
<p>— Santa Teresa não se rebelou contra a doença que a atingiu; muito pelo contrário, viu naquilo um sinal da Glória. Santa Teresa era muito mais jovem que eu, tinha quinze anos, quando decidiu entrar para um convento. Foi proibida, e não aceitou: resolveu ir conversar com o Papa diretamente — o senhor pode imaginar o que é isso? Conversar com o Papa! E conseguiu atingir seus objetivos.</p>
<p>“Esta mesma Glória está me pedindo algo muito mais fácil e muito mais generoso que uma doença — que eu seja mãe. Se esperar muito, não poderei ser companheira de meu filho, a diferença de idade será grande, e já não teremos os mesmos interesses em comum.”</p>
<p>Não seria a única, eu insisti.</p>
<p>Mas Athena continuou, como se não estivesse me ouvindo:</p>
<p>— Só estou feliz quando penso que Deus existe e me escuta; isso não basta para continuar vivendo, e nada parece ter um sentido. Procuro demonstrar uma alegria que não tenho, escondo minha tristeza para não deixar preocupados aqueles que tanto me amam e tanto se preocupam por mim. Mas recentemente tenho considerado a hipótese do suicídio. À noite, antes de dormir, tenho longas conversas comigo mesma, pedindo que esta idéia vá embora, seria uma ingratidão com todos, uma fuga, uma maneira de espalhar tragédia e miséria sobre a terra. De manhã venho aqui conversar com a Santa, pedir que me livre dos demônios com quem falo durante a noite. Deu resultado até agora, mas começo a fraquejar. Sei que tenho uma missão que recusei por muito tempo, e agora preciso aceitá-la.</p>
<p>“Esta missão é ser mãe. Preciso cumpri-la, ou enlouqueço. Se não conseguir ver a vida crescendo dentro de mim, não conseguirei mais aceitar a vida que está do lado de fora.”</p>
<p><em>Próximo texto: 19.08.06</em></p>
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		<title>Quinto Capítulo</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Aug 2006 09:57:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Paulo Coelho</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[A Bruxa de Portobello]]></category>

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		<description><![CDATA[Lukás Jessen-Petersen, 32 anos, engenheiro, ex-marido
Athena já sabia que tinha sido adotada por seus pais quando a encontrei pela primeira vez. Tinha 19 anos e estava pronta para começar uma briga na cafeteria da universidade porque alguém, pensando que ela tinha origem inglesa (branca, cabelos lisos, olhos às vezes verdes, às vezes cinza), fizera algum [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Lukás Jessen-Petersen, 32 anos, engenheiro, ex-marido</strong></p>
<p>Athena já sabia que tinha sido adotada por seus pais quando a encontrei pela primeira vez. Tinha 19 anos e estava pronta para começar uma briga na cafeteria da universidade porque alguém, pensando que ela tinha origem inglesa (branca, cabelos lisos, olhos às vezes verdes, às vezes cinza), fizera algum comentário desfavorável sobre o Oriente Médio.</p>
<p>Era o primeiro dia de aula; a turma era nova, ninguém conhecia nada a respeito de seus colegas. Mas aquela moça se levantou, segurou a outra pelo colarinho, e começou a gritar feito louca:</p>
<p>— Racista! Vi o olhar aterrorizado da menina, o olhar excitado dos outros estudantes, sedentos para ver o que acontecia. Como estava um ano na frente daquela turma, previ imediatamente as conseqüências: sala do reitor, queixas, possibilidade de expulsão, inquérito policial sobre racismo, etc. Todo mundo tinha a perder.</p>
<p>— Cala a boca! — gritei sem saber o que estava dizendo. Não conhecia nenhuma das duas. Não sou o salvador do mundo, e, sinceramente falando, uma briga de vez em quando é estimulante para os jovens. Mas o grito e a reação foram mais fortes que eu.</p>
<p>— Pare com isso! gritei de novo para a moça bonita, que agarrava outra, também bonita, pelo pescoço. Ela me olhou e me fulminou com os olhos. E, de repente, alguma coisa mudou. Ela sorriu — embora ainda mantivesse suas mãos na garganta de sua colega.</p>
<p>— Você esqueceu de dizer: por favor.</p>
<p>Todo mundo riu.</p>
<p>— Pare com isso — pedi.</p>
<p>— Por favor.</p>
<p>Ela largou a menina e caminhou em minha direção. Todas as cabeças acompanharam seu movimento.</p>
<p>— Você tem educação. Será que também tem um cigarro?</p>
<p>Estendi o maço, e fomos fumar no campus. Tinha passado da raiva completa ao relaxamento total, e minutos depois estava rindo, comentando o tempo, perguntando se eu gostava deste ou daquele grupo de música. Escutei a sineta que chamava para as aulas, e solenemente ignorei aquilo para o qual tinha sido educado toda minha vida: manter a disciplina. Continuei ali conversando, como se não existisse mais universidade, brigas, cantinas, vento, frio, sol. Existia apenas aquela mulher de olhos cinza na minha frente, dizendo coisas absolutamente desinteressantes e inúteis, capazes de manter-me ali pelo resto de minha vida.</p>
<p>Duas horas depois estávamos almoçando juntos. Sete horas depois estávamos em um bar, jantando e bebendo aquilo que nosso orçamento permitia comer e beber. As conversas foram ficando cada vez mais profundas, e em pouco tempo eu já sabia praticamente toda a sua vida — Athena contava detalhes de sua infância, adolescência, sem que eu fizesse qualquer pergunta. Mais tarde soube que ela era assim com todo mundo; entretanto, naquele dia, me senti o mais especial de todos os homens da face da terra.</p>
<p>Tinha chegado em Londres como refugiada da guerra civil que estourara no Líbano. O pai, um cristão maronita (<em>N.R.: ramo da Igreja Católica que, embora submetido à autoridade do Vaticano, não exige o celibato dos padres e utiliza ritos orientais e ortodoxos</em>), fora ameaçado de morte por trabalhar com o governo, e mesmo assim não se decidia exilar-se, até que Athena, ouvindo escondida uma conversa telefônica, decidiu que era hora de crescer, assumir suas responsabilidades de filha, e proteger aqueles que tanto amava.</p>
<p>Ensaiou uma espécie de dança, fingiu que estava em transe (aprendera tudo aquilo no colégio, quando estudava a vida de santos) e começou a dizer coisas. Não sei como uma criança pode fazer com que adultos tomem decisões baseadas em seus comentários, mas Athena afirmou que fora exatamente assim, o pai era supersticioso, estava absolutamente convencida que salvara a vida de sua família.</p>
<p>Chegaram aqui como refugiados, mas não como mendigos. A comunidade libanesa está espalhada no mundo inteiro, o pai logo encontrou um meio de restabelecer seus negócios, e a vida continuou. Athena pôde estudar em boas escolas, fez cursos de dança — que era sua paixão — e escolheu a faculdade de engenharia assim que terminou os cursos secundários.</p>
<p>Já em Londres, seus pais a convidaram para jantar em um dos restaurantes mais caros da cidade, e explicaram, com todo cuidado, que ela tinha sido adotada. Ela fingiu surpresa, abraçou-os, e disse que nada iria mudar a relação entre eles.</p>
<p>Mas na verdade, algum amigo da família, em um momento de ódio, já lhe havia chamado de “órfã sem gratidão, você nem sequer é filha natural, e não sabe como se comportar”. Ela atirou um cinzeiro que o feriu no rosto, chorou escondida durante dois dias, mas logo se acostumou com o fato. O tal parente ficou com uma cicatriz que não podia explicar para ninguém, e passou a dizer que tinha sido agredido na rua por assaltantes.</p>
<p>Convidei-a para sair no dia seguinte. De maneira absolutamente direta disse que era virgem, freqüentava a igreja aos domingos, e não se interessava por romances de amor — estava mais preocupada em ler tudo que podia sobre a situação no Oriente Médio.</p>
<p>Enfim, estava ocupada. Ocupadíssima.</p>
<p>— As pessoas acreditam que o único sonho de uma mulher é casar e ter filhos. E você acha que, por causa de tudo que lhe contei, sofri muito na vida. Não é verdade, e já conheço esta história, outros homens se aproximaram de mim com a conversa de  “proteger-me” das tragédias.</p>
<p>“O que elas esquecem é que, desde a Grécia antiga, as pessoas que retornavam dos combates vinham mortas em cima de seus escudos, ou mais fortes, em cima de suas cicatrizes. Melhor assim: estou no campo de batalha desde que nasci, continuo viva, e não preciso ninguém para me proteger.”</p>
<p>Ela deu uma pausa.</p>
<p>— Vê como sou culta?</p>
<p>— Muito culta, mas quando ataca alguém mais fraca que você, está insinuando que realmente necessita de proteção. Podia ter arruinado sua carreira universitária ali.</p>
<p>— Tem razão. Aceito o convite.</p>
<p>A partir desse dia passamos a sair com regularidade, e quanto mais perto dela eu ficava, mais eu descobria minha própria luz — porque me estimulava a dar sempre o melhor de mim mesmo. Jamais tinha lido qualquer livro de magia ou esoterismo: dizia que era coisa do demônio, que a única salvação estava em Jesus e ponto final. De vez em quando insinuava coisas que não pareciam estar de acordo com os ensinamentos da Igreja:</p>
<p>— Cristo estava cercado de mendigos, prostitutas, cobradores de impostos, pescadores. Penso que com isso queria dizer que a centelha divina está na alma de todos, jamais se extingue. Quando fico quieta, ou quando estou muitíssimo agitada, sinto que estou vibrando junto com o Universo inteiro. E passo a conhecer coisas que não conheço — como se fosse o próprio Deus que estivesse guiando meus passos. Há minutos em que sinto que tudo me está sendo revelado.</p>
<p>E logo se corrigia:</p>
<p>— Isso é errado.</p>
<p>Athena vivia sempre entre dois mundos: o que sentia como verdadeiro e o que lhe era ensinado através de sua fé.</p>
<p>Certo dia, depois de quase um semestre de equações, cálculos, estudos de estrutura, disse que ia abandonar a faculdade:</p>
<p>— Mas você nunca comentou isso comigo!</p>
<p>— Tinha medo até de conversar este assunto comigo mesma. Entretanto, hoje estive na minha cabeleireira; ela trabalhou dia e noite para que sua filha pudesse acabar o curso de sociologia. A filha conseguiu terminar a faculdade, e, depois de bater em muitas portas, conseguiu trabalhar como secretária em uma firma de cimento. Mesmo assim, minha cabeleira repetia hoje, toda orgulhosa: “minha filha tem um diploma”.</p>
<p>“A maioria dos amigos de meus pais, e dos filhos dos amigos de meus pais, tem um diploma. Isso não significa que conseguiram trabalhar no que desejavam — muito pelo contrário, entraram e saíram de uma universidade porque alguém, em uma época em que as universidades parecem importantes, disse que uma pessoa para subir na vida precisava ter um diploma. E o mundo deixa de ter excelentes jardineiros, padeiros, antiquários, pedreiros, escritores.”</p>
<p>Pedi que pensasse um pouco mais, antes de tomar uma decisão tão radical. Mas ela citou os versos de Robert Frost:</p>
<p><em> “Diante de mim havia duas estradas </em></p>
<p><em>Eu escolhi a estrada menos percorrida  </em></p>
<p><em>E isso fez toda a diferença.”</em></p>
<p>No dia seguinte, não apareceu para as aulas. Em nosso encontro seguinte perguntei o que iria fazer.</p>
<p>— Casar. E ter um filho.</p>
<p>Não era um ultimato. Eu tinha vinte anos, ela dezenove, e pensava que ainda era muito cedo para qualquer compromisso desta natureza.</p>
<p>Mas Athena falava seríssimo. E eu precisava escolher entre perder a única coisa que realmente ocupava meu pensamento — o amor por aquela mulher — ou perder minha liberdade e todas as escolhas que o futuro me prometia.</p>
<p>Honestamente, a decisão não foi nem um pouco difícil.</p>
<p><em>Pró</em><em>ximo Capítulo: 14.08.06</em></p>
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