TABACARIA – Fernando Pessoa (Alvaro de Campos)

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.

Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?

O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.

Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.

Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.

Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves – sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

A beleza segundo Coelho

“Sempre escutamos dizer: ‘O que importa não é a beleza exterior, mas a beleza interior.’
Pois não há nada mais falso do que essa frase.

Se assim fosse, por que as flores fariam tanto esforço para chamar a atenção das abelhas?
E por que as gotas de chuva se transformariam em um arco-íris quando encontram o sol?
Porque a natureza tem ânsia de beleza. E só fica satisfeita quando ela pode ser exaltada.

A beleza exterior é a parte visível da beleza interior. E ela se manifesta pela luz que sai dos olhos de cada um. Não importa se a pessoa está malvestida, ou não obedece aos padrões do que consideramos elegante, ou nem sequer está preocupada em impressionar quem está perto. Os olhos são o espelho da alma e refletem tudo o que parece estar oculto.

A beleza está presente em tudo o que foi criado. Mas o perigo reside no fato de que, como seres humanos muitas vezes afastados da Energia Divina, nos deixamos levar pelo julgamento alheio.
Negamos nossa própria beleza porque os outros não podem, ou não querem, reconhecê-la. Em vez de aceitar quem somos, procuramos imitar o que vemos ao nosso redor.

Buscamos ser como aqueles que todos dizem: ‘Que bonito!’ Aos poucos nossa alma vai definhando, nossa vontade diminui, e todo o potencial que tínhamos para enfeitar o mundo deixa de existir.
Esquecemos que o mundo é aquilo que imaginamos ser.
Deixamos de ter o brilho da lua e passamos a ser a poça d’água que a reflete. No dia seguinte, o sol vai evaporar essa água, e nada restará.
Tudo porque algum dia alguém disse: ‘Você é feio.’ Ou outro comentou: ‘Ela é bonita.’ Com apenas três palavras, foram capazes de roubar toda a confiança que tínhamos em nós mesmos.
E isso nos torna feios. E isso nos deixa amargos.

Nesse momento, encontramos conforto naquilo que chamam de ‘sabedoria’: um acumulado de ideias empacotadas por gente que procura definir o mundo, em vez de respeitar o mistério da vida. Ali estão as regras, os regulamentos, as medidas, e toda uma bagagem absolutamente desnecessária que procura estabelecer um padrão de comportamento.
A falsa sabedoria parece dizer: não se preocupe com a beleza, porque ela é superficial e efêmera.

Não é verdade. Todos os seres criados debaixo do sol, dos pássaros às montanhas, das flores aos rios, refletem a maravilha da criação.
Se resistirmos à tentação de aceitar que outros podem definir quem somos, então pouco a pouco seremos capazes de fazer luzir o sol que reside em nossa alma.
O Amor passa por perto e diz: ‘Nunca havia notado sua presença.’
E nossa alma responde: ‘Preste mais atenção porque estou aqui. Foi preciso que uma brisa tirasse a poeira de seus olhos, mas, agora que me reconheceu, não torne a me abandonar, já que todos cobiçam a beleza.’

O belo não reside na igualdade, mas na diferença. Não podemos imaginar um camelo sem corcovas ou um cacto sem espinhos.
A irregularidade dos picos das montanhas que nos cercam é o que as faz imponentes. Se a mão do homem tentasse dar a mesma forma a todas, já não inspirariam mais respeito.

Aquilo que parece imperfeito é justamente o que nos assombra e nos atrai.
Quando olhamos um cedro, não pensamos: os galhos deveriam ter todos a mesma medida. Pensamos: ‘Ele é forte.’

Quando vemos uma serpente, jamais dizemos: ‘Ela está rastejando no chão, enquanto eu caminho de cabeça erguida.’ Pensamos: ‘Embora seja pequena, sua pele é colorida, seu movimento elegante, e ela tem mais poder que eu.’
Quando o camelo cruza o deserto e nos leva até o lugar aonde queremos chegar, nunca dizemos: ‘Ele tem corcovas e seus dentes são feios.’ Pensamos: ‘Ele é digno do meu amor por sua lealdade e sua ajuda. Sem ele, eu jamais poderia conhecer o mundo.’

Um pôr do sol é sempre mais belo quando o céu está coberto de nuvens irregulares, porque só assim ele pode refletir as muitas cores das quais são feitos os sonhos e os versos do poeta.
Pobres daqueles que pensam: ‘Eu não sou belo, porque o Amor não bateu à minha porta.’ Na verdade, o Amor bateu – mas essas pessoas não abriram porque não estavam preparadas para recebê-lo.
Tentavam se enfeitar, quando na verdade já estavam prontas.
Tentavam imitar os outros, quando o Amor buscava algo original.
Procuravam refletir o que vinha de fora e esqueceram a Luz mais forte que vinha de dentro.”

tirado de “Manuscrito encontrado em Accra”

Oração a São Miguel Arcanjo

Príncipe Guardião e Guerreiro defendei-me e protegei-me com Vossa Espada.

Não permita que nenhum mal me atinja.

Protegei-me contra assaltos, roubos, acidentes e contra quaisquer atos de violência.

Livrai-me de pessoas negativas e espalhai vosso manto e vosso escudo de proteção em meu lar, meus filhos e familiares. Guardai meu trabalho, meus negócios e meus bens.

Trazei a paz e a harmonia.

São Miguel Arcanjo, defendei-nos neste combate, cobri-nos com o vosso escudo contra os embustes e ciladas do demônio.

Instante e humildemente vos pedimos, que Deus sobre ele impere e vós, Príncipe da milícia celeste, com esse poder divino, precipitai no inferno a Satanás e aos outros espíritos malignos que vagueiam pelo mundo para perdição das almas.

Amém.

15 de Outubro 1917, Cela 12, Prisão de Saint-Lazare (Paris)

Estimado Dr. Clunet,

Não sei o que irá acontecer no final desta semana. Sempre fui uma mulher otimista, mas o tempo está me deixando amarga, solitária e triste.
Se tudo correr como espero, o senhor jamais receberá esta carta. Terei sido perdoada. Afinal de contas, minha vida foi feita cultivando amigos influentes. Eu a guardarei para que, um dia, minha única filha possa lê-la para descobrir quem foi sua mãe.
Mas se estiver errada, não tenho muita esperança de que estas páginas, que consumiram minha última semana de vida na face da Terra, sejam guardadas. Sempre fui uma mulher realista e sei que, para um advogado, quando um caso está encerrado ele parte para o próximo sem olhar para trás.
Imagino o que acontecerá agora; o senhor é um homem ocupadíssimo, que ganhou notoriedade defendendo uma criminosa de guerra. Terá muita gente à sua porta implorando por seus serviços; mesmo derrotado, conseguiu uma imensa publicidade. Encontrará jornalistas interessados em saber a sua versão dos fatos, frequentará os restaurantes mais caros da cidade e será olhado com respeito e ciúme pelos seus confrades. Sabe que nunca houve uma prova concreta contra mim – apenas manipulações de documentos –, mas nunca poderá admitir em público que deixou morrer uma inocente.

Inocente? Talvez esta não seja a palavra exata. Nunca fui inocente, desde que pisei nesta cidade que tanto amo. Achei que podia manipular os que queriam os segredos de estado, achei que alemães, franceses, ingleses, espanhóis jamais resistiriam a quem sou – e terminei eu sendo a manipulada. Escapei de crimes que cometi, sendo que o maior deles foi ser uma mulher emancipada e independente em um mundo governado por homens. Fui condenada por espionagem quando tudo que consegui de concreto foram fofocas nos salões da alta sociedade.
Sim, eu transformei estas fofocas em “segredos” porque queria dinheiro e poder. Mas todos os que hoje me acusam sabiam que não estava contando nada de novo.
Pena que ninguém jamais saberá disso. Estes envelopes encontrarão seu lugar certo – um arquivo empoeirado, cheio de outros processos, de onde talvez saiam apenas quando seu sucessor, ou o sucessor do seu sucessor, resolva abrir espaço e jogar fora os casos antigos.
A esta altura meu nome já terá sido esquecido; mas não é para ser lembrada que eu escrevo. O que tento é entender a mim mesma. Por quê? Como é que uma mulher que durante tantos anos conseguiu tudo o que queria, pode ser condenada à morte por tão pouco?
Neste momento, olho para minha vida e entendo que a memória é um rio que corre sempre para trás.

Memórias são cheias de caprichos, imagens de coisas que vivemos e que ainda podem nos sufocar com um pequeno detalhe, um ruído insignificante. Um cheiro de pão sendo feito sobe até a minha cela e me relembra dos dias em que caminhava livre pelos cafés; isso me destrói mais do que o medo da morte e da solidão em que me encontro.
Memórias trazem com ela um demônio chamado Melancolia; oh, demônio cruel do qual não consigo escapar. Ouvir uma prisioneira cantando, receber algumas poucas cartas de admiradores que nunca me trouxeram rosas e jasmins, lembrar de uma cena em determinada cidade, que na hora me passou completamente despercebida, e que agora é tudo que me resta deste ou daquele país que visitei.

As memórias sempre vencem; e, com elas, chegam demônios ainda mais pavorosos que a Melancolia: os remorsos; meus únicos companheiros nesta cela, exceto quando as irmãs resolvem entrar e conversar um pouco. Não falam sobre Deus nem me condenam por aquilo que a sociedade chama de “pecados da carne”. Geralmente dizem uma ou duas palavras e de minha boca jorram memórias, como se quisesse voltar no tempo, mergulhando neste rio que corre para trás.

Uma delas me perguntou:
– Se Deus lhe desse outra chance, faria tudo diferente?

Respondi que sim, mas na verdade eu não sei. Tudo que sei é que meu coração é hoje uma cidade fantasma, povoado por paixões, entusiasmo, solidão, vergonha, orgulho, traição, tristeza. E não consigo me desvencilhar de nada disso, mesmo quando sinto pena de mim mesma e choro em silêncio.
Sou uma mulher que nasceu na época errada e nada poderá corrigir isso. Não sei se o futuro se lembrará de mim mas, caso isso ocorra, que jamais me vejam como uma vítima, mas sim como alguém que deu passos com coragem e pagou sem medo o preço que precisava pagar.


(primeiro capítulo de “A Espiã”, de Paulo Coelho)

CONVERSA COM O MAGO (por Bruno Astuto)

POR QUE MATA HARI?
Escrevo normalmente de dois em dois anos, e este ano estava decidido a não escrever. Mas, de repente, senti uma presença, algo forte que me indicou coisas na minha vida em que sempre quis me aprofundar e nunca me aprofundei, como é o caso da Mata Hari. Comecei a pesquisar sobre ela e descobri que era
uma mulher muito mais interessante que a imagem que temos dos filmes ou dos livros de história. E veio a coincidir que, no ano que vem, seu fuzilamento completará cem anos.

ESCRITORES DE ROMANCES HISTÓRICOS TENDEM A REDIMIR SEUS PERSONAGENS. COMO FOI O PROCESSO DE INCORPORAR MATA HARI PARA ESCREVER O LIVRO EM PRIMEIRA PESSOA, SEM EXIMI–LA DE SUAS CULPAS?
Eu sempre desperto meu lado feminino quando escrevo e, no caso de Mata Hari,foi uma catarse. Ela era o que era: fria, pragmática, manipulou os homens de forma magistral. Por isso não tentei redimi-la. Ela sabia de seu poder, de sua sexualidade, de sua sensualidade e usou a inteligência para chegar aonde queria.

MATA HARI ERA UMA FASHIONISTA INVETERADA. VOCÊ, POR OUTRO LADO, FEZ SUA PRÓPRIA MODA, VESTINDO-SE SEMPRE DE PRETO…

Ela era uma gastadora compulsiva, o que mais amava na vida era a moda. Eu me visto de preto porque tenho uma preguiça fora do comum de pensar em que roupa vou usar. É uma das minhas falhas, reconheço. Mas sei apreciar uma pessoa bem-vestida, uma pessoa com classe, o que não tem nada a ver com grife.

ONDE O MAGO ENTROU EM CENA EM A ESPIÃ? RECEBEU ALGUM SINAL AO ESCREVER O LIVRO?
Numa tarde, depois de terminar o livro, eu estava deitado e, de repente, ouvi Mata Hari falar comigo. Ela me chamou. Minha primeira reação foi: “Tô fora, não vou publicar mais. O que ela quer comigo?”.
Mas, depois, refleti sobre essa mulher que foi acusada injustamente, baseado em documentos, testemunhos e cartas que me mostraram que não havia prova concreta nenhuma de sua traição à França. Existem muitas pessoas inocentes que pagam até hoje por crimes que não cometeram, e Mata Hari paga por essa fama injusta há cem anos.

O LIVRO TEM A VER COM A ATUAL MOBILIZAÇÃO FEMININA CONTRA A CULTURA DO ASSÉDIO?

Tenho acompanhado muito esse movimento, não só no Brasil, onde o machismo é um horror, mas no mundo inteiro. Eu sou um homem, mas também sou uma mulher, pois assim me sinto quando escrevo. O livro toca nessa questão porque mostra como uma mulher pode ser insultada, destruída e aterrorizada quando ela exerce sua liberdade. Mata Hari não seria fuzilada hoje, mas certamente seria desmoralizada,o que pode ser às vezes pior que a morte.

(publicado originalmente na edição de Agosto da Revista VOGUE. “A Espiã” estará em todas as livrarias brasileiras e portuguesas dia 6 de setembro)

O presente dos insultos

Perto de Tóquio vivia um grande samurai, já idoso, que agora se dedicava a ensinar o zen budismo aos jovens. Apesar de sua idade, corria a lenda que ainda era capaz de derrotar qualquer adversário.

Certa tarde, um guerreiro – conhecido por sua total falta de escrúpulos – apareceu por ali. Era famoso por utilizar a técnica da provocação: esperava que seu adversário fizesse o primeiro movimento e, dotado de uma inteligência privilegiada para reparar os erros cometidos, contra-atacava com velocidade fulminante.

O jovem e impaciente guerreiro jamais havia perdido uma luta. Conhecendo a reputação do samurai, estava ali para derrotá-lo, e aumentar sua fama.

Todos os estudantes se manifestaram contra a ideia, mas o velho aceitou o desafio.

Foram todos para a praça da cidade, e o jovem começou a insultar o velho mestre. Chutou algumas pedras em sua direção, cuspiu em seu rosto, gritou todos os insultos conhecidos – ofendendo inclusive seus ancestrais.

Durante horas fez tudo para provocá-lo, mas o velho permaneceu impassível.

No final da tarde, sentindo-se já exausto e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou-se.

Desapontados pelo fato de que o mestre aceitara tantos insultos e provocações, os alunos perguntaram:

“Como o senhor pode suportar tanta indignidade? Por que não usou sua espada, mesmo sabendo que podia perder a luta, ao invés de mostrar-se covarde diante de todos nós?”

“Se alguém chega até você com um presente, e você não o aceita, a quem pertence o presente?”, perguntou o samurai.

“A quem tentou entregá-lo”, respondeu um dos discípulos.

“O mesmo vale para a inveja, a raiva, e os insultos”, disse o mestre. “Quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carregava consigo”.

O Corpo da Mulher

Captura-de-Tela-2015-05-20-às-21.46.42
Não importa o quanto pesa. É fascinante tocar, abraçar e acariciar o corpo de uma mulher. Saber seu peso não nos proporciona nenhuma emoção.

Não temos a menor idéia de qual seja seu manequim. Não nos importa quanto medem em centímetros – é uma questão de proporções, não de medidas.

As proporções ideais do corpo de uma mulher são: curvilíneas, cheinhas, femininas… . Essa classe de corpo que, sem dúvida, se nota numa fração de segundo.
Não há beleza mais irresistível na mulher do que a feminilidade e a doçura. A elegância e o bom trato.

A maquiagem foi inventada para que as mulheres a usem. Usem! Para andar de cara lavada, basta a nossa. Os cabelos, quanto mais tratados, melhor.

As saias foram inventadas para mostrar suas magníficas pernas… Porque razão as cobrem com calças longas? Para que as confundam conosco? Uma onda é uma onda, as cadeiras são cadeiras e pronto. Se a natureza lhes deu estas formas curvilíneas, foi por alguma razão e eu reitero: ocultar essas formas, é como ter o melhor sofá embalado no sótão.

É essa a lei da natureza… que todo aquele que se casa com uma modelo magra, anoréxica, bulêmica e nervosa logo procura uma amante cheinha, simpática, tranqüila e cheia de saúde.

Voces unca terão uma referência objetiva, do quanto são lindas, dita por uma mulher. Nenhuma mulher vai reconhecer jamais, diante de um homem, com sinceridade, que outra mulher é linda.
Não podem pensar, sem ficarem psicóticas que podem entrar no mesmo vestido que usavam aos 18. Entretanto uma mulher de 45, na qual entre na roupa que usou aos 18 anos, ou tem problemas de desenvolvimento ou está se auto-destruindo.

Viva as mulheres que sabem conduzir sua vida com equilíbrio e sabem controlar sua natural tendência a culpas. Ou seja, aquela que quando tem que comer, come com vontade (a dieta virá em setembro, não antes); quando tem que fazer dieta, faz dieta com vontade (sem sabotagem e sem sofrer); quando tem que ter intimidade com o parceiro, tem com vontade; quando tem que comprar algo que goste, compra; quando tem que economizar, economiza.

Algumas linhas no rosto, algumas cicatrizes no ventre, algumas marcas de estrias não lhes tira a beleza. São testemunhas de que fizeram algo em suas vidas, não tiveram anos ‘em formol’ nem em spa… viveram!
O corpo da mulher é a prova de que Deus existe. É o sagrado recinto da gestação de todos os homens, onde foram alimentados, ninados e nós, sem querer, as enchemos de estrias, de cesárias e demais coisas que tiveram que acontecer para estarmos vivos.
A beleza é tudo isto.

Coragem

“A primeira qualidade do caminho espiritual é a coragem”, dizia Gandhi.

E, segundo o monge tibetano Chögyam Trungpa, a primeira qualidade do homem valente é lutar por aquilo que possa ser útil a toda a humanidade.

O mundo sempre parece ameaçador e perigoso para os covardes. Estes procuram a segurança mentirosa de uma vida sem grandes desafios, e se armam até os dentes para defender aquilo que julgam possuir. Os covardes são vítimas do próprio egoísmo, e terminam construindo as grades da própria prisão.

Mas os homens e mulheres valentes projetam seu pensamento muito além das paredes do quarto. Sabem que, se não fizerem nada pelo mundo, ninguém mais o fará.

Então tomam parte do bom combate da vida, mesmo sem entender direito porquê.

E quem ataca artista, está fazendo o que?

Agora virou moda atacar artistas que não concordam com o golpe. E para isso, usam os seguintes exemplos:

falta dinheiro para saúde, infraestrutura, etc
todos se beneficiam da lei Rouanet

Concordo com a primeira argumenta’c~ao. O PT começou bem mas, com o passar dos anos, se tornou um partido como todos os outros. Vicios do poder – aqui e em qualquer lugar do mundo.

Entretanto, quem diz que falta dinheiro para saúde, está fazendo o que? Está por acaso visitando hospitais e consolando os doentes? Se o governo não cumpriu sua parte, não caberia a cada um dos brasileiros cumprir a sua? Reclamar nas comunidades sociais é muito simples – mas absurdo e completamente ineficaz. Dizer que artista se beneficia da lei Rouanet como se fosse uma “mesada”, é de uma ignorância além dos limites.

Se falta – como efetivamente falta – cuidado com doentes e hospitais, faça a sua parte. Qualquer dinheiro ajuda – e se não tem dinheiro, vá visitar os tais hospitais sem leito e pelo menos, como dizia Jesus, console os doentes. Divida um prato, compartilhe uma palavra de carinho: “porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me acolhestes;”

Usando meu exemplo pessoal. Tenho tres grandes projetos que financio exclusivamente com meus direitos autorais:

Solar Menino de Luz, na favela Pavão Pavaozinho, que se ocupa de 430 crianças
Hospital da Irmã Dulce, em Salvador (doação mensal para certas alas)
Orfanato de Nhá Chica, em Baependi (doação mensal para o orfanato)

O Lula, quando era presidente, passou NA PORTA do Solar, e não se deu ao trabalho de entrar. Se entrasse, teria feito uma grande diferença, porque a imprensa internacional estava com ele. Mas vou ficar reclamando dessa indignidade, ou vou continuar fazendo o que acho?

Não vou perder meu tempo explicando o que é a (ultrapassada) lei Rouanet. Quem quiser que leia seu texto. Nunca me beneficiei dela. Assim como nunca o Ministerio da Cultura comprou qualquer livro meu para ser distribuido em escolas e bibliotecas – embora gaste uma fortuna com isso todos os anos. Mas eu faço as doações, e me orgulho disso.

Então, parem com essa babaquice de achar que artista está ganhando milhões. Visitem hospitais. Colaborem com um mínimo de dinheiro, ou com um máximo de calor humano. Parem de jogar a responsabilidade nas costas de governos, que foram, são, e serão sempre incompetentes.

A primeira providencia de governos autoritários (Stalin na Rússia, Hitler na Alemanha nazista, os golpes latino-americanos dos anos 60/70) foi culpar artistas. Não caiam nessa armadilha

Paulo Coelho

Give before being asked

Those who are paying attention to others, always give before being asked for. Often our selfishness apologize, saying, “if he was in need, he would have asked.”

And we forget that many people can not – simply can not – ask for help.

I’m not talking just about money: loneliness, often can be worse than hunger.

A man knocked at his Bedouin friend’s door to ask him a favor:

“I want you to lend me four thousand dinars because I have a debt to pay. Can you do that for me?”

The friend asked his wife to gather together everything they had of value, but even so it was not enough. They had to go out and borrow money from the neighbors until they managed to get the full amount.

When the man left, the woman noticed that her husband was crying.

“Why are you sad? Now that we’ve got ourselves in debt with our neighbors, are you afraid we won’t be able to repay them?”

“Nothing of the sort! I’m crying because he is someone I love so much, but even so I had no idea he was in need.

“I only remembered him when he had to knock on my door to ask me for a loan.”

O dia seguinte

Antes de mais nada, quero avisar que já fui petista, fiz campanha, me decepcionei, resisti o quanto pude às constantes desilusões, incompetência, etc. Mas chegou um dia que disse BASTA.
Está aqui o Twitter a respeito, escrito em Novembro 2013 https://twitter.com/paulocoelho/status/372067365149634560

Isso dito, eis o que penso que acontecerá a partir de agora (e que irei atualizando à medida que o cenário político for evoluindo) :

1 – Temer asssume assim que o Senado votar a favor (o que ocorrerá).

2- Cunha passa a ser o vice-presidente. Mas se chegou tão perto, por que não tentar subir mais um degrau? Não é agora que vai mostrar as cartas escondidas na manga – é um dos melhores políticos que o Congresso tem (digo isso com o coração em pedaços). E passa a ser a espada colocada sobre a cabeça de Dâmocles/Temer [ explicação aqui ]

Atualização 20 de Abril: Ameaça a Temer é plano de Cunha para se salvar da cassação

Atualização 10 Maio: Temer é réfem de Cunha

3 – para compensar o excesso de gastos do governo, começam as privatizações. As riquezas do Brasil são vendidas a preço de banana.

Atualização 29 Abril: Programa de Temer prevê privatização de ‘tudo o que for possível’

A corrupção, que agora já aprendeu onde estão as possíveis armadilhas, se disfarça melhor, e exigirá muito tempo para ser descoberta.

4 – o povo, que nada tem de bobo, se dá conta que trocou seis por meia-duzia.

5 – o PT, que tampouco nada tem de bobo, volta ao confortável lugar de oposição ao governo, e começam as manifestações

Atualização 21 de abril Manifestação a favor de Dilma ocupa a Paulista

Atualização 10 Maio: Manifestações contra o impeachment ocorrem em 17 estados e no DF

6 – o Brasil, por mais que se esforce, não consegue vender a legitimidade do novo governo lá fora.
No momento em que escrevo estas linhas, a opinião pública mundial é praticamente unânime em condenar o que aconteceu ontem (mas meu amigo Jorge Pontual tem razão, só quem pode falar do Brasil são os brasileiros)

7 – o dólar cai. as viagens para a Disneylandia sobem. Mas com isso, as exportações caem tambem, de maneira vertiginosa.

Atualização 20 Abril: A expectativa do Tesouro Nacional é de que a dívida pública continuará avançando em 2016 e deverá ultrapassar a barreira dos R$ 3 trilhões no fim deste ano

Aqui não descarto uma (mais uma) intervenção da FIESP de modo a valorizar o dólar de novo.

8 – os 54 milhões que votaram em Dilma, e que simplesmente não se manifestam porque tem medo da opinião pública, enxergam em Lula o salvador da pátria.

9 – as manifestações crescem mais ainda. Temer começa a ter dificuldades em governar. Surgem greves e bloqueios de estada, coisas do tipo.

10 – Lula cresce.

11 – Acredito na sinceridade e na honestidade de Moro. Não acho que prenderá Lula por meros interesses políticos.
Sabe que sua história, e a história de sua família seriam manchadas por gerações, como foi a de todos que apoiaram o golpe militar de 64 (tinha até recentemente amigo na família de um notório torturador, e 30 anos depois ficava me explicando que o seu sobrenome não queria dizer que compactuava com as idéias e ações do tio).

12 – Temer entra em desespero – sorridente e com pose de estadista, mas desesperado. Diz que o país está a beira do caos.

Arualiza\cão 10 Maio: Michel Temer volta atrás e decide cortar dez ministérios
Tem conversas reservadas com as Forças Armadas.
E escuta um sonoro “NÃO” quando pede interferencia.

13 – Aécio tambem entra em desespero. Desde o dia 1 do segundo mandato de Dilma ele fez o possível e o impossível para não deixa-la governar.Agora vê que o maior beneficiado foi o PMDB. Começa a questionar Temer/Cunha.
Mas é tarde. Seu filme já está queimado, como mostram as pesquisas recentes.

Atualização 29 abril: Tchau, Aécio

14 – o povo já não tem mais ilusão a respeito de nada, e não se manifesta mais. A aguerrida militância do PT entra em cena sozinha. Todos começam a achar que “o Brasil inteiro” está contra o governo (assim como ocorreu agora)

Finalmente, usando um pouco de teoria conspiratória: voces não notaram que o PT quase nao fez nada de eficiente para manter Dilma no poder? Por que? Porque ela foi uma aposta errada.
Atualização 30 Maio PT se divide sobre reação a crises de presidente interino
Portanto, o que acontece depois do item 14 acima, é a reeleição de Lula, e mais 8 anos de Partido Trabalhista.

 

 

20 SEC READING: The Asylum


 
A story by Kahlil Gibran
 

I was strolling in the gardens of an insane asylum when I met a young man who was reading a philosophy book.

His behavior and his evident good health made him stand out from the other inmates.

I sat down beside him and asked:

‘What are you doing here?’

He looked at me, surprised. But seeing that I was not one of the doctors, he replied:

‘It’s very simple. My father, a brilliant lawyer, wanted me to be like him.
“My uncle, who owns a large emporium, hoped I would follow his example.
“My mother wanted me to be the image of her beloved father.
“My sister always set her husband before me as an example of the successful man.
“My brother tried to train me up to be a fine athlete like himself.

“And the same thing happened at school, with the piano teacher and the English teacher – they were all convinced and determined that they were the best possible example to follow.
“None of them looked at me as one should look at a man, but as if they were looking in a mirror.

“So I decided to enter this asylum. At least here I can be myself.’

O alquimista: o segredo da felicidade

51a9f2ORpJL._SX331_BO1,204,203,200_

Certo mercador enviou seu filho para aprender o Segredo da Felicidade com o mais sábio de todos os homens. O rapaz andou durante quarenta dias pelo deserto, até chegar a um belo castelo, no alto de uma montanha. Lá vivia o Sábio que o rapaz buscava.

Ao invés de encontrar um homem santo, o nosso herói entrou numa sala e viu uma atividade imensa; mercadores entravam e saíam, pessoas conversavam pelos cantos, uma pequena orquestra tocava melodias suaves, e havia uma farta mesa com os mais deliciosos pratos daquela regiãoo do mundo.

O Sábio conversava com todos, e o rapaz teve que esperar duas horas até chegar sua vez de ser atendido.

Com muita paciência, escutou atentamente o motivo da visita do rapaz, mas disse-lhe que naquele momento não tinha tempo de explicar-lhe o Segredo da Felicidade.Sugeriu que o desse um passeio por seu palácio, e voltasse daqui a duas horas.

– Entretanto, quero lhe pedir um favor – completou, entregando ao rapaz uma colher de chá, onde pingou duas gotas de óleo. – Enquanto você estiver caminhando, carregue esta colher sem deixar que o óleo seja derramado.

O rapaz comeíçou a subir e descer as escadarias do palácio, mantendo sempre os olhos fixos na colher. Ao final de duas horas, retornou à presença do Sábio.

– Entãoo – perguntou o Sábio – você viu as tapeçarias da Pérsia que estão na minha sala de jantar? Viu o jardim que o Mestre dos Jardineiros demorou dez anos para criar? Reparou nos belos pergaminhos de minha biblioteca?

O rapaz, envergonhado, confessou que nãoo havia visto nada. Sua única preocupação era nãoo derramar as gotas de óleo que o Sábio lhe havia confiado.

– Pois então volte e conheça as maravilhas do meu mundo – disse o Sábio. – Você não pode confiar num homem se não conhece sua casa.

Já mais tranqüilo, o rapaz pegou a colher e voltou a passear pelo palácio, desta vez reparando em todas as obras de arte que pendiam do teto e das paredes. Viu os jardins, as montanhas ao redor, a delicadeza das flores, o requinte com que cada obra de arte estava colocada em seu lugar. De volta , relatou tudo que encontrara.

– Mas onde estãoo as duas gotas de óleo que lhe confiei? – perguntou o Sábio.

Olhando para a colher, o rapaz percebeu que as havia derramado.

– Pois este é o único conselho que eu tenho para lhe dar – disse o mais Sábio dos Sábios. – O segredo da felicidade está em olhar todas as maravilhas do mundo, e nunca se esquecer das duas gotas de óleo na colher

(do livro “O alquimista”, edição comemorativa em todas as livrarias do Brasil, e record mundial de permanecia na lista de mais vendidos do NY Times)

“O Alquimista” é um 20 livros mais vendidos de todos os tempos

 
 

Livraria Online AQUI
Meus livros em Kindle AQUI

 

Sobre a arte de escrever

Por Paulo Coelho

 

“Há dois tipos de escritores: aqueles que fazem você pensar e aqueles que fazem você sonhar”, diz Brian Aldiss, que me fez sonhar por um longo tempo com seus livros de ficção científica. Por princípio, eu acredito que cada ser humano neste planeta tem pelo menos uma boa história para contar aos próximos. O que se segue são as minhas reflexões sobre alguns itens importantes no processo de criação de um texto:
Acima de tudo, o escritor tem que ser um bom leitor. Aquele que se aferra aos livros acadêmicos e não lê o que outros escrevem (e aqui eu não estou falando apenas de livros, mas também blogs, colunas de jornal e assim por diante) jamais irá conhecer suas próprias qualidades e defeitos.

Então, antes de começar qualquer coisa, procure pessoas que estão interessadas em partilhar a sua experiência através de palavras. Eu não estou dizendo: “busque outros escritores”. O que estou dizendo é: encontre pessoas com diferentes habilidades, porque escrever não é diferente de qualquer outra atividade que é feita com entusiasmo.

Seus aliados não serão necessariamente aquelas pessoas que todos olham, se deslumbram, e afirmam: “não há ninguém melhor”. É muito pelo contrário: são as pessoas que não têm medo de cometer erros, e ainda assim eles cometem erros. É por isso que o seu trabalho nem sempre é reconhecido. Mas esse é o tipo de pessoa que muda o mundo, e depois de muitos erros elas conseguem acertar algo que fará toda a diferença em sua comunidade.

Estas são pessoas que não conseguem ficar esperando que as coisas aconteçam antes de decidir qual a melhor maneira de narrá-las: elas decidem enquanto agem, mesmo sabendo que isso pode ser muito arriscado.

Conviver com estas pessoas é importante para escritores, porque eles precisam entender que, antes de colocar qualquer coisa no papel, eles devem ter liberdade suficiente para mudar de direção conforme sua imaginação vagueia. Quando uma sentença chega ao fim, o escritor deve dizer a si mesmo: “enquanto eu estava escrevendo eu percorri um longo caminho. Agora termino este parágrafo com a consciência de que arrisquei o bastante e dei o melhor de mim mesmo.”

Os melhores aliados são aqueles que não pensam como os outros. É por isso que, enquanto você estiver procurando seus companheiros, confie em sua intuição e não dê qualquer atenção para os comentários alheios. As pessoas sempre julgam os outros tendo como modelo suas próprias limitações – e às vezes a opinião da comunidade é cheia de preconceitos e medos.

Junte-se aos que jamais disseram: “acabou, eu tenho que parar por aqui”. Porque assim como o inverno é seguido pela primavera, nada chega ao fim: depois de atingir seu objetivo, você tem que começar de novo, sempre usando tudo que aprendeu no caminho.
Junte-se aos que cantam, contam histórias, aproveitam a vida e têm a felicidade em seus olhos. Porque a alegria é contagiosa, e sempre consegue impedir que as pessoas se deixem paralisar pela depressão, solidão e problemas.

E conte a sua história, mesmo que seja apenas para a sua família ler.

DICAS SOBRE ESCREVER

Sobre Segurança Você não pode vender o seu próximo livro menosprezando o seu livro que acabou de ser publicado. Seja orgulhoso do que você tem.
Sobre Confiança Confie no seu leitor, não tente descrever coisas. Dê uma dica e eles vão preencher com sua própria imaginação.
Sobre Experiência Você não pode tirar algo do nada. Ao escrever um livro, use sua experiência.
Sobre Críticos Alguns escritores querem agradar seus pares, eles querem ser “reconhecidos”. Isso mostra insegurança e nada mais, por favor esqueça isso. Você deve se importar em partilhar a sua alma e não agradar a outros escritores.
Sobre Anotações Se você deseja capturar idéias, você está perdido. Você estará desconectado das emoções e se esquecerá de viver a sua vida. Você vai ser um observador e não um ser humano vivendo a sua vida. Esqueça de fazer anotações. O que é importante fica, o que não é importante vai embora.
Sobre Pesquisa Se você sobrecarregar o seu livro com um monte de pesquisa, vai ser muito chato para você e para o seu leitor. Livros não estão aí para mostrar como você é inteligente. Livros estão aí para mostrar a sua alma.
Sobre Escrita Eu escrevo o livro que quer ser escrito. Atrás da primeira frase tem uma corda que leva você até a última.
Sobre Estilo Não tente inovar as narrativas, conte uma boa história e será mágico. Eu vejo pessoas tentando trabalhar tanto no estilo, encontrar diferentes maneiras de dizer a mesma coisa. É como a moda. O estilo é o vestido, mas o vestido não dita o que está dentro do vestido.

 

(traduçao de Danilo Leonardi – o texto original foi publicado em ingles na  TIME )

O passageiro e o definitivo

Todos os caminhos do mundo levam ao coraí§í£o do guerreiro; ele mergulha sem hesitar no rio de paixíµes que sempre corre por sua vida.
O guerreiro sabe que é livre para escolher o que desejar; suas decisíµes sí£o tomadas com coragem, desprendimento, e – as vezes – com uma certa dose de loucura.

Aceita suas paixíµes, e as desfruta intensamente. Sabe que ní£o é preciso renunciar ao entusiasmo das conquistas; elas fazem parte da vida, e alegra a todos que delas participam.
Mas jamais perde de vista as coisas duradouras, e os laí§os criados com solidez através do tempo.

Um guerreiro sabe distinguir o que é passageiro, e o que é definitivo.

 

(do meu livro “Manual do Guerreiro da Luz”)

Leitura de domingo 15 Fev

Pode uma folha, quando cai da árvore no inverno, sentir-se derrotada pelo frio?
A árvore diz para a folha: ‘Este é o ciclo da vida. Embora vocíª pense que irá morrer, na verdade ainda continua em mim. Graí§as a vocíª estou viva, porque pude respirar. Também graí§as a vocíª senti-me amada, porque pude dar sombra ao viajante cansado. Sua seiva está na minha seiva, somos uma coisa só.’

Pode um homem que se preparou durante anos para subir a montanha mais alta do mundo, sentir-se derrotado quando chega diante do seu objetivo e descobre que a natureza a cobriu com uma tempestade? O homem diz para a montanha: ‘Vocíª ní£o me quer agora, mas o tempo vai mudar e um dia poderei sub
Iir até seu topo. Enquanto isso, vocíª continua aí­ me esperando.’

Pode um jovem, quando é rejeitado por seu primeiro amor, afirmar que o amor ní£o existe? O jovem diz para si mesmo: ‘Encontrarei alguém capaz de entender o que sinto. E serei feliz pelo resto de meus dias.’

Ní£o existe nem vitória nem derrota no ciclo da natureza: existe movimento.

 
em “Manuscrito encontrado em Accra”

O grande silíªncio

Diz a freira Balbas Miguel, do Mosteiro de Huelgas:

“San Juan de La Cruz nos ensina que o silíªncio tem sua própria música; é o silíªncio que nos permite ver a nós mesmos e as coisas que nos cercam.

“Eu gostaria de acrescentar: existem palavras que só podem ser ditas em silíªncio, por mais absurdo que isso possa parecer. Os grandes gíªnios, para compor suas sinfonias, preci­savam de silíªncio – e conseguiam transformá-lo em sons divinos. O filósofo e o cientista precisam do silíªncio.

“No mosteiro, prati­camos de noite o que chamamos de O Grande Silíªncio. Através da ausíªncia de conversas, conseguimos entender o que está além”.

2 min de leitura: o cí­rculo do amor

Certo dia, um camponíªs bateu com forí§a na porta de um convento. Quando o irmí£o porteiro abriu, ele lhe estendeu um magní­fico cacho de uvas.

– Caro irmí£o porteiro, estas sí£o as mais belas produzidas pelo meu vinhedo. E venho aqui para dá-las de presente.

– Obrigado! Vou levá-las imediatamente ao Abade, que ficará alegre com esta oferta.

– Ní£o! Eu as trouxe para vocíª.

– Para mim? Vocíª me deixa ruborizado, porque ní£o mereí§o tí£o belo presente da natureza.

– Sempre que bati na porta, vocíª abriu. Quando precisei de ajuda porque a colheita foi destruí­da pela seca, vocíª me dava um pedaí§o de pí£o e um copo de vinho todos os dias. Eu quero que este cacho de uvas traga-lhe um pouco do amor do sol, da beleza da chuva, e do milagre de Deus, que o fez nascer tí£o belo.

O irmí£o porteiro colocou o cacho diante de si, e passou a manhí£ inteira admirando-o: era realmente lindo. Por causa disso, resolveu entregar o presente ao Abade, que sempre o havia estimulado com palavras de sabedoria.

O Abade ficou muito contente com as uvas, mas lembrou-se que havia no convento um irmí£o que estava doente, e pensou: “vou dar-lhe o cacho. Quem sabe, pode trazer alguma alegria í  sua vida”.

Mas as uvas ní£o ficaram muito tempo no quarto do irmí£o doente, porque este refletiu: “o irmí£o cozinheiro tem cuidado de mim por tanto tempo, alimentando-me com o que há de melhor. Tenho certeza que isso lhe trará muita felicidade. Quando o irmí£o cozinheiro apareceu na hora do almoí§o, trazendo sua refeií§í£o, ele entregou-lhe as uvas”.

– Sí£o para vocíª. Como sempre está em contacto com os produtos que a natureza nos oferece, saberá o que fazer com esta obra de Deus.

O irmí£o cozinheiro ficou deslumbrado com a beleza do cacho, e fez com que o seu ajudante reparasse a perfeií§í£o das uvas. Tí£o perfeitas que ninguém para aprecia-las melhor que o irmí£o sacristí£o, responsável pela guarda do Santí­ssimo Sacramento, e muitos no mosteiro o viam como um homem santo.

O sacristí£o, por sua vez, deu as uvas de presente ao novií§o mais jovem, de modo que este pudesse entender que a obra de Deus está nos menores detalhes da Criaí§í£o. Quando o novií§o o recebeu, o seu coraí§í£o encheu-se da Glória do Senhor, porque nunca tinha visto um cacho tí£o lindo. Na mesma hora lembrou-se da primeira vez que chegara ao mosteiro, e da pessoa que lhe tinha aberto a porta; fora este gesto que lhe permitira estar hoje naquela comunidade de pessoas que sabiam valorizar os milagres.

Assim, pouco antes do cair da noite, ele levou o cacho de uvas para o irmí£o porteiro.

– Coma e aproveite. Porque vocíª passa a maior parte do tempo aqui sozinho, e estas uvas lhe farí£o muito feliz.

O irmí£o porteiro entendeu que aquele presente tinha lhe sido realmente destinado, saboreou cada uma das uvas daquele cacho, e dormiu feliz. Desta maneira, o cí­rculo foi fechado; o cí­rculo de felicidade e alegria, que sempre se estende em torno de quem está em contacto com a Energia do Amor.

O profeta, Khalil Gibran

Ní£o podemos esquecer quem somos

Em todas as lí­nguas do mundo existe um mesmo ditado: o que os olhos ní£o víªem, o coraí§í£o ní£o sente.
Pois eu afirmo que ní£o há nada mais falso do que isso; quanto mais longe, mais perto do coraí§í£o estí£o os sentimentos que procuramos sufocar e esquecer.
Se estamos no exí­lio, queremos guardar cada pequena lembraní§a de nossas raí­zes, se estamos distantes da pessoa amada, cada pessoa que passa pela rua nos faz lembrar dela.

Os evangelhos, e todos os textos sagrados de todas as religiíµes foram escritos no exí­lio, em busca da compreensí£o de Deus, da fé que movia os povos adiante, da peregrinaí§í£o das almas errantes pela face da terra.

Ní£o sabiam os nossos antepassados – e tampouco nós sabemos o que a Divindade espera de nossas vidas -, e é nesse momento que os livros sí£o escritos, os quadros pintados, porque ní£o queremos e ní£o podemos esquecer quem somos.