Archive for the 'Guerreiro da Luz' Category

Convivendo com os outros

Continue no deserto

- Por que o senhor vive no deserto?

- Porque não consigo ser o que desejo. Quando começo a ser eu mesmo, as pessoas me tratam com uma reverência falsa. Quando sou verdadeiro a respeito de minha fé, então elas que começam a duvidar. Todos acreditam que são mais santos que eu, mas fingem-se de pecadores com medo de insultar minha solidão. Procuram mostrar o tempo todo que me consideram um santo; e assim se transformam em emissários do demônio, me tentando com o Orgulho.

- Seu problema não é tentar ser quem é, mas aceitar os outros como são. E agir assim, é melhor continuar no deserto – disse o cavaleiro, afastando-se.

 

Perdoando os inimigos

O abade perguntou ao aluno preferido como ia seu progresso espiritual. O aluno respondeu que estava conseguindo dedicar a Deus todos os momentos de seu dia.

- Então, falta apenas perdoar os seus inimigos.

O rapaz ficou chocado:

- Mas não tenho raiva de meus inimigos!

- Você acha que Deus tem raiva de você?

- Claro que não!

- E mesmo assim você pede Seu perdão, não é verdade? Faça o mesmo com seus inimigos, mesmo que não sinta ódio por eles. Quem perdoa, está lavando e perfumando o próprio coração.

 

Porque deixar o homem para o sexto dia

Um grupo de sábios reuniu-se para discutir a obra de Deus; queriam saber por que havia deixado para criar o homem no sexto dia.

- Ele pensava em organizar bem o Universo, de modo que pudéssemos ter todas as maravilhas a nossa disposição – disse um.

- Ele quis primeiro fazer alguns testes com animais, de modo a não cometer os mesmos erros conosco – argumentou outro.

Um sábio judeu apareceu para o encontro. O tema da discussão lhe foi comunicado: “em sua opinião, por que Deus deixou para criar o homem no último dia?”

- Muito simples – comentou o sábio. – Para que, quando fossemos tocados pelo orgulho, pudéssemos refletir: até mesmo um simples mosquito teve prioridade no trabalho Divino.

 

O reino deste mundo

Um velho ermitão foi certa vez convidado para ir até a corte do rei mais poderoso daquela época.

- Eu invejo um homem santo, que se contenta com tão pouco – comentou o soberano.

- Eu invejo Vossa Majestade, que se contenta com menos que eu. Eu tenho a música das esferas celestes, tenho os rios e as montanhas do mundo inteiro, tenho a lua e o sol, porque tenho Deus na minha alma. Vossa Majestade, porém, tem apenas este reino.

 

Qual o melhor caminho

Quando perguntaram ao abade Antonio se o caminho do sacrifício levava ao céu, este respondeu:

-Existem dois caminhos de sacrifício. O primeiro é o do homem que mortifica a carne, faz penitência, porque acha que estamos condenados. Este homem sente-se culpado, e julga-se indigno de viver feliz. Neste caso, ele não chega a lugar nenhum, porque Deus não habita a culpa.

“O segundo é o do homem que, embora sabendo que o mundo não é perfeito como todos queríamos que fosse, reza, faz penitência, oferece seu tempo e seu trabalho para melhorar o ambiente ao seu redor. Neste caso, a Presença Divina o ajuda o tempo todo, e ele consegue resultados no Céu”.

 

O trabalho na lavoura

O rapaz cruzou o deserto, e chegou finalmente ao mosteiro de Sceta. Ali, pediu para assistir uma das palestras do abade – e recebeu permissão.

Naquela tarde, o abade discorreu sobre a importância do trabalho na lavoura.

No final da palestra, o rapaz comentou com um dos monges:

- Fiquei muito impressionado. Achei que ia encontrar um sermão iluminado sobre as virtudes e os pecados, e o abade só falava de tomates, irrigação, e coisas assim. Do lugar aonde venho, todos acreditam que Deus é misericórdia: basta rezar.

O monge sorriu, e respondeu:

- Aqui, nós acreditamos que Deus já fez a parte Dele; agora cabe a nós continuar o processo.

Problemas de comunicação

Diante da catedral

Eu estava me sentindo muito só quando saí de uma missa na Catedral de Saint Patrick, em plena New York.

De repente, fui abordado por um brasileiro:

- Preciso muito falar com você – ele disse.

Fiquei tão entusiasmado com o encontro, que comecei a contar tudo que achava importante para mim. Falei de magia, falei de bênçãos de Deus, falei de amor. Ele escutou tudo em silêncio, me agradeceu, e foi embora.

Ao invés de alegria, eu me senti mais só do que antes. Mais tarde fui me dar conta; no meu entusiasmo, não tinha dado atenção ao pedido daquele brasileiro.

Falar comigo.

Atirei minhas palavras ao vento, porque não era isto que o Universo estava querendo naquela hora: eu teria sido muito mais útil se escutasse o que ele tinha a dizer.

 

Quem amamos?

Desde crianças, nos perguntam: você ama papai? Você ama titia? Você ama seu professor?

Ninguém pergunta: você se ama?

E terminamos gastando grande parte de nossa vida e de nossa energia tentando agradar os outros. Mas e a gente? O jesuíta Anthony Mello conta uma genial história a respeito.

Mãe e filho estão numa lanchonete. Depois de escutar o pedido da mãe, a garçonete vira-se para o menino:

- O que você quer?

- Um cachorro-quente.

- Nada disso – diz a mãe.- Ele quer bife com verduras.

A garçonete, ignorando o comentário, pergunta ao garoto:

- Você prefere com mostarda ou com ketchup?

- Os dois – responde o garoto.

E logo em seguida vira-se para a mãe, surpreso:

- Mamãe! ELA ACHA QUE EU SOU DE VERDADE!

 

Ninguém acredita

Conta a lenda que, logo após sua Iluminação, Buda resolveu passear pelos campos. No caminho, encontrou um lavrador, que ficou impressionado com a luz que emanava do mestre.

- Meu amigo, quem é você? – perguntou o lavrador. – Pois tenho a sensação que estou diante de um anjo, ou de um Deus.

- Não sou nada disto – respondeu Buda.

- Quem sabe você é um poderoso feiticeiro?

- Tampouco.

- Então, o que o faz ser tão diferente dos outros, a ponto de um simples camponês como eu ser capaz de notar isto?

- Sou apenas alguém que acordou para a vida. Nada mais. Mas falo isto para todo mundo, e ninguém acredita.

 

O guarda-chuva

Como manda a tradição, ao entrar na casa do mestre zen, o discípulo deixou do lado de fora os sapatos e o guarda-chuva.

- Vi pela janela que você chegava – comentou o mestre. – Você deixou os sapatos à direita ou à esquerda do guarda-chuva?

- Não tenho a menor idéia. Mas que importância tem isso? Eu estava pensando no segredo do Zen!

- Se você não prestar atenção na vida, jamais aprenderá coisa alguma. Comunique-se com a vida, dê a cada segundo a atenção que merece; este é o único segredo do Zen.

Em busca do sonho

Quem ousa ter um projeto em sua vida, que ousa largar tudo para viver sua Lenda Pessoal, acabará conseguindo. O importante é manter o fogo no coração, e ter fibra para ultrapassar os momen­tos difíceis.

Lembrem-se: o desejo que está em nossa alma não veio do nada; Alguém o colocou ali. E este Alguém, que é puro amor e deseja apenas nossa felicidade, só fez isso porque nos deu, junto com o desejo, as ferramentas para realizá-lo.

 

A subida arriscada

Durante uma tempestade, o peregrino chega numa hospedaria, e o dono lhe pergunta onde está indo.

- Vou até as montanhas – responde.

- Desista – diz o dono. – É uma subida arriscada, e o tempo está ruim.

- Irei, sim – responde o peregrino. – Se meu coração chegou lá primeiro, será fácil segui-lo com meu corpo.

 

Qual o preço?

- O preço de viver um sonho é muito maior do que o preço de viver sem arriscar-se a sonhar? – perguntou o discípulo.

O mestre levou-o a uma loja de roupas. Ali, pediu que experi­mentasse um terno exatamente do seu tamanho. O discípulo obede­ceu, e ficou maravilhado com a qualidade da roupa.

Em seguida, o mestre pediu que experimentasse o mesmo terno – mas de um tamanho muito superior ao seu. O discípulo fez isto.

- Esse não serve. Está muito grande.

- Quanto custam estes ternos? – perguntou o mestre ao vendedor.

- Os dois custam o mesmo preço. Apenas o tamanho é diferente.

Na saída da loja, o mestre comentou com seu discípulo:

- Viver o sonho, ou abandonar o sonho, também custa o mesmo preço, geralmente muito caro. Mas a primeira atitude nos leva a comungar com o milagre da vida, e a segunda não nos serve para nada.

 

A busca do caminho

- Estou disposto a largar tudo. Por favor, me aceite como discípulo.

- Como um homem escolhe seu caminho?

- Pelo sacrifício. Um caminho que exige sacrifício é um caminho verdadeiro.

O abade esbarrou numa estante. Um vaso raríssimo despencou, e o jovem atirou-se no chão para agarrá-lo. Caiu de mal jeito e quebrou o braço, mas conseguiu salvar o vaso.

- Qual é o maior sacrifício: ver o vaso espatifar-se, ou quebrar o braço para salvá-lo?

- Não sei.

- Então não tente orientar sua escolha pelo sacrifício. O camin­ho é escolhido por nossa capacidade de nos comprometer com cada passo que damos enquanto o percorremos.

 

O discípulo embriagado

Um mestre zen tinha centenas de discípulos. Todos rezavam na hora certa – exceto um, que vivia bêbado.

O mestre foi envelhecendo. Alguns dos alunos mais virtuosos começaram a discutir quem seria o novo líder do grupo, aquele que receberia os importantes segredos da Tradição.

Na véspera de sua morte, porém, o mestre chamou o discípulo bêbado e lhe transmitiu os segredos ocultos.

Uma verdadeira revolta tomou conta dos outros.

- Que vergonha! – gritavam pelas ruas. – Nos sacrificamos por um mestre errado, que não sabe ver nossas qualidades.

Escutando a confusão do lado de fora, o mestre agonizante comentou:

- Eu precisava passar estes segredos para um homem que eu conhecesse bem. Todos os meus alunos eram muito virtuosos, e mostravam apenas suas qualidades. Isso é perigoso; a virtude muitas vezes serve para esconder a vaidade, o orgulho, a intolerância.

“Por isso escolhi o único discípulo que eu conhecia realmente bem, já que podia ver seu defeito: a bebedeira”.

O direito como metáfora

Sou uma pessoa que crê no sistema judiciário. Apesar de todos os percalços, vemos – por exemplo – a Suprema Corte dos Estados Unidos desqualificando a tortura como método de interrogatório, mesmo que o presidente da República e seu vice tenham, através de artimanhas legais, tentado justificá-la.

Entretanto, minha crença não é compartilhada por muita gente. Um amigo advogado disse-me que “o direito não foi feito para resolver problemas, mas para prolongá-los indefinidamente”. Apenas como exercício de imaginação, resolvi usar sua tese analisando o Genesis, primeiro livro da Bíblia.

Se Deus vivesse hoje, nós todos ainda estaríamos no Paraíso, enquanto Ele estaria ainda respondendo a recursos, apelos, rogatórias, precatórias, mandatos de segurança, liminares – e teria que se explicar em inúmeras audiências sua decisão de expulsar Adão e Eva do Paraíso – apenas por transgredir uma lei arbitrária, sem nenhum fundamento jurídico: não comer o fruto do Bem e do Mal.

Se Ele não queria que isso acontecesse, porque colocou a tal árvore no meio do Jardim – e não fora dos muros do Paraíso? Se fosse chamado para defender o casal, um advogado experiente podia argumentar a tese de “omissão administrativa”; além de colocar a árvore em lugar errado, não a cercou com avisos, barreiras, deixando de adotar os mínimos requisitos de segurança, e expondo todos que passavam ao perigo.

Outro advogado o acusaria de “indução ao crime”: chamou a atenção de Adão e Eva para o exato local onde se encontrava. Se não tivesse dito nada, gerações e gerações passariam por esta Terra sem que ninguém se interessasse pelo fruto proibido – já que devia estar numa floresta, cheia de árvores iguais, e, portanto sem nenhum valor específico.

Mas o Gênesis aconteceu antes do sistema judiciário, e, portanto permitiu que Deus tivesse completa liberdade de ação. Escreveu uma única lei, e encontrou uma maneira de convencer alguém a transgredi-la, só para poder inventar o Castigo. Sabia que o Adão e Eva terminariam entediados com tanta coisa perfeita, e – mais cedo ou mais tarde – iriam testar Sua paciência. Ficou ali esperando, porque também Ele – Deus Todo Poderoso – estava entediado com as coisas funcionando perfeitamente: se Eva não tivesse comido a maçã, o que teria acontecido de interessante nestes bilhões de anos?

Nada.

Quando a lei foi violada, Deus – o Juiz Todo Poderoso – ainda simulara uma perseguição, como se não conhecesse todos os esconderijos possíveis. Com os anjos olhando e divertindo-se com a brincadeira (a vida para eles também devia ser muito aborrecida, desde que Lúcifer deixara o Céu), Ele encontra Adão.

“Onde estás?” Perguntara Deus, que já sabia a resposta. Não o alertou para as conseqüências da resposta. Não disse a famosa frase que tanto ouvimos nos filmes: “tudo que disser pode ser usado contra você”.

“Ouvi seu passo no jardim, tive medo e me escondi, porque estou nu”, respondera Adão, sem saber que, a partir desta afirmação, passava a ser réu confesso de um crime.

Pronto. Através de um simples truque, onde aparentava não saber onde Adão estava, nem o motivo de sua fuga, Deus conseguira o que desejava. Expulsou o casal, seus filhos terminaram pagando também pelo crime (como acontece até hoje com os filhos de criminosos), e o sistema judiciário fora inventado: lei, transgressão da lei, julgamento e castigo.

A montanha mágica

Creio que uma das mais belas regiões do mundo é o Languedoc, uma parte dos Pirineus que se encontra ao sudoeste da França. Já estive ali algumas vezes, e fico impressionado com seus vales, montanhas, vegetação, rios. Entretanto, como o ser humano é absolutamente imprevisível, foi justamente nesse lugar magnífico que nasceu a primeira grande “heresia” européia: o catarismo.

Muitos livros já foram escritos sobre o tema: entretanto, é possível resumir a filosofia cátara em uma simples frase: o Universo foi criado pelo demônio. Toda esta beleza aparente é uma obra diabólica.

Segundo a enciclopédia, eles eram dualistas e acreditavam na existência de dois deuses, um do bem (Deus) e outro do mal (Satã), que teria criado o mundo material. Por causa disso, tinham voto de castidade, não pretendiam procriar e dar mais adeptos ao diabo. Chamavam a si mesmos de “perfeitos”, e estavam dispostos ao martírio para provar a importância de sua crença. O final simbólico do movimento, que desencadeou as primeiras cruzadas que se tem notícia, deu-se no dia 15 de março de 1244 na fortaleza de Montségur: depois de um prolongado sítio, onde lhes foi oferecido à conversão ao catolicismo ou à morte, aproximadamente 250 “perfeitos”, homens, mulheres e crianças, desceram a montanha cantando e se atiraram às chamas da fogueira acesa especialmente para isso.

Durante muito tempo me interessei pelo catarismo. Em 1989, conheci Brida O’Fern (mais tarde, personagem de um livro meu) que tinha sido cátara em uma encarnação passada. No início daquele mesmo ano havia conhecido Mônica Antunes, na época apenas minha amiga, e hoje minha amiga e agente.

Como eu precisava, por razões espirituais, fazer o caminho cátaro (uma trilha que liga os castelos/fortalezas dos “perfeitos”) convidei-a para participar de um trecho do percurso.

Mônica e eu chegamos aos pés da montanha de Montségur em uma tarde de agosto. Tínhamos planejado subi-la no dia seguinte, e depois do jantar fomos conversar no lugar onde a tal fogueira havia sido acesa, quase 800 anos antes (um insignificante monumento marca o local). O tempo estava fechado, nuvens tão baixas que não conseguíamos nem mesmo ver as ruínas no alto da gigantesca rocha. Apenas para provocar Mônica, disse que talvez fosse interessante subir naquela mesma noite. Ela disse que não, e eu fiquei aliviado: imagine se tivesse dito que sim?

Neste momento, para um carro, da mesma marca e da mesma cor que o meu. Desce um irlandês, e pergunta – como se fôssemos da região – por onde se pode escalar a rocha. Sugiro que faça isso conosco no dia seguinte, mas ele está decidido a subir naquela mesma noite: pretende ver o nascer do sol lá em cima, diz que talvez tenha sido cátaro em uma vida passada. Será que poderíamos lhe emprestar uma lanterna?

E tudo parece se encaixar: Brida, a obrigação de fazer o caminho cátaro, a brincadeira minutos antes com Mônica, e agora aquele sujeito ali, com um carro igual ao meu. É um sinal. Vou até o hotel na aldeia onde estamos hospedados, e consigo uma lanterna – a única que existe.

Mônica parece assustada, mas eu afirmo que devemos seguir adiante. Sinais são os sinais, digo. O recém-chegado pergunta onde está o caminho. Não importa, respondo, basta subir. O caminho é para cima.

E durante um tempo que não consigo me lembrar, nós três escalamos à noite uma montanha que não conhecíamos, e que a névoa só permitia ver alguns palmos adiante. Finalmente, cruzamos as nuvens, o céu se enche de estrelas, a lua está cheia, e diante de nós, a porta da fortaleza de Montségur.

Entramos, contemplamos as ruínas. Eu olho a beleza do firmamento, me pergunto como chegamos ali sem qualquer acidente, mas acho melhor parar com perguntas e apenas admirar o milagre. Os cátaros contemplavam este mesmo céu, e mesmo assim achavam que todas estas estrelas eram obra do demônio. Jamais compreenderei os cátaros, embora respeite a integridade como se dedicavam à sua fé.

Voltei a Montségur e subi a montanha outras vezes, mas nunca mais consegui encontrar o caminho que usamos naquela noite de agosto de 1989.

Mistérios existem.

O pecado e as religiões

Cristianismo: o jogo de xadrez

O jovem disse ao abade do mosteiro:

- Bem que eu gostaria de ser um monge, mas nada aprendi de importante na vida. Tudo que meu pai me ensinou foi jogar xadrez, que não serve para iluminação. Além do mais, aprendi que qualquer jogo é um pecado.

- Pode ser um pecado, mas também pode ser uma diversão, e quem sabe este mosteiro não está precisando um pouco de ambos – foi a resposta.

O abade pediu um tabuleiro de xadrez, chamou um monge, e mandou-o jogar com o rapaz.

Mas antes da partida começar, acrescentou:

- Embora precisemos de diversão, não podemos permitir que todo mundo fique jogando xadrez. Então, teremos apenas o melhor dos jogadores aqui; se nosso monge perder, ele sairá do mosteiro, e abrirá uma vaga para você.

O abade falava sério. O rapaz sentiu que jogava por sua vida, e suou frio; o tabuleiro tornou-se o centro do mundo.

O monge começou a perder. O rapaz atacou, mas então viu o olhar de santidade do outro; a partir deste momento, começou a jogar errado de propósito. Afinal de contas preferia perder, porque o monge podia ser mais útil ao mundo.

De repente, o abade jogou o tabuleiro no chão.

- Você aprendeu muito mais do que lhe ensinaram – disse. – Concentrou-se o suficiente para vencer, foi capaz de lutar pelo que desejava. Em seguida, teve compaixão, e disposição para sacrificar-se em nome de uma nobre causa. Seja bem-vindo ao mosteiro, porque sabe equilibrar a disciplina com a misericórdia.

Judaísmo: Perdoando no mesmo espírito

O rabi Nahum de Chernobyl vivia sendo ofendido por um comerciante. Um dia, os negócios deste último começaram a andar muito mal.

“Deve ser o rabino, que está pedindo vingança a Deus”, pensou. E foi pedir desculpas a Nahum.

-Eu o perdôo com o mesmo espírito que você me pede – respondeu o rabino.

Mas as perdas do homem cresceram cada vez mais, até que ele ficou reduzido à miséria. Os discípulos de Nahum, horrorizados, foram perguntar o que tinha acontecido.

-Eu o perdoei, mas ele continuou me odiando no fundo de seu coração – disse o rabino. – Então, seu ódio contaminou tudo que fazia, e a punição de Deus tornou-se ainda mais severa.

Islã: onde está Deus

Numa pequena aldeia de Marrocos, um imã contemplava o único poço de toda a região. Um outro muçulmano aproximou-se:

- O que tem lá dentro?

- Deus está escondido aí.

- Deus está escondido dentro deste poço? Isso é pecado! O que você está vendo deve ser uma imagem deixada pelos infiéis!

O imã pediu que se aproximasse e se debruçasse na borda. Refletido na água, ele pode ver o seu próprio rosto.

- Mas este sou eu!

- Isso mesmo. Agora você sabe onde Deus está escondido.

As coisas como elas são

É claro que nem sempre as coisas acontecem como queríamos que acontecessem. Existem momentos em que sentimos que estamos bus­cando algo que não está reservado para nós, dando murros em portas que não se abrem, esperando milagres que não se manifes­tam.

Ainda bem que as coisas são assim – se tudo andasse como a gente quer, em breve não íamos ter mais assunto para escrever o roteiro dos nossos dias. Este roteiro é feito de nossos sonhos como alimento, mas de nossa luta como energia. E como sempre acontece com os guerreiros que gastam sua energia no Bom Combate, há momentos em que é melhor relaxar, e acreditar que o Universo continua trabalhando por nós em segredo, mesmo que não possamos compreender.

Deixemos, portanto, que Alma do Mundo cumpra sua missão, e quando não podemos ajudá-la, a melhor maneira de colaborar com ela é prestar atenção às coisas simples da vida – no pôr do sol, nas pessoas que passam na rua, na leitura de um livro.

Entretanto, em muitos casos o tempo continua passando, e nada de excepcional acontece. Mas o verdadeiro guerreiro da luz acredita. Assim como as crianças acreditam.

Porque crê em milagres, os milagres começam a acontecer.

Porque tem certeza que seu pensamento pode mudar sua vida, sua vida começa a mudar.

Porque está certo que irá encontrar o amor, este amor aparece.

De vez em quando, se decepciona. Às vezes, se machuca.

E então escuta os comentários: “como é ingênuo!”

Mas o guerreiro sabe que vale o preço. Para cada derrota, tem duas conquistas a seu favor.

Em um interessante e minúsculo livro, “O Breviário da Cavalaria Medieval”, há um texto que deve ser lembrado nestes momentos de espera:

“A energia espiritual do Caminho utiliza a justiça e a paciência para preparar teu espírito.”

“Este é o Caminho do Cavaleiro. Um caminho fácil e ao mesmo tempo difícil, porque obriga a deixar de lado as coisas inúteis, e as amizades relativas. Por isso, no começo, sente-se tanta hesitação em segui-lo.

“Eis o primeiro ensinamento da Cavalaria: tu irás apagar o que até então tinhas escrito no caderno de tua vida: inquietação, insegurança, mentira. E iras escrever, no lugar disto tudo, a palavra coragem. Começando a jornada com esta palavra, e seguindo com a fé em Deus, chegarás onde precisas”.

Mesmo assim, às vezes continuamos esperando – com paciência, resignação, coragem – e as coisas a nossa volta não se movem. Mas como foi esta a estrada que escolhemos, é impossível que as bênçãos da vida não estejam trabalhando a nosso favor. Cabe, portanto, uma profunda reflexão sobre aquilo que chamamos de “resultados”: nosso destino está se manifestando de uma maneira que não chegamos a compreender totalmente – mas está se manifestando! Jorge Luís Borges tem um conto magistral a este respeito.

Descreve o nascimento de um tigre que passa grande parte de sua vida na selva africana, mas termina sendo capturado e levado para um zoológico na Itália. A partir dali, o animal pensa que sua vida perdeu o sentido, e nada mais resta que esperar o dia de sua morte.

Uma bela manhã, o poeta Dante Alighieri passa por aquele zoológico, olha o tigre, e o animal inspira um verso – no meio de milhares de versos – da “Divina Comédia”.

“Toda a luta pela sobrevivência que aquele tigre travou, foi para que pudesse estar aquela manhã no zoológico, e inspirar um verso imortal”, diz Borges.

Assim como este tigre, todos nós temos uma razão – uma razão muito importante – para estarmos aqui, neste momento, nesta manhã.

Relaxe, portanto. E preste atenção.

As quatro forças

O padre Alan Jones diz que, para a construção de nossa alma, precisamos das Quatro Forças Invisíveis: amor, morte, poder e tempo. É necessário amar, porque somos amados por Deus. É necessária a consciência da morte, para entender bem a vida. É necessário lutar para crescer – mas sem cair na armadilha do poder que conseguimos com isto, porque sabemos que ele não vale nada. Finalmente, é necessário aceitar que nossa alma – embora seja eterna – está neste momento presa na teia do tempo, com suas oportunidades e limitações.

Primeira força: amor

A esposa do rabino Iaakov vivia procurando um motivo para discutir com o marido. Iaakov nunca respondia as provocações.

Até que, durante um jantar com alguns amigos, o rabino terminou discutindo ferozmente com sua mulher, surpreendendo a todos na mesa.

- O que aconteceu? – perguntaram – Por que abandonou seu costume de jamais responder?

- Porque percebi que o que mais perturbava minha mulher era o fato de ficar em silêncio. Agindo assim, eu permanecia distante de suas emoções.

“Minha reação foi um ato de amor, e eu consegui fazê-la entender que escutava suas palavras”.

Segunda força: morte

Assim que morreu, Juan encontrou-se num belíssimo lugar, rodeado pelo conforto e beleza que sonhava. Um sujeito vestido de branco aproximou-se:

- Você tem direito ao que quiser.

Encantado, Juan fez tudo que sonhou fazer durante a vida. Depois de muitos anos de prazeres, procurou o sujeito de branco. Disse que já tinha experimentado tudo, e agora precisava de um pouco de trabalho para sentir-se útil.

- Essa é a única coisa que não posso conseguir – disse o sujeito de branco.

- Passarei a eternidade morrendo de tédio! Preferia mil vezes estar no inferno!

- E onde o senhor pensa que está?

Terceira força: poder

- Tenho passado grande parte do meu dia pensando coisas que não devia pensar, desejando coisas que não devia desejar, fazendo planos que não devia fazer.

O mestre apontou uma planta e perguntou se o discípulo sabia o que era.

- Beladona. Pode matar quem comer suas folhas.

Mas não pode matar quem simplesmente a contempla. Da mesma maneira, os desejos negativos não podem causar nenhum mal – se você não se deixar seduzir por eles.

Quarta força: tempo

Um carpinteiro e seus auxiliares viajavam em busca de material quando viram uma árvore gigantesca.

- Não vamos perder nosso tempo – disse o mestre carpinteiro. – Para cortá-la, demoraremos muito. Se quisermos fazer um barco, ele afundará, de tão pesado o seu tronco. Se resolvermos usá-la para a estrutura de um teto, as paredes terão que ser exageradamente resistentes.

O grupo seguiu adiante. Um dos aprendizes comentou:

- É uma árvore tão grande e não serve para nada!

- Você está enganado. Ela seguiu seu destino a sua maneira. Se fosse igual as outras, nós já a teríamos cortado. Mas porque teve coragem de ser diferente, permanecerá viva e forte por muito tempo.

A pergunta sem resposta

A pergunta sem resposta

Essa é uma pergunta que já tirei há muito tempo da cabeça, justamente porque não sei respondê-la.

Não sou o único. No decorrer de todos estes anos, convivi com todo tipo de pessoas: ricas, pobres, poderosas e acomodadas. Em todos os olhos que cruzaram com os meus, sempre achei que estava faltando algo – e estou incluindo aí guerreiros, sábios, gente que não teria nada para se queixar.

Algumas pessoas parecem felizes: simplesmente não pensam no tema. Outras fazem planos: vou ter um marido, uma casa, dois filhos, uma casa de campo. Enquanto estão ocupadas com isso, são como touros em busca do toureiro: não pensam, apenas seguem adiante. Conseguem seu carro, às vezes conseguem até sua Ferrari, acham que o sentido da vida está ali, e não fazem jamais a pergunta. Mas apesar de tudo, os olhos traem uma tristeza que nem estas pessoas sabem que tem.

Não sei se todo mundo é infeliz. Sei que as pessoas estão sempre ocupadas: trabalhando além da hora, cuidando dos filhos, do marido, da carreira, do diploma, do que fazer amanhã, o que falta comprar, o que é preciso ter para não sentir-se inferior, etc.

Poucas pessoas me disseram: “sou infeliz”. A maioria me diz “estou ótimo, consegui tudo o que desejava”.

Então pergunto: “o que lhe faz feliz?”

Resposta: “Tenho tudo que uma pessoa podia sonhar – família, casa, trabalho, saúde”.

Pergunto de novo: “Já parou para pensar se isso é tudo na vida?”

Resposta: “Sim, isso é tudo”.

Insisto: “então o sentido da vida é trabalho, família, filhos que vão crescer e lhe deixar, mulher ou marido que se transformarão mais em amigos que em verdadeiros apaixonados. E o trabalho vai terminar um dia. O que fará quando isso acontecer? “

Resposta: não há resposta. Mudam de assunto. Mas sempre existe algo escondido: dono de empresa que ainda não fechou o negócio que sonhava, a dona de casa que gostaria de ter mais independência ou mais dinheiro, o recém-formado se pergunta se escolheu sua carreira ou a escolheram por ele, o dentista queria ser cantor, o cantor queria ser político, o político queria ser escritor, o escritor quer ser camponês.

Nesta rua onde escrevo a coluna e olho as pessoas caminhando, posso apostar que todo mundo está sentindo a mesma coisa. A mulher elegante que acaba de passar gasta seus dias tentando parar o tempo, controlando a balança, porque acha que disso depende o amor. No outro lado da calçada eu vejo um casal com duas crianças. Eles vivem momentos de intensa felicidade quando saem para passear com os filhos, mas ao mesmo tempo o subconsciente pensa no emprego que pode faltar, nas tragédias que podem acontecer, como se livrar delas, como se proteger do mundo.

Folheio as revistas de celebridades: todo mundo rindo, todo mundo contente. Mas como freqüento este meio, sei que não é assim: está todo mundo rindo ou se divertindo naquele momento, naquela foto, mas de noite, ou de manhã, a história é sempre outra. “O que vou fazer para continuar aparecendo na revista?” “Como disfarçar que já não tenho dinheiro o suficiente para sustentar meu luxo?” “Ou como administrar meu luxo fazê-lo maior, mais expressivo que o dos outros?” “A atriz com quem estou nesta foto rindo, celebrando, pode roubar meu papel amanhã!” “Será que estou mais bem vestida que ela? Por que sorrimos, se nos detestamos?”

Enfim, fico com os versos de Jorge Luis Borges: “Já não serei feliz, e isso não importa/ há muitas outras coisas neste mundo”.

Só isso?

Sri Ramakrisna conta que um homem estava preste a cruzar um rio quando o mestre Bibhishana se aproximou, escreveu um nome numa folha, amarrou-a nas costas do homem, e disse:

- Não tenha medo. Sua fé lhe ajudará a caminhar sobre as águas. Mas no instante em que perder a fé, você se afogará.

O homem confiou em Bibhishana, e começou a caminhar sobre as águas, sem qualquer dificuldade. A certa altura, porém, teve um imenso desejo de saber o que seu mestre havia escrito na folha amarrada em suas costas.

Pegou-a, e leu o que estava escrito:

“Ó deus Rama, ajuda este homem a cruzar o rio”.

“Só isto?”, pensou o homem. “Quem é esse deus Rama, afinal?”

No momento em que a dúvida instalou-se em sua mente, ele submergiu e afogou-se na correnteza.

Edição nº 201 – O instante mágico

É preciso correr riscos. Só entendemos direito o milagre da vida quando deixamos que o inesperado possa se manifestar.

Todos os dias Deus nos dá – junto com o sol – um momento em que é possível mudar tudo que nos deixa infelizes. Todos os dias procuramos fingir que não percebemos este momento, que ele não existe, que hoje é igual a ontem e será igual a amanhã. Mas, quem presta atenção, descobre o instante mágico. Ele pode estar escondido na hora em que enfiamos a chave na porta pela manhã, no silêncio logo após o jantar, nas mil e uma coisas que nos parecem iguais. Este momento existe – um momento em que toda a força das estrelas passa por nós, e nos permite fazer milagres.

A felicidade às vezes é uma bênção – mas geralmente é uma conquista. O instante mágico nos ajuda a mudar, nos empurra em busca de nossos sonhos. Vamos sofrer, vamos ter momentos difíceis, vamos enfrentar muitas desilusões – mas tudo isso é passageiro, inevitável, e terminaremos nos orgulhando das marcas que foram deixadas pelos obstáculos. No futuro, podemos olhar para trás com orgulho e fé.

Pobre de quem teve medo de correr os riscos. Porque este talvez não se decepcione nunca, nem tenha desilusões, nem sofra como aqueles que têm um sonho a seguir. Mas quando olhar para trás – porque sempre olhamos para trás – vai escutar seu coração dizendo: “O que fizeste com os milagres que Deus semeou por teus dias? O que fizeste com os talentos que teu Mestre te confiou? Enterraste fundo em uma cova, porque tinhas medo de perdê-los. Então, esta é a tua herança: a certeza de que desperdiçaste tua vida”.

Pobre de quem escuta estas palavras. Porque então acreditará em milagres, mas os instantes mágicos da vida já terão passado.

Temos que escutar a criança que fomos um dia, e que ainda existe dentro de nós. Esta criança entende de instantes mágicos. Podemos sufocar seu pranto, mas não podemos calar sua voz.

Se não nascermos de novo, se não tornarmos a olhar a vida com a inocência e o entusiasmo da infância, não existe mais sentido em viver.

Existem muitas maneiras de se cometer suicídio. Os que tentam matar o corpo ofendem a lei de Deus. Os que tentam matar a alma também ofendem a lei de Deus, embora seu crime seja menos visível aos olhos do homem.

Prestemos atenção ao que nos diz a criança que temos guardada no peito. Não nos envergonhemos por causa dela. Não vamos deixar que ela tenha medo, porque está só e quase nunca é ouvida.

Vamos permitir que ela tome um pouco as rédeas de nossa existência. Esta criança sabe que um dia é diferente do outro.

Vamos fazer com que se sinta de novo amada. Vamos agradá-la – mesmo que signifique agir de maneira a que não estamos acostumados, mesmo que pareça tolice aos olhos dos outros.

Lembrem-se de que a sabedoria dos homens é loucura diante de Deus. Se escutarmos a criança que temos na alma, nossos olhos tornarão a brilhar. Se não perdermos o contato com esta criança, não perderemos o contato com a vida.

Vivamos todos os instantes mágicos de 2009!

Amor

Existe sempre no mundo uma pessoa que espera a outra, seja no meio de um deserto ou no meio das grandes cidades. E quando essas pessoas se cruzam, e os seus olhos se encontram, todo o passado e todo o futuro perdem qualquer importância, e só existe aquele momento e aquela certeza incrível de que todas as coisas debaixo do Sol foram escritas pela mesma Mão.

A Mão que desperta o Amor, e que fez uma alma gêmea para cada pessoa que trabalha, descansa e busca tesouros debaixo do Sol.

Porque sem isto não haveria qualquer sentido para os sonhos da raça humana.

Edição nº 200 – Fidelidade animal

Recentemente li um polêmico, mas interessante artigo no jornal americano New York Times (25/03/2008). Escrito por Natalie Angier, o texto baseia-se em pesquisas de respeitados biólogos e psicólogos sobre a monogamia. E chega-se a uma impressionante conclusão: a infidelidade conjugal está presente em todo o reino animal.

Não só isso: estudos mostram que existem determinadas espécies que “pagam” por sexo, enquanto outras recompensam suas “amantes” com presentes e carinho. Para completar, o ciúme e o machismo também estão ali: fêmeas são violentamente atacadas se copulam com outro parceiro.

Claro, não somos animais, mas as semelhanças acima são muito reveladoras. Vale a pena transcrever algumas partes interessantes do artigo em questão.

1] Existem muitas espécies que são educadas desde a mais tenra idade para se casar com alguém escolhido pela família. Voam e brincam juntos, cantam, dançam. Ou seja: são educados para impressionar a comunidade, provando que nasceram um para o outro.

2] Entretanto, a monogamia social é raramente acompanhada de monogamia sexual. Exames de DNA em macacos, pássaros, animais selvagens, quando tem sua descendência examinada à luz da ciência moderna, mostram que de 10% a 70% dos filhos foram gerados por outro que não era o macho residente.

3] O professor David Barash, da Universidade de Washington em Seattle, declara: “no mundo infantil, a infância. No mundo adulto, o adultério”. Por muito tempo acreditou-se que os cisnes eram um modelo de fidelidade. Através dos tais exames de DNA, concluiu-se que nem os cisnes estão imunes à tentação.

4] A única espécie completamente monogâmica é uma ameba, a Dilozoon Paradoxum, que é encontrada em organismos de certos peixes. Barash explica: “macho e fêmea se encontram ainda jovens, e seus corpos literalmente se fundem em um só. A partir daí, passam a ser fiéis até que a morte os separe”. Neste caso, a morte coincide com a do peixe que os abriga.

5] A “mais velha profissão do mundo”, como é conhecida a prostituição, também se manifesta no reino animal. É comum encontrar machos que cobrem sua fêmea com presentes: roedores, lagartas e insetos. Mas quando o mesmo macho decide ter, digamos, uma relação extracurricular, a amante recebe presentes maiores que a companheira.

6] A lei da concorrência também se aplica no mundo animal: se existe muita oferta, o preço é baixo. Entretanto, se as fêmeas escasseiam, elas se transformam em um objeto de desejo que merece as melhores e mais sofisticadas recompensas.

Entendam bem que transcrevi nesta coluna o resultado de pesquisas feitas por cientistas e psicólogos especializados em estudar o reino animal. Todos nós podemos – e devemos – ter nossa opinião a respeito da monogamia. Todos nós podemos dizer que somos uma espécie mais evoluída, o que é absolutamente verdade. A única coisa que não podemos fazer é culpar a ciência por dar resultados que muitas vezes contradizem nossa maneira de pensar!

Edição nº 199 – Como a cidade foi pacificada

Como a cidade foi pacificada

Conta uma velha lenda que determinada cidade, nas montanhas dos Pirineus, era um verdadeiro reduto de traficantes, contrabandistas, e exilados. O pior destes criminosos, um árabe chamado Ahab foi convertido por um monge local, Savin, e resolveu que aquela situação não podia continuar assim.

Como era temido por todos, mas não queria mais usar sua reputação de mau para atingir seu intento, momento algum ele tentou convencer alguém. Já que conhecia a natureza dos homens; iam confundir honestidade com fraqueza, e logo seu poder seria colocado em dúvida.

O que fez foi chamar alguns carpinteiros de uma aldeia vizinha, dar-lhes um papel com um desenho, e mandar que construíssem algo no lugar onde hoje está a cruz que domina o povoado. Dia e noite, durante dez dias, os habitantes da cidade ouviram o barulho de martelos, viam homens serrando peças de madeira, fazendo encaixes, colocando parafusos.

No final de dez dias, o gigantesco quebra-cabeça foi montado no meio da praça, e coberto com um pano. Ahab chamou todos os habitantes para que presenciassem a inauguração do monumento.

Solenemente, sem qualquer discurso, ele retirou o pano.

Era uma forca.

Com corda, alçapão e tudo. Novinha, coberta com cera de abelha, de modo que pudesse resistir durante muito tempo às intempéries. Aproveitando a multidão aglomerada ali, Ahab leu uma série de leis que protegiam os agricultores, incentivavam a criação de gado, premiavam quem trouxesse novos negócios para a região, acrescentando que dali por diante teriam que arranjar um trabalho honesto ou mudar-se para outra cidade. Não mencionou uma vez sequer o “monumento” que acabara de inaugurar; Ahab era um homem que não acreditava em ameaças.

No final do encontro, vários grupos se formaram; a maioria achava que Ahab tinha sido enganado pelo santo, já não tinha a mesma coragem de antes, era preciso matá-lo. Nos dias que se seguiram, muitos planos foram feitos com esse objetivo. Mas todos eram obrigados a contemplar aquela forca no meio da praça, e se perguntavam: o que ela está fazendo ali? Será que foi montada para matar os que não aceitarem as novas leis? Quem está do lado de Ahab, e quem não está? Temos espiões em nosso meio?

A forca olhava os homens, e os homens olhavam a forca. Pouco a pouco, a coragem inicial dos rebeldes foi dando lugar ao medo; todos conheciam a fama de Ahab, sabiam que ele era implacável em suas decisões. Algumas pessoas abandonaram a cidade, outras resolveram experimentar os novos trabalhos sugeridos, simplesmente porque não tinham para onde ir, ou por causa da sombra daquele instrumento de morte no meio da praça. Tempos depois, o local estava em paz, tornara-se um grande centro comercial da fronteira, começou a exportar a melhor lã e produzir trigo de primeira qualidade.

A forca ficou lá durante dez anos. A madeira resistia bem, mas periodicamente a corda era trocada por uma nova. Nunca foi usada. Nunca Ahab disse uma palavra sequer sobre ela. Bastou sua imagem para mudar a coragem em medo, a confiança em suspeita, histórias de valentia em sussurros de aceitação. No final de dez anos, quando a lei finalmente imperava em Viscos, Ahab mandou destruí-la e construir uma cruz em seu lugar.

Kazantzakis e Deus

Durante toda a sua vida, o autor grego Nikos Kazantzakis (Zorba, A Ultima Tentação de Cristo) foi um homem absolutamente coerente. Embora abordasse temas religiosos em muitos de seus livros – como uma excelente biografia de São Francisco de Assis – sempre considerou a si mesmo como um ateu convicto. Pois é deste ateu convicto, uma das mais belas definições de Deus que eu conheço:

“Nos olhamos com perplexidade a parte mais alta da espiral de força que governa o Universo. E a chamamos de Deus. Poderíamos dar qualquer outro nome: Abismo, Mistério, Escuridão Absoluta, Luz Total, Matéria, Espírito, Suprema Esperança, Supremo Desespero, Silêncio. Mas nós a chamamos de Deus, porque só este nome – por razões misteriosas – é capaz de sacudir com vigor o nosso coração. E, não resta dúvida, esta sacudida é absolutamente indispensável para permitir o contacto com as emoções básicas do ser humano, que sempre estão além de qualquer explicação ou lógica.”

Ben Abuyah e o aprendizado

O rabino Elisha Ben Abuyah costumava dizer:

“Aqueles que estão abertos às lições da vida, e que não se alimentam de preconceitos, são como uma folha em branco, onde Deus escreve suas palavras com a tinta divina.”

“Aqueles que estão sempre olhando o mundo com cinismo e preconceito, são como uma folha já escrita, onde não cabem novas palavras.”

“Não se preocupe com o que já sabe, ou com o que ignora. Não pense no passado nem no futuro, apenas deixe que as mãos divinas tracem, a cada dia, as surpresas do presente”.

Edição nº 198 – E o que faço, afinal?

Muitos leitores às vezes se queixam de que falo pouco de minha vida pessoal nesta coluna. Falo muito – principalmente de minhas indagações no mundo imaginário. Eles insistem: “mas como é sua vida?” Pois bem: durante uma semana saí com um caderno e anotei mais ou menos o que acontece em sete dias:

Domingo: 1] dirijo em silêncio os 540 kms de Paris a Genebra. Seis horas e nenhuma conclusão importante, nenhuma revelação extraordinária. Como adoro meu trabalho, me impus jamais pensar no tema aos domingos, de modo que procuro me controlar.

2] Posto de gasolina: vejo uma coleção interessantíssima de maquetes de metal. Penso em comprar tudo, mas imagino que mais adiante terei excesso de bagagem, e muitas podem quebrar na viagem. Usarei a internet para isso.

3] Banho. Cochilo. Jantar com uma amiga. Ela me conta que o homem no qual está interessada quer apenas fazer amor, nada mais. Não sei o que responder.

Segunda-feira: 1] o despertador toca as 10:15, e como Plano B (os nascidos em Virgem sempre tem um Plano B) a telefonista do hotel também chama o quarto. Estou aqui na condição de membro da diretoria de uma respeitada fundação, e hesito em usar ou não as botas de cowboy trabalhadas em vermelho, branco, e negro. Decido que irei com elas – aos artistas certas coisas são toleradas.

2] Rápido café-da-manhã com um amigo que trabalha em banco. Pergunto o que pensa da crise atual – e me dá uma série de respostas nas quais nem ele mesmo acredita. Mostro o jornal do dia: uma conferência de banqueiros, para contornar a crise. Um deles afirma que não conhecem direito os “produtos financeiros” que estão vendendo. Ótimo que tenho meu dinheiro na poupança: os nascidos em Virgem não correm riscos nesta área.

3] Almoço com a diretoria. Pergunto o que acham da situação na Geórgia. Ninguém quer falar do assunto, mas adoraram minhas botas de cowboy.

4] A reunião é ótima, sem stress. Aprendo muito. No final, ao entrar no carro, esqueço os documentos no teto.

5] quando saio, os documentos caem no meio da rua. Fico meia-hora juntando tudo, com carros buzinando e me insultando. Um membro da diretoria passa, pára mais adiante, pergunta se quero ajuda. Digo que não, basta um arriscando a vida por razão tão estúpida.

6] Hoje posso telefonar usando o sistema “mãos livres”, enquanto dirijo. Peço que Mônica, minha agente, cancele Praga e Berlim (cada vez que viajo, sinto menos vontade de viajar). Ela diz que precisamos nos encontrar antes da Feira de Frankfurt para “acertar uns detalhes”. Paris ou Barcelona? Paris, ela decide. Chamo Paula, minha assistente, para perguntar por que o meu blog teve poucos comentários ontem – ela explica que mudaram a configuração, e acaba de aprovar cem comentários.

7] Chego em Paris às onze horas da noite. Esperava ter uma montanha de coisas me esperando, mas ali estão apenas dois pacotes de livros para autografar, e umas poucas cartas. Mas eu viajei! Estive em outro país! Me dou conta que viajei um pouco mais de 24 horas.

8] Jantar. Deixo o computador ligado, para baixar “American History X”. Vou dormir em torno de duas da manhã, depois de ler algumas páginas de “Meu ano como membro do Islã radical”, de Daveed Gartstenstein-Ross. O livro é ótimo, mas não consigo avançar muito.

Terça-feira: 1] As 10:00 hs, café com leite, suco de laranja, pão com azeite – é sempre a mesma coisa, mesmo quando estou em hotéis, o que acontece a maior parte do ano. Três comprimidos de Echinacea, uma erva que dizem fortalecer o organismo contra gripes, e que tem se mostrado fiel à sua reputação (mesmo que não haja base científica para isso).

2] Internet: Leitura de e-mails de leitores. Leitura de e-mails de trabalho (meu escritório filtra os mais relevantes), ler os clippings, visitar um portal no Brasil e outro nos Estados Unidos para ler as notícias do dia. Vejo que os assuntos são mais ou menos os de sempre: permissão para citar algum trecho meu em livros (sempre dada), convites para conferências (sempre recusados). Hoje tenho uma entrevista para um jornal na Finlândia, que irá publicar estas colunas. Fico uma hora diante do computador.

3] Caminhar uma hora sem parar – esteja onde estiver, raramente deixo de fazer isso. Hoje convidei minha assistente para me acompanhar; acaba de voltar de férias no Brasil, e deve se casar em Outubro. Conversamos sobre as férias.

4] de volta ao computador. Atualizando o blog, lendo uma entrevista que o ator estúpido David Thewlis, que diz que seu papel em “Veronika decide morrer” (que estréia ano que vem) foi “só mais duas semanas de trabalho”.Fico irritado. Leio o resto da entrevista e vejo que reclama de tudo que fez na vida. A irritação vai embora.

5] Tiro com arco. Banho. Computador de novo. Peço que chequem mais uma vez se não há problema com o vôo de domingo para o Brasil. Em princípio, não há.

6] Esqueci de anotar onde jantei. Assisto “Bem-vindo a Sarajevo”. Leio, de cabo a rabo, o Herald Tribune. Tento pegar o “Meu ano no Islã radical”, mas não passo de poucas páginas.

Quarta-feira: 1] o mesmo que 1, 2, 3 acima, exceto que desta vez minha companheira de caminhada se chama Maarit, uma leitora que encontrei na comunidade social Myspace. Ela está estudando para ser freira. Conversamos muito sobre a situação da Igreja Católica, e prometemos que vamos manter o contato.

2] Mônica chega. Conversamos de 15:00 hs até as duas da manhã do dia seguinte, discutindo o programa de lançamento do novo livro, o que devo dizer em Frankfurt, e onde será a festa de aniversário dela (faz 40 anos em novembro). Sugiro que seja em sua casa em Barcelona, mas ela diz que colocaram um andaime e não dá para ver a vista da cidade. Respondo que de noite todas as vistas de cidade são iguais – um monte de luzes piscando. Mesmo assim ela não se convence. Diz que eu preciso dar mais entrevistas. Passamos todo este tempo trancados no apartamento, já que Mônica simplesmente odeia andar. Chris preparou o jantar e já foi dormir há muito tempo.

3] As 2:15 da manhã eu digo que estou cansado, quero dormir, mas ela parece tão brejeira como se tivesse acordado naquele momento; e foi ela quem viveu hoje a experiência na câmara de torturas que conhecemos sob o nome de “aeroporto.”

4] Consigo convencê-la a dormir as 2:30 da manhã. Ainda com uma série de assuntos pendentes. Hoje nada de Herald Tribune, ou “Meu ano no Islã radical”.

Quinta-feira: 1] Café da manhã com Mônica, minha agente e amiga, que passou menos de um dia em Paris, e gastou 10 horas conversando comigo (no mesmo lugar, pois detesta andar, apesar do lindo dia de outono). Ela parte para Barcelona, e eu vou para o computador verificar os e-mails, os pedidos de autorização, os convites (tudo já devidamente filtrado pelo escritório). Leitura de e-mails de leitores.

2] a bobagem do dia fica por conta de Frei Betto, um religioso brasileiro, que até minutos antes eu considerava meu amigo, mas que é autor de uma coluna publicada em um jornal do interior, onde me ataca gratuitamente – melhor dizendo, ataca tudo que signifique “cultura popular”. Com a internet, sabemos tudo. Mando um e-mail para ele cortando qualquer laço de amizade. Por precaução, mando cópias para todos os amigos comuns que temos, de modo a ter certeza que chegará em suas mãos.

3] Juliette chega para pegar emprestado um sistema de som que ganhei enquanto estava em St. Moritz, na Suíça. É para a festa surpresa de seu marido, que comemora 40 anos (parece que todo mundo ao meu redor está comemorando 40 anos). O sistema de som parece uma torradeira elétrica, mas na verdade emite impulsos digitais, o que permite que a música seja ouvida com a mesma intensidade e altura em uma sala para 200 pessoas. Nunca usei, mas pelo menos está ajudando uma amiga.

4] Caminhar uma hora, como sempre. Tiro com arco, como sempre. Escrever minha coluna semanal (que estão lendo agora).

5] Jantar com Chris em um restaurante japonês. Peço o mesmo prato. Não sei porque, sempre que vou a um restaurante novo e gosto do que comi, termino repetindo. Falta de imaginação, eu acho.

Sexta-feira: 1] café da manhã, computador, caminhada. Atualização do blog diário.

2] Pego meu jornal e vou passar o dia no Champ de Mars, perto de meu apartamento em Paris. Fico olhando as pessoas se preparando para o inverno: a maior parte está tirando fotos da Torre Eifell ou falando no celular. Passo diante de um museu (Museu Branly), vejo que não tem fila e decido entrar. Exposição de arte indígena de vários continentes do mundo – começo a imaginar que há alguma coisa de errado com nossa civilização, já que estas tribos e pessoas são capazes de fazer trabalhos muito mais interessantes e contundentes que o que vemos hoje no terreno das artes plásticas. Mas não adianta reclamar nem escrever a respeito – existem teses e mais teses sobre os “conceitos artísticos” contemporâneos, que incluem uma vaca embebida em formol (vendida por 30 milhões de dólares) e duas paredes de ferro oxidado (preço em torno de 5 milhões de dólares). Acho que Frei Betto, em sua nova encarnação como intelectual de vanguarda, deve ter também uma tese defendendo isso.

3] Volto para casa, as malas estão prontas, o chofer espera, o carro se dirige para o aeroporto Charles de Gaulle. O vôo está marcado para as 22:15, mas a atual câmara de tortura (conhecida como “aeroporto”) exige que estejamos lá uma eternidade antes.

4] Decolagem as 23:50 (uma hora de atraso). Passarei uns vinte dias no Brasil antes de ir para Frankfurt. Mas como sempre, não irei a nenhum restaurante da moda, o que significa que em breve estarei escutando a mesma pergunta: “quando é que você vem à sua terra?”

Pelo que entendo, quem não vai a restaurante da moda não existe.

Edição nº 197 – A rotina da modelo

Para escrever o livro “O Vencedor está só”, cujo tema central é o culto das celebridades, precisei fazer uma interessante pesquisa sobre a rotina daquelas que habitam o imaginário coletivo: a modelo fotográfica. Por mais diferentes que sejam, existe um invariável padrão de comportamento que reproduzo aqui:

A] antes de dormir, usam vários cremes para limpar os poros e conservar a pele hidratada – viciando desde cedo o organismo à dependência de elementos externos.Acordam, tomam uma xícara de café preto sem açúcar, acompanhada de frutas com fibras – de modo que os alimentos que vão ingerir durante o dia passem rapidamente pelos intestinos. Sobem na balança três a quatro vezes por dia; entram em depressão por causa de cada grama a mais que o ponteiro acusa.

B] Todas estão conscientes de que em breve serão ultrapassadas por novos rostos, novas tendências, e precisam urgentemente mostrar que o talento vai além das passarelas. Vivem pedindo às suas agências que consigam um teste, de modo que possam mostrar que são capazes de trabalhar como atrizes – o grande sonho.

C] Ao contrário do que diz a lenda, pagam suas despesas – passagem, hotel, e as saladas de sempre. São convocadas pelos assistentes de estilistas para fazer o que chamam de casting, a seleção das que serão escolhidas para enfrentar a passarela ou a sessão de fotos. Neste momento, estão diante de pessoas invariavelmente mal-humoradas que usam o pouco de poder que têm para extravasar as frustrações diárias, e jamais dizem uma palavra gentil ou encorajadora: “horrível” é geralmente o comentário mais escutado.

D] Seus pais se orgulham da filha que começou tão bem, e se arrependem de terem comentado que eram contra aquela carreira – afinal de contas, estão ganhando dinheiro e ajudando a família. Seus namorados têm crises de ciúmes, mas se controlam, porque faz bem ao ego estar com uma profissional da moda. Suas amigas as invejam secreta ou abertamente.

E] Freqüentam todas as festas para as quais são chamadas, e se comportam como se fossem muito mais importantes do que são, um sintoma de insegurança. Ali estão sempre com um copo de champanhe nas mãos, mas isso é apenas parte da imagem que desejam passar. Sabem que o álcool tem elementos que pode afetar o peso, de modo que a bebida preferida é água mineral sem gás – o gás, embora não afete o peso, tem conseqüências imediatas sobre o contorno do estômago.

G] Dormem mal por causa dos comprimidos. Escutam histórias sobre anorexia – a doença mais comum no meio, uma espécie de distúrbio nervoso causado pela obsessão com o peso e com a aparência, que termina educando o organismo a rejeitar qualquer tipo de alimento. Dizem que isso não acontecerá com elas. Mas nunca notam quando os primeiros sintomas se instalam.

H] Saíram da infância diretamente para o mundo do luxo e glamour, sem passarem pela adolescência e juventude. Quando lhes perguntam quais os planos para o futuro, têm sempre a resposta na ponta da língua: “faculdade de filosofia. Estou aqui apenas para poder pagar meus estudos”.Sabem que não é verdade. Não podem se dar ao luxo de freqüentar uma escola: há sempre um teste pela manhã, uma sessão de fotos à tarde, uma festa em que precisam estar presentes para serem vistas, admiradas, desejadas.

As pessoas acham que vivem uma vida de contos de fada. E elas querem acreditar nisso. Até que um escritor mais curioso resolve não desistir, e ir adiante nas perguntas. Depois de muita hesitação, terminam dizendo: “nasci para ser atriz. Portanto, sou capaz de fingir que esta miséria é a profissão mais glamorosa do mundo”.

A medida do amor

- Sempre desejei saber se era capaz de amar minha mulher como o senhor ama a sua – disse o jornalista Keichiro a meu editor Satoshi Gungi, enquanto jantávamos.

- Não existe nada além do amor – foi a resposta. – É ele que mantém o mundo girando e as estrelas suspensas no céu.

- Sei disso. Mas como vou saber se meu amor é grande o suficiente?

- Procure saber se você se entrega, ou se você foge de suas emoções. Mas não faça perguntas como esta porque o amor não é grande nem pequeno; é apenas o amor.

“Não se pode medir um sentimento como se mede uma estrada. Se você fizer isso, vai começar a comparar com o que lhe contam, ou com o que está esperando encontrar. Desta maneira, sempre vai escutando uma história, ao invés de percorrer seu próprio caminho.” Continue reading ‘Edição nº 197 – A rotina da modelo’

Edição nº 196 – O guerreiro da luz e seu temperamento

O guerreiro da luz se permite viver um dia diferente do outro. Ele não tem medo de chorar mágoas antigas ou alegrar-se com novas descobertas. Quando sente que chegou a hora, larga tudo e parte para sua aventura tão sonhada. Quando entende que está no limite de sua resistência, sai do combate, sem culpar-se por ter feito uma ou duas loucuras inesperadas.

A história a seguir ilustra o que quero dizer.

Um homem em busca da santidade resolveu subir uma alta montanha levando apenas a roupa do corpo, e ali permanecer meditando o resto de sua vida.

Logo percebeu que uma roupa não era suficiente, porque ficava suja muito rápida. Desceu a montanha, foi até a aldeia mais próxima, e pediu outras vestimentas. Como todos sabiam que o homem estava em busca de santidade, entregaram-lhe um novo par de calças e uma camisa.

O homem agradeceu e tornou a subir até a ermida que estava construindo no alto do monte. Passava a noite fazendo as paredes, os dias entregue à meditação, comia os frutos das árvores, e bebia a água de uma nascente próxima.

Um mês depois, descobriu que um rato costumava roer a roupa extra que deixava para secar. Como queria estar concentrado apenas em seu dever espiritual, desceu de novo até o vilarejo, e pediu que lhe arranjassem um gato.

Os moradores, respeitando sua busca, atenderam o pedido.

Mais sete dias, e gato estava quase morto de inanição, porque não conseguia alimentar-se de frutas, e não havia mais ratos no local. Voltou à aldeia em busca de leite; como os camponeses sabiam que não era para ele – que, afinal de contas, resistia sem comer nada além do que a natureza lhe oferecia, mais uma vez o ajudaram.

O gato acabou rapidamente com o leite, de modo que o homem pediu que lhe emprestassem uma vaca.

Como a vaca dava mais leite que o suficiente, ele passou a bebê-lo também, para não desperdiçar. Em pouco tempo – respirando o ar da montanha, comendo frutas, meditando, bebendo leite, e fazendo exercício – transformou-se em um modelo de beleza. Uma bela moça que subira a montanha para procurar um cordeiro, terminou se apaixonando, e convenceu-o que precisava de uma esposa para cuidar das tarefas da casa, enquanto meditava em paz.

O homem ficou três dias em jejum, procurando saber qual a melhor decisão a tomar. Finalmente, entendeu que o casamento é uma benção dos céus, e aceitou a proposta.

Três anos depois, o homem estava casado, com dois filhos, três vacas, um pomar de árvores frutíferas, e dirigia um lugar de meditação, com uma gigantesca lista de espera de gente que queria conhecer o milagroso “templo da eterna juventude”.

Quando alguém lhe perguntava como havia começado tudo aquilo, ele dizia:

- Duas semanas depois que cheguei aqui, tinha apenas duas peças de roupa. Um rato começou a roer uma delas, e…

Mas ninguém se interessava pelo final da história; tinham certeza que era um sagaz homem de negócios, tentando inventar uma lenda para poder aumentar ainda mais o preço da estadia no templo.

Mas como um bom guerreiro da luz, ele não se importava com o que pensavam os outros; estava contente porque foi capaz de transformar seus sonhos em realidade.

Edição nº 195 – Desafiando o mestre

O pássaro está vivo?

O jovem estava no final de seu treinamento, em breve passaria a ensinar.Como todo bom aluno, precisava desafiar seu professor, e desenvolver sua própria maneira de pensar. Capturou um pássaro, colocou-o numa das mãos, e vai até ele:

- Mestre este pássaro está vivo ou morto?

Seu plano era o seguinte: se o mestre dissesse “morto” ele abriria a mão e o pássaro voaria. Se a resposta fosse “vivo”, ele esmagaria a ave entre os dedos; assim, o mestre sempre estaria errado.

- Mestre, o pássaro está vivo ou morto? – insiste.

- Meu caro aluno, isto vai depender de você – é o comentário do mestre.

O aprendiz indesejável

- Não temos portões em nosso mosteiro – Shantih comentou com o visitante.

- E as pessoas inoportunas, que vem perturbar a paz de vocês?

- Nós as ignoramos, e elas vão embora.

- Só isto? E isto dá resultado?

Shantih não respondeu. O visitante insistiu algumas vezes. Vendo que não obtinha resposta, resolveu partir.

“Viu como funciona?” Disse Shantih para si mesmo, sorrindo.

O iogue e o louco

Nasrudin, o mestre louco da tradição sufi, passa diante de uma gruta, vê um yogue em plena meditação, e pergunta o que ele está buscando.

- Contemplo os animais, e aprendi deles muitas lições que podem transformar a vida de um homem – diz o yogue.

- Ensine-me o que sabe. E eu ensinarei o que aprendi, pois um peixe já salvou minha vida – responde Nasrudin.

O yogue espanta-se: só um santo pode ter a vida salva por um peixe. E resolve ensinar tudo que sabe.

Quando termina, diz a Nasrudin:

- Agora que já lhe ensinei tudo, ficaria orgulhoso de saber como um peixe salvou sua vida.

- É simples. Eu estava quase morrendo de fome quando o pesquei, e graças a ele pude sobreviver três dias.

Iluminação em sete dias

Buda afirmou aos seus discípulos: quem se esforça, pode alcançar a iluminação em sete dias. Se não conseguir, com certeza alcançará em sete meses, ou em sete anos. O jovem resolveu que a conseguiria em uma semana, e quis saber como devia agir: “concentração” foi a resposta.

O jovem começou a praticar, mas em dez minutos já havia se distraído. Aos poucos, foi prestando atenção em tudo que o distraía, e achou que não estava perdendo tempo, mas se acostumando consigo mesmo.

Um belo dia decidiu que não era preciso chegar tão rápido a sua meta, já que o caminho estava lhe ensinando muitas coisas.

E foi neste momento que se tornou um iluminado.

Edição nº 194 – Independência emocional

“No início da nossa vida e de novo quando envelhecemos, precisamos da ajuda e a afeição dos outros. Infelizmente, entre estes dois períodos da nossa vida, quando somos fortes e capazes de cuidar de nós, negligenciamos o valor da afeição e da compaixão. Como a nossa própria vida começa e acaba com a necessidade da afeição, não seria melhor praticarmos a compaixão e o amor pelos outros enquanto somos fortes e capazes?”

As palavras acima são do atual Dalai Lama. Realmente é muito curioso ver que nos orgulhamos de nossa independência emocional. Claro, não é bem assim: continuamos precisando dos outros nossa vida inteira, mas é uma “vergonha” demonstrar isso, então preferimos chorar escondidos. E quando alguém nos pede ajuda, esta pessoa é considerada fraca, incapaz de controlar seus sentimentos.

Existe uma regra não escrita, afirmando que “o mundo é dos fortes”, o que “sobrevive apenas o mais apto.” Se assim fosse, os seres humanos jamais existiriam, porque fazem parte de uma espécie que precisa ser protegida por um largo período de tempo (especialistas dizem que somos apenas capazes de sobreviver por nós mesmos depois dos nove anos de idade, enquanto uma girafa leva apenas de seis a oito meses, e uma abelha já é independente em menos de cinco minutos).

Estamos neste mundo. Eu, de minha parte, continuo – e continuarei sempre – dependendo dos outros. Dependo de minha mulher, meus amigos, meus editores. Dependo até mesmo dos meus inimigos, que me ajudam a estar sempre adestrado no uso da espada.

Claro, existem momentos que este fogo sopra em outra direção, mas eu sempre me questiono: onde estão os outros? Será que me isolei demais? Como qualquer pessoa sadia, necessito também de solidão, de momentos de reflexão.

Mas não posso me viciar nisso.

A independência emocional não leva a absolutamente lugar nenhum – exceto a uma pretensa fortaleza, cujo único e inútil objetivo é impressionar os outros.

A dependência emocional, por sua vez, é como uma fogueira que acendemos.

No início as relações são difíceis. Da mesma maneira que o fogo é necessário conformar-se com a fumaça desagradável – que torna a respiração difícil, e arranca lágrimas do rosto. Entretanto, uma vez o fogo aceso, a fumaça desaparece, e as chamas iluminam tudo ao redor – espalhando calor, calma, e eventualmente fazendo saltar uma brasa que nos queima, mas é isso que torna uma relação interessante, não é verdade?

Comecei esta coluna citando um prêmio Nobel da Paz sobre a importância das relações humanas. Termino com o professor Albert Schweitzer, médi­co e missionário, que recebeu o mesmo prêmio Nobel, 1952.

“Todos nós conhecemos uma doença na África Central chamada de doença do sono. O que precisamos saber é que existe uma doença semelhante que ataca a alma – e que é muito perigosa, porque se instala sem ser percebida. Quando você notar o menor sinal de indiferença e de falta de entusiasmo com relação ao seu semelhante, fique alerta!”

“A única maneira de prevenir-se contra esta doença é entendendo que a alma sofre, e sofre muito, quando a obrigamos a viver superficialmente. A alma gosta de coisas belas e profundas”.

 

Edição nº 193 – Em busca do líder perfeito

Um leitor me envia um questionário. Nele, apresenta o perfil de três líderes mundiais que viveram na mesma época, e pergunta se é possível escolher o melhor através dos seguintes dados;

Candidato A: foi ligado a curandeiros, consultava astrólogos com freqüência. Possuía duas amantes. Sua mulher era lésbica. Fumava muito. Bebia de oito a dez martinis por dia.

Candidato B: não conseguia permanecer no emprego, por causa de sua arrogância. Dormia a manhã inteira. Usou ópio no colégio, e sempre foi considerado um mau aluno. Bebia um copo de conhaque todas as manhãs.

Candidato C: foi condecorado como herói. Era vegetariano. Não fumava. Tinha uma disciplina exemplar. Ocasionalmente bebia uma cerveja. Permaneceu com a mesma mulher nos seus momentos de glória e nos seus momentos de derrota.

E qual a resposta?

A] Franklin Delano Roosevelt. B] Winston Churchill. C] Adolf Hitler.

O que é liderança então? A enciclopédia define como a capacidade de um indivíduo para motivar outros em busca de um mesmo objetivo. As livrarias estão cheias de textos a esse respeito, e normalmente os líderes são pintados com cores brilhantes, atributos invejáveis, ideais supremos. O líder está para a sociedade como o “mestre” está para a espiritualidade. Entretanto isso não é absolutamente verdade (em ambos os casos).

O nosso grande problema, principalmente em um mundo que se torna cada vez mais fundamentalista, é não permitir que as pessoas em posição de destaque tenham erros humanos. Estamos sempre em busca do governante perfeito. Estamos sempre atrás de um pastor que nos dirija e nos ajude a encontrar nosso caminho. Na verdade, as grandes revoluções e os grandes avanços da humanidade foram provocados por gente igual a todos nós – com a única diferença que tiveram coragem de tomar uma decisão-chave em um momento difícil.

Faz muito tempo que, no meu inconsciente, troquei a palavra “líder” pela expressão “guerreiro da luz”. O que é um guerreiro da luz?

Os guerreiros da luz mantém o brilho nos olhos.

Estão no mundo, fazem parte da vida de outras pessoas, e começaram suas jornadas sem alforge e sem sandálias. Muitas vezes são covardes. Nem sempre agem certo.

Os guerreiros da luz sofrem por coisas inúteis, tem atitudes mesquinhas, e às vezes se julgam incapazes de crescer. Freqüentemente acreditam-se indignos de qualquer benção ou milagre.

Os guerreiros da luz nem sempre tem certeza do que estão fazendo aqui. Muitas vezes passam noites em claro, achando que suas vidas não tem sentido.

Todo guerreiro da luz já ficou com medo de entrar em combate. Todo guerreiro da luz já perdeu a fé no futuro.

Todo guerreiro da luz já trilhou um caminho que não era o dele. Todo guerreiro da luz já achou que não era guerreiro da luz. Todo guerreiro da luz já falhou em suas obrigações espirituais.

Por isso é um guerreiro da luz; porque passou por tudo isso, e não perdeu a esperança de ser melhor do que era.

Por isso são guerreiros da luz. Porque erram. Porque se perguntam. Porque procuram uma razão – e com certeza vão encontrá-la.

Edição nº 192 – A segunda chance

As Sibilas, feiticeiras capazes de prever o futuro, viviam na antiga Roma. Um belo dia, uma delas apareceu no palácio do imperador Tibério com nove livros; disse que ali estava o futuro do Império, e pediu dez talentos de ouro pelos textos. Tibério achou caríssimo e não quis comprar.

A sibila saiu, queimou três livros, e voltou com os seis restantes. “São dez talentos de ouro”, disse. Tibério riu, e mandou-a embora; como tinha coragem de vender seis livros pelo mesmo preço de nove?

A sibila queimou mais três livros e voltou para Tibério com os únicos três volumes que restavam: ” custam os mesmos dez talentos de ouro”. Intrigado, Tibério terminou comprando os três volumes, e só pode ler uma pequena parte do futuro.

Estava contando esta história para Monica, minha agente e amiga, enquanto viajávamos de carro para Portugal. Quando terminei, me dei conta que estávamos passando por Ciudad Rodrigo, na fronteira com a Espanha. Ali, quatro anos antes, um livro me havia sido oferecido, e eu não comprei.

Na primeira viagem de divulgação de meus livros na Europa, resolvera almoçar naquela cidade. Depois, fui visitar a catedral, e encontrei um padre. “Veja como o sol da tarde faz tudo mais bonito aqui den­tro”, disse ele. Gostei do comentário, conversamos um pouco, e ele me guiou pelos altares, claustros, jardins interiores do templo. No final, ofereceu-me um livro que havia escrito sobre a igreja; mas eu não quis comprar. Quando saí, senti-me culpado; sou escritor, e estava na Europa tentando vender meu trabalho – por que não comprar o livro do padre, por solidariedade? Mas esqueci o episódio, até aquele momento.

Parei o carro; não fora por acaso que eu me lembrara da história dos livros sibilinos. Nos encaminhamos para a praça em frente à igreja, onde uma mulher olhava o céu.

- Boa tarde. – Vim aqui encontrar um padre que escreveu um livro sobre esta igreja.

- O padre, que se chamava Stanislau, morreu faz um ano – respondeu ela.

Senti uma imensa tristeza. Por que eu não tinha dado ao padre Stanislau a mesma alegria que eu sentia quando via alguém com um dos meus livros?

- Foi um dos homens mais bondosos que conheci – continuou a mulher.- Vinha de uma família humilde, mas chegou a tornar-se um espe­cialista em arqueologia; ajudou a conseguir para meu filho uma bolsa no colégio.

Contei a ela o que fazia ali.

- Não se culpe à toa, meu filho – disse. –Vá visitar de novo a catedral.

Achei que era um sinal, e fiz o que ela mandava. Havia apenas um padre num confessio­nário, esperando os fiéis que não vinham. Pediu que me ajoelhasse, mas disse que estava ali apenas comprar um livro sobre esta igreja, escrito por um homem chamado Stanislau.

Os olhos do padre brilharam. Ele saiu do confessionário e voltou minutos depois com um exemplar.

- Que alegria você ter vindo só por isso! – disse. – Sou irmão do padre Stanislau, e isto me enche de orgulho! Ele deve estar no céu, contente por ver que seu tra­balho tem importância!

Paguei o livro, agradeci, ele me abraçou. Quando eu já ia saindo, escutei sua voz.

- Veja como o sol da tarde faz tudo mais bonito aqui dentro! – disse.

Eram as mesmas palavras que o padre Stanislau me dis­sera quatro anos antes. Sempre há uma segunda chance na vida.

Edição nº 191 – O céu e o inferno

Um homem, seu cavalo e seu cão caminhavam por uma estrada. Quando passavam perto de uma árvore gigantesca, um raio caiu, e todos morreram fulminados.

Mas o homem não percebeu que já havia deixado este mundo, e continuou caminhando com seus dois animais; às vezes os mortos levam tempo para se dar conta de sua nova condição…

A caminhada era muito longa, morro acima, o sol era forte e eles ficaram suados e com muita sede. Precisavam desesperadamente de água. Numa curva do caminho, avistaram um portão magnífico, todo de mármore, que conduzia a uma praça calçada com blocos de ouro, no centro da qual havia uma fonte de onde jorrava água cristalina.

O caminhante dirigiu-se ao homem que guardava a entrada.

- Bom dia.

- Bom dia – respondeu o homem.

- Que lugar é este, tão lindo?

- Aqui é o Céu.

- Que bom que nós chegamos ao céu, estamos com muita sede.

- O senhor pode entrar e beber água à vontade.

E o guarda indicou a fonte.

- Meu cavalo e meu cachorro também estão com sede.

- Lamento muito, mas aqui não se permite a entrada de animais.

O homem ficou muito desapontado porque sua sede era grande, mas ele não beberia sozinho; agradeceu e continuou adiante. Depois de muito caminharem, já exaustos, chegaram a um sítio, cuja entrada era marcada por uma porteira velha, que se abria para um caminho de terra, ladeada de árvores.

À sombra de uma das árvores, um homem estava deitado, cabeça coberta com um chapéu, possivelmente dormindo.

- Bom dia – disse o caminhante.

O homem acenou com a cabeça.

- Estamos com muita sede, meu cavalo, meu cachorro e eu.

- Há uma fonte naquelas pedras – disse o homem e indicando o lugar. – Podem beber a vontade.

O homem, o cavalo e o cachorro foram até a fonte e mataram a sede. Em seguida voltou para agradecer.

- Por sinal, como se chama este lugar?

- Céu.

- Céu? Mas o guarda do portão de mármore disse que lá era o céu!

- Aquilo não é o céu, aquilo é o inferno.

O caminhante ficou perplexo.

- Vocês deviam evitar isso! Essa informação falsa deve causar grandes confusões!

O homem sorriu:

- De forma alguma. Na verdade, eles nos fazem um grande favor. Porque lá ficam todos aqueles que são capazes de abandonar seus melhores amigos…