Archive for the 'Guerreiro da Luz' Category

Page 2 of 5

Edição nº 190 – E a caça às bruxas continua…

Faz um ano e meio, que transcrevi aqui nesta coluna uma notícia da CNN: no dia 31 de Outubro de 2004, aproveitando-se de uma lei feudal que foi abolida no mês seguinte, a cidade de Prestopans, na Escócia, concedeu o perdão oficial a 81 pessoas – e seus gatos – executadas por prática de bruxaria entre os séculos XVI e XVII.

Segundo a porta-voz oficial dos Barões de Prestoungrange e Dolphinstoun, “a maioria tinha sido condenada sem nenhuma evidência concreta – com base apenas nas testemunhas de acusação, que declaravam sentir a presença de espíritos malignos”.

O mais curioso nesta notícia é que a cidade e o 14º Barão de Prestoungrange & Dolphinstoun, estão “concedendo perdão” às pessoas executadas brutalmente. Estamos em pleno século XXI e aqueles que mataram inocentes ainda se julgam no direito de “perdoar”.

Para minha surpresa, o assunto não terminou aí.

Ainda existem, pelo menos segundo a respeitada agência Reuteurs, bruxas para serem perdoadas pelo sistema. Em uma notícia recentemente publicada, a neta de uma delas acaba de lançar uma campanha pelo “redenção póstuma” de Helen Duncan, uma senhora acusada pelos ingleses durante a Segunda Guerra Mundial. O crime de Duncan foi ter respondido durante uma sessão de espiritismo a pergunta de uma mãe desesperada, que gostaria de saber o paradeiro do seu filho, membro da tripulação do navio HMS Barbham. A médium afirmou que o mesmo acabava de naufragar, e todos haviam morrido.

Era verdade, mas o fato estava sendo mantido em segredo para não afetar a moral dos soldados. A notícia logo se espalhou, e chegou até o governo. Baseado em uma lei de 1735, Winston Churchill mandou prendê-la até o final da guerra.

Helen Duncan morreu em 1956, sem jamais ter sido perdoada. Sua neta, Mary Martin (hoje com 72 anos), já conseguiu até mesmo uma audiência com Ministro do Interior do governo Tony Blair, sem o menor sucesso.

No momento em que escrevo estas linhas, o Barão de Prestoungrange,o mesmo que conseguiu obter o perdão oficial da cidade de Prestopans, está diretamente envolvido no assunto, e já chegou até mesmo a montar um site na internet (www.prestoungrange.org/helenduncan) para angariar apoio internacional.

Diz o Barão:

“Os 300 soldados executados por deserção durante a Primeira Guerra Mundial já foram perdoados. As denúncias que provocaram a morte de um grupo de 20 jovens inocentes em Salem, Massachussets, já foram tratadas com o devido respeito. Nós já nos desculpamos de traficar escravos e adotarmos a pirataria como um meio nobre de enriquecer o Reino Unido. O que falta para perdoar Helen Duncan?”

É simples. No início, Duncan foi acusada de espionagem. Uma gigantesca investigação levada a cabo pelo governo concluiu que era impossível uma mulher como ela ter acesso a segredos oficiais e informações secretas. Como poderia, portanto, saber o que havia passado com a fragata HMS Barbham?

Restava apenas uma única explicação: bruxaria. E para que servem as antigas leis, mesmo que já tenham sido esquecidas por uma civilização que se julga iluminada e longe das superstições de outrora?

Para serem aplicadas.

Edição nº 189 – Inventário da normalidade

do livro “O vencedor está só”

1] qualquer coisa que nos faça esquecer nossa verdadeira identidade e nossos sonhos, e nos faça apenas trabalhar para produzir e reproduzir.

2] ter regras para uma guerra (Convenção de Genebra).

3] gastar anos fazendo uma universidade, para depois não conseguir trabalho.

4] trabalhar de nove da manhã as cinco da tarde em algo que não dá o menor prazer, desde que em 30 anos a pessoa consiga aposentar-se.

5] Aposentar-se, descobrir que já não tem mais energia para desfrutar a vida, e morrer em poucos anos, de tédio.

6] Uso de botox.

7] Procurar ser bem-sucedido financeiramente, ao invés de buscar a felicidade.

8] Ridicularizar quem busca a felicidade ao invés do dinheiro, chamando-o de “pessoa sem ambição”.

9] Comparar objetos como carros, casas, roupas, e definir a vida em função destas comparações, ao invés de tentar realmente saber a verdadeira razão de estar vivo.

10] Não conversar com estranhos. Falar mal do vizinho.

11] Sempre achar que os pais estão certos.

12] Casar, ter filhos, continuar juntos mesmo que o amor tenha acabado, alegando que é para o bem da criança (que parece não estar assistindo as constantes brigas).

12ª] Criticar todo mundo que tenta ser diferente.

14] Acordar com um despertador histérico ao lado da cama.

15] Acreditar em absolutamente tudo que está impresso.

16] Usar um pedaço de pano colorido amarrado no pescoço, sem qualquer função aparente, mas que atende pelo pomposo nome de “gravata”.

17] Nunca ser direto nas perguntas, mesmo que a outra pessoa entenda o que se está querendo saber.

18] Manter um sorriso nos lábios quando se está morrendo de vontade de chorar. E ter piedade de todos os que demonstram seus próprios sentimentos.

19] Achar que arte vale uma fortuna, ou que não vale absolutamente nada.

20] Sempre desprezar aquilo que foi conseguido com facilidade, porque não houve o “sacrifício necessário”, e, portanto não deve ter as qualidades requeridas.

21] Seguir a moda, mesmo que tudo pareça ridículo e desconfortável.

22] Estar convencido que toda pessoa famosa tem toneladas de dinheiro acumulado.

23] Investir muito na beleza exterior, e se preocupar pouco com a beleza interior.

24] Usar todos os meios possíveis para mostrar que, embora seja uma pessoa normal, está infinitamente acima dos outros seres humanos.

25] Em um meio de transporte público, jamais olhar diretamente nos olhos de uma pessoa, caso contrário isso pode ser interpretado como um sinal de sedução.

26] Quando entrar no elevador, manter o corpo voltado para a porta de saída, e fingir que é a única pessoa lá dentro, por mais lotado que esteja.

27] Jamais rir alto em um restaurante, por melhor que seja a história.

28] No hemisfério norte, usar sempre a roupa combinando com a estação do ano; braços de fora na primavera (por mais frio que esteja) e casaco de lã no outono (por mais quente que esteja).

29] No hemisfério sul, encher a árvore de natal de algodão, mesmo que o inverno nada tenha a ver com o nascimento de Cristo.

30] À medida que for ficando mais velho, achar-se dono de toda a sabedoria do mundo, embora nem sempre tenha vivido o suficiente para saber o que está errado.

31] Ir a um chá de caridade e achar que com isso já colaborou o suficiente para acabar com as desigualdades sociais do mundo.

32] Comer três vezes por dia, mesmo sem fome.

33] Acreditar que os outros sempre são melhores em tudo: são mais bonitos, mais capazes, mais ricos, mais inteligentes. É muito arriscado aventurar-se além dos próprios limites, melhor não fazer nada.

34] Usar o carro como uma maneira de sentir-se poderoso e dominar o mundo.

35] Dizer impropérios no trânsito.

36] Achar que tudo que seu filho faz de errado é culpa das companhias que ele escolheu.

37] Casar-se com a primeira pessoa que lhe oferecer uma posição social. O amor pode esperar.

38] Dizer sempre “eu tentei”, mesmo que não tenha tentado absolutamente nada.

39] Deixar para viver as coisas mais interessantes da vida quando já não tiver mais forças para tal.

40] Evitar a depressão com doses diárias e maciças de programas de TV.

41] Acreditar que é possível estar seguro de tudo que conquistou.

42] Achar que mulheres não gostam de futebol, e que homens não gostam de decoração.

43] Culpar o governo por tudo de ruim que acontece.

44] Estar convencido de que ser uma pessoa boa, decente, respeitosa significa que os outros vão pensar que é fraca, vulnerável, e facilmente manipulável.

45] Estar igualmente convencido que a agressividade e a descortesia no trato com os outros é que são sinônimos de uma personalidade poderosa.

46] Ter medo de fibroscopia (homens) e parto (mulheres).

47] Finalmente: achar que a sua religião é a única dona da verdade absoluta, a mais importante, a melhor, e que todos os outros seres humanos neste imenso planeta que acreditam em qualquer outra manifestação de Deus estão condenados ao fogo do inferno.

Edição nº 188 – O pinheiro de St. Martin

Na véspera de Natal, o padre da igreja no pequeno vilarejo de St. Martin, nos Pirineus franceses, se preparava para celebrar a missa, quando começou a sentir um perfume delicioso. Era inverno, há muito as flores tinham desaparecido – mas ali estava aquele aroma agradável, como se a primavera tivesse surgido fora de tempo.

Intrigado, ele saiu da igreja para buscar a origem de tal maravilha, e foi dar com um rapaz sentado na frente da porta da escola. Ao seu lado, estava uma espécie de árvore de Natal dourada.

- Mas que beleza de árvore! – disse o pároco. – Ela parece ter tocado o céu, já que irradia uma essência divina! E é feita de ouro puro! Onde foi que a conseguiu?

O jovem não demonstrou muita alegria com o comentário do padre.

- É verdade que isso que carrego comigo foi ficando cada vez mais pesado à medida que eu andava, suas folhas ficaram duras. Mas não pode ser ouro, e estou com medo da reação de meus pais.

O rapaz contou sua história:

- Tinha saído hoje de manhã para ir até a grande cidade de Tarbes, com o dinheiro que minha mãe havia me dado para comprar uma bela árvore de Natal. Acontece que, ao cruzar um povoado, vi uma senhora de idade, solitária, sem nenhuma família com quem comemorar a grande festa da Cristandade. Dei-lhe algum dinheiro para a ceia, pois estava certo que poderia conseguir um desconto na minha compra.

“Ao chegar em Tarbes, passei diante da grande prisão, e havia uma série de pessoas esperando a hora da visita. Todas estavam tristes, já que passariam a noite longe de seus entes queridos. Escutei algumas delas comentando que sequer tinham conseguido comprar um pedaço de torta. Na mesma hora, movido pelo romantismo de gente da minha idade, decidi que iria dividir meu dinheiro com aquelas pessoas, que estavam precisando mais que eu. Guardaria apenas uma ínfima quantia para o almoço; o florista é amigo de nossa família, com certeza me daria a árvore, e eu poderia trabalhar para ele na semana seguinte, pagando assim a minha dívida”.

“Entretanto, ao chegar ao mercado, soube que o florista que conhecia não tinha ido trabalhar. Tentei de todas as maneiras conseguir alguém que me emprestasse dinheiro para comprar a árvore em outro lugar, mas foi em vão”.

“Convenci a mim mesmo que conseguiria pensar melhor o que fazer, se estivesse com o estômago cheio. Quando me aproximei de um bar, um menino que parecia estrangeiro, perguntou se eu podia lhe dar alguma moeda, já que não comia há dois dias. Como imaginei que certa vez o menino Jesus deve ter passado fome, entreguei-lhe o pouco dinheiro que me sobrava, e voltei para casa. No caminho de volta, quebrei um galho de um pinheiro; tentei ajeita-lo, corta-lo, mas ele foi ficando duro como se feito de metal, e está longe de ser a árvore de Natal que minha mãe espera”.

- Meu caro – disse o padre – o perfume desta árvore não deixa dúvidas de que ela foi tocada pelos Céus. Deixe-me contar o resto desta sua história:

“Assim que você deixou a senhora, ela imediatamente pediu à Virgem Maria, uma mãe como ela, que lhe devolvesse esta benção inesperada. Os parentes dos presos se convenceram que tinham encontrado um anjo, e rezaram agradecendo aos anjos pelas tortas que foram compradas. O menino que você encontrou, agradeceu a Jesus por ter sua fome saciada”.

“A Virgem, os anjos, e Jesus escutaram a prece daqueles que tinham sido ajudados. Quando você quebrou o galho do pinheiro, a Virgem colocou nele o perfume da misericórdia. À medida que você caminhava, os anjos iam tocando suas folhas, e as transformando em ouro. Finalmente, quando tudo ficou pronto, Jesus olhou o trabalho, abençoou-o, e a partir de agora, quem tocar esta árvore de Natal, terá seus pecados perdoados e seus desejos atendidos”.

E assim foi. Conta a lenda que o pinheiro sagrado ainda se encontra em St. Martin; mas sua força é tão grande que, todos aqueles que ajudam seu próximo na véspera de Natal, não importa quão longe estejam do pequeno vilarejo dos Pirineus, são abençoados por ele.

(inspirado em uma história hassídica)

Edição nº 187 – O vitríolo ou a amargura

No meu livro “Veronika decide morrer”, que se passa em um hospital psiquiátrico, o diretor desenvolve uma tese a respeito de um veneno indetectável que contamina o organismo com o passar dos anos: o vitríolo.

Assim como a libido – o líquido sexual que o Dr. Freud reconhecera, mas nenhum laboratório fora jamais capaz de isolar, o vitríolo é destilado pelos organismos de seres humanos que se encontram em situação de medo. A maioria das pessoas afetadas identifica seu sabor, que não é doce nem salgado, mas amargo – daí as depressões serem profundamente associadas com a palavra Amargura.

Todos os seres têm Amargura em seu organismo – em maior ou menor grau – da mesma maneira que quase todos temos o bacilo da tuberculose. Mas estas duas doenças só atacam quando o paciente acha-se debilitado; no caso da Amargura, o terreno para o surgimento da doença aparece quando se cria o medo da chamada “realidade”.

Certas pessoas, no afã de querer construir um mundo onde nenhuma ameaça externa pudesse penetrar, aumentam exageradamente suas defesas contra o exterior – gente estranha, novos lugares, experiências diferentes – e deixam o interior desguarnecido. É a partir daí que a Amargura começa a causar danos irreversíveis.

O grande alvo da Amargura (ou Vitríolo, como preferia o médico do meu livro) é a vontade. As pessoas atacadas deste mal vão perdendo o desejo de tudo, e em poucos anos já não conseguem sair de seu mundo – pois gastaram enormes reservas de energia construindo altas muralhas para que a realidade fosse aquilo que desejavam que fosse.

Ao evitar o ataque externo, também limitam o crescimento interno. Continuam indo ao trabalho, vendo televisão, reclamando do trânsito e tendo filhos, mas tudo isso acontece automaticamente, sem que entendam direito porque estão se comportando assim – afinal de contas, tudo está sob controle.

O grande problema do envenenamento por Amargura reside no fato de que as paixões – ódio, amor, desespero, entusiasmo, curiosidade – também não se manifestam mais. Depois de algum tempo, já não restava ao amargo qualquer desejo. Não tinham vontade nem de viver, nem de morrer, este era o problema.

Por isso, para os amargos, os heróis e os loucos são sempre fascinantes: eles não têm medo de viver ou morrer. Tanto os heróis como os loucos são indiferentes diante do perigo, e seguem adiante apesar de todos dizerem para não fazerem aquilo. O louco se suicida, o herói se oferece ao martírio em nome de uma causa – mas ambos morrem, e os amargos passavam muitas noites e dias comentando o absurdo e a glória dos dois tipos. É o único momento em que o amargo tem força para galgar sua muralha de defesa e olhar um pouquinho para fora; mas logo as mãos e os pés cansam, e ele volta para a vida diária.

O amargo crônico só nota a sua doença uma vez por semana: nas tardes de domingo. Ali, como não tem o trabalho ou a rotina para aliviar os sintomas, percebem que alguma coisa está muito errada.

Edição nº 186 – Dietas já?

Um dos grandes filósofos brasileiros, Tim Maia, disse certa vez: “resolvi fazer uma dieta rigorosa. Cortei álcool, gorduras e açúcar. Em duas semanas, perdi 14 dias”.

Vivo há 28 anos com uma mulher maravilhosa, que de vez em quando perde sua calma e seu bom-humor porque acha que ganhou uns quilos a mais. Será que não estamos exagerando um pouco? Uma coisa é a obesidade, outra é tentar parar o tempo e a evolução normal do organismo.

O pior de todo é que, a cada momento, surge uma nova maneira de perder peso: comendo calorias, deixando de comer calorias, ingerindo compulsivamente gorduras, evitando gorduras a qualquer preço. Entramos em uma farmácia e somos visualmente invadidos por todo tipo de produto milagroso, prometendo acabar com a vontade de comer, com o tecido adiposo, com a barriga, etc.

Sobrevivemos todos estes milênios porque fomos capazes de comer. E hoje em dia isso parece ter se tornado uma maldição. Por quê? O que nos faz procurar manter aos 40 anos, o mesmo corpo de que tínhamos quando éramos jovens? Será possível parar esta dimensão do tempo?

Claro que não. E por que precisamos ser magros?

Não precisamos. Compramos livros, freqüentamos academias, gastamos uma parte importantíssima de nossa concentração tentando parar o tempo, quando devíamos celebrar o milagre caminhando por este mundo. Em vez de pensar em como viver melhor ficamos obcecados com o peso.

Esqueçam isso; vocês podem ler todos os livros que quiserem, fazer os exercícios que desejarem, sofrerem todas as punições que decidirem, e terão apenas duas escolhas – ou deixam de viver, ou irão engordar.

Evidente que é preciso comer com moderação, mas é preciso, sobretudo comer com prazer. Jesus Cristo já dizia: “o mal não é o que entra, mas o que sai da boca do homem”.

Outro dia, estava em um restaurante libanês com uma amiga irlandesa, e conversávamos sobre saladas. Com todo respeito pelos vegetarianos e pelos fundamentalistas da alimentação, salada para mim é, sobretudo uma decoração de prato. Não podemos viver sem ela, mas não podemos tampouco considerá-la como o centro de nossas atenções gastronômicas. Os jornais publicam todos os dias histórias de jovens em busca do estrelato na passarela, que terminaram morrendo por causa desta obsessão com o peso.

Lembrem-se que durante milênios lutamos para não passar fome. Quem inventou esta história de que todos precisam ser magros a vida inteira?

Vou responder: os vampiros da alma, que pensam ser possível parar a roda do tempo. Não é possível. Usem a energia e o esforço de uma dieta para alimentarem-se do pão espiritual, e continuem desfrutando (com moderação, insisto mais uma vez) dos prazeres da boa mesa. Ano passado fiz uma série de colunas sobre os pecados capitais, e a gula era um deles. Mas o que é exatamente a gula? Uma obsessão.

Idem para a dieta. E neste momento, os dois extremos se encontram e se tornam nocivos à saúde. Enquanto milhões de pessoas passam fome no mundo inteiro, vemos gente provocando isso porque, em algum momento, alguém decidiu que ser magro é a única opção de juventude e beleza.

Ao invés de queimar artificialmente estas calorias, devemos procurar transformá-las em energia necessária para a luta pelos sonhos; ninguém ficou magro por muito tempo só por causa de uma dieta.

Edição nº 185 – Sétima e última virtude cardinal: Equilíbrio

Com esta coluna, terminamos a série das sete virtudes cardinais, compostas de três virtudes teológicas (Fé, Esperança, Amor) e quatro virtudes clássicas (Sabedoria, Justiça, Coragem e Equilíbrio).

Segundo o Novo Testamento (que parece não concordar muito com esta virtude): Isto diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus: Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca (Apocalipse 3: 14-16)

Em uma história zen: uma fervorosa budista esforçava-se para desenvolver seu amor ao próximo. Mas sempre que ia ao mercado, um comerciante lhe fazia propostas indecorosas.

Certa manhã chuvosa, quando o homem lhe importunou mais uma vez, ela perdeu o controle e feriu seu rosto com o guarda-chuva. Nesta mesma tarde, foi procurar um monge e relatou o ocorrido.

“Tenho vergonha”, disse. “Não consegui controlar meu ódio”.

“Você agiu errado em odiá-lo”, respondeu o monge. “Da próxima vez que ele disser algo, encha seu coração de bondade. E torne a bater com seu guarda-chuva, porque ele só entende esta linguagem”.

No Dia do Perdão Judaico: No dia do Yom Kyppur, o rabino Elimelekh de Lisensk levou seus discípulos até a oficina de um pedreiro. “Reparem o comportamento deste homem”, disse. “Porque ele consegue entender-se bem com o Senhor”.

Sem notar que estava sendo observado, o pedreiro terminou seus afazeres e foi para a janela. Tirou dois pedaços de papel do bolso, e levantou-os para o céu, dizendo:

“Senhor, numa folha escrevi a lista de meus pecados. Eu errei, e não tenho porque esconder que Te ofendi várias vezes. Entretanto, no outro papel está a relação dos Teus pecados para comigo. Exigiste de mim além do necessário, me trouxeste momentos difíceis, e me fizeste sofrer. Se compararmos as duas listas, o Senhor está em débito para comigo. Mas como hoje é o Dia do Perdão, Tu me perdoas, eu te perdôo, e continuaremos juntos o nosso caminho por mais um ano”.

Em uma história islâmica: Muhammad ib Suqah conta a história de Abddulah e Mansur, dois fiéis muçulmanos. Certo dia, Abddulah pediu ajuda ao amigo.

O tempo foi passando, e nenhuma ajuda foi dada. Um dia, Mansur perguntou: “Meu irmão, você me pediu ajuda, e eu não fiz nada. No entanto, você parece não ter se irritado com isto”.

“Temos uma longa amizade. Aprendi a amar-te antes de precisar de um favor”, respondeu Abddulah. “E consigo continuar te amando, não importa se tu me atendes ou não”.

Mansur respondeu: “Não atendi porque queria saber a força de teu desejo. Vi que esta força é maior que a discórdia e o ódio; amanhã você terá o que pediu”.

E PARA TERMINAR ESTA SÉRIE COM UM POUCO DE HUMOR…

Segundo um casal mais velho: os dois tomavam café no dia das Bodas de Ouro. A mulher passou manteiga da parte crocante do pão, e a estendeu para o marido, ficando com o miolo. “Sempre quis comer a melhor parte”, pensou consigo mesma. “Mas eu o amo, e durante estes cinqüenta anos procurei me controlar, e lhe dei o miolo. Hoje gostaria de satisfazer meu desejo”.

Para sua surpresa, o rosto do marido abriu-se num sorriso. “Obrigado por este presente! Durante cinqüenta anos sempre quis comer a casca do pão. Mas para manter a harmonia em nosso casamento, como você sempre gostava tanto, eu nunca ousei pedir”.

Segundo um casal mais moço: O marido recebeu de Natal duas belas gravatas de sua esposa. Satisfeito, vestiu seu melhor terno, escolheu uma das gravatas que havia ganho e convidou-a para jantar fora. Enquanto comiam, reparou que a esposa parecia muito triste.

“Meu bem, estou me sentindo ansiosa e desequilibrada”, disse ela depois de um longo silêncio. “Por que está usando esta gravata? Não gostou da outra?”

Edição nº 184 – Sexta virtude cardinal: coragem

Segundo o dicionário: do latim cor, coração s. f.; firmeza de espírito, energia diante do perigo; intrepidez; ânimo; valentia; perseverança.

Para Jesus Cristo: Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa. (Mateus 5:13-15)

No calor da luta: Ontem eu tive coragem de lutar. Hoje terei coragem de vencer (Bernadette Devlin, ativista política católica na Irlanda do Norte)

Entre os padres do deserto: um grupo de monges do mosteiro de Sceta – entre eles o grande abade Nicerius – passeava pelo deserto egípcio quando um leão surgiu diante deles. Apavorados, todos se puseram a correr.

Anos depois, quando Niscerius estava em seu leito de morte, um dos monges comentou:

- Abade, lembra-se do dia que encontramos o leão? Foi a única vez que o vi ter medo.

- Mas eu não tive medo do leão.

- Então por que correu junto com a gente?

- Achei melhor fugir uma tarde de um animal, que passar o resto da vida fugindo da vaidade.

Em um discurso: O povo há de virar suas costas para aqueles que insultam a dignidade humana, ao descrever que uns devem ser os mestres, outros os servos. Porque isso transforma cada pessoa em um predador, cuja sobrevivência depende da destruição do outro. Assim teremos criado uma sociedade corajosa, que reconhece que tanto negros como brancos pertencem à mesma raça, nasceram iguais, e tem os mesmos direitos de liberdade, prosperidade, e democracia. Esta sociedade jamais deverá aceitar de novo a existência de prisioneiros de consciência (Nelson Mandela, que durante 28 anos foi prisioneiro de consciência, ao receber o prêmio Nobel da Paz, 10/12/1993)

Diante do mal absoluto: dois rabinos tentam de todas as maneiras levar o conforto espiritual aos judeus na Alemanha nazista. Durante um ano, embora mortos de medo, enganam a Gestapo (polícia secreta) e realizam ofícios religiosos em várias comunidades.

Finalmente são presos. Um deles, apavorado com o que pode acontecer dali por diante, não para de rezar. O outro passa o dia inteiro dormindo.

- Por que você dorme: – pergunta o rabino assustado. – Não está com medo? Não sabe o que pode nos acontecer?

- Eu tive medo até o momento da prisão. Agora que estou preso, de que adianta temer? O tempo do medo acabou; agora começa o tempo da coragem de enfrentar seu destino.

Em uma praia: O que está a sua volta? Não existe alegria nem coragem, apenas terror neste belo entardecer. Terror de ficar sozinho, terror do escuro que povoa a imaginação de demônios, terror de fazer qualquer coisa fora do manual do bom comportamento, terror do julgamento de Deus, terror dos comentários dos homens, terror de arriscar e perder, terror de ganhar e ter que conviver com a inveja, terror de amar e ser rejeitado, terror de pedir aumento, de aceitar um convite, de ir para lugares desconhecidos, de não conseguir falar uma língua estrangeira, de não ter capacidade de impressionar os outros, de ficar velho, de morrer, de ser notado por causa de seus defeitos, de não ser notado por causa de suas qualidades, de não ser notado nem por seus defeitos, nem por suas qualidades. (in “O demônio e a Srta. Prym, 1998)

Segundo um sábio: A coragem se manifesta em atos, não em palavras; não é blefe, arrogância, ou loucura. Um homem corajoso é aquele que ousa fazer o que acha certo, e agüenta com as conseqüências de seus atos – sejam eles políticos, sociais ou individuais.

O homem pode obedecer a outro por duas razões: por medo de ser punido, ou por amor. A obediência derivada do amor ao próximo é mil vezes mais poderosa que o medo do castigo.(Mahatma Ghandi, 1869 – 1948)

Edição nº 183 – Quinta virtude cardinal: justiça

Segundo o dicionário: do Lat. Justitias, s. f., conformidade com o direito; ato de dar a cada um o que lhe pertence; equidade; conjunto de magistrados e das pessoas que servem junto deles.

Segundo Jesus Cristo: Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. (Mateus 5: 38-39)

Em outro momento do Evangelho: E entrou Jesus no templo de Deus, e expulsou todos os que vendiam e compravam no templo, e derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas (Mateus, 21:12)

Segundo Bankei: durante uma das aulas do mestre zen Bankei, um aluno foi pego roubando. Todos os discípulos pediram a expulsão do aluno, mas Bankei não fez nada. Na semana seguinte, o aluno roubou de novo. Irritados, os outros exigiram que o ladrão fosse punido.

“Como vocês são sábios”, disse Bankei. “Sabem o que é certo ou errado, e podem estudar em qualquer outro lugar. Mas este pobre irmão – que não sabe o que é certo ou errado – só tem a mim para ensiná-lo. E continuarei fazendo isto”. Uma torrente de lágrimas purificou o rosto do ladrão; o desejo de roubar havia desaparecido.

Carta de um condenado à morte: O corredor da morte é a arena onde as políticas de Poder, Retribuição, e Violência, são aplicadas a um homem usando concreto e aço. Até que este homem se transforma em aço e concreto. Entretanto, embora o aço possa ser duro, ainda é capaz de ser flexível, e embora o coração tenha se transformado em concreto, ainda é capaz de bater. (Justin Fuller, executado no Texas em 24/08/2006)

Durante a Inquisição Espanhola: no século XV, os padres inquisidores iam de cidade em cidade, reunindo os habitantes na praça principal; depois de uma pregação, escolhiam aleatoriamente seis ou sete pessoas, que eram interrogadas sobre a vida dos vizinhos; em todos os casos, sempre estas pessoas acusavam alguém, com medo de serem consideradas hereges.

Na aplicação da justiça: “O inferno é o Iraque” (resposta de Saddam Hussein, quando um dos seus executores gritou ‘vá para o inferno’, 29/12/2006)

Na cerimônia do chá: Nós olhamos a maldade nos outros, porque conhecemos a maldade através de nosso comportamento. Nunca perdoamos aqueles que nos ferem, porque achamos que jamais seriamos perdoados. Nós dizemos a verdade dolorosa ao próximo, porque a queremos esconder de nós mesmos. Nos refugiamos no orgulho, para que ninguém possa ver nossa fragilidade. Por isso, sempre que estiver julgando o seu irmão, tenha consciência de que é você quem está no tribunal. (Okakura Kakuso, O Livro do Chá, 1904)

Em busca de provas: Apesar de ineficaz como meio de prova e método de investigação, a tortura durante séculos, foi o método jurídico para descoberta da verdade dos fatos. ( Paulo Sérgio Pinheiro, Professor Titular de Ciência Política)

Segundo o tutor do rei da Pérsia: Quando era pequeno, Cosroes (mais tarde Cosroes I) tinha um mestre que conseguiu fazê-lo destacar-se em todas as matérias que aprendia. Certa tarde, o mestre – aparentemente sem motivo – castigou-o com toda severidade.

Anos depois, Cosroes subiu ao trono. Uma das suas primeiras providências foi mandar trazer o mestre de sua infância, e exigir uma explicação para a injustiça que cometera.

“Por que me castigaste sem que eu merecesse?” perguntou.

“Quando vi tua inteligência, soube logo que irias herdar o trono de teu pai”, respondeu o mestre. “E resolvi mostrar-lhe como a injustiça é capaz de marcar um homem para o resto da vida. Espero que você jamais castigue alguém sem motivo”.

Edição nº 182 – Quarta virtude cardinal: sabedoria

Segundo o dicionário: s.f., conhecimento profundo das coisas, natural ou adquirido; erudição; retidão.

Segundo o Novo Testamento: a loucura de Deus é mais sábia que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte que os homens. Ora, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados.  Pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para confundir os sábios; e Deus escolheu as coisas fracas do mundo para confundir as fortes (Corintios 1: 25-27).

Segundo o Islã: Um sábio chegou à vila de Akbar e as pessoas não deram muita importância. Exceto um pequeno grupo de jovens, o sábio não conseguiu interessar mais ninguém; pelo contrário, tornou-se motivo de ironia dos habitantes da cidade. Um dia passeava com alguns de seus discípulos pela rua principal, quando um grupo de homens e mulheres começou a insultá-lo. O sábio foi até eles, e abençoou-os.

Ao sair dali, um dos discípulos comentou: “eles dizem coisas horríveis, e o senhor responde com belas palavras”.

E o sábio respondeu: “cada um de nós só pode oferecer o que tem”.

Segundo a tradição hassídica (judaica): Quando Moisés subiu aos céus para escrever determinada parte da Bíblia, o Todo-Poderoso pediu que colocasse pequenas coroas em algumas letras da Torah. Moisés disse: “Mestre do Universo, por que colocar estas coroas?” Deus respondeu: “Porque daqui a cem gerações um homem chamado Akiva irá interpretá-las”.

“Mostre-me a interpretação deste homem”, pediu Moisés.

O Senhor levou-o ao futuro, e colocou-o numa das aulas do rabino Akiva. Um aluno perguntava: “Rabino, por que estas coroas desenhadas em cima de algumas letras?”

“Não sei”, respondeu Akiva. “E estou certo que nem Moisés sabia. Ele fez isto apenas para nos ensinar que, mesmo sem compreender tudo que o Senhor faz, ainda assim podemos confiar em sua sabedoria”.

No reino animal: A centopéia resolveu perguntar ao sábio da floresta, um macaco, qual o melhor remédio para a dor em suas pernas.

“Isto é reumatismo”, disse o macaco. “Você tem pernas demais”.

“E como faço para ter apenas duas pernas?”

“Não me amole com detalhes”, respondeu o macaco. “Um sábio apenas dá o melhor conselho; você que resolva o problema”.

Uma cena que presenciei em 1997: um aprendiz de ocultismo que conheço, na esperança de impressionar bem o seu mestre, leu alguns manuais de magia e resolveu comprar os materiais indicados nos textos.Com muita dificuldade conseguiu determinado tipo de incenso, alguns talismãs, uma estrutura de madeira com caracteres sagrados escritos numa ordem estabelecida. Quando tomávamos café da manhã juntos com seu mestre, este comentou:

- Você acredita que, enrolando fios de computador no pescoço, conseguirá a eficiência da máquina? Acredita que, ao comprar chapéus e roupas sofisticadas, vai adquirir também o bom-gosto e a sofisticação de que as criou?

“Os objetos podem ser seus aliados, mas não contém qualquer tipo de sabedoria. Pratique primeiro a devoção e a disciplina, e tudo o mais lhe será acrescentado”.

Diante de Alexandre: o filósofo grego Anaximenes (400 A.C.) aproximou-se de Alexandre, o Grande, para tentar salvar sua cidade.

“Recebi-o porque sei que é um sábio. Mas tem minha palavra de rei que jamais aceitarei o que veio me pedir”, disse o poderoso guerreiro diante de seus generais.

“Vim apenas pedir que destrua minha cidade”, respondeu Anaximenes. E, desta maneira, a cidade foi salva.

Terceira virtude cardinal: amor

Segundo o dicionário: do Lat. Amores, s. m., viva afeição que nos impele para o objeto dos nossos desejos; inclinação da alma e do coração; afeição; paixão; inclinação exclusiva; graça teologal.

No Novo Testamento: Agora, pois, permanecem a Fé, a Esperança e o Amor, estes três, mas o maior destes é o amor. (Cor 13:13)

Segundo a etimologia: os gregos possuíam três palavras para designar o amor: Eros, Philos e Ágape. Eros é o amor saudável entre duas pessoas, que justifica a vida e perpetua a raça humana. Philos é o sentimento que dedicamos aos nossos amigos. Finalmente, Ágape, que contem Eros e Philos, vai muito mais longe do fato de “gostar” de alguém. Ágape é o amor total, o amor que devora quem o experimenta. Para os católicos, este foi o amor que Jesus sentiu pela humanidade, e foi tão grande que sacudiu as estrelas e mudou o curso da história do homem. Quem conhece e experimenta Ágape, vê que nada mais neste mundo tem importância, apenas amar.

Para Oscar Wilde: A gente sempre destrói aquilo que mais ama / em campo aberto, ou numa emboscada; /alguns com a leveza do carinho / outros com a dureza da palavra; / os covardes destroem com um beijo, /os valentes, destroem com a espada.(in Balada do Carcere de Reading, 1898)

Em um sermão no final do século XIX: Derrame generosamente seu amor sobre os pobres, o que é fácil; e sobre os ricos, que desconfiam de todos, e não conseguem enxergar o amor de que tanto necessitam. E sobre seu próximo – o que é muito difícil, porque é com ele que somos mais egoístas. Ame. Jamais perca uma oportunidade de dar alegria ao próximo, porque você será o primeiro e se beneficiar disto – mesmo que ninguém saiba o que você está fazendo. O mundo à sua volta ficará mais contente, e as coisas serão muito mais fáceis para você.

Eu estou neste mundo vivendo o presente. Qualquer coisa boa que eu possa fazer, ou qualquer alegria que puder dar aos outros, por favor, digam-me. Não me deixem adiar ou esquecer, pois jamais tornarei a viver este momento novamente. ( in O Dom Supremo, Henry Drummond [ 1851-1897])

Em uma mensagem eletrônica recebida pelo autor : “enquanto guardei meu coração para mim mesma, jamais tive qualquer manhã de angústia ou noite de insônia. A partir do momento em que me apaixonei, minha vida tem sido uma seqüência de angústias, de perdas, de desencontros. Penso que, usando o amor, Deus conseguiu esconder o inferno no meio do paraíso” (C.A., 23/11/2006)

Para a ciência: no ano 2000, os pesquisadores Andreas Bartels e Semir Zeki, do University College de Londres, localizaram as áreas do cérebro ativadas pelo amor romântico, usando para isso uma série de estudantes que diziam estar perdidamente apaixonados. Em primeiro lugar, concluíram que a zona afetada pelo sentimento é muito menor que imaginavam, e são as mesmas que são ativadas por estímulos de euforia, como no uso da cocaína, por exemplo. O que levou os autores a concluírem que o amor é semelhante à manifestação de dependência física provocada por drogas.

Também usando o mesmo sistema de escanear o cérebro, a cientista Helen Fisher, da Rutgers University, conclui que três características do amor (sexo, romantismo, e dependência mútua) estimulam áreas diferentes no córtex; concluindo que podemos estar apaixonados por uma pessoa, querer fazer amor com outra, e viver com uma terceira.

Para um poeta: O amor não possui nada, e nem quer ser possuído, porque ele se basta a si mesmo. Ele irá vos fazer crescer, e depois os atirará por terra. Vos açoitará para que sintais vossa impotência, vos agitará para que saiam todas as vossas impurezas. Vos amassará para deixar-vos flexíveis.

E logo vos atirará ao fogo, para que possais vos converter no pão bendito, que será servido na festa sagrada de Deus (in O Profeta, de Khalil Gibran, [1883-1931] )

(próximo Guerreiro da Luz Online: Sabedoria)

Edição nº 180 – Segunda virtude cardinal: esperança

By Paulo Coelho

Para o dicionário: s. f. tendência do espírito para considerar algo como provável; a segunda das virtudes teologais; expectativa; suposição; probabilidade.

Nas palavras de Jesus: Olhai para as aves do céu: Não semeiam, nem ceifam, nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai celeste alimenta-as. Não valeis vós mais do que elas? Qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida? Porque vos preocupais com o vestuário? Olhai como crescem os lírios do campo! Não trabalham nem fiam. Pois Eu vos digo: Nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, como não fará muito mais por vós, homens de pouca fé? (Mateus, 6: 26-30)

Para os antigos gregos: Em um dos clássicos mitos da criação, um dos deuses, furioso com o fato de Prometeu roubar o fogo e com isso dar independência ao homem, envia Pandora para casar-se com seu irmão, Epimeteus. Pandora traz consigo uma caixa, a qual foi proibida de abrir. Entretanto da mesma maneira que Eva no mito cristão, sua curiosidade é mais forte: levanta a tampa para ver o que contêm, e neste momento todas as desgraças males do mundo saem dali e se espalham pela Terra. Apenas uma coisa fica lá dentro: a Esperança, única arma para combater os males que se espalharam.

As quatro maiores esperanças da humanidade:

1] A vinda do Messias (no caso do Cristianismo, o retorno de Cristo, e no caso do Islã e do Judaísmo, a primeira vinda); 2] A cura do câncer; 3] A descoberta de vida extraterrestre; 4] a paz universal (fonte: pesquisa sobre as mais esperadas manchetes de jornal, 1996)

Uma história real: Aos cinco anos de idade, Glenn Cunninghan (1909-1988) sofreu sérias queimaduras nas pernas e os médicos não tinham esperanças de sua recuperação. Todos achavam que ele estava condenado a passar o resto da vida na cadeira de rodas.

Glenn Cunningham não deu ouvidos aos doutores e saiu da cama na semana seguinte.

- Os médicos viam as minhas pernas, mas não o meu coração. Agora vou correr mais rápido que qualquer pessoa.

Em 1934, bateu o recorde mundial de 1.500 m com 4 m 06 s. Foi homenageado como atleta do século no Mandison Square Garden.

Em uma história hassídica (tradição judaica): No final dos quarenta dias de dilúvio, Noé saiu da arca. Desceu cheio de esperança, acendeu incenso, olhou a sua volta, e tudo que viu foi destruição e morte. Noé reclamou:

“Todo-Poderoso, se conhecias o futuro, por que criastes o homem? Só para ter o prazer de castigá-lo?”

Um perfume triplo subiu até os céus: o incenso, o perfume das lágrimas de Noé, e o aroma de suas ações. Então veio a resposta:

“As preces de um homem justo sempre são ouvidas. Vou te dizer porque fiz isto: para que entendesses tua obra. Tu e teus descendentes usarão a esperança, e estarão sempre reconstruindo um mundo que veio do nada. Desta maneira dividiremos o trabalho e as conseqüências: agora ambos somos responsáveis”.

As quatro maiores esperanças do indivíduo:

1] o encontro com o bem-amado; 2] ausência de problemas financeiros; 3] ausência de doenças; 4] imortalidade (fonte: livro das Listas, Irving Wallace, 1977)

Esperando ser lembrado: O grande califa Alrum Al-Rachid resolveu construir um palácio que marcasse a grandeza de seu reino. Ao lado do terreno escolhido, havia uma choupana. Al-Rachid pediu ao seu ministro que convencesse o dono – um velho tecelão – a vendê-la para ser demolida. O ministro tentou, sem êxito; de volta ao palácio, sugeriram que simplesmente expulsassem o velho do lugar.

“Não”, respondeu Al-Rachid. “Ela passará a fazer parte do meu legado ao meu povo. Quando virem o palácio, dirão: ele foi grande. E, quando virem a choupana, dirão: ele foi justo, porque respeitou o desejo dos outros”.

(próximo Guerreiro da Luz Online: Amor)

Welcome to Share with Friends – Free Texts for a Free Internet

Edição nº 179 – Primeira virtude cardinal: a fé

Primeiro falamos neste espaço dos sete pecados capitais. Foi uma série que teve uma amplíssima repercussão da parte dos leitores, e isso me alegrou muito. Mas e as sete virtudes cardinais?

Os pecados precedem as virtudes. Como diz um grande sábio, aquele que não pecou, não tem mérito em sua virtude – porque não venceu nenhuma tentação. A maioria dos homens santos, de qualquer religião, geralmente tiveram uma vida dissoluta ou apática antes de dedicarem-se à busca espiritual.

Portanto, uma vez terminada a série de pecados, e seguindo a lógica do caminho da Luz, dedicaremos as próximas colunas às sete virtudes cardinais, começando com a Fé. Elas são derivadas da soma de três virtudes teológicas, acrescentadas de mais quatro baseadas em Platão, que foram adaptadas por Santo Agostinho e São Tomas de Aquino (no que se refere as quatro virtudes complementares, há muitas divergências, de modo que resolvi escolher a lista mais convencional).

Segundo o dicionário: do Lat. fide, confiança s. f., crença religiosa; convicção em alguém ou alguma coisa; firmeza na execução de um compromisso; crédito; confiança; intenção; virtude teologal.

Segundo Jesus Cristo: Disseram então os apóstolos ao Senhor: Aumenta-nos a fé.  Respondeu o Senhor: Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: arranca tuas raízes, e planta-te no mar; e ela vos obedeceria.” (Lucas, 17: 5-6)

Segundo o budismo: “Nós somos o que pensamos. Com o pensamento, construímos e destruímos o mundo.

Nós somos o que pensamos. A sua imaginação pode lhe causar mais dano que seu pior inimigo.

Mas, uma vez que você controla seus pensamentos, ninguém pode ajudá-lo tanto, nem mesmo seu pai ou a sua mãe.” (trecho Dhammapada, coleção de alguns dos principais ensinamentos de Buda)

Para o Islã: “Como purificamos o mundo?”, perguntou um discípulo.

Ibn al-Husayn respondeu: “Havia um xeque em Damasco chamado Abu Musa al-Qumasi. Todos o honravam por causa de sua sabedoria, mas ninguém sabia se era um homem bom. Certa tarde, um defeito de construção fez com que desabasse a casa onde o xeque vivia com a sua mulher. Os vizinhos, desesperados, começaram a cavar as ruínas. Em dado momento, conseguiram localizar a esposa”.

“Ela disse: “Deixem-me. Salvem primeiro o meu marido, que estava sentado mais ou menos ali”. Os vizinhos removeram os destroços no lugar indicado, e encontraram o xeque. Este disse: ” Deixem-me. Salvem primeiro a minha mulher, que estava deitada mais ou menos ali.”

“Quando alguém age como este casal, está purificando o mundo inteiro através de sua fé na vida e no amor”.

A fé de negar a realidade: “um ano atrás, eu fiz um discurso em um porta-aviões, dizendo que tínhamos conseguido atingir um importante objetivo, cumprido uma missão, que era a remoção de Saddam Hussein do poder. Como resultado, não existem mais celas de tortura, ou covas coletivas”(George W. Bush, 30 de abril 2004. Neste mesmo mês, o mundo veria as fotos de tortura na prisão de Abu Graib, e as execuções coletivas da guerra civil entre shiitas e sunitas continuam até o momento em que escrevo esta coluna)

Segundo o rabino Nachman de Bratzlava: um discípulo procurou o rabino e comentou: “não consigo conversar com o Senhor”.”Isto acontece com freqüência”, respondeu Nachman. “Sentimos que a boca está selada, ou que as palavras não aparecem. No entanto, o simples fato de fazer um esforço para superar esta situação, já é uma atitude benéfica”.

“Mas não é o suficiente”.

“Tem razão. Nestas horas, o que se deve fazer é virar-se para o alto e dizer:” “Todo-Poderoso, estou tão longe de Ti que não consigo nem acreditar na minha voz.” Porque, na verdade, o Senhor escuta e responde sempre. Somos nós que não conseguimos falar, com medo que Ele não preste atenção.”

Edição nº 178 – Quando os anjos falam

Quando os anjos falam

Ninguém é corajoso todo tempo. O desconhecido é um desafio constante, e o medo faz parte da jornada.

O que fazer? Converse consigo mesmo. Fale sozinho. Converse com você, mesmo que os outros achem que você ficou louco. À medida que falamos, uma força interior nos dá segurança para superar os obstáculos que precisam ser vencidos. Aprendemos as lições das derrotas que – inevitavelmente – vamos sofrer. E nos preparamos para as muitas vitórias que farão parte de nossa vida.

E aqui entre nós, aqueles que têm este hábito (entre os quais me incluo) sabem que jamais estão falando sozinhos; o anjo da guarda está ali, escutando e nos ajudando a refletir. A seguir, algumas histórias sobre anjos.

A conversa no céu

Abd Mubarak ia até Meca, quando sonhou certa noite que estava no céu. Ali, pode escutar dois anjos conversando.

“Quantos peregrinos vieram este ano à cidade sagrada?” Pergun­tou um deles.

“Seiscentos mil”, respondeu o outro.

“E, destes todos, quantos tiveram sua peregrinação aceita?”

“Nenhum. Entretanto, existe em Bagdad um sapateiro chamado Ali Mufiq, que não efetuou a caminhada; mas sua peregrinação foi aceita, e suas graças beneficiaram os 600 mil peregrinos”.

Quando acordou, Abd Mubarak foi até a sapataria de Mufiq, e lhe contou o sonho.

“A custa de grandes sacrifícios, terminei juntando 350 moedas”, disse, chorando, o sapateiro. “Entretanto, quando estava pronto para seguir até Meca, descobri que meus vizinhos tinham fome. Distribuí o dinheiro entre eles, sacrificando minha pere­grinação”.

O mendigo e o monge

Um monge meditava no deserto, quando um mendigo se aproximou:

“Preciso comer”.

O monge – que estava quase em sintonia perfeita com o mundo espiritual – não respondeu nada.

“Preciso comer”, insistiu o mendigo.

“Vá até a cidade e peça aos outros. Não vê que me atrapalha? Estou tentando comunicar-me com os anjos”.

“Deus se colocou debaixo do homem, lavou seus pés, deu sua vida, e ninguém o reconheceu”, respondeu o mendigo. “Aquele que diz amar a Deus – que não vê – e esquece o seu irmão – que vê – está mentindo”.

E o mendigo transformou-se num anjo.

“Que pena, você quase conseguiu”, comentou antes de partir.

Condenando o irmão

O abade Isaac de Tebas estava no pátio do mosteiro rezando, quando viu um dos monges cometer um pecado. Furioso, interrompeu sua oração, e condenou o pecador.

Naquela noite, foi impedido de voltar a sua cela por um anjo, que lhe disse: “você condenou seu irmão, mas não disse que casti­go devemos aplicar: as penas do inferno? Uma doença terrível ainda nesta vida? Alguns tormentos em sua família?”

Isaac ajoelhou-se e pediu perdão: “atirei as palavras no ar, e um anjo escutou-as. Eu pequei por falta de responsabili­dade com o que digo. Esquece minha ira, Senhor, e me faz ter mais cuidado ao julgar o meu próximo”.

Edição nº 177 – Por que as mulheres acham que as amamos?

Neste caso, o título da newsletter é impróprio. Como no Guerreiro da Luz Online anterior eu disse que me recusava a escrever sobre as razões pelas quais os homens amam as mulheres (seria considerado um escritor sul-americano machista, que despreza os movimentos de libertação do sexo oposto), uma leitora chamada Julia resolveu fazê-lo por mim. Assim, temos a versão feminina de porque nós amamos as mulheres. Evidente que não concordo com tudo, mas essa é uma tribuna (relativamente) livre. Vamos ler o que Julia tem para nos contar:

Nós, os homens, amamos as mulheres porque elas ainda se acham adolescentes mesmo depois que envelhecem.

Porque sorriem cada vez que passa por uma criança.

Porque caminham eretas pelas ruas, olhando sempre em frente, e jamais se viram para agradecer ou retornar o sorriso e o cumprimento que fazemos quando passam.

Porque na cama são ousadas, não porque tenham uma natureza perversa, mas porque desejam nos agradar.

Porque fazem tudo que é necessário para que a casa esteja arrumada e perfeita, e jamais esperam reconhecimento pelo trabalho feito.

Porque não lêem revistas pornográficas.

Porque se sacrificam sem reclamar em nome do ideal de beleza, enfrentando depiladores, injeções de botox, máquinas ameaçadoras em academias de ginástica.

Porque preferem comer saladas.

Porque desenham e pintam suas faces com a mesma concentração de um Michelangelo trabalhando na Capela Sixtina.

Porque se desejam saber algo sobre a própria aparência, procuram outras mulheres e não nos incomodam com este tipo de pergunta.

Porque tem suas próprias maneiras de resolver problemas, que jamais entendemos, e que nos enlouquece.

Porque tem compaixão, e dizem “eu te amo” precisamente quando começam a nos amar menos, para compensar o que estamos sentindo e notando.

Porque às vezes se queixam de coisas que também sentimos, como resfriados e dores reumáticas, e desta maneira entendemos que são pessoas iguais a nós.

Porque escrevem romances de amor.

Porque enquanto nossos exércitos invadem outros países, elas se mantêm firmes em sua guerra privada e inexplicável para acabar com todas as baratas do mundo.

Porque se derretem quando escutam os Rolling Stones cantando “Angie”.

Porque são capazes de ir trabalhar vestidas como homens, em seus terninhos delicados, enquanto homem algum jamais ousou fazer o mesmo usando saias.

Porque nos filmes – e apenas nos filmes – elas jamais tomam banho antes de fazer amor com seus parceiros.

Porque sempre conseguem encontrar um defeito convincente quando dizemos que outra mulher é bonita, e desta maneira nos deixam inseguros a respeito de nosso gosto.

Porque realmente levam a sério tudo que está acontecendo na vida privada das celebridades.

Porque conseguem fingir orgasmos com a mesma qualidade artística da mais famosa e talentosa estrela de cinema.

Porque adoram coquetéis exóticos com cores diferentes e ornamentos delicados, enquanto tomamos nosso uísque de sempre.

Porque não perdem horas pensando como é que vão abordar o lindo rapaz que entrou no ônibus.

Porque nós viemos delas, voltaremos para elas, e enquanto isso não acontece, vivemos orbitando ao redor do corpo e da mente feminina.

E eu acrescento: nós, os homens, as amamos porque elas são mulheres. Simples assim.

Edição nº 176 – Porque amamos os homens

Uma amiga minha, Julia, me enviou o texto a seguir. Quando tentei entrar em contacto com ela para saber se era de sua autoria, ela me disse : Mircea Cartarescu.

Fui procurar na internet, e sabem o que descobri? Que existem vários grupos de discussão a respeito! Ou seja, as mulheres hoje em dia estão procurando razões para se apaixonar pelo sexo oposto. Na qualidade de homem, que concorda com alguma destas razões, fiz uma lista baseada no que dizem:

Amamos os homens porque eles não conseguem fingir um orgasmo, mesmo que queiram.

Porque jamais vão nos entender, e mesmo assim continuam tentando.

Porque conseguem ainda ver nossa beleza, mesmo quando nós mesmos já somos incapazes de acreditar nisso.

Porque entendem equações, política, matemática, economia, e desconhecem o coração feminino.

Porque são amantes que só descansam quando nós temos (ou fingimos) prazer.

Porque conseguiram elevar o esporte a algo próximo a uma religião.

Porque jamais tem medo do escuro.

Porque insistem em consertar coisas que estão além de suas habilidades, e se dedicam a isso com o mesmo entusiasmo de um adolescente, e se desesperam quando não conseguem.

Porque são como romãs: grande parte é impossível digerir, mas as sementes são deliciosas.

Porque jamais ficam comentando o que o vizinho pode pensar.

Porque sabemos sempre o que estão pensando, e quando abrem a boca dizem exatamente o que imaginávamos.

Porque jamais sonharam em se torturar com saltos altos.

Porque adoram explorar nosso corpo, e conquistar nossa alma.

Porque uma garota de 14 anos pode deixá-los em silêncio, e uma mulher de 25 consegue domá-los sem muito esforço.

Porque são sempre atraídos por extremos: opulentos ou ascéticos, guerreiros ou monges, artistas ou generais.

Porque fazem o possível e o impossível para tentar esconder suas fragilidades.

Porque o maior medo de um homem é não ser um homem – o que jamais passa pela cabeça de uma mulher (não ser uma mulher).

Porque sempre terminam a comida que está no prato, e não sentem culpa por causa disso.

Porque acham uma graça imensa em temas completamente desinteressantes, como o que aconteceu no trabalho, ou marcas de carros.

Porque são dotados de ombros onde conseguimos dormir sem muito esforço.

Porque estão em paz com seus corpos, exceto pequenas e insignificantes preocupações a respeito de calvície e obesidade.

Porque tem uma coragem impressionante diante de insetos.

Porque jamais mentem sobre a idade que têm.

Porque apesar de tudo que tentam demonstrar, não conseguem viver sem uma mulher.

Porque quando dizemos a um deles “eu te amo”, sempre pedem para que a gente explique exatamente como.

Kristen, uma leitora, afirma que não sabemos absolutamente nada a respeito da natureza feminina, e elabora a lista a seguir:

1 – Nós, mulheres, já nascemos detetives. Aos nossos olhos, todos os homens são suspeitos, e suas aventuras terminarão sendo descobertas; é apenas uma questão de tempo.

2 – Mesmo que não estejamos apaixonadas por você, escutar “eu te amo” é um bálsamo para nossas almas. E se você não disser isso, vamos notar e vamos ficar tristes.

3 – A mesma coisa acontece com “você está linda”. Demora menos de dois segundos para pronunciar estas três palavras mágicas, que são capazes de transformar nossos pesadelos em verdadeiros contos de fadas.

4 – Se perguntarmos que roupa devemos usar, não fique chateado se decidirmos vestir exatamente o oposto que você escolheu; faz parte da nossa natureza.

5 – Em uma festa, somos capazes de escanear o salão em menos de um minuto, e saber quem nos interessa. Fique atento.

6 – Pensamos em sexo com a mesma compulsão que os homens, ou até mais. A única diferença é que não demonstramos isso.

7 – Se não aceitarmos imediatamente o convite para jantar em um primeiro encontro, não se preocupe; precisamos de alguns dias para perder os quilos extras que sempre julgamos estar destruindo nossas vidas.

8 – Mulheres sempre se lembram de tudo. Se você perguntar quando nos conhecemos, nenhuma de nós vai dizer: “em uma festa”. Diremos: foi em uma terça-feira, logo depois de um jantar onde foi servido salada e canja de galinha, você usava um paletó negro e seus sapatos eram de tal marca, etc.

9 – Por mais amor que sejamos capazes de dar, existem sete dias onde queremos estar longe de tudo e de todos. Você tem duas opções: amarrar-se em um poste e esperar que a tempestade passe, ou ir até a joalheria mais próxima e comprar um presente. Recomendamos a segunda opção.

10 – Temos tanto poder de raciocínio como um homem. Mas não precisamos deixar isso evidente, ou você vai ficar inseguro. As mulheres que fizeram isso terminaram sozinhas.

11 – Adoramos todo tipo de cabelo no corpo masculino, embora a depilação seja a nossa tortura favorita.

12 – Detestamos fazer amor quando não estamos com vontade, mas fazemos assim mesmo, e você será incapaz de perceber a diferença.

12ª – Brinque com nossos animais domésticos e com nossas crianças, e brincaremos com você. Ignore-os, e nós o ignoraremos também.

14 – Mulheres são dotadas de visão Raio X. Podemos olhar para olhos negros, duros, e descobrir a criança que se esconde atrás deles. Podemos nos fixar em angelicais olhos azuis, e descobrir o demônio que está ali. Sabemos quando os homens estão fingindo dormir de cansaço, ou – o que é mais evidente – quando estão fingindo não dormir com outra pessoa.

15 – Nem todas as mulheres querem casamento e filhos. Muitas desejam apenas orgasmos e animais domésticos.

16 – Delicadeza, quando é genuína, é capaz de derreter nossos corações empedernidos.

17 – Se temos algum problema para discutir com você, não tente nos dar a solução, nós já temos. É apenas um pretexto para evitar que a relação termine em tédio.

Edição nº 175 : As duas gotas de óleo

No alto da pequena cidade de Tarifa existe um velho forte construído pelos mouros. Lembro-me de ter sentado ali com minha mulher, Christina, em 1982, olhando pela primeira vez um continente do outro lado do estreito: a África. Naquele momento, não podia sonhar que este momento de preguiça no final de uma tarde iria inspirar uma cena no meu livro mais famoso, “O Alquimista.” Tampouco podia sonhar que a história a seguir, escutada no carro, serviria como um excelente exemplo para todos nós que estamos em busca do equilíbrio entre o rigor e a compaixão.

Certo mercador enviou seu filho para aprender o Segredo da Felicidade com o mais sábio de todos os homens. O rapaz andou durante quarenta dias pelo deserto, até chegar a um belo castelo, no alto de uma montanha. Lá vivia o Sábio que o rapaz buscava.

Ao invés de encontrar um homem santo, porém, o nosso herói entrou numa sala e viu uma atividade imensa; mercadores entravam e saíam, pessoas conversavam pelos cantos, uma pequena orquestra tocava melodias suaves, e havia uma farta mesa com os mais deliciosos pratos daquela região do mundo.

O Sábio conversava com todos, e o rapaz teve que esperar duas horas até chegar sua vez de ser atendido.

Com muita paciência, escutou atentamente o motivo da visita do rapaz, mas disse-lhe que naquele momento não tinha tempo de explicar-lhe o Segredo da Felicidade.

Sugeriu que o rapaz desse um passeio por seu palácio, e voltasse daqui a duas horas.

– Entretanto, quero lhe pedir um favor – completou, entregando ao rapaz uma colher de chá, onde pingou duas gotas de óleo. – Enquanto você estiver caminhando, carregue esta colher sem deixar que o óleo seja derramado.

O rapaz começou a subir e descer as escadarias do palácio, mantendo sempre os olhos fixos na colher. Ao final de duas horas, retornou à presença do Sábio.

– Então – perguntou o Sábio – você viu as tapeçarias da Pérsia que estão na minha sala de jantar? Viu o jardim que o Mestre dos Jardineiros demorou dez anos para criar? Reparou nos belos pergaminhos de minha biblioteca?

O rapaz, envergonhado, confessou que não havia visto nada. Sua única preocupação era não derramar as gotas de óleo que o Sábio lhe havia confiado.

– Pois então volte e conheça as maravilhas do meu mundo – disse o Sábio. – Você não pode confiar num homem se não conhece sua casa.

Já mais tranqüilo, o rapaz pegou a colher e voltou a passear pelo palácio, desta vez reparando em todas as obras de arte que pendiam do teto e das paredes. Viu os jardins, as montanhas ao redor, a delicadeza das flores, o requinte com que cada obra de arte estava colocada em seu lugar. De volta à presença do Sábio, relatou pormenorizadamente tudo que havia visto.

– Mas onde estão as duas gotas de óleo que lhe confiei? – perguntou o Sábio.

Olhando para a colher, o rapaz percebeu que as havia derramado.

– Pois este é o único conselho que eu tenho para lhe dar – disse o mais Sábio dos Sábios. – O segredo da felicidade está em olhar todas as maravilhas do mundo, e nunca se esquecer das duas gotas de óleo na colher.

Edição nº 174 : O guerreiro da luz e a renúncia

“Em qualquer atividade, é preciso saber o que se deve esperar, os meios de alcançar o objetivo, e a capacidade que temos para a tarefa proposta”.

“Só pode dizer que renunciou aos frutos aquele que, estando assim equipado, não sente qualquer desejo pelos resultados da conquista, e permanece absorvido no combate”.

“Pode-se renunciar ao fruto, mas esta renúncia não significa indiferença ao resultado”.

A estratégia é de Mahatma Gandhi. O guerreiro da luz a escuta com respeito, e não se deixa confundir por pessoas que, incapazes de chegar a qualquer resultado, vivem pregando a renúncia.

Renunciando à vingança

O guerreiro da luz tem a espada em suas mãos. É ele quem decide o que vai fazer, e o que não fará em circunstância nenhuma. Há momentos em que a vida o conduz para uma crise: ele é forçado a separar-se de coisas que sempre amou.

Então o guerreiro reflete. Verifica se está cumprindo a vontade de Deus, ou se age por egoísmo. Caso a separação esteja mesmo no seu caminho, ele aceita sem reclamações.

Se, entretanto, tal separação for provocada pela perversidade alheia, ele é implacável em sua resposta.

O guerreiro possui a arte do golpe, e a arte do perdão. Sabe usar as duas com a mesma habilidade.

Renunciando à provocação

O lutador experiente agüenta insultos; conhece a força do seu punho, a habilidade de seus golpes. Diante do oponente despreparado, ele apenas contempla, e mostra a força do seu olhar. Vence sem precisar trazer a luta para o plano físico.

À medida que o guerreiro aprende com seu mestre espiritual, a luz da fé também brilha em seus olhos, e ele não precisa provar nada para ninguém. Não importa os argumentos agressivos do adversário – dizendo que Deus é superstição, que milagres são truques, que acreditar em anjos é fugir da realidade.

Assim como o lutador, o guerreiro da luz conhece sua imensa força; e jamais luta com quem não merece a honra do combate.

Renunciando ao tempo

O guerreiro da luz escuta Lao Tzu, quando ele diz que devemos nos desligar da idéia de dias e horas, e prestar cada vez mais atenção ao minuto.

Só assim, ele consegue resolver certos problemas antes que eles aconteçam. Prestando atenção nas pequenas coisas, consegue se resguardar das grandes calamidades.

Mas pensar nas pequenas coisas, não significa pensar pequeno. O guerreiro sabe que um grande sonho é composto de muitas coisas diferentes, assim como a luz do sol é a soma de seus milhões de raios.

Renunciando ao conforto

O guerreiro da luz contempla as duas colunas que estão ao lado da porta que pretende abrir. Uma se chama Medo, outra se chama Desejo.

O guerreiro olha para a coluna do Medo, e ali está escrito: “você vai entrar num mundo desconhecido e perigoso, onde tudo que aprendeu até agora não servirá para nada”.

O guerreiro olha para a coluna do Desejo, e ali está escrito: “você vai sair de um mundo conhecido, onde estão guardadas as coisas que sempre quis, e pelas quais lutou tanto”.

O guerreiro sorri, porque não existe nada que o assuste, e nada que o prenda. Com a segurança de quem sabe o que quer, ele abre a porta.

Edição nº 173 : Na roda do tempo

Eu havia me proposto a publicar aqui neste espaço, uma vez por ano, textos de Carlos Castañeda, um antropólogo que marcou minha geração através dos relatos de seus encontros com feiticeiros mexicanos. Por falta de espaço, não faço isso desde 2004. Hoje acordei pensando: Castañeda, apesar de todos os seus críticos e de todo o seu trabalho que mais tarde me pareceu muito desordenado, não deve ser esquecido. Portanto, aqui vão, editadas, algumas de suas reflexões.

A intenção é o mais importante: para os antigos feiticeiros do México, a intenção (intento) é uma força que intervém em todos os aspectos do tempo e do espaço. Para poder utilizar e manipular esta força, precisavam ter um comportamento impecável. A meta final de um guerreiro é poder levantar a cabeça além o sulco onde está confinado, olhar ao redor, e modificar o que deseja. Para isso, necessita disciplina e atenção total.

Nada é fácil: nada neste mundo é dado de presente: tudo precisa ser aprendido com muito esforço. Um homem que vai em busca do conhecimento deve ter o mesmo comportamento de um soldado que vai para a guerra: bem desperto, com medo, com respeito, e com absoluta confiança. Se seguir estes requisitos, pode perder uma batalha ou outra, mas jamais irá lamentar-se do seu destino.

O medo é natural: o medo da liberdade que o conhecimento nos traz é absolutamente natural; entretanto, por mais terrível que seja o aprendizado, é pior viver sem sabedoria.

A irritação é desnecessária: irritar-se com os outros significa dar a eles o poder de interferir em nossas vidas. É imperativo deixar este sentimento de lado. Os atos alheios não podem de maneira nenhuma nos desviar de nossa única alternativa na vida: o encontro com o infinito.

O fim é um aliado: quando as coisas começam a ficar confusas, o guerreiro pensa em sua morte, e imediatamente seu espírito encontra-se de novo com ele. A morte está em todas as partes. Podemos comparar aos faróis de um carro que nos segue por uma estrada sinuosa; às vezes os perdemos de vista, às vezes aparecem perto demais, às vezes apaga suas luzes. Mas este carro imaginário jamais se detém (e um dia nos alcança). Só a idéia da morte dá ao homem o desapego suficiente para seguir adiante, apesar de todos os percalços. Um homem que sabe que a morte está se aproximando todos os dias, prova de tudo, mas sem ansiedade.

O presente é único: um guerreiro sabe esperar, porque sabe o que está aguardando. E enquanto espera, não deseja nada, e desta maneira, qualquer coisa que receber – por menor que seja – é uma benção. O homem comum se preocupa em demasiado por querer aos outros, ou ser querido por eles. Um guerreiro sabe o que deseja, e isso é tudo em sua vida (e nisso concentra toda a sua energia). O homem comum gasta o presente agindo como ganhador ou perdedor, e dependendo dos resultados, transforma-se em perseguidor ou vítima. O guerreiro, por outro lado, preocupa-se apenas com os seus atos, que o levarão ao objetivo que traçou para si mesmo.

A intenção é transparente: a intenção (intento) não é um pensamento, nem um objeto, nem um desejo. É aquilo que faz um homem triunfar em seus objetivos, e levantá-lo do chão mesmo quando ele já se entregou à derrota. A intenção é mais forte que o homem.

A batalha é sempre a última: o espírito do guerreiro não se queixa de nada, porque não nasceu para ganhar ou perder. Nasceu para lutar, e cada batalha é a última que está travando sobre a face da Terra. Por isso o guerreiro sempre deixa o seu espírito livre, e quando se entrega ao combate, sabendo que sua intenção é transparente, ele ri e se diverte.

Edição nº 172 : Entre o céu e o inferno

O lugar dos pecadores

O rabino Wolf entrou por acaso em um bar; algumas pessoas bebiam, outras jogavam cartas, e o ambiente parecia carregado.

O rabino saiu sem comentar nada; um jovem veio atrás dele.

- Sei que não gostou do que viu – disse o rapaz. – Ali só vivem os pecadores.

- Gostei do que vi – disse Wolf. – São homens que estão aprendendo a perder tudo. Quando tiverem mais nada de material neste mundo, só lhes sobrará voltar-se para Deus. E, a partir deste momento, que servos excelentes serão!

Buda e o demônio

O demônio disse para Buda:

- Ser o diabo não é fácil. Quando falo, tenho que usar enigmas, para que as pessoas não percebam a tentação. Sempre preciso parecer esperto e inteligente, para que me admirem. Gasto muita energia para convencer uns poucos discípulos que o inferno é mais interessante. Estou velho, quero passar meus alunos para você.

Buda sabia que aquilo era uma armadilha: se aceitasse a proposta, ele se transformaria em demônio, e o demônio viraria Buda.

- Você acha que é divertido ser Buda – respondeu. Além de ter que fazer as mesmas coisas que você faz, ainda preciso agüentar o que meus discípulos fazem comigo! Colocam em meus lábios palavras que não disse, cobram por meus ensinamentos, e exigem que eu seja sábio o tempo todo! Você jamais agüentaria uma vida como esta!

O diabo ficou convencido de que trocar de papel era realmente um mau negócio, e Buda escapou à tentação.

O céu e o inferno

Um samurai violento, com fama de provocar briga sem motivo, chegou às portas do mosteiro zen e pediu para falar com o mestre.

Sem titubear, Ryokan foi ao seu encontro.

- Dizem que a inteligência é mais poderosa que a força – comentou o samurai. – Será que o senhor consegue me explicar o que é céu e inferno?

Riokan ficou calado.

- Viu? – bradou o samurai. – Eu conseguiria explicar isso com muita facilidade: para mostrar o que é inferno, basta dar uma surra em alguém. Para mostrar o que é céu, basta deixar uma pessoa fugir, depois de ameaçá-la muito.

- Não discuto com gente estúpida como você – comentou o mestre zen.

O sangue do samurai subiu a cabeça. Sua mente ficou turva de ódio.

- Isto é inferno – disse Ryokan, sorrindo. – Deixar-se provocar por bobagens.

O guerreiro ficou desconcertado com a coragem do monge, e relaxou.

- Isso é o céu – terminou Ryokan, convidando-o para entrar. – Não aceitar provocações bobas.

O sacrifício e a benção

Um homem fez a promessa de carregar uma cruz até o alto de um monte, se tivesse certo desejo atendido.

Deus concedeu o que pedia.

Ele mandou fazer a cruz, e começou a caminhada. Depois de vários dias, achou que a cruz pesava mais do que supunha – e, com um serrote emprestado, cortou boa parte da madeira. Ao chegar no alto do monte, notou que – separada por uma fenda na terra – havia outra montanha.

Nela, tudo era paz e tranqüilidade; mas precisava de uma ponte para chegar até lá.

Tentou usar a cruz – mas era curta para isto.

E então reparou: o pedaço que havia cortado era exatamente o que estava faltando para que pudesse cruzar aquele abismo.

Outra história sobre a cruz

Num certo vilarejo da Umbria (Itália), havia um homem que se lamentava de sua sorte. Era cristão, e achava o peso de sua cruz muito difícil de ser carregado.

Certa noite, antes de dormir, rezou para que Deus permitisse trocar seu fardo.

Nesta noite teve um sonho; o Senhor lhe conduzia para um depósito. “Pode trocar”, dizia. O homem viu cruzes de todos os tamanhos e pesos, com nomes dos seus donos. Escolheu uma cruz média – mas, vendo o nome de um amigo gravado, deixou-a de lado.

Finalmente, como Deus havia permitido, escolheu a menor cruz que encontrou.

Para sua surpresa, viu gravado nela o seu próprio nome.

O guru de Mysore

Existia em Mysore, na Índia, um famoso guru. Conseguiu reunir um bom número de seguidores, e espalhou com generosidade sua sabedoria.

Na meia-idade, contraiu malária. Mas continuava a cumprir religiosamente seu ritual: banhar-se de manhã, dar aulas ao meio-dia, e orar durante à tarde, no templo.

Quando a febre e os tremores o impediam de concentrar-se, ele tirava a parte de cima de sua roupa e a atirava num canto. Seu poder era tão grande que a roupa continuava tremendo – enquanto o homem, livre das contrações, podia fazer suas preces com calma.
No final, voltava a vestir a roupa, e os sintomas retornavam.

“Por que você não abandona de vez esta roupa, e se livra da doença?”, perguntou um jornalista, ao ver o milagre.

“Já é uma benção poder fazer com tranqüilidade aquilo que devo fazer”, respondeu o homem. “O resto faz parte da vida; seria uma covardia não aceitar”.

tags technorati :

Edição nº 171 : O ato de escrever – o texto (final)

No Guerreiro da Luz Online anterior, comentei a leitura, a caneta, e a palavra. Termino aqui com algumas reflexões sobre o texto final.

Em primeiro lugar, repito o que disse anteriormente: qualquer pessoa tem sempre uma boa história para contar, e faz parte da condição humana dividir um pouco de sua experiência com os outros. Talvez me perguntem: e a editora? Como publicar estas experiências?

Na verdade, hoje em dia existem muitas plataformas para isso (como a internet ou o jornal da esquina, por exemplo) e sempre existirá alguém interessado no que você escreve. Entretanto, mesmo que não existisse, escreva pelo prazer de escrever.

À medida que a caneta vai traçando palavras no papel, suas angústias desaparecem, e suas alegrias permanecem. Para tanto, é necessário ter coragem de olhar no fundo de si mesmo, trazer isso até o mundo exterior, e ter mais coragem ainda para saber que um dia aquilo que escreveu poderá (e deverá) ser lido por alguém.

E se for algo muito íntimo?

Não se preocupe. Há milhares de anos, Salomão escreveu as seguintes palavras: “O que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do Sol” (Eclesiastes 1:9).

Ou seja: se há milhares de anos não havia nada de novo, imagine agora! Nossos sentimentos de alegria e angústia continuam os mesmos, e não devemos escondê-los. E mesmo que não exista nada de novo debaixo do sol, ainda permanece a necessidade de traduzir tudo isso para nós mesmos, e para a nossa geração.

Jorge Luis Borges disse uma vez que só existem mesmo quatro histórias para serem contadas:

A] uma história de amor entre duas pessoas

B] uma história de amor entre três pessoas

C] a luta pelo poder

D] uma viagem.

Mesmo assim, através dos séculos os homens e mulheres continuam recontando estas histórias, e está na hora de você fazer a mesma coisa. Através da arte da escrita, irá entrar em contato com seu universo desconhecido, e terminará sentindo-se um ser humano muito mais capaz do que julgava.

A mesma palavra pode ser lida de maneira diferente. Escreva mil vezes “amor”, por exemplo, e em cada uma destas vezes o sentimento será distinto. 

Uma vez que as letras, palavras e frases são desenhadas no papel, a tensão necessária para que isso aconteça já não tem mais razão para existir.

Portanto, a mão que as escreve repousa, e sorri o coração de quem ousou dividir seus sentimentos.

Quem passar ao lado de um escritor que acabou de completar um texto, irá achar que ele tem um olhar vazio, e que parece distraído.

Mas ele – só ele – sabe que arriscou muito, conseguiu desenvolver seu instinto, manteve a elegância e a concentração durante todo o processo, e agora pode dar-se ao luxo sentir a presença do universo, e verá que sua ação foi justa e merecida.  Os amigos mais próximos sabem que seu pensamento mudou de dimensão, está agora em contacto com todo o universo: ela continua trabalhando, aprendendo tudo o que aquele texto trouxe de positivo, corrigindo os eventuais erros, aceitando suas qualidades.

Escrever é um ato de coragem. Mas vale a pena arriscar. 

E os críticos? 

Leia biografias: ninguém escapou, seja em que domínio for. De James Joyce, que foi considerado pelo respeitável “The Times” como um pervertido, até Orson Welles, o gênio do cinema, chamado por Umberto Eco de uma pessoa medíocre.

Siga adiante. Porque cabe aos escritores escreverem, aos leitores lerem, e aos críticos criticarem. Inverter esta escala seria, no mínimo, desaconselhável. Quase todos os dias, recebo alguma correspondência eletrônica de gente que se sente pessoalmente atacada quando vê alguma coisa negativa sobre mim na imprensa.

Eu agradeço a solidariedade, mas explico que isso faz parte do jogo. Sou criticado desde que escrevi “O Alquimista” (o “Diário de um mago” passou relativamente desapercebido da imprensa, exceto por reportagens que falavam do escritor, mas quase nunca se referiam ao conteúdo do livro).

Já vi muitos escritores terem um sucesso gigantesco de público, mas ao receberem a inevitável lapidação da crítica, partem em duas direções. A primeira é não conseguir publicar mais nenhum livro: este foi o caso de “O Perfume”, de Patrick Suskind. Na época, seu editor (que também é o meu editor na Alemanha) publicou duas páginas inteiras nos jornais locais – uma com a crítica detestando o livro, e a outra com os livreiros dizendo que adoravam. O “O Perfume” se transformou em um dos maiores êxitos de livraria de todos os tempos. Em seguida, Suskind publicou uma coletânea, dois livros que tinha escrito antes do seu grande sucesso, e saiu de cena.

No segundo caso, os escritores ficam intimidados e tentam agradar a crítica no próximo lançamento. Susanna Tamaro vinha de um gigantesco aplauso de público (e uma avalanche de ataques da crítica) com “Vá aonde seu coração mandar”. Seu próximo livro, “Anima Mundi”, muito aguardado pelos leitores, trocou a poesia simples e maravilhosa do título anterior por uma complexidade que a fez perder os leitores fiéis, e terminou sem agradar os críticos.

O outro exemplo é Jostein Gaarder. “O mundo de Sofia” conheceu um êxito planetário, porque era capaz de lidar com a história da filosofia de uma maneira direta e agradável. Mas nem os críticos, nem os filósofos gostaram disso. Gaarder começou a complicar sua linguagem, e terminou sendo abandonado pelos leitores, embora continuasse sendo detestado pelos críticos.

Pelo visto, nos parágrafos anteriores comecei a julgar também. Por quê? Criticar é algo facílimo – difícil mesmo é escrever livros.

Em “O Zahir”, o personagem principal (um escritor brasileiro famoso) diz que é capaz de adivinhar exatamente o que será dito a respeito de seu novo livro, que ainda está para sair: “Mais uma vez, nos tempos tumultuados em que vivemos, o autor nos faz fugir da realidade”. “Frases curtas, estilo superficial”. “O autor descobriu o segredo do sucesso – marketing”.

Da mesma maneira que o personagem principal de “O Zahir”, eu não erro nunca. Fiz uma aposta com um jornalista brasileiro, e acertei em cheio.

Termino esta coluna com uma frase do dramaturgo irlandês Brendan Behan:

“Críticos são como eunucos em um harém. Teoricamente eles sabem qual a melhor maneira de fazer, mas não conseguem ir além disso”.

tags technorati :