Escritores convidados Frankfurt 2013

Aqui está a delegaí§í£o de escritores da Feira do Livro de Frankfurt (fonte: Biblioteca Nacional )

Adélia Prado (Minas Gerais)

Adriana Lisboa (Rio de Janeiro)

Affonso Romano de Sant’Anna (Minas Gerais)

Age de Carvalho (Pará)

Alice Ruiz (Paraná)

Ana Maria Machado (Rio de Janeiro)

Ana Miranda (Ceará)

André Sant’Anna (Minas Gerais)

Andrea del Fuego (Sí£o Paulo)

Angela Lago (Minas Gerais)

Antonio Carlos Viana (Sergipe)

Beatriz Bracher (Sí£o Paulo)

Bernardo Ajzenberg (Sí£o Paulo)

Bernardo Carvalho (Rio de Janeiro)

Carlos Heitor Cony (Rio de Janeiro)

Carola Saavedra (Rio de Janeiro)

Chacal (Rio de Janeiro)

Cí­ntia Moscovich (Rio Grande do Sul)

Cristoví£o Tezza (Santa Catarina)

Daniel Galera (Rio Grande do Sul)

Daniel Munduruku (Pará)

Eva Furnari (Sí£o Paulo)

Fábio Moon e Gabriel Bá (Sí£o Paulo)

Fernando Gonsales (Sí£o Paulo)

Fernando Morais (Minas Gerais)

Fernando Vilela (Sí£o Paulo)

Ferréz (Sí£o Paulo)

Flora Süssekind (Rio de Janeiro)

Francisco Alvim (Minas Gerais)

Ignácio de Loyola Brandí£o (Sí£o Paulo)

Joí£o Almino (Rio Grande do Norte)

Joí£o Gilberto Noll (Rio Grande do Sul)

Joí£o Ubaldo Ribeiro (Bahia)

Joca Reiners Terron (Mato Grosso)

José Miguel Wisnik (Sí£o Paulo)

José Murilo de Carvalho (Minas Gerais)

Laurentino Gomes (Paraná)

Lelis (Minas Gerais)

Lilia Moritz Schwarcz (Sí£o Paulo)

Lourení§o Mutarelli (Sí£o Paulo)

Luiz Costa Lima (Maranhí£o)

Luiz Ruffato (Minas Gerais)

Manuela Carneiro da Cunha (Portugal – Sí£o Paulo)

Marí§al Aquino (Sí£o Paulo)

Marcelino Freire (Pernambuco)

Maria Esther Maciel (Minas Gerais)

Maria Rita Kehl (Sí£o Paulo)

Marina Colasanti (Rio de Janeiro)

Mauricio de Sousa (Sí£o Paulo)

Michel Laub (Rio Grande do Sul)

Miguel Nicolelis (Sí£o Paulo)

Nélida Piñón (Rio de Janeiro)

Nicolas Behr (Mato Grosso)

Nuno Ramos (Sí£o Paulo)

Patricia Melo (Sí£o Paulo)

Paulo Coelho (Rio de Janeiro)

Paulo Henriques Britto (Rio de Janeiro)

Paulo Lins (Rio de Janeiro)

Pedro Bandeira (Sí£o Paulo)

Roger Mello (Distrito Federal – Brasí­lia)

Ronaldo Correia de Brito (Ceará)

Ruth Rocha (Sí£o Paulo)

Ruy Castro (Minas Gerais)

Sérgio Sant’Anna (Rio de Janeiro)

Silviano Santiago (Minas Gerais)

Teixeira Coelho (Sí£o Paulo)

Veronica Stigger (Rio Grande do Sul)

Walnice Nogueira Galví£o (Sí£o Paulo)

Ziraldo (Minas Gerais)

“Por que recusou o convite do Ministério da Cultura?”

 
 

[ACIMA: HANGOUT COM JOVEM NERD, íšNICA ENTREVISTA QUE DEI PARA BRASIL
ABAIXO, ALGUNS TRECHOS DA ENTREVISTA. A MATERIA SAIU NO DOMINGO, DIA DE OUTUBRO, NA ALEMANHA.]

___________________

logo_die_welt>Martin Scholz_Interview with Paulo Coelho for Welt am Sonntag, Sunday 06 October 2013


WELT AM SONNTAG: Na próxima semana, a maior feira literária do mundo abre suas portas em Frankfurt. O Brasil é o paí­s de honra, mas vocíª que é o autor brasileiro de maior sucesso ní£o participará. Por que recusou o convite do Ministério da Cultura?

PAULO COELHO: Estou em constante contato com jovens escritores do meu paí­s. Mas quando o governo chega para apresentar oficialmente a cultura brasileira em outros lugares, infelizmente esses sí£o ignorados e a polí­ticagem interna acaba predominando. O Ministério da Cultura do Brasil convidou 70 pessoas para irem í  Frankfurt…

WaS: 70 escritores.
PC: Eu duvido que sejam todos escritores profissionais. Dos 70 escritores convidados (LISTA AQUI) , eu conheí§o apenas 20, entí£o os outros 50 nunca ouvi falar. Presumo que sejam amigos de amigos de amigos. Nepotismo. O que me incomoda mais: EXISTE uma nova e excitante cena literária brasileira. Mas a maioria desses jovens autores ní£o está nessa lista.

WaS: Por que vocíª ní£o exerceu sua influíªncia como membro da Academia?
PC: Falei publicamente e conversei com muitos colegas escritores que ní£o foram convidados para Frankfurt como Eduardo Spohr, Carolina Munhóz, André Vianco, Felipe Neto e Raphael Draccon, só para mencionar alguns nomes. Eu tentei ao máximo levá-los para a feira, mas sem sucesso. Entí£o, por protesto, eu DECIDI ní£o ir mais para Frankfurt, o que foi uma decisí£o difí­cil por diversos motivos. Primeiro porque eu sempre quis ser convidado para um evento como este pelo meu governo, mas também porque tenho fortes laí§os com a Feira de Frankfurt, especialmente com seu diretor Jürgen Boos, que ní£o só reconheceu o processo de transformaí§í£o do impresso para o digital, como colocou o tópico até na programaí§í£o da feira. Ele iniciou vários fóruns e painéis com o assunto. Outras feiras do mesmo molde, como a de Genebra e Paris estí£o deteriorando porque se prendem a antigos conceitos. Eu NíƒO vou para Frankfurt mesmo com a alta estima que tenho por essa feira porque simplesmente ní£o aprovo o modo que está sendo representada a literatura brasileira. Ní£o quero posar de um Robin Hood brasileiro. Nem de Zorro ou Cavaleiro Solitário. Mas ní£o pareceria certo ser parte da delegaí§í£o oficial brasileira, do qual ní£o conheí§o a maioria dos escritores e que exclui tantos outros.

WaS: Isso te deixa claramente chateado.

PC: Porque isso é apenas um dos diversos pontos crí­ticos do atual cenário governamental brasileiro. Eu apoiei esse governo e estou muito decepcionado com isso. Existe uma lei que permite grandes empresas como a Volkswagen investirem parte de seus impostos em projetos culturais. Essa lei foi modificada de tal forma que a alta costura brasileira é sustentada por essas taxas – uma indústria que ní£o precisava desse tipo de apoio de forma alguma. Esse é apenas um detalhe, mas é um exemplo do que acontece em larga escala. Para mim, o atual governo brasileiro é um desastre. Onde quer que eu vá, as pessoas sempre me perguntam o que está acontecendo de errado em meu paí­s. O governo fez grandes promessas e ní£o as manteve. Isso é o que está acontecendo de errado.

WaS: Recentemente centenas de milhares de pessoas em mais de 140 cidades protestaram contra a corrupí§í£o, má gestí£o e desigualdade social. O que passa pela sua mente quando víª todas essas imagens de tumultos nos noticiários?
PC: Estou muito preocupado, sobretudo porque ní£o parece ter um fim breve. Tudo comeí§ou quando aumentaram as tarifas de í´nibus. E quando, após a Copa das Confederaí§íµes, um paí­s louco por futebol como o Brasil admitiu publicamente que temos problemas mais urgentes que modernizar nossos estádios para o Campeonato Mundial – isso já foi uma grande declaraí§í£o. No entanto, todo mundo foi pego de surpresa pelo escopo de raiva pública. Porque o Brasil tinha sido cotado como o novo paí­s do momento. O problema é que uma grande parte da populaí§í£o ní£o tem sido capaz de lucrar com esse momento. A violíªncia no Rio de Janeiro é um grande problema. O governador prometeu encontrar uma soluí§í£o, mas ele ní£o manteve sua promessa. Sí£o Paulo ní£o tem uma situaí§í£o melhor. Ní£o importa onde vocíª olha, o demí´nio da corrupí§í£o está olhando de volta pra vocíª. Em uma situaí§í£o tí£o tensa, elevar as tarifas de í´nibus parece ter sido a gota d’água para quebrar as costas do camelo. Pessoas respondem coisas desse tipo. Com a minha fundaí§í£o apoio crianí§as carentes de favelas durante anos, sem nunca ter recebido apoio financeiro ou até mesmo uma palavra de reconhecimento por parte do governo. Eu me encontro em uma situaí§í£o semelhante í  de muitos colegas brasileiros. Eu votei no governo de esquerda, pelo qual tinha grandes esperaní§as. Estive cego por muito tempo, ní£o querendo ver o que acontecia de errado. E eu me mantenho pela minha crí­tica.


WaS: Nestas circunstí¢ncias, o que vocíª espera do campeonato mundial no próximo ano? O ex-craque Ronaldinho mostrou pouca simpatia pelos manifestantes. Ele disse que campeonatos ní£o eram sobre construí§íµes de hospitais ou ruas, mas sim de estádios.

PC: Essa foi uma observaí§í£o muito estúpida. Ronaldinho deveria ter mantido sua boca fechada. Claro que hospitais, escolas e acima de tudo um bom sistema de transporte público sí£o mais importantes para um paí­s como o Brasil que estádios de futebol. O transporte público ainda é um grande problema no Brasil. A infraestrutura ní£o é apenas ruim, mas uma decadíªncia total. No entanto, ní£o perdi por completo a esperaní§a que antes da Copa vamos chegar aos nossos sentidos e usar os investimentos para o campeonato de uma forma que os brasileiros possam lucrar, mesmo após os jogos. Estou em dúvida, no entanto. Mas agora estou falando há um tempo sobre o Brasil e percebi que ní£o pintei um quadro muito positivo do meu paí­s.

WaS: Isso é ruim?
PC: Ní£o, vocíª pode manter isso. Especialmente porque já expresso parte dessa crí­tica no Facebook e no Twitter, embora em pequenos pedaí§os e ní£o em um grande bloco como está sendo agora em nossa conversa. Essa é a grande coisa sobre redes sociais. Se eu tenho algo a dizer, digo. Ní£o preciso dar longas entrevistas a jornalistas que predominantemente ví£o procurar fraquezas e argumentos falhos e focar neles diversas vezes. Hoje em dia, eu prefiro dividir os meus comentários imediatamente com os meus 8,5 milhíµes de seguidores no twitter, ou com meus 12 milhíµes de amigos no Facebook. Instantaneamente. Globalmente.

WaS: A revista Forbes declarou que vocíª é a segunda personalidade mais influente no twitter depois de Justin Bieber. No Facebook vocíª agora tem mais seguidores do que Madonna. Ní£o se torna assustador ter este número crescente de devotos on-line esperando que vocíª díª um significado a suas vidas?
PC: Nem um pouco. Eu gosto de participar de redes sociais porque é divertido e acho gratificante. Agora estou ligado aos meus leitores de todo o mundo de uma maneira que antes das redes sociais emergirem ní£o era possí­vel. Deixe-me dar-lhe um exemplo: sessíµes de autógrafos costumavam ser frustrante. 200 ou 300 pessoas ficavam muito felizes, porque conseguiam um autógrafo meu. Muitos outros ficavam irritados porque tinham esperado na fila e foram mandados para casa de mí£os vazias, já que ní£o posso assinar livros por oito horas a fio.

WaS: Mas para enviar mensagens no Twitter e no Facebook para seus fí£s em todos os cantos do mundo, todos os dias, pode ser cansativo também, certo?

PC: Eu ní£o preciso estar on-line todos os dias e ní£o estou. Vocíª ní£o tem que escrever um livro a cada dia a fim de se considerar um escritor, ní£o é? Eu uso o twitter e posto no Facebook quando quero.

WaS: Vocíª tem vontade de salvar o mundo através das redes sociais?

PC: Eu ní£o quero salvar o mundo, eu meramente construo algumas pontes. E atualmente ní£o sou o único. O novo presidente iraniano abriu sua conta própria no Twitter (ou teve alguém para fazer isso por ele) e escreveu: “Feliz ano novo, meus amigos judeus”. Uma pequena mudaní§a paradigmática, que ní£o deve passar despercebida.

WaS: O que vocíª diz a seus colegas escritores que consideram Blogs e Twitter uma perda de tempo?
PC: Francamente, eu ní£o entendo a recusa. As redes sociais permitem que vocíª experimente novas formas de escrita. Eu escrevo de uma forma diferente para um blog, um romance, tweet ou em um post no Facebook. Nas redes sociais, posso discutir temas que meus leitores ou eu consideramos importantes. Isso ní£o significa que todos esses posts tenha que transformar em um livro. Mas através dessas redes posso chegar a uma comunidade gigantesca. Pessoas que ní£o ví£o mais a muitas livrarias e sí£o pouco interessadas em livros. Eles pensam que livros sí£o chatos. Minha experiíªncia é a seguinte: se eu publicar textos na internet, posso interessa-los em os meus livros. Ní£o devemos demonizar essas novas formas de comunicaí§í£o.
Também acho desconcertante quando os meus colegas escrevem: “a internet mata literatura” e em seguida publicam esses textos online. Eles escrevem na internet para reclamar da internet. Isso é como ser casado e só falar com sua esposa a fim de reclamar dela. Isso ní£o funciona.

WaS: Vocíª recentemente chocou o mundo editorial com um experimento altamente incomum. Em seu site incentiva usuários a baixar vários formatos e traduí§íµes de seus próprios livros. Gratuitamente. No entanto, as vendas de seus livros impressos continuam a aumentar apesar disso ou por causa desses downloads gratuitos, o que causa curiosidade entre a indústria editorial que está convenientemente ignorada. Por que ninguém lhe imitou ainda?

PC: Eu ní£o tenho resposta para isso. Eu fico me repetindo: se vocíª é um verdadeiro artista, entí£o o seu principal objetivo é ser notado.

WaS: Na verdade, vocíª já era um autor best-seller antes mesmo da chegada de downloads – que acabou sendo uma ferramenta de marketing interessante para impulsionar ainda mais suas vendas.
PC: Isso é o que eu continuo ouvindo: Paulo Coelho pode se dar ao luxo de permitir downloads gratuitos de seus livros, porque ele já é famoso. Eu sempre discordo: “eu sou quem eu sou hoje porque sempre tomo riscos e porque estou aberto a novas ideias”. Muitos colegas dizem: “eu ní£o dou os meus livros gratuitamente na internet”. O que já mostra que eles ní£o entendem o núcleo do mundo digital – que compartilhar termina somando ao invés de dividir.  Ní£o consigo explicar por que meus livros impressos vendem melhor hoje do que antes dos meus compartilhamentos, mas o que parece ser o caso é que a maioria dos leitores que baixa o primeiro livro de graí§a, depois sentem certa obrigaí§í£o de comprar o livro impresso. Pelo menos os jovens escritores ní£o parecem pessimistas com as redes sociais. Muitos jovens escritores brasileiros abraí§am essas oportunidades. Para eles sou um pouco de modelo. Eles até inventaram um bom apelido para mim: me chamam de Mago dos Nerds.

WaS : Isso é um elogio?
PC: Eu acredito realmente que sim.

A foto e seu autor

07_30_ghg_pcoelho9

André Barcinski sumiu do Twitter ( WTF??? ) mas continua com seu blog na Folha de Sí£o Paulo
Sou leitor do mesmo.

Hoje, vendo um lindissimo post sobre a emoí§í£o causada pelo Boss cantando Sociedade Alternativa
(Bruce toca Raul e a gente chora )
resolvi fazer uma coisa que raramente faí§o: colocar um comentário ali.

Jamais posto comentários aní´nimos, por sinal.

E eis que descubro o autor da foto abaixo!
07_30_ghg_pcoelho9

Nas palavras do próprio André:

Andre Barcinski comentou em 21/09/13 at 11:48 Responder

Muito legal te ver por aqui, Paulo, e muito obrigado pelos esclarecimentos. Também tenho um esclarecimento a fazer: sabe aquela foto famosa sua com o Raul, nesse show do Canecí£o? Acho que é a última foto de vocíªs dois juntos, certo? Pois é, fui eu que fiz. Eu trabalhava pro Jornal do Brasil e fotografei o show. Essa foto circula muito, mas nunca com o crédito. Tenho um orgulho danado de ter registrado esse momento. Grande abraí§o pra vocíª e apareí§a mais vezes aqui no blog, por favor.

Como André ní£o tem Twitter, se algum amigo dele ler este post, favor avisa-lo

Frankfurt I

Neste final de semana, um colunista, uma revista e um jornal entraram em contato comigo para saber se ní£o vou í  Feira do Livro de Frankfurt por causa da “desorganizaí§í£o.” Talvez esse interesse tenha ocorrido por causa dos frequentes tuites que postei sobre o Ministério da Costura (antes conhecido por Ministério da Cultura, mas que no momento se dedica a justificar os subsí­dios da Lei Rouanet í  alta costura: Marta Suplicy libera verba para desfiles de luxo )

Preciso esclarecer alguns pontos:

ORGANIZAçíƒO
Embora eu seja convidado da delegaí§í£o oficial, quem organizou minha ida foi minha editora alemí£.
Portanto, tenho hotel (com banheiro no quarto!), carro, etc.
“Banheiro no quarto, o que é isso? ” alguém perguntará.
O fato é que o Brasil, embora já saiba há anos que seria o convidado de honra em 2013, reservou quartos sem banheiro para escritores. Leio na coluna de Ancelmo Gois nesta sexta: A ministra Marta Suplicy reconhece que ainda ní£o foi escolhido o lugar onde ví£o ficar hospedados os 70 escritores da delegaí§í£o brasileira na Feira Internacional do Livro de Frankfurt, dia 8 de outubro:”” Mandei fazer uma nova licitaí§í£o depois que descobri que o hotel dos nossos escritores ní£o tinha banheiro nos quartos.
Vamos torcer para que consigam hotéis na cidade. Ou os escritores terí£o banheiro no quarto, mas precisarí£o viajar todos os dias no mí­nimo por 1:30 hr (40 min para ida + volta) , já que os hotéis – no momento – estí£o completamente lotados.

A ENTREVISTA
Nesta quinta feira, dia 5, resolvi dar uma única entrevista, para o maior jornal alemí£o, Die Welt. A entrevista será publicada no domingo, dia 6 de outubro.
O jornalista disse que ní£o conhecia absolutamente ninguém da lista.
Minha editora alemí£, Ruth Geiger, presente na entrevista, disse que o comentário em Frankfurt é o seguinte: “ao invés de trazer escritores consagrados, o Brasil optou por trazer desconhecidos e assim mostrar a nova face da literatura brasileira”.

QUEM É QUEM?
Vejam aqui: Lista de escritores brasileiros convidados para a Feira de Frankfurt 2013
Dos 70 nomes, conheí§o 22, e já li 17 autores – que realmente merecem estar ali. O resto simplesmente ní£o tenho idéia de quem seja.
Mas checando um por um dos 48 que nunca ouvi falar, descobri que estí£o longe de ser “a nova face da literatura brasileira”.
Pedi a algumas pessoas que me dissessem quais autores conheciam. A contagem variou entre quatro e cinco. E vocíª, quantos conhece?

BIENAL DO LIVRO RIO DE JANEIRO
Encerrada ontem, e merecidamente homenageando o Ziraldo, podemos ler em qualquer jornal os autores nacionais que fizeram sucesso junto ao público: a verdadeira nova literatura brasileira.
Veja o que escreve Raquel Cozer na Folha de Sí£o Paulo: A hora dos nacionais
Alguns exemplos: Andre Vianco, Felipe Neto, Carolina Munhoz, Eduardo Sphor, Raphael Draccon, e muitos mais. Além destes, temos Deive Passos e Alexandre Ottoni, autores do Protocolo Bluehand – que ní£o estiveram na Bienal mas escreveram um livro fantástico.
Nenhum deles está na lista.

O MINISTÉRIO DA CULTURA/COSTURA E MEU TRABALHO
EU nunca tive nenhuma traduí§í£o subsidiada pelo governo (agora apareceu um chiníªs que pediu, mas sem minha permissí£o ou conhecimento). Meus livros estí£o em 72 linguas, detenho o recorde de autor vivo mais traduzido do mundo. Sou publicado em 155 paí­ses.
O Ministério da Cultura nunca me ajudou. Ní£o entrei na lista oficial de Frankfurt 1994 (ainda bem, foi um desastre).
Em 1998, fui vetado pela Biblioteca Nacional para participar do Salon du Livre de Paris, embora tivesse 3 livros na lista dos mais vendidos na Franí§a (participei a convite de minha editora francesa, e foi fantástico).
Em 2008, o patético ex-ministro Juca Ferreira desmarcou em cima da hora sua presení§a na festa organizada por meus editores, celebrando í quela altura 100 milhíµes de livros vendidos ( por sinal, nunca devolveu o convite).

MUDA BRASIL
Em junho deste ano, assistimos as manifestaí§íµes que pediam mudaní§as estruturais. Pelo visto, a mudaní§a até agora foi permitir que a Lei Rouanet apoie desfile de moda.
Na época, postei um tuite dizendo que estou seriamente repensando minha presení§a em Frankfurt. Ainda ní£o decidi nada, mas se deixar de ir ní£o será por falta de organizaí§í£o.
Será por ní£o compactuar com o que o governo brasileiro quer mostrar ali.

Como diz Reinaldo Azevedo, de quem discordo em genero, número e grau de tudo que posta sobre polí­tica, mas concordo com tudo que posta sobre cultura: volto ao assunto mais adiante.

Minha vida em 750 GB

Em 1996 realizei, junto com minha mulher Christina Oticica, um grande sonho. A criaí§í£o do Instituto Paulo Coelho, uma instituií§í£o sem fins lucrativos, financiada exclusivamente por meuss direitos autoraisinst00
Em seguida, veio aquela pergunta de sempre: caso o meu trabalho ainda seja lembrado no futuro, o que fazer com todo o material que tenho, e que pode servir para pesquisas? Costuma-se ver o sucesso como um mar de rosas, e eu queria dar a todos a possibilidade de ver que ní£o é bem assim. Desta maneira, as pessoas lutariam por seus sonhos com mais seguraní§a, sabendo que existem muitas armadilhas no caminho.
A resposta para tal pergunta me pareceu simples:
a] criar uma Fundaí§í£o com todo o material que tenho, da certidí£o de nascimento dos meus pais í s crí­ticas negativas,
das fotos de infí¢ncia í s fotos da carreira
dos originais digitalizados de todos os meus livros até os recibos de viagem que guardava em minhas prinmeiras andaní§as pelo mundo.
infancia1[1]Paulo-Coelho--008

b] permitir que pessoas do planeta inteiro tivessem acesso a ela, já que meus livros estí£o editados em 72 lí­nguas e presentes em mais de 150 paí­ses.

A partir de 2001 o arquivo comeí§ou a ser digitalizado, e desde entí£o é atualizado sistematicamente.
Tal material é colocado na “nuvem” (ainda com acesso restrito), e poderá no futuro ser visualizado em qualquer canto da Terra.

Mas com dezenas de milhares de documentos, fotos, certidíµes, etc., de 1947 até hoje, onde chegamos?
750
Até o momento, em 750 GB. O disco em questí£o cabe no bolso do meu paletó.

Comeí§amos a procurar um lugar para a Fundaí§í£o fí­sica. Mas honestamente, quem se interessaria por isso?
O meu ego. O ego da minha mulher.
E mais ninguém.
E as dores de cabeí§a resultantes de uma fundaí§ao fí­sica, com funcionários, exposií§í£o, programaí§í£o cultural, etc. ní£o compensam. Resolvemos, portanto, manter apenas a Fundaí§í£o Virtual, e uma sala de 150 m2 onde todo o material será guardado em papel.
Desistimos da idéia.

Lembrei disso hoje por causa da conferíªncia de Silvio Meira, Professor do Centro de Informaí§í£o da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e cientista-chefe do Centro de Estudos de Sistemas Avaní§ados do Recife. Na excelente matéria de Raquel Cozer, na Folha de Sí£o Paulo, Silvio diz:
“Me perguntaram quando vai ter livraria em Taperoá, cidade de 12 mil habitantes onde nasci. Respondi: ‘Nunca. Nem vai precisar. Provavelmente nem de biblioteca vai precisar’.”

Fica o registro.

Publishnews: ní£o seja tí£o crí­tico com o gosto dos outros

Na Publishnews, o portal de referencia no mercado editorial brasileiro, uma excelente matéria sobre o mercado editorial, escrita por Pedro Almeida, jornalista e professor de literatura.
Na semana passada, a Folha de Sí£o Paulo publicou outro grande artigo sobre as mudaní§as do mercado editorial.
Pelo visto, vozes sensatas comeí§am a ser a regra, e ní£o a exceí§í£o.
Quem lucra sí£o os autores e os leitores.

A seguir, trechos do artigo “Um novo mercado, um novo olhar”:

Penso que as opiniíµes sobre o mercado, muitas tratadas como regras ou verdades, sí£o frutos de opiniíµes obsoletas, sensaí§íµes, frutos do senso comum. Já escrevi aqui algumas vezes sobre nossa mania de tratar a literatura como algo sagrado, complexo, o que a tornou elitista e distante e que nos fez estabelecer valores tí£o arraigados sobre o que é bom e ruim, o que deve ou ní£o ser publicado.

***

Uma série de autores/artistas hoje tratados como cult, no passado, ou mesmo em sua época, eram tratados como beberríµes, filósofos de esquina ou equivalentes. De modo que ou a inteligíªncia de sua época estava toda errada, ou os valores mudaram, ou nosso gosto piorou bastante.

***

“Valor cultural dos livros”. Ainda é uma expressí£o que circula livremente. Cresci ouvindo que ler sempre é bom. Com o tempo elegi meus autores preferidos, sempre pautado por dois aspectos: conhecendo autores/obras e escolhendo aqueles que me diziam algo. Quando a oferta do número de livros e autores aumentou no mercado, comeí§ou-se um discurso sobre o que era bom ou ruim. […] Penso que falta ainda respeito pelo gosto dos outros, é como se vivíªssemos numa ditadura literária. Livro é como musica, roupa, sapato, comida. Cada um tem uma dialética para defender seu gosto e contar suas vantagens. Para uns é instruí§í£o, para outros, prazer, autoconhecimento, evoluí§í£o pessoal.

***

Essa crí­tica de valor parece um coro de pessoas que pertencem ao mesmo clube, fazem as mesmas coisas e frequentam os mesmos lugares (ou gostariam de frequentar). Entí£o a crí­tica acaba sempre se referindo a um tipo de leitor, como se fosse uma defesa dos valores de um grupo. Um erro. Estamos tratando os livros como se fí´ssemos uma torcida de time de futebol, fingindo ser mais civilizados que as torcidas, quando na verdade somos irí´nicos, sarcásticos, mais perversos que torcedores, e por isso podemos provocar danos mais profundos, porque sí£o elaborados.

***

Por que, por exemplo, um programa de apoio a traduí§íµes no Brasil contempla apenas autores consagrados pela crí­tica? Porque essa crí­tica, que representa apenas um grupo de leitores, continua guiando desde premiaí§íµes, estilos e escolas literárias a oficinas e palestras em bienais. Devemos buscar uma visí£o mais democrática, pensar mais nos leitores, no público, no incentivo para que o bolo (número de leitores) cresí§a e ní£o continue pautado pelas mesmas visíµes de sempre.

***

A literatura que vocíª aprova hoje, se ní£o for por afinidade muito pessoal, talvez o fará sentir vergonha no futuro, da mesma forma que ri hoje dos penteados e moda dos anos 80. Comentário: ní£o seja tí£o crí­tico com o gosto dos outros.

“O discurso ní£o é esse livro é ruim, é ní£o gostei desse livro'”

critic

criticVivo lendo reclamaí§íµes de crí­ticos e pseudo-acadíªmicos, dizendo as coisas de sempre: a cultura empobreceu, os leitores estí£o mais burros, a internet é o anticristo, o ivro eletrí´nico “ní£o tem cheiro”, coisas do tipo.
Na verdade, quem perdeu completamente a sintonia com o mundo foi esse tipo de gente. Desesperados porque já ninguém escuta o que dizem, resta-lhes apenas a “demoní­aca” internet para expressarem suas lamentaí§íµes.
Andei fazendo uma pesquisa nestes portais. Cada artigo tem um ou dois comentários, de gente que escreve em portais semelhantes.

Enfim, nada mais triste – mas também nada mais merecido.
Os arautos da “alta cultura” foram pego de surpresa, í  semelhaní§a dos aristocratas que curtiam suas festas em Versailles, Franí§a, em 1789: um belo dia, sem qualquer aviso, a populaí§í£o revoltou-se e a grande maioria foi parar na guilhotina.
No caso da “alta cultura”, a revoluí§í£o foi menos visí­vel, e nem por isso menos contundente.
Há anos ninguém escuta o que dizem, mas como ocorre com todos aqueles que estí£o trancados em suas torres de marfim, só agora passaram a ser dar conta.

Isso quer dizer que ní£o existe mais crí­tica literária? Claro que existe.
Mas o objetivo ní£o é demolir o trabalho alheio, nem arrotar cultura com dezenas de citaí§íµes.
O objetivo é muito simples: dizer se gostou ou ní£o gostou de um livro.

Neste sábado, as jornalistas Raquel Cozer e Fernanda Ezabella publicaram uma interessante matéria na Folha de Sí£o Paulo, dividida
em duas partes
Resenhas literárias de amadores na internet atraem leitores e abrem filí£o para editoras e Blogueiros resenhistas dizem que chegam a ler 70 livros em um só ano

Como ní£o poderia deixar de ser, existe ainda uma terceira parte, uma “análise” feita por alguém do sistema acadíªmico, colocando tudo sob suspeita, aventando a hipótese que que a revoluí§í£o da crí­tica é algo manipulado pelas editoras. Enfim, a “análise”que confirma tudo que disse acima.

A matéria vem em um momento bastante oportuno. Postei um dos links acima do meu Twitter, e fiquei supreso com a receptividade, embora tenha sido “insultado” porque o link levava para um portal pago (“vc está querendo nos convencer a assinar a Folha?” disse um. “Só pode ler quem é rico” disse outro). Resolvi cortar algumas partes e coloca-las aqui.

Abaixo alguns pontos da matéria de Cozer e Ezabella:

Todo míªs, 75 mil pessoas acessam os ví­deos em que o paulista Danilo Leonardi, 26, comenta livros. A carioca Ana Grilo, 37, diz ler até 150 tí­tulos por ano para seu blog de resenhas, escrito em inglíªs. O americano Donald Mitchell, 66, já publicou 4.475 resenhas na Amazon -por parte delas, levantou R$ 70 mil, doados para uma ONG beneficente.

Os tríªs sí£o personagens de um movimento que, nos últimos anos, chamou a atení§í£o de editoras e virou negócio: o de crí­ticas de livros feitas na internet por amadores, que, com linguagem mais simples, atraem milhares de leitores.

Com o aumento na venda de e-books, a expansí£o da autopublicaí§í£o e a concorríªncia ferrenha entre editoras, textos escritos por hobby ou por até R$ 1.000 tornaram-se uma alternativa de divulgaí§í£o capaz de atingir nichos e multiplicar vendas de livros.

Nos EUA, páginas como o Hollywood Book Reviews e o Pacific Book Review cobram de autores e editoras de R$ 250 a R$ 800 por textos a serem publicados em até 26 sites, incluindo seí§íµes de comentários de lojas virtuais.
O “pagamento”, ressaltam editoras e blogueiros, sí£o apenas os livros a serem avaliados, nunca dinheiro.

Enquanto crí­ticas feitas por especialistas em jornais fazem livreiros dar destaque aos tí­tulos nas lojas, blogueiros atraem leitores de gosto similar e alimentam o boca a boca. (meu comentário: será mesmo? Duas séries, “Crespúsculo” e “50 Tons” tiveram todo o destaque necessário nas lojas. O livreiro está sempre muito antenado, e notou que caderno de cultura já perdeu por completo a releví¢ncia)

“É bem pessoal. Eles deixam claro que é o canto deles”, diz a gerente de marketing da Intrí­nseca, Heloiza Daou.

“O discurso ní£o é ‘esse livro é ruim’, é ‘ní£o gostei desse livro'”, diz Diana Passy, gerente de mí­dias sociais da Companhia das Letras.

Nhá Chica de Baependi (beatificada em 4 maio 2013)

nhachica


O que é um milagre?
Existem definií§íµes de todos os tipos: algo que vai contra as leis da natureza, intercessíµes em momentos de crise profunda, coisas cientificamente impossí­veis, etc.
Eu tenho minha própria definií§í£o: milagre é aquilo que enche o nosso coraí§í£o de paz. ís vezes se manifesta sob forma de uma cura, de um desejo atendido, ní£o importa – o resultado é que, quando o milagre acontece, sentimos uma profunda reveríªncia pela graí§a que Deus nos concedeu.

Há vinte e tantos anos atrás, quando eu vivia meu perí­odo hippie, minha irmí£ me convidou para ser padrinho de sua primeira filha. Adorei o convite, fiquei contente que ela ní£o me pediu para que cortasse os cabelos (naquela época, chegavam até a cintura), nem me exigiu um presente caro para a afilhada (eu ní£o teria como comprar).
A filha nasceu, o primeiro ano se passou, e o batizado ní£o acontecia nunca. Achei que minha irmí£ tinha mudado de idéia, fui perguntar o que havia acontecido, e ela respondeu: “Vocíª continua padrinho. Acontece que eu fiz uma promessa para Nhá Chica, e quero batizá-la em Baependi, porque ela me concedeu uma graí§a”.

Ní£o sabia onde era Baependi, e jamais tinha escutado falar de Nhá Chica. O perí­odo hippie passou, eu me tornei executivo de gravadora, minha irmí£ teve uma outra filha, e nada de batizado. Finalmente, em 1978, a decisí£o foi tomada, e as duas famí­lias – dela e de seu ex-marido – foram a Baependi. Ali eu descobri que a tal Nhá Chica, que ní£o tinha dinheiro nem para seu próprio sustento, havia passado 30 anos construindo uma igreja e ajudando os pobres.

Eu vinha de um perí­odo muito turbulento em minha vida, e já ní£o acreditava mais em Deus. Ou melhor, dizendo, já ní£o achava que procurar o mundo espiritual tinha muita importí¢ncia: o que contava eram as coisas deste mundo, e os resultados que pudesse conseguir. Tinha abandonado meus sonhos loucos da juventude – entre os quais, ser escritor – e ní£o pretendia voltar a ter ilusíµes.
Estava ali naquela igreja para apenas cumprir um dever social; enquanto esperava a hora do batizado, comecei a passear pelos arredores, e terminei entrando na humilde casa de Nhá Chica, ao lado da igreja. Dois cí´modos, e um pequeno altar, com algumas imagens de santos, e um vaso com duas rosas vermelhas e uma branca.

Num impulso, diferente de tudo o que eu pensava na época, fiz um pedido: se, algum dia, eu conseguir ser o escritor que queria ser e já ní£o quero mais, voltarei aqui quando tiver 50 anos, e trarei duas rosas vermelhas e uma branca.

Apenas para me lembrar do batizado, comprei um retrato de Nhá Chica. Na volta para o Rio, o desastre: um í´nibus pára subitamente na minha frente, eu desvio o carro numa fraí§í£o de segundo, o meu cunhado também consegue desviar, o carro que vem atrás se choca, há uma explosí£o, vários mortos. Estacionamos na beira da estrada, sem saber o que fazer. Eu procuro no bolso um cigarro, e vem o retrato de Nhá Chica. Silencioso em sua mensagem de proteí§í£o.

Ali comeí§ava minha jornada de volta aos sonhos, í  busca espiritual, í  literatura, e um dia eu me vi de novo no Bom Combate, aquele que vocíª trava com o coraí§í£o cheio de paz, porque é resultado de um milagre. Nunca me esqueci das tríªs rosas. Finalmente, os cinqüenta anos – que naquela época pareciam tí£o distantes – terminaram chegando.

E quase passam. Durante a Copa do Mundo, fui a Baependi pagar minha promessa. Alguém me viu chegando em Caxambu (onde pernoitei), e um jornalista veio me entrevistar. Quando eu contei o que estava fazendo ali, ele pediu:
– Fale sobre Nhá Chica. O corpo dela foi exumado esta semana, e o processo de beatificaí§í£o está no Vaticano. As pessoas precisam dar seu testemunho.
– Ní£o – disse eu. – É uma história muito í­ntima. Só falaria se recebesse um sinal.
E pensei comigo mesmo: “O que seria um sinal? Só mesmo se alguém falasse em nome dela!”

No dia seguinte, peguei o carro, as flores, e fui a Baependi. Parei um pouco distante da igreja, lembrando o executivo de gravadora que estivera ali tanto tempo antes, e as muitas coisas que tinham me conduzido de volta. Quando ia entrando na casa, uma mulher jovem saiu de uma loja de roupas:
– Vi que seu livro “Maktub” é dedicado a Nhá Chica – disse ela. – Garanto que ela ficou contente.

E ní£o me pediu nada. Mas aquele era o sinal que eu estava esperando. E este é o depoimento público que eu precisava dar.

O problema continua?

Consulado do Brasil, manifeste-se por favor

Date: Fri, 15 Mar 2013 22:46:43 +0100
Subject: AJUDA/ AYUDA URGENTE- INDIGNANTE

Caros amigos

Os pido ayuda. La esposa del portero de mi urbanización, una brasileña casada con un español, Telma de Souza Lima, tiene a su madre, Equitéria de Souza Lima, detenida en el aeropuerto de Barajas por no llevar con ella la carta de invitación y Euros suficientes para su estancia.

Resulta que Telma está casada con un ciudadano español, Diego Viedna Artero, y su madre ha venido a España ayudarla porque Diego se encuentra ahora mismo ingresado en el hospital Infanta Sofia, en fase terminal de cáncer. Le quedan pocos dias o semanas. Por eso, la señora Equitéria, ha salido desde Brasil sin esos documentos; porque Telma, ocupandose de su marido, no ha pensado en esa posibilidad. Detalle: no es la primera entrada de Equiteria en España.

Telma tiene ahora mismo a una abogada con ella en el aeropuerto, pero la policia de fronteras ha emitido sentencia de deportación para mañana a las 15 horas y hay poco que se pueda hacer. A no ser que los medios de comunicación, tanto en Brasil cuanto en España se muevan, o algun contacto en Ministerio de Exterior en España, o el Consulado de Brasil, o algún Juez de peso que se pueda pronunciar o intervenir contra esa injusticia profundamente indignante y deshumana, Equiteria volvera a Brasil mañana a las 15 horas, y Telma se quedará sin el apoyo de su madre en esos momentos dificiles.

Os agradezco de corazón a los copiados en BCC, si podeí­s enviar ese mensaje a los medios a los cuales tienen aceso en los dos lados del Atlantico, o personas de influencia polí­tica que sé que conocen, para que una decisión absolutamente arbitraria un policia de fronteras impida a una persona humilde de apoyar a su hija en ese momento de perdida y dolor.

Muchas gracias por qualquier ayuda,

Iona de Macedo TEL: +34 639 185121

Manual de matar trolls

troll

“E tendo feito um azorrague de cordéis, laní§ou todos fora”(Joí£o, 2:15)

1] Bullying (trolagem) só ocorre com quem tem alguma releví¢ncia. Se voce está sendo trolado, é porque está acima da média.
Ní£o concorda? Basta ir para algum portal, abrir uma noticia de celebridade, e olhar os comentários. Qualquer celebridade – seja ela artista, polí­tica, esportista.
2] A anonimidade na internet é covarde. Os trolls sí£o pessoas com um comportamento doentio, mas que podem causar mal aos mais fracos.
3] Só existe uma maneira de reagir: deixando bem claro que qualquer coisa que escreverem sobre vocíª terá consequíªncias no futuro. Talvez ní£o no próximo míªs, nem no próximo ano, mas um dia eles ví£o precisar de sua ajuda.
4] E vocíª, claro, ní£o vai ajudar. Porque tem um a lista com o nome de todos os que pertencem í s trevas.
5] crie esta lista agora. Mantenha-a atualizada. E desta maneira voce sempre terá a última palavra.
Os trolls ní£o merecem respeito, porque ní£o respeitam ninguem, e se acham o máximo porque ingenuamente pensam que estí£o atuando de maneira aní´nima.

NOTAS
Muita gente pode dizer: “isso é vinganí§a!”. Nada mais errado. Vocíª merece respeito – e respeito é uma conquista, ní£o uma coisa que deve tomar como garantida.
Cabe a vocíª lutar contra aqueles que querem cobrir o mundo de negatividade e de trevas.
Quando eu era jovem fui muito trolado na escola. Os outros me atacavam para poder brilhar. Eu ní£o tinha como me defender, e tudo que pude fazer foi esperar o momento do contra-ataque, qeu sempre surge.
Podia também me dar por vencido, acreditar que ní£o valia nada. Mas desde sempre tive essa idéia do “guerreiro da luz”, aquele que está sempre sendo testado, e precisa aceitar desafios.
Nesta altura (devia ter uns 16 anos) resolvi criar duas listas. A de pessoas que me apoiavam e me ajudavam (Lista da Luz) e a dos que insistiam em me colocar para baixo ( Lista Negra)

Hoje em dia já ní£o me ocupo mais disso, mas meu escritório varre sistematicamente a internet, e anota os nomes da lista negra.
Nestes dez anos passados, por exemplo, pelo menos umas 150 pessoas que me atacaram vieram me pedir favores.
Achavam que eu tinha esquecido. Um deles inclusive veio me pedir voto para uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, da qual sou membro.
Outros, escritores e musicos aspirantes, que pediam um apoio para seus trabalhos mas que ní£o hesitavam em falar mal em comunidades sociais.
Claro que nunca me lembro de quem fala mal, e raramente leio o que escrevem. Mas antes de fazer qualquer favor eu consulto meu escritório.
ee o nome estiver ali, serei muito gentil mas farei questí£o de lembrar í  pessoa o que ela disse, e por essa razí£o ní£o me julgo “í  altura” de fazer qualquer coisa.

ANEXOS
A Lei de Jante (Portugues)
11 Facts about Bullying
A few real life cases young kids committing suicide as a consequence of cyberbullying
 
 

Os dois meninos

black-outline-two-boys

black-outline-two-boysUma velha história árabe conta que dois meninos – um rico e um pobre – voltavam do mercado. O rico trazia biscoitos untados com mel, e o pobre trazia um pedaí§o de pí£o velho.

– Deixo vocíª comer meu biscoito, se bancar o cí£o para mim – disse o rico.

O menino pobre aceitou e, de quatro na calí§ada, comeí§ou a comer as guloseimas do menino rico.

O sábio Fath, que assistia a cena, comentou:

– Se este menino pobre tivesse um pouco de dignidade, ia terminar descobrindo uma maneira de ganhar dinheiro. Mas ele prefere tornar-se o cí£o do menino rico, para comer seu biscoito.

“Amanhí£, quando for grande, fará o mesmo por um cargo público, e será capaz de trair seu paí­s por uma bolsa de ouro.”

2013 Encerrando ciclos


Illustration by Ken Crane

Ní£o consegui comprovar o autor deste texto, que circula na internet como se eu o tivesse escrito – até o momento pelo menos dez pessoas clamam sua autoria. Resolvi transcreve-lo aqui com modificaí§íµes que fiz
______________________________________

Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final…
Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.
Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capí­tulos.
Ní£o importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram.

Foi despedida do trabalho? Terminou uma relaí§í£o? Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro paí­s? A amizade tí£o longamente cultivada desapareceu sem explicaí§íµes?
Vocíª pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu….
Pode dizer para si mesmo que ní£o dará mais um passo enquanto ní£o entender as razíµes que levaram certas coisas, que eram tí£o importantes e sólidas em sua vida, serem subitamente transformadas em pó.
Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seus amigos, seus filhos, seus irmí£os, todos estarí£o encerrando capí­tulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerí£o ao ver que vocíª está parado.

Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco.
O que passou ní£o voltará: ní£o podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligaí§í£o com quem já foi embora e ní£o tem a menor intení§í£o de voltar.

As coisas passam, e o melhor a fazer é deixar que elas realmente possam ir embora…

Por isso é tí£o importante (por mais doloroso que seja!) destruir recordaí§íµes, mudar de casa, dar muitas coisas para orfanatos, vender ou doar os livros que tem.

Tudo neste mundo visí­vel é uma manifestaí§í£o do mundo invisí­vel, do que está acontecendo em nosso coraí§í£o… e o desfazer-se de certas lembraní§as significa também abrir espaí§o para que outras tomem o seu lugar.
Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se.
Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto í s vezes ganhamos, e í s vezes perdemos.

Ní£o espere que devolvam algo, ní£o espere que reconheí§am seu esforí§o, que descubram seu gíªnio, que entendam seu amor.
Pare de ligar sua televisí£o emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como vocíª sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais.
Ní£o há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que ní£o sí£o aceitos, promessas de emprego que ní£o tíªm data marcada para comeí§ar, decisíµes que sempre sí£o adiadas em nome do “momento ideal”.
Antes de comeí§ar um capí­tulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará!

Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa – nada é insubstituí­vel, um hábito ní£o é uma necessidade.
Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difí­cil, mas é muito importante.
Encerrando ciclos. Ní£o por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já ní£o se encaixa mais na sua vida.
Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é.

Esqueí§a quem vocíª era, e passe a ser quem é.

FELIZ 2011!

Por que Deus ní£o nos ajudou

cavalos-jose-franz-seraph-lutzemberger-brasil-1882-1951-aquarela

Mestre e discí­pulo caminham pelos desertos da Arábia. O Mestre aproveita cada momento da viagem para ensinar ao discí­pulo sobre a fé.

– Confie suas coisas a Deus – dizia.

– Porque Ele jamais abandona seus filhos.

De noite, ao acamparem, o Mestre pediu que o discí­pulo amarrasse os cavalos numa rocha próxima. O discí­pulo foi até a rocha, mas se lembrou do que aprendera durante aquela tarde. “O Mestre deve estar me testando. Na verdade, devo confiar os cavalos a Deus”. E deixou os cavalos soltos.

De manhí£, descobriu que os animais haviam fugido. Revoltado, procurou o Mestre.
– O senhor ní£o entende nada sobre Deus! Ontem aprendi que devia confiar cegamente na Providíªncia, entreguei a Ele a guarda dos cavalos, e os animais desapareceram!

Deus queria cuidar dos cavalos – respondeu o Mestre.

– Mas, naquele momento, Ele precisava de suas mí£os para amarrá-los, e vocíª ní£o as emprestou.

Voce vai morrer em 30 dias

#FAIL

12298152


O leilí£o da virgindade da brasileira Catarina Migliorini, 20, foi encerrado nesta quarta-feira com o lance de US$ 780 mil (o que equivale a cerca de R$ 1,5 milhí£o). O último lance computado pela virgindade da brasileira foi dado hoje por um japoníªs identificado apenas como Natsu.

Catarina disse que era virgem e que tem exames para provar essa condií§í£o. Ela se dispí´s a ir a um médico de confianí§a do ganhador do leilí£o para ser examinada. A catarinense se disse preocupada com o final do leilí£o.

O russo Alexander Stepanov, que também leiloava a virgindade, encerrou com o lance de US$ 3.000 (cerca de R$ 6.000) vindo do Brasil. O comprador é identificado no site apenas como Nene B., mas ní£o é informado o sexo da pessoa.

A “experiíªncia” dos dois jovens faz parte do documentário “Virgins Wanted”, que conta a história de dois jovens antes e depois da primeira vez.

Segundo os produtores do filme, Catarina se entregará a um estranho a bordo de um avií£o entre a Austrália e os Estados Unidos. Serí£o feitas muitas entrevistas antes e depois do ato sexual, mas quem vencer o leilí£o terá a opí§í£o de permanecer aní´nimo. O ato sexual ní£o será filmado.

A garota também pretende usar o dinheiro para estudar medicina na Argentina. “Já estava até matriculada, mas decidi adiar e vou em 2013. Tenho 20 anos, sou responsável pelo meu corpo e ní£o estou prejudicando ninguém”, disse em entrevista í  Folha.

SOURCE: FOLHA DE SíƒO PAULO

É permitido trollar

Voltemos um pouco ao passado.

Mais precisamente, para uma pequena cidade perto de Estrasburgo, onde possivelmente existe um mosteiro. Uma grande peste ameaí§a destruir a cultura. Os monges já detectaram o perigo, e estí£o fazendo um esforí§o gigantesco para acabar com ela antes que se espalhe pelo mundo inteiro.

Quem é o responsável por tudo isso? Um charlatí£o, um polidor de espelhos que prometia “captar a luz sagrada das relí­quias de santos”. Um expatriado, sempre devendo dinheiro aos seus vizinhos. Mas ní£o basta atacar sua honra; é preciso também destruir a máquina infernal que inventou, e onde reproduziu, sem muito esforí§o, cópias em série de um poema. E se resolver fazer a mesma coisa com a Biblia, tratada com respeito e dignidade por homens que dedicaram a vida inteira a copiar exemplares únicos? O livro sagrado já poderá ser lido por todos – e isso fará com que surjam outras opiniíµes a respeito do que está escrito ali.

O polidor de espelhos, com sua infernal máquina onde as letras podem ser utilizadas mais de uma vez e em ordem diferente, continua seu trabalho apesar de toda a oposií§í£o. E decide que a Bí­blia deverá ser o primeiro livro a ser impresso, desta maneira preservando o saber ali contido. Em meados do século XV, saem os primeiros exemplares. O polidor de espelhos – hoje em dia conhecido apenas pelo seu nome de famí­lia, Gutenberg – morre na miséria. Mas seu invento chama a atení§í£o dos ricos mercadores de Veneza, que o disseminam rapidamente. Pouco tempo depois, estí£o sendo impressos livros de todos os tipos; o pensamento comeí§a a viajar, as heresias se multiplicam, a sabedoria se espalha e a poderosa Igreja – que mantinha a cultura debaixo de seu jugo – assiste impotente o que a história chamaria mais tarde de Renascimento.

Essa historia todo mundo conhece.

A cultura foi democratizada ní£o porque apareceu um escritor capaz de inventar um estilo diferente – mas porque apareceu uma tecnologia nova. Cada mudaní§a de tecnologia provoca gigantescas comoí§íµes sociais, que podem atrasar um pouco sua disseminaí§í£o, mas que termina se impondo. Lembrem-se dos quebra-quebras da revoluí§í£o industrial. Ou das greves de camponeses provocadas pelo advento da máquina de colher grí£os.

Ou entí£o, dando um salto para o momento presente, do surgimento da internet. A industria cultural é pega de surpresa. Em vez de procurar entender o que está acontecendo, chama um batalhí£o de advogados para resolver o problema. Os advogados proí­bem um site de distribuií§í£o de música, e surgem vários para substitui-lo.

A massa “anárquica” de internautas se une em nome de uma causa única e faz com que congressistas americanos mudem da noite para o dia seus votos que aprovavam a lei que Hollywood tentava impor – conhecida pelo acrí´nimo de SOPA (Stop Online Piracy Act).

Essa história quase todo mundo conhece.

Mas será que conhecem o que está acontecendo no Brasil neste momento? O histórico do caso é simples e uso as palavras de um amigo meu para descreve-lo.

O blog “Livros de Humanas”, mantido por um estudante da USP, Thiago Candido, ( @_tcandido ) compartilhava PDFs de livros adotados em cursos de ciíªncias humanas. Muitos autores testemunharam que o compartilhamento aumentava as vendas dos livros (o que eu já sabia, como podem LER AQUI ). O responsável pelo blog recebeu agradecimentos em teses e dissertaí§íµes, porque possibilitava que muita gente lesse o que jamais teria condií§íµes se tivesse que comprar tudo. A Associaí§í£o Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR) entrou com uma aí§í£o em nome de duas editoras, mas exigiu a retirada de todo o site do ar. Desde entí£o, a Editora Contexto, uma das supostamente representadas na aí§í£o, já se desfiliou da ABDR.

Os autores que tinham livros pirateados lá e que já declararam apoio ao Livros de Humanas incluem: o maior antropólogo brasileiro, Eduardo Viveiros de Castro, o poeta Eduardo Sterzi, o poeta e jurista Pádua Fernandes, a ficcionista Veronica Stigger, o premiado escritor inglíªs Neil Gaiman, o designer gráfico e poeta André Vallias, a tradutora Denise Bottmann, o ensaí­sta e Doutor em Literatura Alexandre Nodari, a editora Cultura e Barbárie, a Azougue Editorial, o professor Pablo Ortellado, da USP, o professor de literatura latino-americana na Universidade de Tulane, Idelber Avelar etc. etc.

É uma lista imensa onde faltava o meu nome – simplesmente porque ní£o sabia que isso estava acontecendo. Agora que sei, estou assinando embaixo.

Ní£o embaixo de petií§íµes, que julgo absolutamente ineficientes; é muito fácil assinar e depois esquecer o assunto.

Estou assinando embaixo deste post, pedindo que enviem í  ABDR uma cópia do mesmo, ou algo que vocíª mesmo(a) escreveu a respeito.

Aqui está o site deles: http://www.abdr.org.br/site/ e o telefone: (011) 5052 5965

Neste caso, é permitido trollar.

Porque quebrar um copo significa sorte

Numa reunií£o em minha casa, alguém quebrou um copo. “Isto é sinal de boa sorte”, disse minha mulher.

Todos os presentes conheciam esta tradií§í£o. Quebrar copo, derramar aí§úcar sem querer, entornar vinho, sí£o sinais de boa sorte.

“Por que isto é sinal de boa sorte?”, perguntou um rabino que fazia parte de nosso grupo.

“Ní£o sei”, disse minha mulher. “Talvez seja um antigo costume, de deixar sempre o hóspede í  vontade”.

“Ní£o é a explicaí§í£o correta”, disse o rabino. “Certas tradií§íµes judaicas dizem que cada homem tem uma cota de sorte, que vai usando no decorrer de sua vida. Pode fazer com que esta sorte renda juros, se usá-la apenas para coisas que realmente necessita – ou pode desperdií§á-la í  toa.

“Também nós, judeus, dizemos ‘boa sorte quando alguém quebra um copo. Mas isto significa: “que bom, vocíª ní£o desperdií§ou sua sorte tentando evitar que este copo quebrasse. Entí£o, vai poder usá-la em coisas mais importantes”.

Vocíª

Vocíª ní£o é o que aparenta ser nos momentos de tristeza. É muito mais que isso.

Ouí§a seu coraí§í£o.

Lembre-se das pequenas lutas travadas em todos os dias de sua vida: vocíª sobreviveu a elas. Só isto já é motivo de orgulho.

Enquanto muitos já se foram, por razíµes que nunca com¬preendamos, vocíª continua aqui. Por que Deus levou pessoas tí£o incrí­veis, e deixou vocíª? Porque sua vida ainda tem um sentido. Mesmo que ní£o lhe seja claro.

Neste momento, milhíµes de pessoas já desistiram: ní£o se aborrecem, ní£o choram, ní£o fazem mais nada. Apenas esperam o tempo passar.

Perderam toda e qualquer capacidade de reaí§í£o.

Vocíª, porém, está triste. Se ainda tem esta capacidade, é porque sua alma continua viva. E se sua alma continua viva, o Paraí­so é possí­vel.

O intelectual está morto. Viva o internectual

Paulo Coelho, especial para Revista Época

As notí­cias do chamado “mundo literário” parecem retiradas do livro das lamentaí§íµes de Jó: já ní£o há mais espaí§o nos grandes veí­culos de mí­dia para discussíµes sérias, a lista dos mais vendidos só publica coisas para a garotada, os brasileiros ní£o sí£o lidos no exterior porque ninguém se interessa em traduzi-los. O Ministério da Cultura gastou uma fortuna na Europalia, um dos mais importantes eventos culturais do Velho Continente, sem conseguir absolutamente qualquer resultado além de dilapidar seu orí§amento. Eventos como a Flip chamam atení§í£o provisória, mas os autores que ali se apresentam, depois que tudo é dito e discutido, ní£o ganham outra projeí§í£o além da que já tinham junto aos seus pares.

Mas quem sí£o esses pares?

Para detectar intelectuais, pergunte o que é um “efeito viral”: dirí£o que trata-se de uma epidemia (possivelmente de dengue). Vá mais adiante e procure saber o que é uma “campus party”: respondem que sí£o festas organizadas em campi de universidades americanas na formatura de alunos. Finalmente, para tirar qualquer dúvida, peí§a que digam o que pensam dos livros eletrí´nicos. A resposta inevitável será: “gosto do cheiro do papel”, como se odor interferisse na leitura ou nas idéias expostas no texto.
Ní£o vou sequer sugerir que procurem saber com eles o que é “nerd”, pois será olhado de alto a baixo com desprezo, e retirado a forí§a do recinto onde estí£o discutindo a morte da leitura, a atualidade de Gilles Deleuze, ou as teorias de Ludwig Wittgenstein. Para eles, suas perguntas sí£o irrelevantes.

Pois bem, vamos esclarecer os termos citados acima usando um exemplo. O efeito viral ( comentários na internet sobre determinada obra, que se propaga independente da crí­tica especializada) fez com que Eduardo Spohr colocasse seu livro “A Batalha do Apocalipse” em todas as listas dos mais vendidos, com a ajuda de uma gigantesca e espontí¢nea máquina de divulgaí§í£o surgida nas campus parties (mega-eventos de blogueiros que acampam durante alguns dias em diversas partes do planeta para discutir idéias). Os “nerds”, termo até entao depreciativo e cuja traduí§í£o mais próxima seria nosso famoso CDF, organizam os encontros, criam vasos comunicantes, e ocupam de maneira avassaladora – sem pedir licení§a – o espaí§o entí£o reservado para os pseudo-eruditos, que sempre julgaram conhecer melhor o que o povo deve ou ní£o deve ler (embora em quase sua totalidade se digam democratas).

Entí£o, o que está acontecendo?

Pela primeira vez na história temos acesso irrestrito aos bens culturais. Com o advento da internet, todos puderam expressar o que pensam a respeito de qualquer tema – incluindo aí­ as obras literárias. Quando alguém deseja comprar um livro ní£o vai procurar os comentários da crí­tica especializada, mas daqueles que já leram. Isso pode determinar o sucesso global ou a morte súbita de um texto.
Sempre foi assim?
Claro, pois ní£o há melhor propaganda que o boca-a-boca. Entretanto, por causa da velocidade da propagaí§í£o viral (repito, ní£o estou falando de gripe asiática), o autor desconhecido comeí§a a ter a possibilidade de encontrar seu lugar ao sol de maneira rápida e efetiva, independente do apoio tradicional da mí­dia (a revista Época foi uma exceí§í£o, ao colocar antes de todo mundo o escritor Eduardo Sphor como uma das personalidades de 2011).

Mas o que é necessário para que isso aconteí§a? Em primeiro lugar, saber que a internet ní£o é uma ameaí§a para a leitura – sobretudo porque ainda é um meio escrito, e para que se escreva é preciso ler. Em seguida, entender que da mesma maneira que o mercado está mudando, o estilo de escrever também se transforma.
Dirí£o os puristas: “estí£o matando a qualidade”. Será que é isso mesmo? Voltemos um pouco ao passado para ver o que pensavam:
“Seu nome é super-valorizado; logo será esquecido” ( 1814,Lord Byron falando de Shakespeare). “Flaubert ní£o é um escritor”( 1857, jornal Le Figaro, Franí§a). “Esse livro dura apenas uma temporada”( NY Herald Tribune comentando ‘O Grande Gatsby’de F.S. Fitzgerald)
Os tríªs autores criticados acima – que hoje podem ser encontrados em qualquer livraria brasileira – romperam radicalmente com o estilo em vigor na época em que viviam. Escolheram contar uma boa história, ao invés do exercí­cio inútil da meta-linguagem. Seus crí­ticos pertenciam a respeitáveis jornais, e um deles, Byron, continua sendo uma referencia da literatura mundial. Mesmo assim, o poder do leitor foi mais forte.

E eu com isso? Devo dizer: sou parte interessada.

Ní£o tenho nada a reclamar. Embora a crí­tica nem sempre tenha sido gentil comigo, nunca me faltou espaí§o na imprensa. Celebrei neste abril de 2012 o Jubileu de Prata da publicaí§í£o do meu primeiro livro, “O diário de um mago”, apesar das previsíµes, muito comuns no final da década de 80, de que eu era apenas um fení´meno de moda. Com o advento da internet, passei a escrever para blogs e comunidades sociais, ampliando assim o alcance daquilo que julgo importante dizer.
Mas sou parte interessada quando vejo que toda uma nova geraí§í£o de escritores brasileiros ní£o está prestando a devida atení§í£o í  todas as possiblidades que tem diante de si. Ainda sofrem daquilo que chamo de “Sindrome de Van Gogh”( ser reconhecido apenas após a morte). Tentam agradar o sistema falido da cultura construí­da com verbas de ministérios e cimentada com resenhas misteriosas e ilegí­veis. Gastam uma imensa energia em busca de reconhecimento que já ní£o está nas mí£os daqueles que pensam dete-lo.
A esses eu digo: os meios de produí§í£o e divulgaí§í£o estí£o ao seu alcance – e isso nunca aconteceu antes. Se ninguém presta atení§í£o ao que estí£o fazendo, ní£o se preocupem: continuem adiante, porque cedo ou tarde (mais cedo que tarde) alguém entenderá o que dizem.
Aproveitem esse momento único. E mí£os í  obra, porque qualquer sonho dá muito trabalho.
No ano de 2001, quando Jimmy Wales criou a Wikipedia (uma enciclopédia online, administrada por 100 mil voluntários em diversas lí­nguas e em diversos paí­ses), escutei de um editor: “ní£o tem credibilidade, e nada substituirá a Encyclopí¦dia Britannica”. Em marí§o deste ano a vetusta enciclopédia anunciou que já ní£o mais publicará edií§íµes impressas – depois de quase 250 anos reluzindo nas estantes de nossos pais, avós, e antepassados distantes (aqui volto a pensar nos viciados em “cheiro de papel”, coisa que devo confessar jamais ter sentido).
O intelectual está morto. Longa vida ao internectual.

Hangout G+ 15/05/2012 (Portugues)