Cada coisa em seu lugar

English translation at the end of the post

Pela segunda vez em dez dias posto aqui a perda de um ente querido. Hoje de manhí£ fui acordado com a notí­cia que Jorge Antunes havia falecido.

Brevemente: em 1989, uma menina de 20 anos, Monica Antunes, resolveu viajar para a Europa. E resolveu ser minha agente literária, mesmo que desconhecesse por completo o mercado internacional de livros. Seus pais apoiaram a filha em todos os sentidos – embora naquele momento ela estivesse abandonando a Faculdade de Engenharia Quí­mica.

22 anos depois, Monica é minha melhor amiga, e continua trabalhando como minha incansável agente. Veja aqui seu PERFIL NO FACEBOOK
Sem ela, jamais teria conseguido chegar onde cheguei -até vocíªs. E sem o apoio inicial dos pais, Jorge e Belina, talvez toda essa história tivesse sido diferente.

Como já escrevi em muitos livros, para mim a morte é apenas uma passagem para uma outra dimensí£o. Jorge, na foto acima durante o batizado de seu amado neto, Gabriel, continua velando por todos aqui. Mas seria genial se voces pudessem escrever umas poucas palavras de conforto diretamente para minha querida Monica, nos comentários (comments) abaixo.

Manuel Bandeira tem uma linda poesia a respeito da viagem que fazemos.A seguir, alguns de seus versos:

Quando a Indesejada das gentes chegar
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Alí´, iniludí­vel!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar

Obrigado Jorge. Cada coisa está em seu lugar.

____________________
For the second time in ten days I post here the loss of a loved one. This morning I was awakened with the news that Jorge Antunes has passed away.

Briefly: in 1989, a 20 yr old girl, Monica Antunes, decided to travel to Europe. And she decided to be my literary agent, even she knew nothing about the international book market. Her parents supported her only daughter in every way – although at the time she was leaving the School of Chemical Engineering.

22 years later, Monica is my best friend, and continues to work tirelessly as my agent. Here’s Monica’s Facebook profile
Without her, I would never have made it to where I am now. And without the initial support of her parents, Jorge and Belina, maybe all my history would be different.

As I’ve written in many books, death is for me just a gateway to another dimension. Jorge, pictured above during the christening of his beloved grandson, Gabriel, is still watching over us. But it would be great if you could write a few words of comfort directly to my dear Monica, in the comments below.

Manuel Bandeira has a beautiful poem about this journey.Here are some of his verses:


When the Unwanted arrives
Maybe I will be afraid.
But maybe I will smile, and say:
– Hello, inescapable!
My day was good, the night may fall.
It will find a plowed field, the house clean,
The table set,
With everything in its place

Thanks Jorge. Everything is in its place.

Barrados na Bélgica

1 de Outubro 2011

Ní£o houve qualquer repercussí£o, nenhum traí§o de informaí§í£o sobre a abertura da Europalia hoje. Nem mesmo nas revistas mais sofisticadas – nada sobre o conteúdo da exposií§í£o, nada sobre os discursos. Nem mesmo uma entrevista com a Presidenta do Brasil. A grande manchete hoje (na Bélgica) é uma exposií§í£o dos mestes de pintura flamenga em Bruges.

There’s no trace of any reporting about the opening in Belgian media today, not even in the culture magazine of the most highbrow newspaper, they did post a message on their website about Prince Laurent not being at the opening ignoring the content of the expo and the speeches given completely. Not even an interview with the Brazilian president. The big cultural headline is the Flemish masters expo in Bruges where they show the paintings from Van Eyck, Rubens and Breughel owned by the arts musueum in Vienna

01 Outubro 2011 16:57
Algumas notí­cias de hoje na imprensa belga sobre o péssimo comportamento dos curadores do Brasil no evento (Thanks, Thomas!):

BRUXELAS: O novo governo brasileiro obrigou Europalia a fazer mudaní§as de ultima hora no programa. “Entendemos que um novo Ministro da cultura quer imprimir uma diferente visí£o do projeto” diz a Diretora Kristine de Mulder. ” Mas o contrato que foi assinado ní£o será revisto.” Também é dada como certa a substituií§ao do curador geral brasileiro, Sergio Mamberti.

BRUSSEL – De nieuwe regering in Brazilií« dwingt Europalia tot verschuivingen in het programma. Deze week komt een delegatie de details van het festival bespreken. ‘Het is logisch dat een nieuwe minister van Cultuur zijn stempel wil drukken’, zegt directeur Kristine De Mulder. ‘Maar het contract is getekend en wordt niet herzien.’ Het staat wel vast dat commissaris-generaal Sergio Mamberti wordt vervangen.

Europalia: vários projetos estí£o correndo perigo. Brasil anunciou que quer diminuir 7 a 8 por cento do programa
Europalia: Diverse kleinere projecten komen wel in het gedrang. Brazilií« kondigde al aan 7 tot 8 procent te willen besparen op het programma.

Por mais que insista, ní£o consigo saber onde posso ver a prestaí§í£o de contas dos 30 MILHí’ES DE REAIS QUE O GOVERNO BRASILEIRO DETONOU

Mas fico contente que a curadora da parte de literatura, Flora Süssekind, foi obrigada a CALAR A BOCA.
 

28 setembro 17:21 hr
Jornalista do Vif liga de novo.
Falou com um curador belga, que disse estar “horrorizado” com a “arrogí¢ncia” dos curadores brasileiros, que estí£o utilizando a Expocalia para “renvoyer l’ascenseur” (difí­cil de traduzir. Ao pé da letra, seria “enviar de volta o elevador”. Como expressí£o idiomática, significa favorecer um pequeno grupo, o que conhecemos por “panelinha”).
Comentei que está custando aos cofres brasileiros EUR 12.114.700 (30 milhíµes de reais).
“E os brasileiros estí£o de acordo com isso?” perguntou, supresa.
Melhor desconversar, e desligar logo o telefone
Ní£o consegui achar um site do Governo detalhando como 30 milhíµes de reais estí£o sendo gastos. Se alguem souber, por favor poste em comentários.

28 setembro, 10:21 hr
Ontem ní£o tive tempo, mas hoje telefonei para duas pessoas em Bruxelas. Um membro do governo e uma jornalista do Le Vif, a mais importante revista belga.

O membro do governo ní£o sabia do evento ( que custa aos cofres públicos brasileiros 30 milhíµes de reais), mas vai apurar.

A jornalista do Vif tampouco sabia do evento. Uma hora depois me telefonou de volta dizendo que, se receberam o press-release, ninguem no Depto. de Cultura guardou. A única noticia que tinham era do palácio, dizendo que como a presidenta Dilma estará presente, a familia real também estará – mas os prí­ncipes Laurent e sua esposa, Claire, ní£o estarí£o (ou seja, única informaí§í£o até agora na Vif é uma fofoca interna da realeza)

Comentei a matéria da FSP ontem. A jornalista ní£o entendeu: “um lugar menor e com muití­ssimo menos visibilidade? E o Gilberto Gil, tampouco virá?”

Se alguem tiver como me informar onde posso ter acesso í  prestaí§í£o de contas dos 30 milhíµes (pagina web, etc) agradeí§o. Deixem em “comentários” (abaixo)


27 de setembro: BARRADO NA BELGICA

(trecho da matéria publicada dia 27 de Setembro, na Folha de Sí£o Paulo)

Maior e mais caro projeto da atual gestí£o do Ministério da Cultura, o festival Europalia, que comeí§a na próxima terí§a em Bruxelas, chama a atení§í£o pelos artistas que ficaram de fora de sua seleí§í£o.
Numa parceria entre os governos do Brasil e da Bélgica, a ideia era homenagear a produí§í£o cultural brasileira num grande evento europeu, mas produtores nacionais enfrentaram a resistíªncia dos belgas para emplacar nomes mais ousados e experimentais na programaí§í£o do festival, que custará aos cofres brasileiros R$ 30 milhíµes.
As 16 exposií§íµes de artes visuais, com cerca de 1.500 obras, entraram na lista, mas áreas como literatura, música, teatro e daní§a sofreram.
Segundo os brasileiros, os belgas queriam receber artistas mais populares na Europa, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque.
“Isso existe mesmo, a visí£o dos belgas ní£o é a mesma que a nossa, precisa haver um afinamento”, admitiu a ministra da Cultura, Ana de Hollanda.
……….
No ponto mais crí­tico das negociaí§íµes, acabou desistindo de usar o auditório do Bozar, um dos centros culturais mais importantes de Bruxelas, porque produtores de lá insistiam em receber o autor de “O Alquimista”, na esperaní§a de lotar sua sala.
“Disseram que ní£o podiam receber ninguém menos que Paulo Coelho, entí£o eu disse que ní£o querí­amos aquele espaí§o mais”, diz Süssekind. “Achei sem graí§a.”

Responsável pela programaí§í£o teatral, Joí£o Carlos Couto diz que foi obrigado a procurar “coisas mais simples” para levar í  Bélgica, dispensando peí§as de grupos como Os Fofos Encenam.
“Eles ní£o foram porque as pessoas ní£o entendiam o texto, era muito codificado para eles”, diz Couto. “Insisti muito nisso e depois desisti, até porque ní£o queria correr o risco de fazer um espetáculo para um teatro vazio.”

Artigo inteiro (só para assinantes do UOL) > Barrados na Bélgica

O mundo é um espelho

Caim e Abel pararam na beira do imenso lago. Jamais tinham visto algo semelhante.

“Tem alguém aí­ dentro”, disse Abel, olhando para a água, sem saber que via seu reflexo.

Caim reparou a mesma coisa, e levantou seu bastí£o. A imagem fez a mesma coisa. Caim ficou aguardando o golpe; sua imagem também.

Abel contemplava a superfí­cie da água. Sorriu, e a imagem sorriu. Deu uma boa gargalhada, e viu que o outro o imitava.

Quando saí­ram dali, Caim pensava:

“Como sí£o agressivos os seres que vivem naquele lugar”.

E Abel dizia para si mesmo:

“Quero voltar lá, porque encontrei alguém bonito e com bom humor.”
 
 
 

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Twitcam sábado, 17 setembro 2011

Twitcam 31 Agosto 2011

O poder da palavra

 
Malba Tahan ilustra os perigos da palavra: uma mulher tanto falou que seu vizinho era ladrí£o, que o rapaz acabou preso. Dias depois, descobriram que era inocente; o rapaz foi solto e processou a mulher.

– Comentários ní£o sí£o tí£o graves – disse ela para o juiz.

– De acordo – respondeu o magistrado. Hoje, ao voltar para casa, escreva tudo que disse de mal sobre o rapaz; depois pique o papel, e jogue os pedaí§os no caminho. Amanhí£ volte para ouvir a sentení§a.

A mulher obedeceu, e voltou no dia seguinte.

– A senhora está perdoada se me entregar os pedaí§os do papel que espalhou ontem. Caso contrário, será condenada a um ano de prisí£o, declarou o magistrado.

– Mas é impossí­vel! O vento já espalhou tudo!

– Da mesma maneira, um simples comentário pode ser espalhado pelo vento, destruir a honra de um homem, e depois é impossí­vel consertar o mal já feito.

E enviou a mulher para o cárcere.
 
 
 

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Como o casamento

Nasrudin passou o outono inteiro semeando e preparando seu jardim. As flores se abriram na primavera – e Nasrudin reparou alguns dentes-de-leí£o, que ní£o havia plantado.

Nasrudin arrancou-os. Mas o pólen já estava espalhado, e outros tornaram a crescer. Ele procurou um veneno que atingisse apenas os dentes-de-leí£o. Um técnico disse-lhe que qualquer veneno ia terminar matando as outras flores. Desesperado, pediu ajuda a um jardineiro.

– É igual ao casamento – comentou o jardineiro. – Junto com coisas boas, terminam sempre vindo algumas poucas inconveniíªncias.

– Que faí§o? – insistiu Nasrudin.

– Aprenda a ama-las. Mesmo sendo flores que vocíª ní£o planejou ter, fazem parte do jardim.
 
 
 

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Diario de um mago em quadrinhos


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Versí£o completa de um documento histórico para mim (1990). Obrigado Dagomir Marchezi por colocar online

Full version of my first graphic novel (only in Portuguese) published in 1990. Later on, the book was published outside Brasil under the title “The Pilgrimage”

O Jogo de xadrez


Illustration by Ken Crane

O jovem disse ao abade do mosteiro:

– Bem que eu gostaria de ser um monge, mas tudo que meu pai me ensinou foi jogar xadrez. Sei que qualquer jogo é um pecado.

– Pode ser um pecado, mas também pode ser uma diversí£o – foi a resposta.
O abade pediu um tabuleiro de xadrez, chamou um monge, e mandou-o jogar com o rapaz.

Mas antes da partida comeí§ar, acrescentou:

– Embora precisemos de diversí£o, ní£o podemos permitir que todo mundo fique jogando xadrez. Entí£o, teremos apenas o melhor dos jogadores aqui; se nosso monge perder, ele sairá do mosteiro, e abrirá uma vaga para vocíª.

O abade falava sério. O rapaz sentiu que jogava por sua vida, e suou frio; o tabuleiro tornou-se o centro do mundo.

O monge comeí§ou a perder.
O rapaz atacou, mas entí£o viu o olhar de santidade do outro; a partir deste momento, comeí§ou a jogar errado de propósito.

Afinal de contas preferia perder, porque o monge podia ser mais útil ao mundo.

De repente, o abade jogou o tabuleiro no chí£o.

– Vocíª aprendeu muito mais do que lhe ensinaram – disse. – Concentrou-se o suficiente para vencer, foi capaz de lutar pelo que desejava.
“Em seguida, teve compaixí£o, e disposií§í£o para sacrificar-se em nome de uma nobre causa.

” Seja bem-vindo ao mosteiro, porque sabe equilibrar a disciplina com a misericórdia.”
 
 
 

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10 SEG LEITURA: Confucio e o bíªbado

Quando ia para o lago, Confúcio sempre passava por determinada casa e parava para conversar sobre o jardim da varanda, que era o orgulho do proprietário.

í€s vezes, o homem estava bíªbado, mas Confúcio fingia ní£o prestar atení§í£o ao fato e continuava a falar do jardim.

Num dia em que o homem estava muito embriagado, um discí­pulo disse:

“Ele ní£o escuta porque sua alma está cheia de álcool”.

Confúcio respondeu:
“Uma pessoa só consegue se desenvolver, sabendo que tem um lado bom. Mesmo nos momentos de fraqueza, é preciso chamar a atení§í£o para este lado.

“Entí£o, eu converso sobre a beleza de seu trabalho como jardineiro e, em algum canto de sua alma, ele me escuta.
“Assim consigo evitar que a culpa destrua sua vontade de seguir o caminho”
 
 
 

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1 MIN LEITURA: como a trilha foi aberta

Um dia, um bezerro precisou atravessar uma floresta virgem para voltar a seu pasto. Sendo animal irracional, abriu uma trilha tortuosa, cheia de curvas, subindo e descendo colinas.

No dia seguinte, um cí£o usou essa mesma trilha para atravessar a floresta. Depois foi a vez de um carneiro, lí­der de um rebanho, que vendo o espaí§o já aberto, fez seus companheiros seguirem por ali.

Mais tarde, os homens comeí§aram a usar esse caminho: abaixavam-se, desviavam-se de obstáculos, reclamando e praguejando – com toda razí£o.

Mas ní£o faziam nada para criar uma nova alternativa.

Depois de tanto uso, a trilha acabou virando uma estradinha onde os pobres animais se cansavam sob cargas pesadas, sendo obrigados a percorrer em tríªs horas uma distí¢ncia que poderia ser vencida em 30 minutos, caso ní£o seguissem o caminho aberto por um bezerro.

Muitos anos se passaram e a estradinha tornou-se a rua principal de um vilarejo, e posteriormente a avenida principal de uma cidade. Todos reclamavam do trí¢nsito, porque o trajeto era o pior possí­vel.

Enquanto isso, a velha e sábia floresta ria, ao ver que os homens tem a tendíªncia de seguir como cegos o caminho que já está aberto, sem nunca se perguntarem se aquela é a melhor escolha.

(baseado em uma história da India)

 
 
 

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Pirateiem meus livros


artigo publicado em 29 de maio 2011 no jornal Folha de Sí£o Paulo

Em meados do século 20, comeí§aram a circular na antiga Unií£o Soviética vários livros mimeografados questionando o sistema polí­tico. Seus autores jamais ganharam um centavo de direitos autorais.
Pelo contrário: foram perseguidos, desmoralizados na imprensa oficial, exilados para os famosos gulags na Sibéria. Mesmo assim, continuaram escrevendo.

Por quíª? Porque precisavam dividir o que sentiam. Dos Evangelhos aos manifestos polí­ticos, a literatura permitiu que ideias pudessem viajar e, eventualmente, transformar o mundo.

Nada contra ganhar dinheiro com livros: eu vivo disso. Mas o que ocorre no presente? A indústria se mobiliza para aprovar leis contra a “pirataria intelectual”. Dependendo do paí­s, o “pirata” -ou seja, aquele que está propagando arte na rede- poderá terminar na cadeia.

E eu com isso? Como autor, deveria estar defendendo a “propriedade intelectual”. Mas ní£o estou. Piratas do mundo, uni-vos e pirateiem tudo que escrevi!

A época jurássica, em que uma ideia tinha dono, desapareceu para sempre. Primeiro, porque tudo que o mundo faz é reciclar os mesmos quatro temas: uma história de amor a dois, um trií¢ngulo amoroso, a luta pelo poder e a narraí§í£o de uma viagem. Segundo, porque quem escreve deseja ser lido -em um jornal, em um blog, em um panfleto, em um muro.

Quanto mais escutamos uma caní§í£o no rádio, mais temos vontade de comprar o CD. Isso funciona também para a literatura: quanto mais gente “piratear” um livro, melhor. Se gostou do comeí§o, irá comprá-lo no dia seguinte -já que ní£o há nada mais cansativo que ler longos textos em tela de computador.

1 – Algumas pessoas dirí£o: vocíª é rico o bastante para permitir que seus textos sejam divulgados livremente.

É verdade: sou rico. Mas foi a vontade de ganhar dinheiro que me levou a escrever?
Ní£o. Minha famí­lia, meus professores, todos diziam que a profissí£o de escritor ní£o tinha futuro. Comecei a escrever -e continuo escrevendo- porque me dá prazer e porque justifica minha existíªncia. Se dinheiro fosse o motivo, já podia ter parado de escrever e de aturar as invariáveis crí­ticas negativas.

2 – A indústria dirá: artistas ní£o podem sobreviver se ní£o forem pagos.

A vantagem da internet é a divulgaí§í£o gratuita do seu trabalho.
Em 1999, quando fui publicado pela primeira vez na Rússia (tiragem de 3.000 exemplares), o paí­s logo enfrentou uma crise de fornecimento de papel. Por acaso, descobri uma edií§í£o “pirata” de “O Alquimista” e postei na minha página. Um ano depois, a crise já solucionada, eu vendia 10 mil cópias.
Chegamos a 2002 com 1 milhí£o de cópias; hoje, tenho mais de 12 milhíµes de livros naquele paí­s.

Quando cruzei a Rússia de trem, encontrei várias pessoas que diziam ter tido o primeiro contato com meu trabalho por meio daquela cópia “pirata” na minha página.
Hoje, mantenho o “Pirate Coelho”, colocando endereí§os (URLs) de livros meus que estí£o em sites de compartilhamento de arquivos. E minhas vendagens só fazem crescer -cerca de 140 milhíµes de exemplares no mundo.
Quando vocíª come uma laranja, precisa voltar para comprar outra. Nesse caso, faz sentido cobrar no momento da venda do produto.

No caso da arte, vocíª ní£o está comprando papel, tinta, pincel, tela ou notas musicais, mas, sim, a ideia que nasce da combinaí§í£o desses produtos.
A “pirataria” é o seu primeiro contato com o trabalho do artista.
Se a ideia for boa, vocíª gostará de tíª-la em sua casa; uma ideia consistente ní£o precisa de proteí§í£o.

O resto é ganí¢ncia ou ignorí¢ncia.

_________________

PAULO COELHO , escritor e compositor, é membro da Academia Brasileira de Letras. É autor de, entre outros livros, “O Alquimista” e “A Bruxa de Portobello”.
 

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Refletindo sobre o sacrifí­cio

Quem luta pelos seus sonhos
a] trabalha mais que os outros,
b] se envolve com os menores detalhes,
c] sofre decepí§íµes,
d] ní£o consegue dormir algumas noites
e] e, muitas vezes, fica tenso e assustado.

Os outros dizem: “coitado, olha só o sacrifí­cio que fulano está fazendo!”.

E ví£o para o trabalho, cumprem por obrigaí§í£o as oito horas diárias, ficam esperando o final semana, e despencam num domingo cujo principal terror é a segunda-feira.

Entretanto, aquele que dedicou seu trabalho í  causa maior sabe o que quer dizer “sacrifí­cio”: a fusí£o de “sacro” e “ofí­cio”, ou seja, o trabalho sagrado.

Entí£o, apesar de todas as dificuldades, o que faz tem um sentido. Sua vida ní£o se resume a esperar um final de semana que passa logo.

Quem dedica seu trabalho a uma causa maior tem a eternidade para deliciar-se com seus sonhos.
 
 
 

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A velha em Copacabana

 

Ela estava no calí§adí£o da Avenida Atlântica, com um violíno, e uma placa escrita:
“Vamos cantar juntos”.

Começou a tocar sozinha.
Depois chegou um bêbado, uma outra velhinha, e começaram a cantar com ela.
Daqui a pouco uma pequena multidãoo cantava, e outra pequena multidãoo servia de plateia, batendo palmas no final de cada número.

“Por que faz isto?”, perguntei, entre uma música e outra.

“Para não ficar sozinha”, disse ela. “Minha vida é muito solitária, como a vida de quase todos os velhos”.

Oxalá todos resolvessem os seus problemas desta maneira.

 

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20 SEG LEITURA: a boa notí­cia

O golfista argentino Robert de Vincenzo, depois de haver vencido um importante torneio, dirigiu-se ao estacionamento para pegar seu carro.
Nesse momento, uma mulher se aproximou; depois de cumprimentá-lo pela vitória, contou que seu filho estava í s portas da morte, e que ní£o tinha dinheiro para pagar o hospital.

De Vincenzo deu-lhe, imediatamente, parte do dinheiro do príªmio que havia ganho naquela tarde.

Uma semana depois, num almoí§o no Professional Golf Association, contou a história a alguns amigos. Um deles perguntou se a mulher era loura, com uma pequena cicatriz embaixo do olho esquerdo. De Vincenzo concordou.

“Vocíª foi trapaceado”, disse o amigo.
“Esta mulher é uma vigarista, e vive contando a mesma história a todos os tenistas estrangeiros que aparecem por aqui”.

“Entí£o ní£o existe nenhuma crianí§a as portas da morte?”

“Ní£o”.

“Bem, esta foi a melhor notí­cia que recebi esta semana!”, foi o comentário do golfista.
 
 
 

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Kazantzakis e Deus

Durante toda a sua vida, o autor grego Nikos Kazantzakis (Zorba, A Ultima Tentaí§í£o de Cristo) foi um homem absolutamente coerente.
Embora abordasse temas religiosos em muitos de seus livros – como uma excelente biografia de Sí£o Francisco de Assis – sempre considerou a si mesmo como um ateu convicto.
Pois é deste ateu convicto, uma das mais belas definií§íµes de Deus que eu conheí§o:

“Nos olhamos com perplexidade a parte mais alta da espiral de forí§a que governa o Universo.
“E a chamamos de Deus. Poderí­amos dar qualquer outro nome: Abismo, Mistério, Escuridí£o Absoluta, Luz Total, Matéria, Espí­rito, Suprema Esperaní§a, Supremo Desespero, Silíªncio.
“Mas nós a chamamos de Deus, porque só este nome – por razíµes misteriosas – é capaz de sacudir com vigor o nosso coraí§í£o.

“E, ní£o resta dúvida, esta sacudida é absolutamente indispensável para permitir o contacto com as emoí§íµes básicas do ser humano, que sempre estí£o além de qualquer explicaí§í£o ou lógica.”

 
 
 

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No dia em que Deus criou as mães

IN ENGLISH HERE: Character of the week: the Mother
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por Erma Bombeck

No dia em que Deus criou as mães (e já vinha virando dia e noite há seis dias), um anjo apareceu-lhe e disse:
– O que   está lhe deixando  inquieto Senhor?

E o Senhor Deus respondeu-lhe:
– Você já leu as especificaçOes desta encomenda?
1] Ela tem que ser totalmente lavável, mas não pode ser de plástico.
2] Deve ter 180 partes móveis e substituí­veis, funcionar à  base de café e sobras de comida.
3] Ter um colo macio que sirva de travesseiro.
4] Um beijo que tenha o dom de curar qualquer coisa, desde um ferimento até as dores de uma paixão,
5] e ainda ter seis pares de mãos para dar conta de todas as tarefas.

– Seis pares de mãos Senhor? – Parece impossí­vel !?!

-E o anjo comenta:
– Senhor…já é hora de dormir. Amanhã é outro dia.

Mas o Senhor Deus explicou-lhe:
– Não posso, já está quase pronta. Já tenho um modelo que se cura sozinho quando adoece, que consegue alimentar uma famí­lia de seis pessoas com meio quilo de carne moí­da e consegue convencer uma criança de 9 anos a tomar banho…

O anjo rodeou vagarosamente o modelo e falou:
– É muito delicada Senhor!
Mas o Senhor Deus disse entusiasmado:
– Mas é muito resistente! Vocíª nãoo imagina o que esta pessoa pode fazer ou suportar!

O anjo, analisando melhor, observa:
– Há um vazamento ali Senhor…
– Nào é um vazameno, é uma lágrima! E esta serve para expressar alegrias, tristezas, dores, solidão, orgulho e outros sentimentos.

Vós sois um gíªnio, Senhor! – disse o anjo entusiasmado com a criaí§í£o.
– Mas essa lágrima ní£o fui eu que coloquei. Apareceu assim…

 

 

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10 seg leitura: onde Deus vive


 

Entre a Franí§a e a Espanha existe uma cadeia de montanhas.
Nesta cadeia de montanhas existe uma aldeia chamada Argeles-Gazost.
Nesta aldeia, existe uma ladeira que leva até o vale.

Todas as tardes, um velho passeia por ali.
Quando fui a Argeles a primeira vez, ní£o reparei.
Da segunda vez, vi que sempre cruzava comigo.
E cada vez que eu visitava aquela aldeia, reparava em mais detalhes – a roupa, a boina, a bengala, os óculos.

Uma única vez conversei com ele. Querendo brincar, perguntei:

“Será que Deus vive nestas lindas montanhas a nossa volta?”

“Deus vive nos lugares onde deixam Ele entrar”, foi a resposta.
 
 

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30 SEG LEITURA: Um santo no lugar errado

IN ENGLISH, CLICK HERE: A saint in the wrong place
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Illustration by Ken Crane

“Por que existem pessoas que saem facilmente dos problemas mais complicados, enquanto outras sofrem por problemas muito pequenos, morrem afogadas num copo de água?”

Ramesh simplesmente sorriu e me contou um história.

… “Era uma vez um sujeito que viveu amorosamente toda a sua vida. Quando morreu, todo mundo lhe falou para ir ao céu. Um homem tí£o bondoso quanto ele somente poderia ir para o Paraí­so.
Ir para o céu ní£o era tí£o importante para aquele homem, mas mesmo assim ele foi até lá.

Naquela época, o céu ní£o havia ainda passado por um programa de qualidade total. A recepí§í£o ní£o funcionava muito bem. A moí§a que o recebeu deu uma olhada rápida nas fichas em cima do balcí£o e, como ní£o viu o nome dele na lista, lhe orientou para ir ao Inferno.

E, no Inferno, ninguém exige crachá nem convite, qualquer um que chega é convidado a entrar. O sujeito entrou e foi ficando…

Alguns dias depois, Lúcifer chega furioso í s portas do Paraí­so para tomar satisfaí§íµes com Sí£o Pedro:

– Isso que vocíª está fazendo é puro terrorismo!!

Sem saber o motivo de tanta raiva, Pedro pergunta do que se trata. Um transtornado Lúcifer responde:

– Vocíª mandou aquele sujeito para o Inferno e ele está me desmoralizando! Chegou escutando as pessoas, olhando-as nos olhos, conversando com elas. Agora, está todo mundo dialogando, se abraí§ando, se beijando. O inferno ní£o é lugar para isso! Por favor, traga este sujeito para cá!”

Quando Ramesh terminou de contar esta história olhou-me carinhosamente e disse:

– Viva com tanto amor no coraí§í£o que se, por engano, vocíª for parar no Inferno, o próprio demí´nio lhe trará de volta ao Paraí­so.”

Uma história sobre minha história


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Depois de ter comentado no Twitter, anteontem, sobre a visita de Carollna Kotscho – para a leitura final do roteiro do filme sobre minha vida – fiquei impressionadissimo com a quantidade de gente (brasileiros e estrangeiros) que me pediu detalhes a respeito.
Portanto, em deferencia aos meus amigos aqui no Twitter, fiz um resumo de nosso encontro.

Um pouco de história
Em 2005, quando assisti “Os dois filhos de Francisco”, perguntei a um amigo se conhecia a pessoa que fez o roteiro do filme. Tinha interesse de encontra-la apenas para conversar sobre a maneira brilhante de contar uma história que, em principio, nao me interessaria nada, e terminou me comovendo. Meu amigo conhecia a autora, Carolina Kotscho.
Nos encontramos e conversamos. Durante a conversa, veio a ideia de fazer um filme sobre minha vida. Eu hesitei, mas Carol foi persistente. Finalmente terminei cedendo.
Algumas semanas depois, os produtores entraram no jogo.

2005 a 2011
Durante os dois anos seguintes, duas coisas aconteceram em paralelo: por um lado, Carol comeí§ou uma pesquisa intensa sobre minha vida, e por outro lado um batalhí£o de advogados americanos sentou-se com minha agente, Monica Antunes, para acertar os detalhes do contrato.
A conversa com os advogados parecia ní£o levar a lugar nenhum. Queriam ter controle sobre minha história – que me possui, e foi vivida com muito sangue, suor, e lágrimas.
Ní£o contente em fuí§ar todos os meus arquivos pessoais, antigos diários, etc, Carol queria encontrar-se comigo todos os meses.
Eu já tinha dado tres longas entrevistas sobre minha vida. A primeira para o jornalista do El Pais, Juan Arias, que resultou no livro “Confissíµes de um peregrino”, a segunda para o biógrafo Fernando Morais, que escreveu a biografia “O Mago”, e a terceira para Herica Marmo, resumida ao periodo musical, que teve como resultado o excelente “A caní§í£o do mago”, a mais completa publicaí§í£o a respeito de minha encarnaí§í£o como letrista.
Ou seja: estava (e continuo, diga-se de passagem) farto de falar a respeito de mim mesmo.
Mas Carol nao desistiu.
E assim, nos anos seguintes, nos encontramos em diferentes paí­ses (Brasil, Turquia, Alemanha, Franí§a, Austria). O resultado sí£o os dez DVDs que voces podem ver na foto, í  minha direita. Se fossem em CD, teriamos uma pilha de 67 discos!
Os advogados resolveram todas as centenas de itens pendentes (como deve ser distribuí­do fora do Brasil, ní£o querem correr nenhum risco), os produtores montaram o esquema empresarial do projeto.
Todos fizemos um pacto: ní£o falariamos sobre o assunto até que chegassemos ao roteiro final.

O roteiro final
Ontem, dia 28 de abril de 2011, nos encontramos para a leitura final do roteiro. Cabe lembrar aqui eu eu ní£o tinha lido nenhuma das muitas versíµes anteriores.
Era a primeira vez que iria escutar como seria minha história nas telas.
Eu tinha tres perguntas para Carol:
– Quem é o diretor? Quem irá me interpretar? Quando estreia?
Ela respondeu a primeira pergunta com outra:
– Quem voce gostaria que fosse o diretor?
– Clint Eastwood.
Carol nao gostou muito. Disse que qualquer diretor americano iria reescrever por completo o roteiro. Pelo visto tem uma carta na manga, mas ní£o revelou.
Quanto í s outras duas perguntas:
Quem irá me interpretar é um ator muitissimo mais bonito que eu! Nao posso dizer o nome aqui porque o contrato nao está assinado, mas o ego inflou: será que ela me víª desta maneira?
Diga-se de passagem que considero este ator o MELHOR da atualidade. Mas Carol ní£o sabia disso.
Finalmente, a data de estreia está prevista para o final de 2012.

Uma vez respondida minhas perguntas, carol pegou uma camera de video, dois gravadores (isso já tinha acontecido antes, e vejo que, apesar de trabalhar em cinema,desconfia muitissimo da tecnologia) e me disse:
– Tenho 123 perguntas, relativas as 123 cenas do filme.
Abraxas!
Ha dois anos praticamente nao dou entrevistas (nao dei nenhuma quando O ALEPH foi publicado e, graí§as a Deus,nao foi por falta de interesse da imprensa). E apesar dos 10 dvds, carol ainda nao estava satisfeita. precisava fazer uma “verificaí§ao final” por “motivos legais”. Assim exigiram os advogados.
No final de cada cena eu deveria afirmar se era verdade, mentira, ou se tinha alguma coisa para acrescentar.
Afirmei “verdade” em todos os capitulos.
A medida que a leitura prosseguia, eu redescobria a mim mesmo. Me perguntava em silíªncio: ” por que agi assim? de onde veio a coragem para superar tal situaí§ao? como é que pude ser tao agressivo diante de tal experiencia?”
Eu era inteiramente a pessoa do filme (ou seja, os fatos eram reais) mas ao mesmo tempo parecia que estavamos falando de um outro Paulo, que me surpreendia a cada etapa.
Foram tres horas de emoí§í£o, surpresa, e alegria. O roteiro está ótimo.

Volta ao pacto
E todo o grupo envolvido retorna ao pacto original: ninguem tornará a falar mais sobre o assunto até que o filme esteja na produí§í£o final.
Exceto por Carol, que dará um entrevista (prometida há mais de um ano, para o “Hollywood Reporter” )
Uma vez feito isso, se conseguimos manter o projeto secreto por cinco anos, ní£o será dificil continuar com o silíªncio.
É uma decisí£o que sempre pautou minha vida: fale apenas quanto as coisas estiverem prontas.
O roteiro está pronto e eu falei sobre ele. Mas o filme ní£o está.
Ou seja, a parte deste texto que coloco aqui, ní£o haverá nenhum outro – ou notas para a imprensa – até outubro ou novembro de 2012.

P.S – Carol é mulher de Braulio Mantovani – que tem a seu credito, entre outras coisas, os roteiros de “Cidade de Deus”, “Tropa de Elite” e “Tropa de Elite 2 – O inimigo agora é outro”, e portanto, assiim que terminamos a conversa, aprendi muití­ssimo sobre os bastidores de ambos os filmes…