Vinte anos depois

Sentado em um jardim em Leon, olhando o rio que corre, dia 27 de marí§o de 2006.

Ao meu lado, Christina – minha mulher – está lendo um livro. A primavera comeí§a na Europa, já podemos colocar os agasalhos na mala. Andamos de carro todos estes dias, passando em alguns lugares que marcaram nossas vidas (Christina fez o Caminho de Santiago em 1990). Apesar de viajarmos sem pressa, cobrimos 500 kms. em menos de uma semana.

Agua mineral. Café.

Pessoas que conversam, pessoas que caminham.

Pessoas que também tomam seu café e sua água mineral.

Entí£o volto vinte anos no tempo, uma tarde de julho ou agosto de 1986, um café, uma água mineral, pessoas conversando e caminhando – só que desta vez o cenário sí£o as planí­cies que se estendem logo depois de Castrojeriz, meu aniversário se aproxima, já saí­ de Sant Jean Pied-de-Port faz tempo, e estou pouco além da metade do caminho que conduz a Santiago de Compostela.

Velocidade de caminhada: 20 kms por dia.

Olho para adiante, a paisagem monótona, o guia que também toma o seu café num bar que parece ter surgido de lugar nenhum. Olho para trás, a mesma paisagem monótona, com a única diferení§a que a poeira do chí£o tem as marcas das solas de meus sapatos – mas isso é temporário, o vento as apagará antes que chegue a noite.

Tudo me parece irreal.

O que estou fazendo aqui? Esta pergunta continua me acompanhando, embora várias semanas já se tenham passado.

Estou procurando uma espada. Estou cumprindo um ritual de RAM, uma pequena ordem dentro da Igreja Católica, sem segredos ou mistérios além da tentativa de compreender a linguagem simbólica do mundo. Estou pensando que fui enganado, que a busca espiritual ní£o passa de uma coisa sem sentido ou lógica, e que seria melhor estar no Brasil, cuidando do que eu sempre cuidava.

Estou duvidando de minha sinceridade nesta busca, porque dá muito trabalho procurar um Deus que nunca se mostra, rezar nas horas certas, percorrer caminhos estranhos, ter disciplina, aceitar ordens que me parecem absurdas.

É isso: duvido da minha sinceridade. Por todos estes dias Petrus tem dito que o caminho é de todos, das pessoas comuns, o que me deixa muito decepcionado. Eu pensava que todo este esforí§o fosse me dar um lugar de destaque entre os poucos eleitos que se aproximam dos grandes arquétipos do universo. Eu pensava que ia finalmente descobrir que é verdade todas as histórias a respeito de governos secretos de sábios no Tibete, de porí§íµes mágicas capazes de provocar amor onde ní£o existe atraí§í£o, de rituais onde de repente as portas do Paraí­so se abrem.

Mas é exatamente o contrário que Petrus me diz: ní£o existem eleitos. Todos sí£o escolhidos, se ao invés de se perguntarem “o que estou fazendo aqui”, resolverem fazer qualquer coisa que desperte o entusiasmo no coraí§ao. É no trabalho com entusiasmo que está a porta do paraí­so, o amor que transforma, a escolha que nos leva até Deus.

É esse entusiasmo que nos conecta com O Espirito Santo, e ní£o as centenas, milhares de leituras dos textos clássicos. É a vontade de acreditar que a vida é um milagre que permite que os milagres aconteí§am, e ní£o os chamados “rituais secretos” ou “ordens iniciáticas”. Enfim, é a decisao do homem de cumprir o seu destino que o faz ser realmente um homem – e ní£o as teorias que ele desenvolve em torno do mistério da existíªncia.

E aqui estou eu. Um pouco além do meio do caminho que me leva a Santiago de Compostela. Se as coisas sí£o tí£o simples como ele diz, por que esta aventura inútil?

(Novo texto será posto dia 22.04.06)