Vinte anos depois: a cidade

Caminho pela cidade grande como já caminhei por outras tantas neste mundo, e assisto as mesmas cenas: o homem que caminha com o celular, o rapaz que corre para pegar o í´nibus, a mí£e passeando com o carrinho de bebíª, dois jovens que se beijam em um parque, garotos que jogam futebol em um terreno, igrejas, sinais de trí¢nsito, anúncios. Espero junto com um grupo de pessoas para atravessar a rua, olho sem interesse os monumentos que sempre mostram grandes homens, pensativos, carregando o mundo em suas costas.

Caminho pela cidade grande onde nao falo a lingua local, mas que diferení§a isso pode fazer? Nas cidades grandes ninguém conversa com ninguém – estí£o todos imersos em seus problemas, sempre com pressa. E se estiverem sentados em uma praí§a, ou esperando um í´nibus, alguém que se aproxime será visto como uma ameaí§a. O desconhecido é suspeito, isso nos ensinaram desde a infí¢ncia, e isso seguimos o resto de nossas vidas. Por mais miseráveis ou solitários que estejam, por mais que precisem dividir a alegria de uma conquista ou a tristeza que sufoca, melhor e mais seguro ficar em silíªncio.

Mesmo assim, abordo alguém: ní£o falamos uma lingua comum. Tento uma segunda, uma terceira pessoa, até que um senhor – também ele apressado, como todos os outros – responde a pergunta que gosto de fazer, e cuja resposta quase sempre adivinho:

– Quem é a pessoa a quem deram o nome desta rua?

– Ní£o tenho a menor idéia. O senhor está perdido?

Explico que sei onde se encontra meu hotel, e agradeí§o. Na grande parte das ruas de minha cidade, daria a mesma resposta: ní£o sei de quem se trata o homenageado. A glória do mundo é transitória, assim dizia Paulo em uma de suas epí­stolas.

Caminho pela cidade, que está separada do meu apartamento por mais de dez mil quilí´metros de distí¢ncia, mas cuja única diferení§a é a visí£o do mar; em tudo o mais as duas se parecem, e me pergunto o que estou fazendo há quase dois meses fora de casa. Resolvi celebrar estes vinte anos de peregrinaí§í£o a Santiago de Compostela com 90 dias de viagem, indo na direí§ao que o vento me conduz, aceitando alguns compromissos profissionais porque isso me impediria de resistir í  tentaí§í£o que neste momento me invade com toda forí§a:: voltar. Será que tomei a decisí£o errada, fui muito radical? Retorno ao hotel, farei outra vez as malas, me despedirei de novo dos amigos, enfrentarei os controles de seguraní§a no aeroporto, e seguirei adiante, para outra grande cidade, onde me esperam praticamente as mesmas coisas.

Entro no meu quarto, ligo o computador, e visito o blog que criei para esta viagem. Meus leitores colocam seus comentários, e parece que um deles adivinhou o que estava sentindo hoje, porque conta uma história:

“Era uma vez um homem pobre mas corajoso que se chamava Ali. Trabalhava para Ammar, um velho e rico comerciante. Certa noite de inverno, disse Ammar: “ninguém pode passar uma noite assim no alto da montanha, sem cobertor e sem comida. Mas voce precisa de dinheiro, e se conseguir fazer isso, receberá uma grande recompensa. Se ní£o conseguir, trabalhará de graí§a por trinta dias”. Ali respondeu: “amanhí£ cumprirei esta prova”. Mas ao sair da loja, viu que realmente soprava um vento gelado, ficou com medo, e resolveu perguntar ao seu melhor amigo, Aydi, se ní£o era uma loucura fazer esta aposta. Depois de refletir um pouco, Aydi respondeu: “vou lhe ajudar. Amanhí£, quando estiver no alto da montanha, olhe adiante. Eu estarei também no alto da montanha vizinha, passarei a noite inteira com uma fogueira acesa para voce. Olhe para o fogo, pense em nossa amizade, e isso o manterá aquecido. Vocíª vai conseguir, e depois eu lhe peí§o algo em troca.” Ali venceu a prova, pegou o dinheiro, e foi até a casa do amigo: “voce me disse que queria um pagamento.” Aydi agarrou-o pelos ombros: “sim, mas ní£o é em dinheiro. Prometa que, se em algum momento o vento frio passar por minha vida, acenderá para mim o fogo da amizade.”

O leitor termina o comentário no blog: “independente de onde estiver agora, obrigado por ter nos visitado. Quando resolver retornar ao nosso paí­s, sempre estará aceso para vocíª o fogo da amizade”.

E embora a solidí£o da viagem ainda continue em minha alma, entendo melhor o que estou fazendo aqui.

Próximo texto: 15.05.06

P.S: Estimado leitor,

Durante esta caminhada, que está enchendo minha alma de experiíªncias interessantí­ssimas, um dos momentos mais mágicos é quando chega a noite e posso ler os comentários no blog. Embora ní£o tenha como responder a todos, saibam que é muití­ssimo importante para mim entender que ní£o estou só neste caminho. Muito obrigado pelo apoio e pelas palavras e idéias que estí£o sendo gravadas em meu coraí§í£o.

Paulo Coelho