O Aleph

Pouco antes de um livro meu ser publicado, geralmente escrevo muitas páginas a respeito daquilo que senti enquanto o escrevia. “O Aleph” sai no Brasil dia 27 de julho 2010. Abaixo algumas perguntas que fiz a mim mesmo durante esta semana:

1) Em O Aleph, vocíª menciona que em 2006 estava passando por um momento de questionamento de sua fé. O que desencadeou esta crise?
A fé ní£o é algo estático, mas uma dinamica constante. Um famoso mí­stico alemí£o já disse que muitas vezes ele estava com muita fé antes de atravessar uma rua, e quando chegava na outra calí§ada toda a sua devoí§ao havia desaparecido. Portanto, eu nao chamaria isso de crise, mas de um comportamento normal, com altos e baixos. Uma fé que se cristaliza perde o seu sentido e se transforma em fanatismo. A fé cresce quando é alimentada pela dúvida e pelos questionamentos interiores. Deus é verbo, Deus é aí§í£o – e nosso contato com ele, que chamamos de “fé” tambem faz parte desta aí§ao. Ou seja: minha busca espiritual passa por um questionamento diário, e é isso que a faz mais forte, mesmo que em determinados momentos – como em 2006 – este periodo estivesse se prolongando por muito tempo.

2) Em determinado momento, vocíª chega a dizer que ní£o se sentia mais perto de Deus. Como vocíª se sente hoje em relaí§í£o a isso?
O fato de nao me sentir perto de Deus em determinados momentos, jamais significou que Ele ní£o estava ao meu lado todo o tempo. Era apenas uma questí£o de reconhecer isso – algo que nunca duvidei. Ou seja, o ser humano, com suas limitaí§íµes, cria suas fantasias, mas a alma deste mesmo ser humano diz:”está bem, curta seu momento de fraqueza, mas voce sabe que é uma bobagem – Deus jamais lhe abandonou e jamais lhe abandonará”. Com o passar do tempo, essa realidade se impíµe.

3) No comeí§o da carreira, tí­tulos como O diário de um mago e O alquimista mostravam bastante seu fascí­nio pela busca espiritual. Em O Aleph, vocíª chegou a pensar que “livros sagrados, revelaí§íµes, manuais e cerimí´nias” podiam parecer coisas absurdas, e sem efeitos duradouros. Vocíª ní£o teve medo de expor esses seus questionamentos?
Desde “O Diario de um mago” e da peregrinaí§ao a Santiago de Compostela eu tive a revelaí§ao mais importante da minha vida: o mágico estí  í  nossa volta. Em 1986 eu vinha de quase 20 anos acreditando nos “segredos, revelaí§oes”, etc. e foi só aó que entendi que tudo que estava oculto está revelado. Dediquei í– Diario de um mago ao meu guia, com as seguintes palavras: “Quando comeí§amos a peregrinaí§í£o, eu achei que havia realizado um dos maiores sonhos da minha juventude. Mas vocíª resistiu bravamente a todas as minhas tentativas de transformá-lo em herói. Isto tornou muito difí­cil nosso relacionamento, até que entendi que o Extraordinário reside no Caminho das Pessoas Comuns. Hoje em dia, esta compreensí£o é o que possuo de mais precioso na minha vida.”

4) A Transiberiana seria parte de sua terceira peregrinaí§í£o. De que maneira ela se assemelha ao Caminho de Santiago de Compostela?

a] O Caminho de Santiago era um movimento importante no espaí§o fí­sico: eu partia do ponto A, chegava no ponto B, e durante esta viagem encontrava e absorvia tudo que estava diante de mim.
b] O Caminho de Roma (1989) foi uma peregrinaí§ao no tempo: precisei ficar 70 dias no mesmo lugar (neste caso Lourdes, na Franí§a), e embora as coisas nao “acontecessem” como em uma viagem normal, o fato de nao poder mover-me além de certos limites obrigou minha alma a ver as mesmas coisas de maneira diferente.
c] Finalmente, o Caminho de Jerusalem ( que incluiu a Transiberiana, onde procurei sintetizar toda a experiencia ali adquirida) fez com que eu me movesse ní£o apenas no espaí§o fí­sico mas tambem no tempo (trazendo o passado ao presente, e levando o presente ao passado) . Nunca imaginei que conseguiria escrever a respeito, mas depois de quatro anos amadurecendo a idéia, o momento chegou.

5) O Aleph é um retorno ao livro em primeira pessoa. Quais as diferení§as entre escrever ficí§í£o e ní£o-ficí§í£o.

É muito mais difí­cil escrever ní£o-ficí§í£o, porque o autor ní£o tem outra escolha a ní£o ser expor publicamente sua alma. Isso nem sempre é agradável, mas é necessário. Como dizia Jesus, “a verdade vos libertará”.

7) Hilal (personagem feminina central no livro) foi seu amor em uma vida passada, mas ela o descreve como seu amor nesta vida. Como vocíª lidou com isso?

Eu estou casado há 30 anos com a mesma mulher, e isso me dá muito mais tranquilidade para enfrentar este tipo de situaí§í£o. Tambem conta o fator “idade”: o amor exige sobretudo uma relaí§í£o apaixonada e madura, que tenho hoje em dia com Christina. Hilal, quando a conheci, tinha 21 anos (embora parecesse mais velha). Conversamos recentemente por email: ela pressentiu que eu estava escrevendo sobre nossa experiencia, e voltamos a ter contato. Ní£o perguntei sobre sua vida afetiva, mas tenho certeza que é uma questí£o de tempo até que encontre a pessoa que Deus colocou em sua vida.