O Aleph: Hilal e o conservatório

Quando chego ao saguí£o, a onipresente Hilal está nos esperando. Junto com ela, estí£o uma senhora muito bonita e um senhor de terno e gravata.

– Olá – digo. – Entendo que está de volta a sua casa. Mas foi uma alegria vocíª ter viajado este trecho comigo. Sí£o seus pais?
O homem ní£o mostra qualquer reaí§í£o, mas a bela senhora ri.
– Quem dera! Essa menina é um prodí­gio. Pena que ní£o consegue dedicar-se o suficiente í  sua vocaí§í£o. Que grande artista o mundo está perdendo!

Hilal parece que ní£o escutou o comentário. Vira-se direto para mim:
– Olá? É isso que vocíª tem a me dizer depois daquilo que aconteceu no trem?

A mulher olha espantada. Imagino o que está pensando: o que aconteceu no trem? Eu e ela fomos para a cama? Será que eu ní£o entendo que podia ser pai desta menina?

Sentamos e pedimos um chá. A mulher bonita se apresenta como professora de violino e explica que o senhor que as acompanha é o diretor do conservatório local.

– Penso que Hilal é um daqueles grandes talentos desperdií§ados – diz a professora. – Ela é extremamente insegura. Já lhe disse isso várias vezes e estou repetindo agora. Ní£o tem confianí§a no que faz, acha que ní£o é reconhecida, que as pessoas detestam seu repertório. Ní£o é verdade.
Hilal insegura? Acho que conheci poucas pessoas tí£o determinadas como ela.
– E como toda pessoa que tem muita sensibilidade – continua a professora de olhos doces e complacentes – é um pouco… digamos… instável.
– Instável! – repete Hilal em voz alta. – Uma palavra educada para dizer: LOUCA!

A professora vira para ela com carinho e volta-se novamente para mim, aguardando que eu diga alguma coisa. Eu ní£o digo nada.
– Sei que o senhor pode ajudá-la. Soube que a viu tocando violino em Moscou. E soube também que ela foi aplaudida. Isso nos dá uma ideia do seu talento porque o pessoal de Moscou é muito exigente com música. Hilal é disciplinada, estuda mais que a maioria dos outros, já tocou em orquestras importantes aqui na Rússia e viajou para o exterior junto com uma delas. Mas, de repente, alguma coisa aconteceu. Ní£o conseguiu mais progredir.

– Mas o que posso fazer?
– O senhor sabe o que pode fazer. Mesmo que ela ní£o seja uma crianí§a, seus pais estí£o preocupados. Ela ní£o pode parar sua carreira profissional no meio de ensaios e seguir uma ilusí£o. Ou seja, ela pode ir até o Pací­fico a qualquer outra hora, mas ní£o neste momento, quando temos um novo concerto para ensaiar.
A mulher bonita faz uma pausa. Entende que a frase certa ní£o era exatamente a que acabara de dizer.

– Diploma de faculdade é que nem tí­tulo de nobreza- diz Hilal. – Dá status, mas ní£o serve para nada. Se eu quiser vencer na vida, tenho que percorrer um caminho que é só meu.

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