HIPPIE – primeiro capítulo

Em setembro de 1970, dois locais disputavam o privilégio de ser considerados o centro do mundo: Picadilly Circus, na Inglaterra, e o Dam, em Amsterdã. Mas nem todo mundo sabia disso: se perguntassem à maior parte das pessoas, elas teriam respondido: “a Casa Branca, nos EUA, e o Kremlin na URSS”. Porque essas pessoas se informavam por jornais, televisão, rádio, meios de comunicação já completamente ultrapassados e que jamais voltariam a ter a relevância que tiveram quando foram inventados.

Em setembro de 1970, as passagens de avião eram caríssimas, o que permitia apenas a uma elite viajar. Bem, não é exatamente assim: uma multidão imensa de jovens, que os antigos meios de comunicação se concentravam apenas no aspecto externo: cabelos longos, roupas coloridas, que não tomavam banho (o que era uma mentira, mas os jovens não liam jornais, e os adultos acreditavam em qualquer notícia capaz de insultar aqueles que consideravam uma “ameaça para a sociedade e os bons costumes”), que ameaçavam uma geração inteira de moços e moças estudiosos procurando vencer na vida com seus péssimos exemplos de libertinagem e “amor livre” como gostavam de dizer com desprezo. Pois bem, essa multidão cada vez mais numerosa de jovens tinha um sistema de divulgar noticias que ninguém, absolutamente ninguém, conseguia detectar.

Entretanto, o “Correio Invisível” estava pouco ligando para divulgar e comentar o novo modelo da Volkswagen ou os novos tipos de sabão em pó que acabara de ler lançado no mundo inteiro. Suas notícias resumiam-se a qual seria a próxima grande trilha a ser percorrida por aqueles jovens insolentes, sujos, praticantes de “amor livre” e usando roupas que nenhuma pessoa de bom gosto seria capaz de vestir. As meninas com seus cabelos em trança coberto de flores e suas saias longas, blusas coloridas sem nenhum sutiã para esconder os seios, colares de todo tipo de cores e contas; os rapazes com cabelos e barba sem cortar a meses, usando jeans desbotados e rasgados de tanto uso, porque jeans eram caros em toda parte do mundo, exceto nos EUA – onde tinham deixado o gueto dos trabalhadores de fábrica e agora eram vistos nos gigantescos concertos em San Francisco e arredores.
O “Correio Invisível” existia porque as pessoas estavam sempre nesses concertos, trocando ideia sobre onde deveriam se encontrar, como podiam descobrir o mundo sem entrar em um ônibus de turismo onde um guia ia descrevendo as paisagens enquanto as pessoas mais jovens se entediavam e os velhos dormiam. E assim, através do chamado boca-a-boca, todos no mundo sabiam onde seria o próximo concerto ou a próxima grande trilha a ser percorrida. E não existiam limites financeiros para ninguém, porque o autor preferido de todos desta comunidade não era nem Platão nem Aristóteles, nem os comics de alguns desenhistas que haviam ganhado o status de celebridade. O grande livro, que praticamente ninguém viajava para o velho continente sem ele, chamava-se Europa a 5 dólares por dia. Nele todos podiam saber onde se hospedar, o que ver, onde comer e onde eram os pontos de encontro e os lugares onde se podia assistir música ao vivo sem gastar praticamente nada.

O único erro do Frommer foi ter, na época, limitado seu guia à Europa. Não existiam outros lugares interessantes, por acaso? As pessoas não estavam mais dispostas a ir para a Índia do que para Paris? Frommer corrigiria tal falha alguns anos depois, mas enquanto isso o “Correio Invisível” se encarregou de promover uma rota na América do Sul, em direção à ex-cidade perdida de Machu Picchu, alertando a todos que não comentassem muito com quem não conhecia a cultura hippie, ou em breve o lugar seria invadido por bárbaros com suas máquinas fotográficas e as extensas explicações (rapidamente esquecidas) de como um bando de índios haviam criado uma cidade tão bem escondida que só poderia ser descoberta do alto – algo que eles julgavam incapaz de acontecer, porque homens não voam.
Sejamos justos: existia um segundo e imenso best-seller, não tão popular como o livro do Frommer, mas que era consumido por gente que já tinha vivido sua fase socialista, marxista, anarquista, todas terminando em uma profunda desilusão com o sistema inventado por aqueles que diziam que era “inevitável a tomada do poder pelos trabalhadores no mundo inteiro.” Ou que “a religião é o ópio do povo”, provando que quem dissera frase tão estúpida não entendia de povo e muito menos de ópio. Porque entre as coisas que os jovens malvestidos, roupas diferentes, sem tomar banho etc. acreditavam era em Deus, deuses, deusas, anjos e coisas do tipo. O único problema é que tal livro, chamado O despertar dos mágicos de autoria de dois autores, o francês Louis Pawels e russo Jacques Bergier – matemático, ex-espião, pesquisador incansável de ocultismo, que dizia exatamente o contrário: o mundo está composto de coisas interessantíssimas, existem alquimistas, magos, cátaros, templários, e outras palavras que faziam com que nunca fosse um grande sucesso de livraria, porque um exemplar era lido por – no mínimo – dez pessoas, dado a seu custo exorbitante. Enfim, Machu Picchu estava no livro, e todos queriam ir até lá, no Peru, e ali estavam jovens do mundo inteiro (bem, do mundo inteiro é um pouco de exagero, porque os que viviam na URSS não tinham assim tanta facilidade em sair dos seus países).

Mas enfim, voltando ao assunto: jovens de todos os lugares do mundo, que conseguiam pelo menos um bem inestimável chamado “passaporte”, encontravam-se nas chamadas “trilhas hippie”. Ninguém sabia exatamente o que a palavra “hippie” queria dizer, e isso não tinha a menor importância. Talvez seu significado fosse “uma grande tribo sem líder” ou “marginais que não assaltam”, ou todas as descrições já feitas logo na abertura deste capítulo.
Os passaportes, estas pequenas cadernetas fornecidas pelo governo, colocados em uma bolsa presa na cintura junto com o dinheiro (pouco ou muito era irrelevante) tinham duas finalidades. A primeira, como todos sabemos, era poder atravessar fronteiras – desde que os guardas não se deixassem levar pelas notícias que liam, e resolvessem mandar a pessoa de volta porque não estavam acostumados com aquelas roupas e aqueles cabelos e aquelas flores e aqueles colares e aquelas miçangas e aqueles sorrisos de quem parecia estar em um constante estado de êxtase – normalmente, mas injustamente, atribuídos às drogas demoníacas que, dizia a imprensa, os jovens consumiam em quantidades cada vez maiores.

A segunda função do passaporte era livrar seu portador de situações extremas – quando o dinheiro acabava por completo e ele não tinha a quem recorrer. O tal “Correio Invisível” sempre fornecia a informação necessária dos locais onde ele poderia ser vendido. O preço variava de acordo com o país: um passaporte da Suécia, onde todos eram louros, altos e de olhos claros, valia muito pouco – já que só poderia ser revendido a louros, altos, de olhos claros, e esses geralmente não estavam na lista dos mais requisitados. Mas um passaporte do Brasil valia uma fortuna no mercado paralelo – já que o Brasil, além de louros, altos e de olhos claros, também tem negros altos e baixos de olhos escuros, orientais de olhos rasgados, mulatos, índios, árabes, judeus, enfim, um imenso caldo de cultura que terminava resultando em um dos mais cobiçados documentos do planeta.
Uma vez vendido o passaporte, o portador original ia até o consulado do seu país e, fingindo terror e depressão, dizia que tinha sido assaltado e que roubaram tudo – estava sem dinheiro e sem passaporte. Os consulados de países mais ricos ofereciam passaporte e passagem grátis de volta ao país, o que era imediatamente rejeitado, sob a alegação de que “alguém está me devendo uma boa quantia, preciso antes receber o que é meu”. Os países pobres, normalmente baixo a severos sistemas de governo, nas mãos de militares, faziam uma verdadeira enquete para ver se o requerente não estava na lista de “terroristas” procurados por subversão. Uma vez que constatavam que a moça (ou o rapaz) tinha ficha limpa, eram obrigados, contra a vontade, a fornecer o documento. Nem sequer ofereciam passagem de volta, porque não havia interesse em ter aquelas aberrações influenciando uma geração que estava sendo educada respeitando Deus, a família e a propriedade.

 

Voltando às trilhas: depois de Machu Picchu foi a vez de Tiahuanaco, na Bolívia. Em seguida, Lhasa, no Tibete, onde era muito difícil de entrar porque havia, segundo o “Correio Invisível”, uma guerra entre os monges e os soldados chineses. Claro que era difícil imaginar esta guerra, mas todo mundo acreditava e não iria arriscar uma longuíssima viagem apenas para terminar prisioneiro dos monges ou dos soldados.

Finalmente os grandes filósofos da época – Lennon, McCartney, Harrison e Starr –  que justamente haviam se separado em abril daquele ano – anunciaram que a grande sabedoria do planeta estava na Índia. Foi o bastante para que jovens do mundo inteiro se dirigissem ao país em busca de sabedoria, conhecimento, gurus, votos de pobreza, iluminação, encontro com o My Sweet Lord.
O “Correio Invisível”, porém, avisou que o grande guru dos Beatles, Maharishi Mahesh Yogi, havia tentado seduzir e ter relações sexuais com Mia Farrow, uma atriz que no decorrer dos anos tivera sempre experiências amorosas infelizes, e tinha ido para a Índia a convite dos Beatles, possivelmente para curar-se dos traumas relacionado à sexualidade que parecia persegui-la como um carma ruim.
Mas tudo indica que o carma de Mia Farrow iria também viajar para o mesmo lugar, junto com John, Paul, George e Ringo. Segundo ela, estava meditando na caverna do grande guru quando ele a agarrou e tentou forçá-la a ter relações sexuais. A essa altura, Ringo já tinha voltado para a Inglaterra porque a mulher detestava comida indiana, e Paul também resolveu abandonar o retiro, convencido que aquilo não o estava levando a lugar nenhum.
Apenas George e John permaneciam no templo de Maharishi quando Mia chegou até eles, em lágrimas, e contou o que tinha acontecido. Imediatamente os dois arrumaram suas malas e, quando o Iluminado veio perguntar o que estava acontecendo, a resposta de Lennon foi contundente:
“Se você é tão f*** iluminado, você sabe muito bem”

Ora, em setembro de 1970 as mulheres dominavam o mundo – melhor dizendo, as jovens hippies dominavam o mundo. Os homens andavam de lá para cá sabendo que o que as seduzia não era a moda – elas eram muito melhores que eles no assunto -, de modo que resolveram aceitar de uma vez por todas que eram dependentes, viviam com o ar de abandono e o pedido implícito de “proteja-me, estou sozinho e não consigo encontrar ninguém, acho que o mundo me esqueceu e o amor me abandonou para sempre” . Elas escolhiam seus machos e nunca pensavam em casar, apenas em passar um bom e divertido tempo com um intenso e criativo sexo. E, tanto em coisas importantes como superficiais e irrelevantes, a última voz era mesmo delas. Portanto, quando o “Correio Invisível” espalhou a notícia do assédio sexual de Mia Farrow e da frase de Lennon, imediatamente decidiram mudar de rota.
Outra trilha hippie foi criada: de Amsterdã (Holanda) até Kathmandu (Nepal), em um ônibus que custava aproximadamente 100 dólares, e atravessava países que deviam ser muito interessantes: Turquia, Líbano, Iran, Iraque, Afeganistão, Paquistão e parte da Índia (bem longe do templo de Maharishi, diga-se de passagem). A viagem demorava três semanas e percorria um número infinito de quilômetros.

***

Karla estava sentada no Dam perguntando quando o sujeito que deveria acompanhá-la nesta mágica aventura (segundo ela, claro) ia chegar. Abandonara seu emprego em Rotterdam, que estava a apenas à uma hora de trem, mas como precisava economizar cada centavo, viera de carona e a viagem demorara quase um dia. Descobrira a viagem de ônibus para o Nepal em uma das dezenas de jornais alternativos que eram feitos com muito suor, amor e trabalho por gente que achava ter algo a dizer para o mundo, e em seguida vendidos por uma quantia insignificante.
Depois de uma semana esperando, começou a ficar nervosa. Tinha abordado uma dezena de rapazes vindos do mundo inteiro, interessados apenas em ficar ali, naquela praça sem o menor atrativo além de um monumento em forma de falo, o que pelo menos deveria estimular a virilidade e a coragem. Mas não; nenhum deles estava disposto a ir para lugares tão desconhecidos.
Não se tratava de distância: a maioria era dos EUA, América Latina, Austrália e outros países que exigiam dinheiro para as passagens caríssimas de avião e muitos postos de fronteira onde poderiam ser barrados e ter que voltar para seus países de origem sem conhecer uma das duas capitais do mundo. Chegavam ali, sentavam-se na praça sem graça, fumavam marijuana, alegravam-se porque podiam fazer isso sob a vista de policiais, e começavam a ser literalmente sequestrados por seitas a cultos que abundavam na cidade. Esqueciam pelo menos por algum tempo o que viviam escutando: meu filho você tem que ir para a universidade, cortar esse cabelo, não envergonhe seus pais porque os outros (os outros?) vão dizer que lhe demos uma péssima educação, isso que você escuta NÃO é música, já é hora de arranjar um trabalho, ou veja o exemplo do seu irmão (ou irmã) que mesmo mais jovem que você já tem dinheiro suficiente para sustentar seus prazeres e não precisam pedir nada para nós.
Longe da eterna ladainha da família, eram agora pessoas livres, e a Europa era um lugar seguro (desde que não se aventurassem a atravessar a famosa Cortina de Ferro, “invadindo” um país comunista), e eles estavam contentes, porque em viagem se aprende tudo que irá ser necessário para o resto da vida, desde que não precisem explicar isso aos pais.
“Meu pai, eu sei que você quer que eu tenha um diploma, mas isso eu posso ter a qualquer momento da vida, o que preciso agora é experiência”.
Não havia pai que entendesse esta lógica, e só restava mesmo juntar algum dinheiro, vender alguma coisa, e sair de casa quando eles estavam dormindo.
Tudo bem, Karla estava cercada de pessoas livres e determinadas a viver coisas que a maioria não estava tendo coragem de viver. Mas por que não ir de ônibus para Kathmandu? Porque, respondiam, não é Europa. É completamente desconhecida para nós. Se acontecer alguma coisa, sempre podemos ir até o consulado e pedir para sermos repatriados (Karla não conhecia um só caso onde isso tinha ocorrido, mas era a lenda e a lenda vira verdade quando é muito repetida).

No quinto dia esperando aquele que ela iria designar como seu “acompanhante”, começou a ficar desesperada – estava gastando dinheiro em um dormitório, quando podia facilmente dormir no Magic Bus (esse era o nome oficial do ônibus de 100 dólares e milhares de quilômetros). Resolveu entrar no consultório de uma vidente onde passava sempre antes de ir para o Dam. A vidente, como sempre, estava vazia – em setembro de 1970 todo mundo tinha poderes paranormais, ou os estavam desenvolvendo. Mas Karla era uma mulher prática e, embora também meditasse todos os dias e estivesse convencida que havia começado a desenvolver sua terceira visão – um ponto invisível que fica entre os olhos -, até o momento só tinha encontrado rapazes errados, mesmo que sua intuição garantisse que eram certos.
Portanto, resolveu apelar para a vidente, sobretudo porque aquela espera sem fim (já se haviam passado quase uma semana, uma eternidade!) a estava levando a considerar seguir adiante com uma companhia feminina, o que podia ser um suicídio, sobretudo porque atravessariam muitos países onde duas mulheres sozinhas seriam no mínimo mal vistas e, na pior das hipóteses, segundo sua avó, terminariam sendo vendidas como “escravas brancas”.

 

17 de abril: ebook      

28 de abril: livro físico