Archives for July 2, 2019

40 seg leitura: Irmã (Santa!) Dulce e eu

Estava passando fome, doente, perdido em Salvador. Tinha fugido de um sanatório psiquiatrico onde fora internado por meus pais, desesperados para controlar o filho “rebelde”.

Vagava pela cidade, até que alguem me disse que havia uma freira que poderia me ajudar – ou eu corria o risco de ser preso por vagabundagem. Fui à pé até a casa da freira. Juntei-me às muitas pessoas que estavam ali em busca de socorro, chegou minha vez, e de repente estava frente à frente com ela. Perguntou o que eu queria, a resposta foi simples: “ quero voltar para casa e não tenho como.” Ela não fez mais perguntas. Não comentei que tinha fugido do hospício.

Tirou um papel de sua gaveta, escreveu que valia passagem para o RJ. Me abençoou. Fui até a rodoviária, o motorista fez um ar de desanimo, mas mandou-me entrar – ninguem tinha coragem de dizer “não” a um pedido dela. Cheguei ao Rio (as pessoas no onibus dividiam a comida com todos), fui recebido com amor e não voltei a ser internado.

É com lágrimas nos olhos que escrevo estas linhas. Obrigado, Santa Dulce, por seus dois milagres: permitir a volta do filho pródigo, e me dar a honra de ajudar seu hospital, sempre de portas abertas

(nota: a biografia O MAGO, de Fernando Morais, tem um facsimile do bilhete )