Chernobyl e eu

2004: chegamos na pequena cidade ao lado da usina, que eu já tinha visto do alto. Um museu improvisado, um guarda jovem de olhar vazio recebem os cinco únicos visitantes.

Vemos a maquete que reproduz o desastre. Em seguida somos conduzidos a uma pequena sala para uma projeção.

 

O vídeo foi filmado na manhã do dia 26 de abril de 1986, e mostra uma vida normal em uma cidade normal. Um homem sentado tomando café. A mãe passeando com o bebê pela rua. As pessoas atarefadas, indo para o trabalho, uma ou duas pessoas esperando no ponto de ônibus. Um senhor lendo um jornal em um banco de uma praça.

Mas o vídeo está com problema: aparecem várias riscas horizontais, como se o botão de “tracking” precisasse ser mexido, de modo que eu e mais cinco pessoas que estão comigo, pudessemos ver uma melhor imagem. Penso em pedir que façam isso, mas penso também que alguém deve ter notado, e em breve vão tomar alguma providência.

O vídeo sobre a pequena cidade do interior continua passando, sem absolutamente nenhuma coisa interessante além das cenas da vida comum. É possível que algumas daquelas pessoas saibam que aconteceu um acidente a dois quilômetros dali. É possível também que saibam que ocorreram 30 mortes – o que é um número grande, mas não o suficiente para mudar a rotina dos habitantes.

As cenas agora mostram ônibus escolares estacionando. Ali ficarão por muitos dias, sem que nada aconteça. As imagens estão muito ruins, e me viro para Katya, pedindo que tente ver o que está acontecendo.

Ela não responde – perdeu a voz. Viro-me para Oleg, que diz uma só palavra:

– Não é o “tracking”. É a radiação.

Na noite do dia 26 de abril, as 1:23 da manhã, o pior desastre criado pela mão homem aconteceu em Chernobyl, Ucrânia, onde estou agora assistindo este vídeo. Com a explosão de um reator nuclear, as pessoas da área foram submetidas a uma radiação 90 vezes maior que a da bomba de Hiroshima. Era necessário evacuar imediatamente a região, mas ninguém, absolutamente ninguém disse nada – afinal de contas, o governo não comete erros. Uma semana depois, apareceu na página 32 do jornal local uma pequena nota de cinco linhas, falando da morte dos operários, e mais nada. Nesse meio tempo, foi comemorado o Dia do Trabalho em toda a ex-União Soviética, e em Kiev, capital da Ucrânia, as pessoas desfilam sem saber que a morte invisível está no ar.

Eu volto ao meu passado: estou em um bar no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, quando a TV dá a notícia – porque a esta altura aparelhos na Suécia, há milhares de quilômetros dali, detectaram a poeira radioativa que caminha em direção àquele país.

Na noite do dia 26 de abril, as 1:23 da manhã, o pior desastre criado pela mão homem aconteceu em Chernobyl, Ucrânia, onde estou agora assistindo este vídeo. Com a explosão de um reator nuclear, as pessoas da área foram submetidas a uma radiação 90 vezes maior que a da bomba de Hiroshima. Era necessário evacuar imediatamente a região, mas ninguém, absolutamente ninguém disse nada – afinal de contas, o governo não comete erros. Uma semana depois, apareceu na página 32 do jornal local uma pequena nota de cinco linhas, falando da morte dos operários, e mais nada. Nesse meio tempo, foi comemorado o Dia do Trabalho em toda a ex-União Soviética, e em Kiev, capital da Ucrânia, as pessoas desfilam sem saber que a morte invisível está no ar.

 

Eu volto ao meu passado: estou em um bar no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, quando a TV dá a notícia – porque a esta altura aparelhos na Suécia, há milhares de quilômetros dali, detectaram a poeira radioativa que caminha em direção àquele país.

Apenas trinta mortes aquele dia. E no entanto, segundo um relatório das Nações Unidas feito em 1995, um total de 9 milhões de pessoas no mundo inteiro foram afetadas diretamente pelo desastre, entre elas três a quatro milhões de crianças. As trinta mortes se transformaram, segundo o especialista John Gofmans, em milhares de casos de câncer fatais, e  não-fatais.

 

O silêncio dos culpados durou muito mais do que se esperava; afinal de contas, ninguém vê a poeira radioativa. Mas finalmente, quando o mundo inteiro já sabia, quando a poeira havia se espalhado por toda a Europa,  400.000 pessoas tiveram que ser evacuadas. Um total de 2.000 cidades e vilarejos foram simplesmente riscados do mapa. Segundo o Ministério da Saúde da Bielorússia, o índice de câncer na tiróide no país deve aumentar consideravelmente entre 2005 e 2010, como conseqüência da radiatividade que ainda continua a fazer efeito.

O vídeo, filmado pela KGB – a polícia secreta da União Soviética – termina com alguns agentes vestindo roupas especiais. Katya, Oleg, Yuri, Lena, estão chorando. Nos levantamos e, por causa do silencio dos culpados, os inocentes também ficam em silencio – porque não há nada, absolutamente nada a dizer.