Woodstock

Em 1999, minha agente voltava da Russia com noticias ruins: a editora de meu livro “O Alquimista” havia desistido de continuar a publicaí§í£o, já que o livro vendera menos de 3.000 cópias. Depois de muito esforí§o, conseguimos encontrar outra editora que se comprometeu a publicar de novo o livro em russo, mas estava localizada em Kiev, na Ucrania, e tinha dificuldade em comprar papel (naquele momento, ní£o disponí­vel no mercado). O mais curioso é que semanas antes eu havia encontrado uma edií§í£o pirata na internet, e minha primeira reaí§í£o foi atribuir a baixa venda dos livros í  pirataria.

Entretanto, como qualquer autor, o que realmente me interessava era ser lido; já que ní£o tinha mais o livro fí­sico, e já que ní£o sabia quando a nova editora conseguiria papel necessário para impressí£o, por que entí£o ní£o estimular pelo menos a leitura do livro virtual? Agindo por impulso, coloquei a traduí§í£o pirata no meu site, para ser downloaded por todos que visitassem ali.

No final do ano 2000, a editora ucraniana estava entusiasmada: haví­amos vendido dez mil exemplares! Um ano depois, subí­amos para 100 mil, e em 2002 atingiamos a casa de 1 milhí£o de exemplares vendidos. Durante todo este perí­odo, recebia emails fazendo referencia í  edií§í£o pirata que havia colocado no site, e grande parte destes emails dizia: “que bom que pude ter contato com seu trabalho”. Conclusí£o pessoal: como a Rússia era um paí­s gigantesco, com muitas dificuldades para distribuií§í£o, a internet estava ajudando a propagar o texto. Entusiasmado, resolvi fazer a mesma coisa com outros livros, mas estava diante de um problema legal: a traduí§í£o que encontrara em russo tinha sido colocada pelo tradutor, como fazer com traduí§íµes que ní£o me pertenciam? A soluí§í£o que encontrei foi colecionar todos os links dos sites de P2P ( file sharing ) e inventar o meu “Pirate Coelho”.

O “Pirate Coelho” se tornou um hit nas comunidades sociais, e em 2007, quando o pela primeira vez mencionei publicamente durante o encontro no Digital Life Design, em Munich, tí­nhamos uma média de 1 milhao unique visitors por míªs, que podiam encontrar quase todos os meus textos em diversas lí­nguas – do alemí£o ao Malayalam (dialeto da India). Meus livros vendiam cada vez mais. Até aquele momento nenhum editor havia reclamado, o que me fazia entender que tinham conhecimento do site, mas tinham também decidido aceitar a decisí£o do autor.

Mas um dia depois que a mí­dia tradicional publicou minha conferencia em Munich , meu telefone comeí§ou a tocar. Alguns editores perguntavam: vocíª sabe o risco que está correndo? Ní£o entende que isso vai diminuir a venda dos seus livros? Eu argumentava que o Pirate Coelho já estava no ar desde 2005,e as vendas só faziam aumentar – ou seja, o modelo editorial clássico só estava se beneficiando do file sharing. Mas devo confessar que, apesar de ter o maior respeito por meus editores, aquilo que eles julgavam ser realidade ní£o coincidia com o que estávamos todos experimentando.


A esta altura já havia ultrapassado a barreira dos 100 milhoes de exemplares, o que me dava algumas regalias, entre elas a conseguir manter o Pirate Coelho no ar (onde está até hoje), apesar do “mau exemplo”.

Como explicar o que aconteceu? Penso que a palavra “greedy” ní£o causa problemas apenas para o mercado financeiro, mas para qualquer industria que resolve monopolizar um produto ou informaí§í£o. No meu caso, os leitores comeí§avam a ler meus livros na tela do computador, eventualmente gostavam, e o próximo passo seria comprar um exemplar – mais cí´modo e mais barato. E assim foi durante muitos anos.

Dizia W. Somerset Maugham: “We do not write because we want to; we write because we must.” E porque queremos ser lidos. No Sec. XVI a Igreja criou o Index Librorum Prohibitorum (“List of Prohibited Books”); apesar de muitas vezes os autores dos textos terminarem encontrando a morte na fogueira, a lista continuou aumentando nos quatro séculos que durou. Em um exemplo mais recente, dissidentes soviéticos mimeografavam seus livros e distribuí­ram suas idéias í  quem quisesse ler. Dois deles, Aleksandr Solzhenitsyn e Boris Pasternak, receberam o Premio Nobel.

A industria do livro ní£o pode seguir os passos da industria musical, que conseguiu fechar a Napster só para ver a proliferaí§í£o de sites de file sharing. Com os novos suportes – como o Kindle, o Nook, o Sony Reader, e as várias aplicaí§íµes do iPhone e Blackberry, o autor que antes colocava seus textos em blogs (gratuitamente), irá escolher os formato eletrí´nicos, e a partir deste momento a editora passa a ser dispensável – como sí£o hoje as gravadoras de discos. Os paí­ses que estí£o apoiando a repressí£o do file sharing, como a Franí§a por exemplo, verí£o seus escritores perder terreno e importí¢ncia em um mundo cada vez mais competitivo. Repressí£o ní£o é a resposta. A resposta é usar o que a tecnologia tem de bom, para promover e divulgar o que a literatura tem de melhor.

Muita gente argumenta que eu, depois de ter vendido a quantidade que vendi, posso me dar ao luxo de fazer isso. O que aconteceu foi exatamente o contrário: vendi essa quantidade porque me dei ao trabalho de fazer isso. Se hoje alguém me propusesse publicar um livro para tríªs leitores, ganhando 3 milhoes de dólares, ou publicar um livro para tríªs milhíµes de leitores, ganhando tríªs dólares, com toda certeza eu escolheria a segunda opí§í£o.

Ní£o apenas eu, mas a maioria dos escritores que trabalha pelo prazer de ser lido.