Archives for July 2019

Chernobyl and I

2004: I saw the nuclear plant from the window of the plane. We arrive in a small village, where an improvised museum was created. A sleepy young man take the five people to a room where there arte some artifacts, masks, and a projector connected to an old television. We start watching the video, filmed in the morning of April 26, 1986. A normal day in a normal city.

A man is sitting, having coffee. A mother is strolling with her baby on the street. People are busy, going to work; one or two people are waiting at the bus stop. An elderly man is reading the newspaper at a public square bench.

But the video has a problem: there are several horizontal lines, as if the tracking bottom needed to be adjusted, so that I and the other people, who are with me, could see a better image.

I think of having someone fixing it, but I also think that someone must have noticed it, and soon they will take care of it. The video about the small  city keeps running with absolutely nothing interesting besides the scenes of ordinary life.

It is possible that some of these people know that an accident has happened 2km from there. It is also possible that they know that there were 30 casualties, which is a high number, but not high enough to change the routine of the city’s inhabitants.

The scenes now show school buses parking. There they’ll stay for many days, while nothing happens. The images are very bad, and I turn to Katya, asking her to see what is going on.

She doesn’t answer – she lost her voice.

I turn to Oleg, who says a single sentence:

‘It isn’t the tracking. It is radiation.’

At 1:23 a.m. on April 26, the worst disaster created by the man took place in Chernobyl, Ukraine, where I am now watching this video.

With the explosion of a nuclear reactor, the local people were submitted to a radiation 90 times higher than the one from the Hiroshima bomb.

It was necessary to evacuate the region immediately, but no one, absolutely no one, said anything – after all, the government doesn’t commit errors.

A week later, a small note of five lines came up in Page 32 of the local newspaper, mentioning the death of the workers, and nothing else. In the meantime, Labour Day was being celebrated throughout the entire former Soviet Union, and in Kiev, Ukraine’s capital, people were parading unaware that invisible death was in the air.

I am thrown back to my past: I am at a bar in Jardim Botânico, in Rio de Janeiro, when Globo TV broadcasts the news. At this point, devices in Sweden, thousands of kilometers from Ukraine, detected the radioactive dust that is travelling in their direction.

Only 30 deaths on that day. And yet, according to the 1995 report from the United Nations, a total of nine million people around the world were directly affected by the disaster, among them 3-4 million children.

The 30 deaths, according to expert John Gofman, turned into thousand of fatal cancer cases and the same number of non-fatal cases. The silence of the guilty, however, lasted much more than expected; after all, no one sees the radioactive dust. But finally, when the entire world learned about it, when the dust had already spread throughout Europe, 400,000 people had do evacuate.

As many as 2,000 cities were simply scratched off the map.

The video, filmed by the KGB – the secret police from the Soviet Union – ends with agents putting on special clothes.

Katya, Oleg, Yuri and Lena are crying.

We get up. Because of the silence of the guilty, the innocent also stay in silence – because there is nothing, absolutely nothing, to say.

Chernobyl e eu

2004: chegamos na pequena cidade ao lado da usina, que eu já tinha visto do alto. Um museu improvisado, um guarda jovem de olhar vazio recebem os cinco únicos visitantes.

Vemos a maquete que reproduz o desastre. Em seguida somos conduzidos a uma pequena sala para uma projeção.

 

O vídeo foi filmado na manhã do dia 26 de abril de 1986, e mostra uma vida normal em uma cidade normal. Um homem sentado tomando café. A mãe passeando com o bebê pela rua. As pessoas atarefadas, indo para o trabalho, uma ou duas pessoas esperando no ponto de ônibus. Um senhor lendo um jornal em um banco de uma praça.

Mas o vídeo está com problema: aparecem várias riscas horizontais, como se o botão de “tracking” precisasse ser mexido, de modo que eu e mais cinco pessoas que estão comigo, pudessemos ver uma melhor imagem. Penso em pedir que façam isso, mas penso também que alguém deve ter notado, e em breve vão tomar alguma providência.

O vídeo sobre a pequena cidade do interior continua passando, sem absolutamente nenhuma coisa interessante além das cenas da vida comum. É possível que algumas daquelas pessoas saibam que aconteceu um acidente a dois quilômetros dali. É possível também que saibam que ocorreram 30 mortes – o que é um número grande, mas não o suficiente para mudar a rotina dos habitantes.

As cenas agora mostram ônibus escolares estacionando. Ali ficarão por muitos dias, sem que nada aconteça. As imagens estão muito ruins, e me viro para Katya, pedindo que tente ver o que está acontecendo.

Ela não responde – perdeu a voz. Viro-me para Oleg, que diz uma só palavra:

– Não é o “tracking”. É a radiação.

Na noite do dia 26 de abril, as 1:23 da manhã, o pior desastre criado pela mão homem aconteceu em Chernobyl, Ucrânia, onde estou agora assistindo este vídeo. Com a explosão de um reator nuclear, as pessoas da área foram submetidas a uma radiação 90 vezes maior que a da bomba de Hiroshima. Era necessário evacuar imediatamente a região, mas ninguém, absolutamente ninguém disse nada – afinal de contas, o governo não comete erros. Uma semana depois, apareceu na página 32 do jornal local uma pequena nota de cinco linhas, falando da morte dos operários, e mais nada. Nesse meio tempo, foi comemorado o Dia do Trabalho em toda a ex-União Soviética, e em Kiev, capital da Ucrânia, as pessoas desfilam sem saber que a morte invisível está no ar.

Eu volto ao meu passado: estou em um bar no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, quando a TV dá a notícia – porque a esta altura aparelhos na Suécia, há milhares de quilômetros dali, detectaram a poeira radioativa que caminha em direção àquele país.

Na noite do dia 26 de abril, as 1:23 da manhã, o pior desastre criado pela mão homem aconteceu em Chernobyl, Ucrânia, onde estou agora assistindo este vídeo. Com a explosão de um reator nuclear, as pessoas da área foram submetidas a uma radiação 90 vezes maior que a da bomba de Hiroshima. Era necessário evacuar imediatamente a região, mas ninguém, absolutamente ninguém disse nada – afinal de contas, o governo não comete erros. Uma semana depois, apareceu na página 32 do jornal local uma pequena nota de cinco linhas, falando da morte dos operários, e mais nada. Nesse meio tempo, foi comemorado o Dia do Trabalho em toda a ex-União Soviética, e em Kiev, capital da Ucrânia, as pessoas desfilam sem saber que a morte invisível está no ar.

 

Eu volto ao meu passado: estou em um bar no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, quando a TV dá a notícia – porque a esta altura aparelhos na Suécia, há milhares de quilômetros dali, detectaram a poeira radioativa que caminha em direção àquele país.

Apenas trinta mortes aquele dia. E no entanto, segundo um relatório das Nações Unidas feito em 1995, um total de 9 milhões de pessoas no mundo inteiro foram afetadas diretamente pelo desastre, entre elas três a quatro milhões de crianças. As trinta mortes se transformaram, segundo o especialista John Gofmans, em milhares de casos de câncer fatais, e  não-fatais.

 

O silêncio dos culpados durou muito mais do que se esperava; afinal de contas, ninguém vê a poeira radioativa. Mas finalmente, quando o mundo inteiro já sabia, quando a poeira havia se espalhado por toda a Europa,  400.000 pessoas tiveram que ser evacuadas. Um total de 2.000 cidades e vilarejos foram simplesmente riscados do mapa. Segundo o Ministério da Saúde da Bielorússia, o índice de câncer na tiróide no país deve aumentar consideravelmente entre 2005 e 2010, como conseqüência da radiatividade que ainda continua a fazer efeito.

O vídeo, filmado pela KGB – a polícia secreta da União Soviética – termina com alguns agentes vestindo roupas especiais. Katya, Oleg, Yuri, Lena, estão chorando. Nos levantamos e, por causa do silencio dos culpados, os inocentes também ficam em silencio – porque não há nada, absolutamente nada a dizer.

Paulo Coelho: Now Our Supporter

by WorldReader

Our library just got bigger. More precisely, three new books have been added to our existing collection of over 28,000 e-books. But these aren’t just any books – these three best-selling titles were donated by Paulo Coelho, considered to be one of the most influential authors of our times.

The three donated books are: Christmas Stories, The Supreme Gift, and Stories for Parents, Children and Grandchildren, and are available for free to readers across Africa on mobile phones and e-readers. These cultural and joyful stories captivate readers of all ages, and are supplemented by beautiful illustrations by his wife, Christina Oiticica. Each of these novels add a unique dimension to our library and will serve as outlets for reflection, enjoyment, and global learning to the millions of African readers who access Worldreader’s e-books. Read the full press release here.

Coelho’s famous bestselling book, The Alchemist, pushed him into the international limelight in 1998, and is one among many globally loved classics, which include: The Pilgrimage, Brida, Veronika Decides to Die, and Eleven Minutes. Coelho has sold over 195 million copies of his books worldwide, translated into more than 80 languages and found in 170 countries. Now, they’ll be in even more countries.

Worldreader’s partnership with Coelho is a big achievement, not only because we are always striving to expand our digital library, but because the participation of renowned writers such as Coelho add literature of the highest quality to our collection. Coelho states, “We’re thrilled that millions of readers in Africa can now enjoy timeless tales for free and at the click of a button (…) The power of digital technology to enable access to books and ultimately improve people’s lives is undeniable.” We couldn’t agree more. There is enormous potential to touch the hearts and minds of thousands when technology and great ideas are combined.

Paulo is a model for cultural and educational sharing, an identity internationally recognized by the United Nations, who named him a Messenger of Peace in 2007. His donated books are invaluable additions to our library that will inspire readers and promote our mission to spread global literacy.

Vacations!

Although I enjoy my work a lot (once I tweeted: “if you do what you love, every day is a holiday”) I need to stop being in front of the computer – and this is the main reason for taking vacations.

I will be back by the end of August.

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Paulo

40 seg leitura: Irmã (Santa!) Dulce e eu

Estava passando fome, doente, perdido em Salvador. Tinha fugido de um sanatório psiquiatrico onde fora internado por meus pais, desesperados para controlar o filho “rebelde”.

Vagava pela cidade, até que alguem me disse que havia uma freira que poderia me ajudar – ou eu corria o risco de ser preso por vagabundagem. Fui à pé até a casa da freira. Juntei-me às muitas pessoas que estavam ali em busca de socorro, chegou minha vez, e de repente estava frente à frente com ela. Perguntou o que eu queria, a resposta foi simples: “ quero voltar para casa e não tenho como.” Ela não fez mais perguntas. Não comentei que tinha fugido do hospício.

Tirou um papel de sua gaveta, escreveu que valia passagem para o RJ. Me abençoou. Fui até a rodoviária, o motorista fez um ar de desanimo, mas mandou-me entrar – ninguem tinha coragem de dizer “não” a um pedido dela. Cheguei ao Rio (as pessoas no onibus dividiam a comida com todos), fui recebido com amor e não voltei a ser internado.

É com lágrimas nos olhos que escrevo estas linhas. Obrigado, Santa Dulce, por seus dois milagres: permitir a volta do filho pródigo, e me dar a honra de ajudar seu hospital, sempre de portas abertas

Paulo Coelho

(nota: a biografia O MAGO, de Fernando Morais, tem um facsimile do bilhete )