Archives for September 2006

Espacio para los lectores de La Bruja de Portobello

Este espacio estará dedicado a los lectores que quieran discutir el libro. Todas las crí­ticas, positiva o negativas, se colocarán aquí­. Sólo descartaremos los comentarios agresivos. Criticar y comentar es algo sano; seremos rigurosos dejando este espacio libre para todos aquellos que lean “La Bruja de Portobello”. Quien aún no haya leí­do los primeros capí­tulos, puede pinchar en la parte derecha de la pantalla. Mientras tanto, los comentarios allí­ estarán cerrados.

Un gran abrazo, Paula Braconnot

Espaí§o dos leitores da Bruxa de Portobello

Este espaí§o está dedicado aos leitores para discutirem o livro. Todas as crí­ticas serí£o colocadas aqui, positivas ou negativas, e teremos que moderar apenas as que forem muito agressivas. Criticar e comentar é sadio, e seremos rigorosos, deixando espaí§o apenas para os que leram “A Bruxa de Portobello”. Para quem ainda ní£o leu os primeiros capitulos, pode clicar na coluna í  direita da tela. Entretanto, os comentários ali estarí£o encerrados.

Um grande abraí§o, Paula Braconnot

Décimo Terceiro Capí­tulo

Heron Ryan, jornalista

Durante toda aquela manhí£ de 1990, tudo que eu podia ver da janela no sexto andar daquele hotel era o prédio do governo. Acabavam de colocar em seu teto uma bandeira do paí­s, indicando o local exato onde o ditador megalomaní­aco havia fugido de helicóptero, para encontrar-se com a morte poucas horas depois, nas mí£os daqueles que havia oprimido por 22 anos. As casas antigas tinham sido arrasadas por Ceaucescu, no seu plano de fazer uma capital que se rivalizasse com Washington. Bucareste ostentava o tí­tulo da cidade que sofrera a maior destruií§í£o fora de uma guerra ou de uma catástrofe natural.

No dia de minha chegada, ainda tentei caminhar um pouco por suas ruas com meu intérprete, mas ní£o havia muita coisa além de miséria, desorientaí§í£o, senso de que ní£o havia nem futuro, nem passado, nem presente: as pessoas viviam em uma espécie de limbo, sem saber exatamente o que estava se passando em seu paí­s e no resto do mundo. Dez anos mais tarde, quando voltei e vi o paí­s inteiro ressurgindo das cinzas, entendi que o ser humano pode superar qualquer dificuldade “” e o povo romeno era um exemplo disso.

Mas naquela manhí£ cinzenta, naquele cinzento hall de um hotel triste, tudo que me preocupava era saber se o intérprete conseguiria um carro e combustí­vel suficiente para que eu pudesse fazer a pesquisa final do documentário para a BBC. Ele estava demorando, e comecei a encher-me de dúvidas: seria obrigado a voltar para a Inglaterra sem conseguir meu objetivo? Já havia investido uma quantidade significativa de dinheiro em contratos com historiadores, na elaboraí§í£o do roteiro, na filmagem de algumas entrevistas “” mas a televisí£o, antes de assinar o compromisso final, exigia que eu fosse até o tal castelo e saber em que estado se encontrava. A viagem que estava custando mais caro do que eu imaginara.

Tentei telefonar para minha namorada; disseram-me que para conseguir uma linha era necessário esperar quase uma hora. Meu intérprete poderia chegar a qualquer momento com o carro, ní£o havia tempo a perder, resolvi ní£o correr o risco.

Procurei ver se conseguia algum jornal em inglíªs, mas foi impossí­vel. Para matar a ansiedade, comecei a reparar, da maneira mais discreta possí­vel, nas pessoas que estavam ali tomando o seu chá, possivelmente alheias a tudo que havia se passado no ano anterior “” as revoltas populares, os assassinatos a sangue-frio de civis em Timisoara, os tiroteios nas ruas entre o povo e o temido servií§o secreto, que tentava desesperadamente manter o poder que lhe escapava das mí£os. Notei um grupo de tríªs americanos, uma mulher interessante, mas que ní£o desgrudava os olhos de uma revista de moda, e uma mesa cheia de homens que conversavam em voz alta, mas cuja lí­ngua eu ní£o conseguia identificar.

Ia levantar-me pela milésima vez, caminhar até a porta de entrada ver se o intérprete estava chegando, quando ela entrou. Devia ter pouco mais de vinte anos (N.R.: Athena tinha 23 anos quando foi visitar a Romíªnia). Sentou-se, pediu algo para o café-da-manhí£, e vi que falava inglíªs. Nenhum dos homens presentes pareceu notar sua chegada, mas a mulher interrompeu a leitura da revista de moda.

Talvez por causa da minha ansiedade, ou do lugar, que estava me fazendo entrar em depressí£o, eu tomei coragem e me aproximei.

“” Desculpe-me, ní£o costumo fazer isso. Acho que o café-da-manhí£ é a refeií§í£o mais í­ntima do dia.

Ela sorriu, disse seu nome, e eu imediatamente me coloquei em guarda. Tinha sido muito fácil “” podia ser uma prostituta. Mas seu inglíªs era perfeito, e estava discretamente vestida. Resolvi ní£o perguntar nada, e comecei a falar compulsivamente de mim, reparando que a mulher na mesa ao lado tinha deixado a revista e prestava atení§í£o í  nossa conversa.

“” Sou um produtor independente, trabalho para a BBC de Londres, e neste momento tento conseguir uma maneira de ir para a Transilví¢nia…

Vi que seus olhos mudaram de brilho.

-… completar meu documentário a respeito do mito do vampiro.

Aguardei: o assunto sempre despertava curiosidade nas pessoas, mas ela perdeu o interesse assim que mencionei o motivo de minha visita.

“” Basta tomar um í´nibus “” respondeu. “” Embora ní£o creia que vá encontrar o que procura. Se quiser saber mais sobre Drácula, leia o livro. O autor nunca esteve nesta regií£o.

“” E vocíª, conhece a Transilví¢nia?

“” Ní£o sei.

Aquilo ní£o era uma resposta; talvez fosse um problema com a lí­ngua inglesa, apesar do seu sotaque brití¢nico.

“” Mas também estou indo para lá “” continuou. “” De í´nibus, claro.

Por suas roupas, ní£o parecia ser do tipo aventureira, que sai pelo mundo visitando lugares exóticos. A teoria da prostituta voltou; talvez estivesse procurando aproximar-se.

“” Ní£o quer uma carona?

“” Já comprei minha passagem.

Eu insisti, achando que aquela primeira recusa fazia parte do jogo. Mas ela tornou a negar, dizendo que precisava fazer a viagem sozinha. Perguntei de onde era, e notei uma grande hesitaí§í£o, antes de me responder:

“” Da Transilví¢nia, já disse.

“” Ní£o disse exatamente isso. Mas, se for o caso, poderia me ajudar a fazer as locaí§íµes para o filme e…

O meu inconsciente dizia que eu devia explorar o terreno um pouco mais, ainda estava com a idéia da prostituta na cabeí§a, e gostaria muito, muití­ssimo, que ela me acompanhasse. Com palavras educadas, ela recusou minha oferta. A outra mulher entrou na conversa como se resolvesse proteger a moí§a, eu achei que estava sendo inconveniente, e resolvi me afastar.

O intérprete chegou pouco depois, esbaforido, dizendo que tinha arranjado todo o necessário, mas que iria custar um pouco mais caro (eu já esperava). Subi para meu quarto, peguei a mala, que já estava arrumada, entrei em um carro russo caindo aos pedaí§os, atravessei as largas avenidas quase sem trí¢nsito, e notei que estava carregando minha pequena cí¢mera fotográfica, meus pertences, minhas preocupaí§íµes, garrafas de água mineral, sanduí­ches, e a imagem de alguém que insistia em ní£o sair da minha cabeí§a.

Nos dias que se seguiram, ao mesmo tempo que eu procurava construir um roteiro sobre o Drácula histórico, e entrevistava “” sem sucesso, como previsto “” camponeses e intelectuais a respeito do mito do vampiro, ia me dando conta que ní£o estava mais procurando apenas fazer um documentário para a televisí£o inglesa. Eu gostaria de encontrar de novo aquela moí§a arrogante, antipática, auto-suficiente, que tinha visto em um café, num hotel de Bucareste, e que naquele momento devia estar ali, perto de mim; sobre a qual eu ní£o sabia absolutamente nada além do seu nome, mas que, como o mito do vampiro, parecia sugar toda a minha energia em sua direí§í£o.

Um absurdo, uma coisa sem sentido, algo inaceitável para o meu mundo, e para o mundo daqueles que conviviam comigo.

Nono Capí­tulo

Pavel Podbieslki, cincuenta y siete años, propietario del apartamento

Athena y yo tení­amos una cosa en común: ambos éramos exiliados de guerras, llegamos a Inglaterra siendo niños, aunque mi fuga de Polonia fue hace más de cincuenta años. Nosotros dos sabí­amos que, aunque siempre hay un cambio geográfico, las tradiciones permanecen en el exilio: las comunidades vuelven a reunirse, la lengua y la religión siguen vivas, las personas tienden a protegerse unas a otras en un ambiente que será para siempre ajeno.

De la misma manera que las tradiciones permanecen, el deseo de volver se va consumiendo. Necesita permanecer vivo en nuestros corazones, una esperanza con la que nos gusta engañarnos, pero que nunca será llevada a la práctica; yo no voy a volver a vivir a Czestochowa, ella y su familia jamás regresarí­an a Beirut.

Fue este tipo de solidaridad la que me hizo alquilarle el tercer piso de mi casa de Basset Road, en caso contrario, habrí­a preferido inquilinos sin niños. Ya habí­a cometido ese error antes, y siempre pasaba lo mismo: por un lado, yo me quejaba del ruido que ellos hací­an durante el dí­a, y por otro, ellos se quejaban del ruido que yo hací­a por las noches. Ambos problemas radicaban en elementos sagrados “”el llanto y la música””, pero, como pertenecí­an a dos mundos completamente diferentes, era difí­cil que uno tolerase al otro.

Le avisé, pero no me escuchó, y me dijo que estuviese tranquilo por su hijo: pasaba el dí­a entero en casa de su abuela. Y el apartamento tení­a la ventaja de que estaba cerca de su trabajo, un banco de los alrededores.

A pesar de mis advertencias, a pesar de haberme resistido con fuerza al principio, ocho dí­as después sonó el timbre de mi puerta. Era ella, con el niño en brazos:

“”Mi hijo no puede dormir. Aunque sólo sea hoy, ¿podrí­a bajar la música…?

Todos en la sala la miraron.

“”¿Qué es eso?

El niño que tení­a en brazos dejó inmediatamente de llorar, como si estuviese tan sorprendido como su madre al ver a aquel grupo de gente, que de pronto habí­a parado de bailar.

Pulsé el botón de pausa del radiocasete, le indiqué que entrase con un gesto de la mano y volví­ a poner el aparato en marcha, para no perturbar el ritual. Athena se sentó en un rincón de la sala, meciendo a su hijo en sus brazos, viendo que se dormí­a con facilidad a pesar del ruido del tambor y de los metales.

Asistió a toda la ceremonia, se marchó a la vez que los demás invitados y “”como yo ya me imaginaba”” tocó el timbre de mi casa a la mañana siguiente, antes de irse a trabajar.

“”No tienes que explicarme lo que vi: gente bailando con los ojos cerrados, sé lo que eso significa, porque muchas veces hago lo mismo; son los únicos momentos de paz y de serenidad de mi vida. Antes de ser madre, frecuentaba las discotecas con mi marido y mis amigos; allí­ también veí­a a gente en la pista de baile con los ojos cerrados, algunos sólo para impresionar a los demás, otros como si fuesen movidos por una fuerza superior, más poderosa. Y desde que tengo uso de razón, utilizo la danza para conectarme con algo más fuerte, más poderoso que yo. Pero me gustarí­a saber qué música es ésa.

“”¿Qué haces este domingo?

“”Nada especial. Pasear con Viorel por Regent’s Park, respirar un poco de aire puro. Ya tendré tiempo para mis propios planes: en este momento de mi vida, he escogido seguir los planes de mi hijo.

“”Pues voy contigo.

Los dos dí­as anteriores a nuestro paseo, Athena asistió al ritual. El niño se dormí­a tras unos minutos, y ella sólo miraba, sin decir nada, el movimiento a su alrededor. Aunque permanecí­a inmóvil en el sofá, estaba seguro de que su alma estaba bailando.

La tarde del domingo, mientras paseábamos por el parque, le pedí­ que prestase atención a todo lo que veí­a y oí­a: las hojas que se moví­an con el viento, las ondas del agua del lago, los pájaros cantando, los perros ladrando, los gritos de los niños que corrí­an de un lado a otro, como si obedeciesen alguna estrategia lógica, incomprensible para los adultos.

“”Todo se mueve. Y todo se mueve con un ritmo. Y todo lo que se mueve con un ritmo provoca un sonido; eso pasa aquí­ y en cualquier lugar del mundo en este momento. Nuestros ancestros también lo sintieron, cuando intentaban huir del frí­o de las cavernas: las cosas se moví­an y hací­an ruido.

“Tal vez los primeros humanos sintieron espanto, y después devoción: entendieron que ésa era la manera en que un Ente Superior se comunicaba con ellos. Empezaron a imitar los ruidos y los movimientos de su alrededor, con la esperanza de comunicarse también con ese Ente: la danza y la música acababan de nacer. Hace unos dí­as me dijiste que, bailando, consigues comunicarte con algo más poderoso que tú.”

“”Cuando bailo, soy una mujer libre. Mejor dicho, soy un espí­ritu libre, que puede viajar por el universo, mirar el presente, adivinar el futuro, transformarse en energí­a pura. Y eso me proporciona un inmenso placer, una alegrí­a que está mucho más allá de las experiencias que he vivido, y que viviré a lo largo de mi existencia.

“En una época de mi vida, estaba determinada a convertirme en santa, alabando a Dios a través de la música y del movimiento de mi cuerpo. Pero ese camino está definitivamente cerrado.”

“”¿Qué camino está cerrado?

Acomodó al niño en el carrito. Vi que no querí­a responder a la pregunta, insistí­: cuando las bocas se cierran, es porque algo importante va a ser dicho.

Sin mostrar emoción alguna, como si tuviese que aguantar siempre en silencio las cosas que la vida le imponí­a, me contó el episodio de la iglesia, cuando el cura “”tal vez su único amigo”” le habí­a impedido tomar la comunión. Y la maldición que habí­a lanzado en aquel momento; habí­a abandonado para siempre la Iglesia católica.

“”Santo es aquel que dignifica su vida “”le expliqué””. Basta con entender que todos estamos aquí­ por una razón, y basta con comprometerse con ella. Así­, podemos reí­rnos de nuestros grandes o pequeños sufrimientos, y caminar sin miedo, conscientes de que cada paso tiene un sentido. Podemos dejarnos guiar por la luz que emana del Vértice.

“”¿Qué es el Vértice? En matemáticas, es el punto más alto de un triángulo.

“”En la vida también es el punto culminante, la meta de aquellos que se equivocan como todo el mundo, pero que, incluso en sus momentos más difí­ciles, no pierden de vista una luz que emana de su corazón. Eso es lo que intentamos hacer en nuestro grupo. El Vértice está escondido dentro de nosotros, y podemos llegar hasta él si nos aceptamos y reconocemos su luz.

Le expliqué que el baile que habí­a visto los dí­as anteriores, realizado por personas de todas las edades (en ese momento éramos un grupo de diez personas, entre los diecinueve y los sesenta y cinco años), habí­a sido bautizado por mí­ como «la búsqueda del Vértice». Athena me preguntó dónde habí­a descubierto eso.

Le conté que, después de la segunda guerra mundial, parte de mi familia habí­a conseguido escapar del régimen comunista que se estaba instalando en Polonia, y decidió trasladarse a Inglaterra. Habí­an oí­do decir que las cosas que tení­an que traer eran objetos de arte y libros antiguos, muy valorados en esta parte del mundo.

De hecho, los cuadros y las esculturas se vendieron en seguida, pero los libros se quedaron en un rincón, llenándose de polvo. Como mi madre querí­a obligarme a leer y a hablar polaco, fueron útiles para mi educación. Un bonito dí­a, dentro de una edición del siglo XIX de Thomas Malthus, descubrí­ dos hojas de anotaciones de mi abuelo, muerto en un campo de concentración. Empecé a leerlas, creyendo que se tratarí­a de referencias sobre la herencia, o cartas apasionadas a alguna amante secreta, ya que corrí­a la leyenda de que un dí­a se habí­a enamorado de alguien en Rusia.

De hecho, habí­a una cierta relación entre la leyenda y la realidad. Era un relato de su viaje a Siberia durante la revolución comunista; allí­, en la remota aldea de Diedov, se enamoró de una actriz (N. R.: Fue imposible localizar el mapa de esa aldea; o cambiaron el nombre o el sitio desapareció después de las inmigraciones forzadas de Stalin). Según mi abuelo, ella formaba parte de una especie de secta que cree que en determinado tipo de danza está el remedio para todos los males, ya que permite el contacto con la luz del Vértice.

Temí­an que toda aquella tradición pudiese desaparecer; los habitantes iban a ser evacuados en breve a otro lugar, y el sitio se iba a utilizar para hacer pruebas nucleares.

Tanto la actriz como sus amigos le pidieron que escribiese todo lo que le habí­an enseñado. Él lo hizo, pero no debió de darle demasiada importancia al asunto, olvidó sus anotaciones dentro de un libro que llevaba, hasta que un dí­a yo las descubrí­.

Athena me interrumpió:

“”Pero no se puede escribir sobre el baile. Hay que bailar.

“”Exacto. En el fondo, las anotaciones no decí­an más que eso: bailar hasta el agotamiento, como si fuésemos alpinistas subiendo esta colina, esta montaña sagrada. Bailar hasta que, debido a la respiración asfixiante, nuestro organismo pueda recibir oxí­geno de una manera a la que no está acostumbrado, y eso hace que acabemos perdiendo nuestra identidad, la relación con el espacio y el tiempo. Simplemente bailar al son de la percusión, repetir el proceso todos los dí­as, entender que en un determinado momento los ojos se cierran naturalmente, y que vemos una luz que viene de dentro de nosotros, que responde a nuestras preguntas, que desarrolla nuestros poderes escondidos.

“”¿Y ya has desarrollado algún poder?

En vez de responder, le sugerí­ que se uniese a nuestro grupo, ya que el niño parecí­a estar cómodo, incluso cuando el sonido de los platos y de los instrumentos era muy alto. Al dí­a siguiente, a la hora de empezar la sesión, ella estaba allí­. Se la presenté a mis compañeros, contándoles sólo que se trataba de la vecina del apartamento de arriba; nadie dijo nada sobre su vida, ni preguntaron qué hací­a. Al llegar la hora señalada, puse la música y empezamos a bailar.

Ella inició sus pasos con el niño en brazos, pero en seguida se quedó dormido y Athena lo puso sobre el sofá. Antes de cerrar los ojos y entrar en trance, vi que ella habí­a entendido exactamente el camino del Vértice.

Todos los dí­as, excepto los domingos, vení­a con el niño. Solamente intercambiábamos unos saludos, yo poní­a la música que un amigo me habí­a conseguido en la estepa rusa, y todos comenzábamos a bailar hasta quedar exhaustos. Después de un mes, ella me pidió una copia de la cinta.

“”Me gustarí­a hacer esto por la mañana, antes de dejar a Viorel en casa de mamá para ir al trabajo.

Yo no querí­a:

“”En primer lugar, pienso que un grupo que está conectado con la misma energí­a crea una especie de aura que facilita el trance de todo el mundo. Además, hacer esto antes de ir a trabajar es prepararse para que te despidan, ya que luego estarás todo el dí­a cansada.
Athena lo pensó un poco, pero en seguida reaccionó:

“”Tienes razón en eso de la energí­a colectiva. En tu grupo hay cuatro parejas y tu mujer. Todos, absolutamente todos, han encontrado el amor. Por eso pueden compartir una vibración positiva conmigo.

“Pero yo estoy sola. Mejor dicho, estoy con mi hijo, pero su amor todaví­a no se puede manifestar de manera que podamos entenderlo. Así­ que prefiero aceptar mi soledad: si intento huir de ella en este momento, jamás volveré a encontrar pareja. Si la acepto, en vez de luchar contra ella, tal vez las cosas cambien. Me he dado cuenta de que la soledad es más fuerte cuando intentamos enfrentarnos a ella, pero se muestra débil cuando simplemente la ignoramos.”

“”¿Te uniste a nuestro grupo en busca de amor?

“”Creo que ése serí­a un buen motivo, pero la respuesta es no. Vine en busca de un sentido para mi vida, cuya única razón es mi hijo, y por eso temo que acabe destruyendo a Viorel, ya sea por una protección exagerada o porque acabe proyectando en él los sueños que no he podido realizar. Uno de estos dí­as, mientras bailaba, sentí­ que me habí­a curado. Si tuviera algo fí­sico, sé que podrí­amos llamarlo milagro; pero era algo espiritual, que me molestaba, y que de repente desapareció.

Yo sabí­a a qué se referí­a.

“”Nadie me enseñó a bailar al son de esta música “”continuó Athena””. Pero presiento que sé lo que hago.

“”No hay que aprender. Recuerda nuestro paseo por el parque, y lo que vimos: la naturaleza creando el ritmo y adaptándose a cada momento.

“”Nadie me enseñó a amar. Pero ya he amado a Dios, a mi marido, amo a mi hijo y a mi familia. Y aun así­, me falta algo. Aunque me canso mientras bailo, cuando acabo parece que estoy en estado de gracia, en un éxtasis profundo. Quiero que ese éxtasis se prolongue a lo largo del dí­a. Y que me ayude a encontrar lo que me falta: el amor de un hombre.

“Puedo ver el corazón de ese hombre mientras bailo, aunque no consiga ver su rostro. Siento que él está cerca, y para eso tengo que estar atenta. Necesito bailar por la mañana, para poder pasar el resto del dí­a prestando atención a todo lo que ocurre a mi alrededor.”

“”¿Sabes qué quiere decir la palabra «éxtasis»? Viene del griego, y significa salir de uno mismo. Pasar todo el dí­a fuera de uno mismo es pedirle demasiado al cuerpo y al alma.

“”Lo intentaré.

Me di cuenta de que no merecí­a la pena discutir y le hice una copia de la cinta. A partir de entonces, me despertaba todos los dí­as con aquel sonido en el piso de arriba, podí­a oí­r sus pasos, y me preguntaba cómo era capaz de afrontar su trabajo en un banco después de casi una hora de trance. En uno de nuestros encuentros casuales en el pasillo, le sugerí­ que viniese a tomar café. Athena me contó que habí­a hecho otras copias de la cinta, y que ahora en su trabajo mucha gente estaba buscando el Vértice.

“”¿Hay algún problema? ¿Es algo secreto?

Claro que no; al contrario, me estaba ayudando a preservar una tradición casi perdida. En las anotaciones de mi abuelo, una de las mujeres decí­a que un monje que habí­a ido de visita a la región afirmó que todos nuestros antepasados y todas las generaciones futuras están presentes en nosotros. Cuando nos liberamos, estamos haciendo lo mismo con la humanidad.

“”Entonces, las mujeres y los hombres de aquella aldeí­ta de Siberia deben de estar presentes, y contentos. Su trabajo está renaciendo en este mundo, gracias a tu abuelo. Pero tengo una curiosidad: ¿por qué decidiste bailar, después de leer el texto? Si hubieras leí­do algo sobre deporte, ¿habrí­as decidido ser jugador de fútbol?

Era una pregunta que nadie se habí­a atrevido a hacerme.

“”Porque estaba enfermo en esa época. Tení­a una especie de artritis rara, y los médicos me decí­an que debí­a prepararme para estar en una silla de ruedas a los treinta y cinco años. Me di cuenta de que no me quedaba mucho tiempo, y decidí­ dedicarme a todo lo que no iba a poder hacer más adelante. Mi abuelo habí­a escrito, en aquel trozo de papel, que los habitantes de Diedov creí­an en los poderes curativos del trance.

“”Por lo visto, tení­an razón.

Yo no respondí­ nada, pero no estaba tan seguro. Tal vez los médicos se hubieran equivocado. Tal vez el hecho de haber emigrado con mi familia, sin poder permitirme el lujo de poder estar enfermo, influyera con tal fuerza en mi inconsciente que provocó una reacción natural del organismo. O tal vez fuese un milagro de verdad, lo cual estarí­a absolutamente en contra de lo que reza mi fe católica: los bailes no curan.

Recuerdo que, en mi adolescencia, como no tení­a la música que creí­a adecuada, solí­a ponerme una capucha negra en la cabeza e imaginar que la realidad de mi entorno dejaba de existir: mi espí­ritu viajaba a Diedov, con aquellas mujeres y hombres, con mi abuelo y su actriz tan amada. En el silencio de la habitación yo les pedí­a que me enseñasen a bailar, a ir más allá de mis lí­mites, porque al cabo de poco tiempo estarí­a paralizado para siempre. Cuanto más se moví­a mi cuerpo, más luz salí­a de mi corazón, y más aprendí­a, tal vez conmigo mismo, tal vez con los fantasmas del pasado. Incluso llegué a imaginar la música que escuchaban en sus rituales, y cuando un amigo visitó Siberia, le pedí­ que me trajera algunos discos; para mi sorpresa, uno de ellos se parecí­a mucho a lo que yo creí­a que era el baile de Diedov.

Mejor no decirle nada a Athena; era una persona fácilmente influenciable, y su temperamento me parecí­a inestable.

“”Tal vez estés haciendo lo correcto “”fue mi único comentario.

Volvimos a hablar una vez más, poco antes de su viaje a Oriente Medio. Parecí­a contenta, como si hubiese encontrado todo lo que deseaba: el amor.

“”La gente de mi trabajo ha creado un grupo, y se llaman a sí­ mismos «los peregrinos del Vértice». Todo gracias a tu abuelo.

“”Gracias a ti, que has sentido la necesidad de compartirlo con los demás. Sé que te vas, y quiero agradecerte que le hayas dado otra dimensión a lo que yo he hecho durante años, intentando difundir esta luz entre algunos pocos interesados, pero siempre de manera tí­mida, siempre pensando que la gente pensarí­a que todo esto era ridí­culo.

“”¿Sabes lo que he descubierto? Que aunque el éxtasis es la capacidad de salir de uno mismo, el baile es una manera de subir al espacio. Descubrir nuevas dimensiones y, aun así­, seguir en contacto con tu cuerpo. Con el baile, el mundo espiritual y el mundo real pueden vivir sin conflictos. Creo que los bailarines clásicos se ponen de puntillas porque al mismo tiempo están tocando la tierra y alcanzando el cielo.

Que yo recuerde, éstas fueron sus últimas palabras. Durante cualquier baile al que nos entreguemos con alegrí­a, el cerebro pierde su poder de control, y el corazón toma las riendas del cuerpo. Es en ese momento cuando aparece el Vértice.

Siempre que creamos en él, claro.

Édition nº 130: Un type inoubliable pour moi

Nous fíªtons le quatrième anniversaire du Guerrier de la Lumière Online, qui a actuellement presque 100 000 abonnés. Merci beaucoup pour votre soutien constant, et célébrons ce numéro avec une personne qui a beaucoup marqué ma vie. Je suggère que chacun cherche, au fond de son enfance, ce personnage qui l’a aidé í  forger l’épée du guerrier de la lumière.

Un type inoubliable pour moi

Lorsque j’étais enfant, j’avais l’habitude de lire une revue í  laquelle mes parents étaient abonnés ; il y avait une rubrique appelée « Un type inoubliable pour moi » – oí¹ des gens ordinaires évoquaient d’autres gens ordinaires qui avaient influencé leurs vies. í€ ce moment-lí  évidemment, í  neuf ou dix ans, je m’étais déjí  inventé mon personnage marquant. D’autre part, j’étais certain qu’au fil des années, ce modèle allait changer, je décidai donc de ne pas écrire í  cette revue pour soumettre mon opinion (j’imagine aujourd’hui comment aurait été reí§ue la collaboration d’un garí§on de mon í¢ge í  l’époque).

Le temps passa. Je fis la connaissance de beaucoup de gens intéressants qui m’aidèrent dans les moments difficiles, qui m’inspirèrent, qui me montrèrent des chemins qu’il fallait parcourir. Cependant, les grands mythes de l’enfance se sont toujours révélés les plus puissants ; ils connaissent des périodes de dévalorisation, de contestation, d’oubli – mais ils demeurent, surgissant dans les occasions nécessaires, avec leurs valeurs, leurs exemples, leurs attitudes.

Le type inoubliable pour moi s’appelait José, le plus jeune frère de mon grand-père. Il ne se maria jamais, fut ingénieur durant des années, et quand il prit sa retraite, il décida de vivre í  Araruama, ville voisine de Rio de Janeiro. C’est lí  que toute la famille allait passer les vacances avec les enfants ; oncle José était célibataire, il n’était sans doute pas très patient devant cette invasion, mais c’était le seul moment oí¹ il pouvait partager un peu de sa solitude avec ses petits-neveux. Il était aussi inventeur, et pour nous loger, il décida de construire une maison oí¹ les chambres n’apparaissaient que l’été ! On appuyait sur un bouton et du toit descendaient les murs, des murs sortaient les lits et les penderies, et voilí  ; quatre dortoirs pour loger les arrivants. Le carnaval terminé, les murs remontaient, les meubles rentraient dans les murs, et la maison redevenait un grand hangar vide, oí¹ l’oncle rangeait le matériel de son atelier.

Il construisait des voitures. Plus que cela, il fabriqua pour emmener la famille í  Lagoa de Araruama un véhicule spécial – í  la fois jeep et train sur pneus. Nous allions au bain de mer, nous vivions dans la nature, nous jouions toute la journée, et je me demandais toujours : « Mais pourquoi vit-il ici tout seul ? Il a de l’argent, il pourrait habiter Rio ! » Il racontait ses voyages aux États-Unis, oí¹ il avait travaillé dans des mines de charbon et s’était aventuré dans des endroits jamais visités auparavant. La famille disait souvent : « Ce ne sont que des mensonges. » Il portait tout le temps sa combinaison de mécanicien, et mes parents commentaient : « Il aurait besoin de meilleurs víªtements. » Dès que la télévision entra au Brésil, il acheta un appareil qu’il posait sur le trottoir, pour que toute la rue puisse assister aux programmes.

Il m’apprit í  aimer les choix faits avec le cÅ“ur. Il me montra qu’il est important de faire ce que l’on désire, indépendamment des remarques des autres. Il m’accueillit lorsque, adolescent rebelle, j’eus des problèmes avec mes parents. Un jour, il me dit :

« J’ai inventé l’embrayage automatique (changement automatique des vitesses dans une voiture). Je suis allé í  Detroit, j’ai pris contact avec la General Motors, on m’a offert 10 000 dollars immédiatement ou 1 dollar par voiture vendue avec ce nouveau système. J’ai pris les 10 000 dollars et j’ai vécu les années les plus fantastiques de ma vie.

Dans la famille, on disait : « Oncle José passe son temps í  inventer des histoires, ne le croyez pas. » Et bien que j’eusse une grande admiration pour ses aventures, son style de vie, sa générosité, je n’ai pas cru í  cette histoire. Je l’ai racontée au journaliste Fernando Morais seulement parce que oncle José était et reste le type inoubliable pour moi).

Fernando a décidé de vérifier, et voici ce qu’il a trouvé (le texte est revu, car il fait partie d’un long article) :

« Le premier changement de vitesses automatique au moyen d’un système hydraulique a été inventé par les frères Sturtevant de Boston en 1904. Le système ne fonctionnait pas de faí§on satisfaisante parce que fréquemment les poids s’écartaient trop. Mais ce fut l’invention des Brésiliens Fernando Iehly de Lemos et José Braz Araripe, vendue í  la GM en 1932, qui contribua au développement du système d’embrayage automatique lancé par la GM en 1939. »

Avec des millions de voitures dotées de ce type de changement de vitesses produites tous les ans, la famille – qui ne croyait jamais í  rien et trouvait oncle José mal habillé – aurait pu se trouver í  la tíªte d’une fortune incalculable. Il a bien fait de dépenser ses dix mille dollars en des années heureuses !

Edición nº 130: Mi tipo inolvidable

Conmemoramos cuatro años del Guerrero de la Luz Online, actualmente con casi 100.000 suscriptores. Agradezco el apoyo constante y celebramos este número con una persona que marcó mucho nuestra vida. Sugiero que cada uno busque, en el fondo de su infancia, aquel personaje que lo ayudó a forjar la espada del guerrero de la luz.

Mi tipo inolvidable

Cuando yo era niño acostumbraba leer una revista a la que mis padres estaban suscriptos; tení­a una sección llamada “Mi tipo inolvidable” – donde personas comunes hablaban de otras personas comunes que habí­an tenido influencia en sus vidas. Claro que a aquella altura, con nueve o diez años, yo también habí­a creado mi personaje marcante. Por otro lado, tení­a seguridad de que en el decorrer de mis años este modelo irí­a a mudar, por lo tanto resolví­ no escribir a la tal revista sometiendo mi opinión (me quedo imaginando hoy, como ellos habrí­an recibido la colaboración de una persona con mi edad en esa época).

Los tiempos pasaron. Conocí­ mucha gente interesante que me ayudó en momentos difí­ciles, que me inspiró, que me mostró caminos que eran necesarios andar. Mientras tanto, los grandes mitos de la infancia, los más poderosos; pasan por perí­odos de desvalorización, de polémicas, de olvido – pero permanecen, surgiendo en las ocasiones necesarias con sus valores, sus ejemplos, sus actitudes.

Mi tipo inolvidable llamábase José, el hermano menor de mi abuelo. Nunca se casó, fue ingeniero durante mucho años y cuando se jubiló, resolvió vivir en Araruama, ciudad vecina de Rí­o de Janeiro. Era allí­ que toda la familia iba a pasar las vacaciones con sus niños; tí­o José era soltero, no debí­a tener mucha paciencia para aquella invasión, pero era este el único momento en que podí­a dividir un poco de su propia soledad con los sobrinos-nietos. Era también inventor y para acomodarnos, resolvió construir una casa donde los cuartos solamente aparecí­an en el verano! Se apretaba un botón y del techo bajaban las paredes, de los muros salí­an las camas y los tocadores… y listo; cuatro dormitorios para acomodar a los recién llegados. Cuando terminaba el carnaval, las paredes subí­an, los muebles volví­an a entrar en los muros y la casa volví­a a ser un gran galpón vací­o, donde acostumbraba guardar el material de su taller.

Construí­a coches. No apenas eso, sino que hizo un vehí­culo especial para llevar a la familia a la Laguna de Araruama – una mezcla de jeep con tren sobre neumáticos. íbamos al mar, conviví­amos con la naturaleza, jugábamos todo el dí­a y siempre me preguntaba: “Porqué él vive aquí­ solo? Tiene dinero, podrí­a vivir en Rí­o!”. Contaba historia sobre los Estados Unidos, donde trabajaba en minas de carbón y se aventuraba en lugares nunca antes visitados. La familia acostumbraba decir: ” Es todo mentira” Viví­a vestido de mecánico, y los parientes comentaban: “Deberí­a tener ropas mejores”. Cuando la televisión entró en Brasil, compró un aparato que colocaba en la vereda, de modo que la calle entera pudiese ver los programas.

Me enseñó a amar lo que elegimos com el corazón.

Me mostró la importancia de hacer lo que uno desea, independiente de lo que los otros comenten. Me acogió cuando, adolescente rebelde, tuve problemas com mis padres. Um dia él me dijo:

– Inventé el hidraúlico (cambio automático de cambio de marchas en un auto). Fuí­ a Detroit, entré en contacto con la General Motors, me ofrecieron 10.000 dólares en la hora o 1 dólar por auto vendido con este nuevo sistema. Tomé los diez mil dólares y viví­ los años más fantásticos de mi vida.

La familia decí­a: tí­o José vive inventando cosas, no le crean. Y, aún teniendo una gran admiración por sus aventuras, por su estilo de vida, por su generosidad, no creí­ en esta historia. Conté esto para el periodista Fernando Morais, apenas porque tí­o José era y es mi tipo inolvidable.

Fernando resolvió conferir, y esto es lo que encontró (el texto está editado pues es parte de un gran artí­culo):

“El primer cambio automático fue inventado por los hermanos Sturtevant de Boston en 1904. El sistema no funcionaba a contento porque los pesos frecuentemente se alejaban mucho. Pero fue la invención de los brasileños Fernando Iehly de Lemos e José Braz Araripe, vendida í  GM en 1932, que contribuyó para el desenvolvimiento del sistema hidráulico lanzado pela GM en 1939.”

Con millones de coches hidráulicos siendo producidos todos los años, la familia – que nunca acreditara en nada, y encontraba que tí­o José se vestí­a mal – hubiera quedado con una fortuna incalculable. Que bueno que él gastó sus diez mil dólares en años felices!

My unforgettable character

We are commemorating four years of the Warrior of Light Online, which currently has almost 100,000 subscribers. Many thanks for your constant support! We celebrate this number with a person who left a deep mark on my life. I suggest that each one of you look into your childhood to find the character who helped to forge the sword of the Warrior of Light.

My unforgettable character

When I was a child I used to read a magazine that my parents subscribed to, which had a section called “My unforgettable character” for common people to talk about other common people who had influenced their lives. Of course, at that age (nine or ten), I also had already created my influential personality. On the other hand, I was certain that over the years this model would change, so I decided not to write to the magazine and submit my opinion (today I wonder how in those days they would have received the collaboration of someone my age).

Time has passed by. I have met many interesting people who have helped me at difficult moments and inspired me and shown me paths that had to be traveled. However, the great myths of childhood have always proved more powerful; they go through periods of devaluation, contestation and oblivion, but they remain, appearing on necessary occasions with their values, examples and attitudes.

My unforgettable character was called José, my grandfather’s youngest brother. He never married, worked as an engineer for may years, and when he retired he decided to live in Araruama, a city near Rio de Janeiro. That is where the whole family went to spend the summer holidays with the children. Uncle José was a bachelor, so he probably did not have much patience with that invasion, but that was the only moment when he could share a little of his loneliness with his grandnephews and nieces. He was also an inventor, and to accommodate us he decided to build a house where the rooms only appeared during the summer! He pressed a button and the walls descended from the roof, the beds and cupboards emerged from the outer walls, and there we had four bedrooms to lodge the newly-arrived! When Carnival was over, the walls were raised, the furniture went back inside the outer walls and the house was once more a big empty shed where he kept material for his workshop.

He built cars. Not just that, but he made a special vehicle to take the family to Araruama Lake – a mixture of jeep and train on tires. We went swimming, lived close to nature, spent the whole day playing, and I always wondered: “But why does he live here all alone? He has money, he could live in Rio!” He told stories of his trips to the United States, where he had worked in coal mines and ventured to places never visited before. The family used to say: “It’s all lies”. He was always dressed as a mechanic, and all the relatives commented: “He should get himself some decent clothes”. As soon as television came to Brazil, he bought a set and put it on the sidewalk so that the whole street could see the programs.

He taught me to love things done with the heart. He showed me the importance of doing what you wanted to do, regardless of what the others said. He sheltered me when as a rebellious adolescent I had problems with my parents. One day he told me: “I invented the hydramatic (the automatic gear shift in a car). I went to Detroit, got in touch with General Motors; they offered me US$ 10,000 on the spot or one dollar for every car sold with this new system. I took the ten thousand and lived the most fantastic years of my life.”

The family used to say: “Uncle José is always inventing things, don’t believe him.” And although I felt deep admiration for his adventures, for his style of life, for his generosity, I did not believe that story. I told journalist Fernando Morais about it only because Uncle José was my unforgettable character.

Fernando decided to do some checking and here is what he came up with (the text has been edited, because it is part of a long article):

“The first automatic gear shift was invented by the Sturtevant brothers from Boston in 1904. The system did not work satisfactorily because of a problem with weight. But it was the invention of Brazilians Fernando Iehly de Lemos and José Braz Araripe, sold to GM in 1932, that contributed to the development of the hydramatic system launched by GM in 1939.”

With millions of hydramatic cars being turned out every year, the family who never believed in anything and thought that Uncle José dressed badly could have inherited an incalculable fortune. How good it is to know that he enjoyed some happy years spending his ten thousand dollars!

Edií§í£o nº 130: Meu tipo inesquecí­vel

Comemoramos quatro anos do Guerreiro da Luz Online, atualmente com quase 100.000 assinantes. Muito obrigado pelo apoio constante, e celebramos este número com uma pessoa que marcou muito a minha vida. Sugiro que cada um procure, no fundo de sua infí¢ncia, aquele personagem que o ajudou a forjar a espada do guerreiro da luz.

Meu tipo inesquecí­vel

Quando eu era crianí§a, costumava ler uma revista que meus pais assinavam; tinha uma sessí£o chamada “Meu tipo inesquecí­vel” – onde pessoas comuns falavam de outras pessoas comuns que haviam influenciado suas vidas. Claro que í quela altura, com nove ou dez anos, eu também havia criado o meu personagem marcante. Por outro lado, tinha certeza que no decorrer dos meus anos este modelo iria mudar, portanto resolvi ní£o escrever í  tal revista submetendo minha opinií£o (fico imaginando hoje como eles teriam recebido a colaboraí§í£o de uma pessoa com a minha idade na época).

Os tempos passaram. Conheci muita gente interessante, que me ajudou em momentos difí­ceis, que me inspirou, que me mostrou caminhos que eram necessários trilhar. Entretanto, os grandes mitos da infí¢ncia sempre provaram ser mais poderosos; passam por perí­odos de desvalorizaí§í£o, de contestaí§í£o, de esquecimento – mas permanecem, surgindo nas ocasiíµes necessárias com seus valores, seus exemplos, suas atitudes.

Meu tipo inesquecí­vel chamava-se José, irmí£o mais jovem do meu aví´. Jamais se casou, foi engenheiro durante muitos anos, e quando se aposentou, resolveu viver em Araruama, cidade vizinha ao Rio de Janeiro. Era ali que toda a famí­lia ia passar as férias com as crianí§as; tio José era solteiro, ní£o devia ter muita paciíªncia para aquela invasí£o, mas este era o único momento em que podia dividir um pouco de sua própria solidí£o com os sobrinhos-netos. Era também inventor, e para acomodar-nos, resolveu construir uma casa onde os quartos só apareciam durante o verí£o! Apertava-se um botí£o e do teto desciam as paredes, dos muros saiam as camas e as penteadeiras, e pronto; quatro dormitórios para acomodar os recém-chegados. Quando terminava o carnaval, as paredes subiam, os moveis tornavam a entrar nos muros, e a casa voltava a ser um grande galpí£o vazio, onde costumava guardar material de sua oficina.

Construí­a carros. Ní£o apenas isso, mas fez um veí­culo especial para levar a famí­lia í  Lagoa de Araruama – uma mistura de jipe com trem sobre pneus. íamos ao banho de mar, conviví­amos com a natureza, brincávamos o dia inteiro, e eu sempre me perguntava: “mas por que ele vive aqui sozinho? Tem dinheiro, podia viver no Rio!” Contava histórias de suas viagens aos Estados Unidos, onde trabalhara em minas de carví£o e se aventurara a lugares nunca antes visitados. A famí­lia costumava dizer: “é tudo mentira”. Vivia vestido de mecí¢nico, e os parentes comentavam: “precisava de roupas melhores”. Assim que a televisí£o entrou no Brasil, comprou um aparelho que colocava na calí§ada, de modo que a rua inteira pudesse assistir aos programas.

Ensinou-me a amar as escolhas feitas com o coraí§í£o. Mostrou-me a importí¢ncia de fazer o que se deseja, independente do que os outros comentem. Acolheu-me quando, adolescente rebelde, tive problemas com meus pais. Um dia ele disse-me:

– Inventei o hidramático (cí¢mbio automático de mudaní§a de marchas em um carro). Fui a Detroit, entrei em contato com a General Motors, me ofereceram 10.000 dólares na hora ou 1 dólar por carro vendido com este novo sistema. Peguei os dez mil dólares e vivi os anos mais fantásticos de minha vida.

A famí­lia dizia: tio José vive inventando coisas, ní£o acreditem. E, embora tendo uma grande admiraí§í£o por suas aventuras, por seu estilo de vida, por sua generosidade, ní£o acreditei nesta história. Contei para o jornalista Fernando Morais apenas porque tio José era e é meu tipo inesquecí­vel.

Fernando resolveu conferir, e eis o que achou (o texto está editado, pois é parte de um grande artigo):

“O primeiro cí¢mbio automático foi inventado pelos irmí£os Sturtevant de Boston em 1904. O sistema ní£o funcionava a contento porque os pesos freqüentemente se afastavam muito. Mas foi a invení§í£o dos brasileiros Fernando Iehly de Lemos e José Braz Araripe, vendida í  GM em 1932, que contribuiu para o desenvolvimento do sistema hidramático laní§ado pela GM em 1939.”

Com milhíµes de carros hidramáticos sendo produzidos todos os anos, a famí­lia – que nunca acreditava em nada, e achava que tio José se vestia mal – teria ficado com uma fortuna incalculável. Que bom que ele gastou os seus dez mil dólares em anos felizes!

Octavo Capí­tulo

Padre Giancarlo Fontana

La vi entrar a misa de domingo, como siempre con el bebé en brazos. Sabí­a las dificultades que estaban pasando, pero hasta aquella misma semana no dejaba de ser un malentendido normal en las parejas, que yo esperaba que se resolviese tarde o temprano, ya que ambos eran personas que irradiaban el Bien a su alrededor.

Hací­a un año que no vení­a a tocar su guitarra y a alabar a la Virgen por las mañanas; se dedicaba a cuidar de Viorel, al que yo tuve el honor de bautizar, aunque que yo recuerde no hay ningún santo con ese nombre. Pero seguí­a frecuentando la iglesia todos los domingos, y siempre hablábamos al final, cuando ya todos se habí­an ido. Decí­a que yo era su único amigo; juntos participamos de las adoraciones divinas, pero ahora necesitaba compartir conmigo las necesidades terrenas.

Amaba a Lukás más que a cualquier hombre que hubiese conocido; era el padre de su hijo, la persona que habí­a escogido para compartir su vida, alguien que habí­a renunciado a todo y habí­a tenido el coraje de formar una familia. Cuando empezaron las crisis, ella intentaba hacerle entender que era pasajero, tení­a que dedicarse a su hijo, pero no tení­a la menor intención de convertirlo en un niño mimado; pronto lo dejarí­a enfrentarse solito a ciertos desafí­os de la vida. A partir de ahí­, volverí­a a ser la esposa y la mujer que él habí­a conocido en las primeras citas, tal vez incluso con más intensidad, porque ahora conocí­a mejor los deberes y las responsabilidades de la elección que habí­a hecho. Aun así­, Lukás se sentí­a rechazado; ella intentaba desesperadamente dividirse entre los dos, pero siempre se veí­a obligada a elegir, y en esos momentos, sin la menor sombra de duda, escogí­a a Viorel.

Con mis parcos conocimientos psicológicos, le dije que no era la primera vez que oí­a ese tipo de historias, y que los hombres generalmente se sienten rechazados en una situación como ésa, pero que se les pasa pronto; ya habí­a asistido a ese tipo de problema antes, hablando con mis feligreses. En una de estas conversaciones, Athena reconoció que tal vez se habí­a precipitado un poco, el romanticismo de ser una joven madre no la habí­a dejado ver con claridad los verdaderos desafí­os que surgen tras el nacimiento de un hijo. Pero ahora era demasiado tarde para arrepentimientos.

Me preguntó si yo podrí­a hablar con Lukás, que jamás iba a la iglesia, ya fuera porque no creí­a en Dios o porque preferí­a aprovechar las mañanas de domingo para estar más cerca de su hijo. Yo accedí­ a hacerlo, siempre que viniera por su propia voluntad. Y cuando Athena estaba a punto de pedirle ese favor, se produjo la gran crisis y su marido se marchó de casa.

Le aconsejé que tuviera paciencia, pero ella estaba profundamente herida. Ya habí­a sido abandonada una vez en su infancia, y todo el odio que sentí­a hacia su madre biológica le fue transferido automáticamente a Lukás, aunque más tarde, por lo que sé, volvieron a ser buenos amigos. Para Athena, romper los lazos de familia era quizás el pecado más grave que alguien podí­a cometer.

Siguió frecuentando la iglesia los domingos, pero volví­a en seguida a casa, porque ya no tení­a con quién dejar a su hijo, y el niño lloraba mucho durante la ceremonia, entorpeciendo la concentración de los demás fieles. En uno de los pocos momentos en los que pudimos hablar, me dijo que estaba trabajando en un banco, que habí­a alquilado un apartamento, y que no me preocupara; el «padre» (habí­a dejado de pronunciar el nombre de su marido) cumplí­a con sus obligaciones económicas.

Hasta que llegó aquel domingo fatí­dico.

Yo sabí­a lo que habí­a pasado durante la semana: me lo habí­a contado uno de los feligreses. Me pasé algunas noches pidiendo que algún ángel me inspirase, que me explicase si debí­a mantener mi compromiso con la Iglesia o mi compromiso con los hombres. Como el ángel no apareció, me puse en contacto con mi superior y me dijo que la Iglesia sobrevive porque siempre ha sido rí­gida con sus dogmas (si empezaba a hacer excepciones, habrí­amos estado perdidos desde la Edad Media). Sabí­a exactamente lo que iba a pasar, pensé en llamar a Athena, pero no me habí­a dado su nuevo número.

Aquella mañana, mis manos temblaron cuando levanté la hostia, consagrando el pan. Dije las palabras que la tradición milenaria me habí­a transmitido, usando el poder transmitido de generación en generación por los apóstoles. Pero entonces mi pensamiento se dirigió a aquella chica con su niño en brazos, una especie de Virgen Marí­a, el milagro de la maternidad y del amor manifestados en el abandono y la soledad, que acababa de ponerse en la fila como hací­a siempre, y, poco a poco, se acercaba a comulgar.

Creo que gran parte de la congregación allí­ presente sabí­a lo que estaba pasando. Todos me miraban, esperando mi reacción. Me vi rodeado de justos, pecadores, fariseos, sacerdotes del Sanedrí­n, apóstoles, discí­pulos, gente de buena y de mala voluntad.

Athena se paró delante de mí­ y repitió el gesto de siempre: cerró los ojos y abrió la boca para recibir el cuerpo de Cristo.

El cuerpo de Cristo permaneció en mis manos. Ella abrió los ojos, sin entender muy bien lo que estaba pasando.

“”Hablamos después “”le susurré.

Pero ella no se moví­a.

“”Hay gente detrás, en la cola. Hablamos después.

“”¿Qué es lo que pasa? “”Todos los que estaban cerca pudieron oí­r su pregunta.

“”Hablamos después.

“”¿Por qué no me da la comunión? ¿No ve que me está humillando delante de todo el mundo? ¿No es suficiente todo lo que he pasado?

“”Athena, la Iglesia prohí­be que las personas divorciadas reciban el sacramento. Has firmado los papeles esta semana. Hablamos después “”insistí­ una vez más.

Como no se moví­a, le indiqué a la persona que estaba detrás que pasase por un lado.

Seguí­ dando la comunión hasta que el último feligrés la hubo recibido. Y entonces, antes de volver al altar, oí­ aquella voz.

Ya no era la voz de la chica que cantaba para adorar a la Virgen, la que hablaba sobre sus planes, la que se conmoví­a contando lo que habí­a aprendido sobre la vida de los santos, la que casi lloraba al compartir sus dificultades del matrimonio. Era la voz de un animal herido, humillado, con el corazón lleno de odio.

“”¡Pues maldito sea este lugar! “”dijo la voz””. Malditos sean aquellos que nunca han escuchado las palabras de Cristo, y que han transformado su mensaje en una construcción de piedra. Pues Cristo dijo: «Venid a mí­ los que estéis afligidos, que yo os aliviaré». Yo estoy afligida, herida, pero no me dejáis acercarme a Él. Hoy he aprendido que la Iglesia ha transformado esas palabras. ¡Venid a mí­ los que siguen nuestras reglas, y dejad a los afligidos!

Oí­ a una de las mujeres de la primera fila decirle que se callase. Pero yo querí­a escuchar, necesitaba escuchar. Me giré y me puse delante de ella, con la cabeza baja; era lo único que podí­a hacer.

“”Juro que jamás volveré a poner los pies en una iglesia. Otra vez más soy abandonada por una familia, y ahora no se trata de dificultades económicas, ni de la inmadurez de alguien que se casa demasiado pronto. ¡Malditos sean los que le cierran la puerta a una madre y a su hijo! ¡Sois iguales que aquellos que no acogieron a la Sagrada Familia, iguales que el que negó a Cristo cuando él más necesitaba a un amigo!

Y, dando media vuelta, salió llorando, con el niño en brazos. Yo terminé el oficio, di la bendición final y me fui directo a la sacristí­a; ese domingo no iba a haber confraternización con los fieles, ni conversaciones inútiles.

Ese domingo me encontraba frente a un dilema filosófico: habí­a escogido respetar la institución, y no las palabras en las que se basa la institución.

Ya soy viejo, Dios puede llevarme consigo en cualquier momento. Seguí­ siendo fiel a mi religión, y creo que, a pesar de todos sus errores, se está esforzando sinceramente por corregirse. Eso le llevará décadas, puede que siglos, pero un dí­a todo lo que se tendrá en cuenta será el amor, la frase de Cristo: «Venid a mí­ los afligidos, que yo os aliviaré».
He dedicado toda mi vida al sacerdocio, y no me arrepiento ni un segundo de mi decisión. Pero en momentos como el de aquel domingo, aunque no dudase de mi fe, empecé a dudar de los hombres.

Ahora sé lo que pasó con Athena, y me pregunto: ¿empezó todo allí­, o ya estaba en su alma? Pienso en las muchas Athenas y Lukás del mundo que se han divorciado y que, por culpa de eso, no pueden recibir el sacramento de la Eucaristí­a, no les queda más que contemplar al Cristo que sufre crucificado, y escuchar Sus palabras (que no siempre están de acuerdo con las leyes del Vaticano). En unos pocos casos, esa gente se aparta, pero la mayorí­a siguen yendo a misa los domingos, porque están acostumbrados a eso, incluso siendo conscientes de que el milagro de la transformación del pan y del vino en la carne y la sangre del Señor les está prohibido.

Creo que, al salir de la iglesia, puede que Athena encontrase a Jesús. Y, llorando, se echó en sus brazos, confusa, pidiéndole que le explicase por qué la obligaban a quedarse fuera sólo por culpa de un papel firmado, algo sin la menor importancia en el plano espiritual, y que sólo interesaba a efectos de burocracia y para la declaración de la renta.

Y Jesús, mirando a Athena, probablemente le respondió: “”Fí­jate bien, hija mí­a, yo también estoy fuera. Hace mucho tiempo que no me dejan entrar ahí­.

Próximo y último texto: 27.09.06

Décimo Segundo Capí­tulo

Samira R. Khalil, mí£e de Athena

Foi como se todas as suas conquistas profissionais, sua capacidade de ganhar dinheiro, sua alegria com o novo amor, seu contentamento quando brincava com meu neto, tudo isso tivesse sido jogado para um segundo plano. Eu fiquei simplesmente aterrorizada quando Sherine me comunicou a decisí£o de ir em busca da sua mí£e de sangue.

No iní­cio, é claro, consolava-me a idéia de que já ní£o existia mais o centro de adoí§í£o, as fichas tivessem sido perdidas, os funcionários se mostrassem implacáveis, o governo tinha acabado de cair e era impossí­vel viajar, ou o ventre que a trouxe a esta terra já ní£o estivesse mais neste mundo. Mas foi um consolo momentí¢neo: minha filha era capaz de tudo, e conseguia superar situaí§íµes que pareciam impossí­veis.

Até aquele momento, o assunto era um tabu na famí­lia. Sherine sabia que fora adotada, já que o psiquiatra em Beirute me aconselhara a contar logo que tivesse suficiente idade para compreender. Mas nunca demonstrou curiosidade em saber de que regií£o viera “” seu lar tinha sido Beirute, quando ainda era um lar para todos nós.

Como o filho adotado de uma amiga minha terminou se suicidando quando ganhou uma irmí£ biológica “” e ele tinha apenas 16 anos! “”, nós evitamos ampliar nossa famí­lia, fizemos todos os sacrifí­cios necessários para que entendesse que era a única razí£o de minhas alegrias e minhas tristezas, dos meus amores e das minhas esperaní§as. Mesmo assim, parecia que nada disso contava; meu Deus, como os filhos podem ser tí£o ingratos!

Conhecendo minha filha, sabia que ní£o adiantava argumentar nada disso com ela. Eu e meu marido passamos uma semana sem dormir, e todas as manhí£s, todas as tardes, éramos bombardeados com a mesma pergunta: em que cidade da Romíªnia eu nasci? Para agravar a situaí§í£o, Viorel chorava, porque parecia estar entendendo tudo que acontecia.

Resolvi consultar de novo um psiquiatra. Perguntei por que uma moí§a que tinha tudo na vida estava sempre tí£o insatisfeita.

“” Todos nós queremos saber de onde viemos “” disse ele. “” Essa é a questí£o fundamental do ser humano no plano filosófico. No caso de sua filha, acho perfeitamente justo que procure saber suas origens. A senhora ní£o teria esta curiosidade?

Ní£o, eu ní£o teria. Muito pelo contrário, acharia um perigo ir em busca de alguém que me recusou e me rejeitou, quando ainda ní£o tinha forí§as para sobreviver.

Mas o psiquiatra insistiu:

“” Ao invés de entrar em confronto com ela, procure ajudá-la. Talvez, vendo que isso ní£o é um problema para a senhora, ela desista. O ano que passou distante de todos os seus amigos deve ter criado uma caríªncia emocional, que agora ela está procurando compensar através de provocaí§íµes sem importí¢ncia. Apenas para ter certeza que é amada.

Teria sido melhor que Sherine tivesse ido, ela mesma, ao psiquiatra: assim compreenderia as razíµes do seu comportamento.

“” Demonstre confianí§a, ní£o veja nisso uma ameaí§a. E se no final ela realmente quiser ir adiante, resta apenas dar os elementos que pede. Pelo que entendo, ela sempre foi uma menina problemática; quem sabe sairá mais fortalecida através desta busca.

Perguntei se o psiquiatra tinha filhos. Ele disse que ní£o, e logo entendi que ní£o era a pessoa indicada para me aconselhar.

Naquela noite, quando estávamos diante da televisí£o, Sherine voltou ao assunto:

“” O que estí£o assistindo?

“” O noticiário.

“” Para quíª?

“” Para saber as novidades do Lí­bano “” respondeu meu marido.

Eu percebi a armadilha, mas já era tarde. Sherine aproveitou-se imediatamente da situaí§í£o.

“” Enfim, vocíªs também estí£o curiosos para saber o que está acontecendo na terra em que nasceram. Estí£o bem estabelecidos na Inglaterra, tíªm amigos, papai ganha muito dinheiro aqui, vivem em seguraní§a. Mesmo assim, compram jornais libaneses. Mudam de canal até que surja alguma notí­cia relacionada com Beirute. Imaginam o futuro como se ele fosse o passado, sem se dar conta que esta guerra ní£o acaba nunca.

“Ou seja: se ní£o estí£o em contato com suas origens, sentem que perderam o contato com o mundo. Custa entender o que estou sentindo?”

“” Vocíª é nossa filha.

“” Com muito orgulho. E serei para sempre a filha de vocíªs. Por favor, ní£o tenham dúvidas de meu amor e minha gratidí£o por tudo que fizeram; eu ní£o estou pedindo nada além de colocar meus pés no verdadeiro lugar onde nasci. Talvez perguntar í  minha mí£e de sangue por que me abandonou, ou talvez deixar o assunto para lá, quando olhar nos seus olhos. Se ní£o tentar fazer isso, vou me achar covarde, e ní£o poderei jamais entender os espaí§os em branco.

“” Os espaí§os em branco?

“” Aprendi caligrafia enquanto estava em Dubai. Daní§o sempre que posso. Mas a música só existe porque existem as pausas. As frases só existem porque existem os espaí§os em branco. Quando estou fazendo algo, me sinto completa; mas ninguém pode viver em atividade durante as 24 horas do dia. No momento em que paro, sinto que algo está faltando.

“Vocíªs disseram mais de uma vez que sou uma pessoa inquieta por natureza. Mas ní£o escolhi esta maneira de viver: gostaria de poder estar aqui, tranqüila, também assistindo televisí£o. É impossí­vel: minha cabeí§a ní£o pára. í€s vezes penso que vou enlouquecer, preciso estar sempre daní§ando, escrevendo, vendendo terrenos, cuidando de Viorel, lendo qualquer coisa que me cai adiante. Acham normal?”

“” Talvez seja seu temperamento “” disse meu marido.

A conversa terminou ali, da maneira que sempre terminava: Viorel chorando, Sherine fechando-se em seu mutismo, e eu certa de que os filhos nunca reconhecem o que os pais fazem por eles. Entretanto, durante o café-da-manhí£ no dia seguinte, foi meu marido quem puxou o assunto:

“” Há algum tempo, quando vocíª estava no Oriente Médio, eu tentei ver as condií§íµes de voltar para casa. Fui até a rua onde vivemos; a casa ní£o existe mais, embora o paí­s esteja sendo reconstruí­do, mesmo com a ocupaí§í£o estrangeira e as invasíµes constantes. Experimentei uma sensaí§í£o de euforia; quem sabe era o momento de recomeí§ar tudo de novo? E foi justamente esta palavra, “recomeí§ar”, que me trouxe de volta í  realidade. Eu já passei do tempo onde podia me dar a esse luxo; hoje em dia, quero continuar o que estou fazendo, ní£o preciso de novas aventuras.

“Procurei as pessoas que costumava encontrar para beber uns copos de uí­sque no final da tarde. A maioria ní£o está mais ali, as que ficaram vivem se queixando da constante sensaí§í£o de inseguraní§a. Caminhei pelos lugares onde passeava, e me senti um estranho, como se nada daquilo me pertencesse mais. O pior de tudo é que o sonho de retornar um dia ia desaparecendo í  medida que eu me encontrava com a cidade onde nasci.

“Mesmo assim, foi necessário. As caní§íµes do exí­lio ainda continuam em meu coraí§í£o, mas sei que ní£o tornarei nunca mais a viver no Lí­bano. De alguma maneira, os dias passados em Beirute me ajudaram a entender melhor o lugar onde estou agora, e valorizar cada segundo que passo em Londres.”

“” O que vocíª está querendo me dizer, papai?

“” Que vocíª está certa. Talvez seja melhor mesmo entender estes espaí§os brancos. Podemos ficar com Viorel enquanto estiver viajando.

Ele foi até o quarto, e voltou com uma pasta amarelada. Eram os papéis de adoí§í£o “” que estendeu para Sherine. Deu-lhe um beijo, e disse que já era hora de partir para o trabalho.

Próximo e último texto: 27.09.06

Décimo Primeiro Capí­tulo

Nabil Alaihi, idade desconhecida, beduí­no

Fico muito contente em saber que Athena tinha uma foto minha no lugar de honra de seu apartamento, mas ní£o creio que o que lhe ensinei tenha qualquer utilidade. Ela veio até aqui, no meio do deserto, trazendo pelas mí£os uma crianí§a de tríªs anos. Abriu sua bolsa, retirou um radiogravador, e sentou-se diante da minha tenda. Sei que pessoas na cidade costumavam indicar meu nome para estrangeiros que gostariam de provar a cozinha local, e logo disse que ainda era muito cedo para jantar.

“” Vim por outra razí£o “” disse a mulher. “” Soube através de seu sobrinho Hamid, cliente do banco onde trabalho, que o senhor é um sábio.

“” Hamid é apenas um jovem tolo, que embora diga que sou sábio, jamais seguiu meus conselhos. Sábio foi Mohammed, o Profeta, que a bíªní§í£o de Deus esteja com ele.

Apontei para seu carro.

“” Vocíª ní£o devia dirigir sozinha em um terreno a que ní£o está acostumada, e tampouco se aventurar por aqui sem um guia.

Em vez de me responder, ela ligou o aparelho. Em seguida, tudo que pude ver era aquela mulher flutuando nas dunas, a crianí§a olhando espantada e alegre, e o som que parecia inundar o deserto inteiro. Quando terminou, perguntou se eu havia gostado.

Disse que sim. Em nossa religií£o existe uma seita que daní§a para encontrar-se com Allah “” louvado seja Seu nome! (N.R.: a seita em questí£o é o sufismo).

“” Pois bem “” continuou a mulher, apresentando-se como Athena. “” Desde crianí§a sinto que devo aproximar-me de Deus, mas a vida termina por me afastar Dele. A música foi uma das maneiras que encontrei; ní£o é o bastante. Sempre que daní§o, vejo uma luz, e esta luz agora me pede que vá mais adiante. Ní£o posso continuar aprendendo apenas comigo mesmo, preciso que alguém me ensine.

“” Qualquer coisa é bastante “” respondi. “” Porque Allah, o misericordioso, está sempre próximo. Tenha uma vida digna, isso basta.

Mas a mulher parecia ní£o estar convencida. Eu disse que estava ocupado, precisava preparar o jantar para os poucos turistas que deviam aparecer. Ela respondeu que esperaria o quanto fosse necessário.

“” E a crianí§a?

“” Ní£o se preocupe.

Enquanto tomava as providíªncias de sempre, observava a mulher e seu filho, os dois pareciam ter a mesma idade; corriam pelo deserto, riam, faziam batalhas de areia, atiravam-se no chí£o e rolavam pelas dunas. Chegou o guia com tríªs turistas alemí£es, que comeram, pediram cerveja, precisei explicar que minha religií£o me impedia de beber ou servir bebidas alcoólicas. Convidei a mulher e seu filho para jantarem, e um dos alemí£es logo ficou bastante animado com a inesperada presení§a feminina. Comentou que estava pensando em comprar terrenos, tinha uma grande fortuna acumulada, e acreditava no futuro da regií£o.

“” í“timo “” foi a resposta dela. “” Também acredito.

“” Será que ní£o seria bom jantarmos em outro lugar, para poder discutir melhor a possibilidade de…

“” Ní£o “” ela cortou, estendendo-lhe um cartí£o. “” Se desejar, pode procurar minha agíªncia.

Quando os turistas foram embora, nos sentamos na frente da tenda. O menino logo dormiu em seu colo; peguei cobertores para todos nós, e ficamos olhando o céu estrelado. Finalmente ela quebrou o silíªncio.

“” Por que Hamid diz que o senhor é sábio?

“” Talvez porque tenha mais paciíªncia que ele. Houve uma época em que tentei lhe ensinar minha arte, mas Hamid parecia mais preocupado em ganhar dinheiro. Hoje deve estar convencido que é mais sábio que eu; tem um apartamento, um barco, enquanto eu estou aqui no meio do deserto, servindo aos poucos turistas que aparecem. Ní£o entende que estou satisfeito com o que faí§o.

“” Entende perfeitamente, porque fala a todos do senhor, com muito respeito. E o que significa sua “arte”?

“” Vi hoje vocíª daní§ando. Eu faí§o a mesma coisa, só que, em vez de mover meu corpo, sí£o as letras que daní§am.

Ela pareceu surpresa.

“” Minha maneira de me aproximar de Allah “” que seu nome seja louvado! “” foi através da caligrafia, a busca do sentido perfeito para cada palavra. Uma simples letra requer que coloquemos nela toda a forí§a que contém, como se estivéssemos esculpindo o seu significado. Assim, quando os textos sagrados sí£o escritos, ali está a alma do homem que serviu de instrumento para divulgá-los ao mundo.

“E ní£o apenas os textos sagrados, mas cada coisa que colocamos no papel. Porque a mí£o que traí§a as linhas reflete a alma de quem as escreve.”

“” Vocíª me ensinaria o que sabe?

“” Em primeiro lugar, ní£o creio que uma pessoa tí£o cheia de energia tenha paciíªncia para isso. Além do mais, ní£o faz parte do seu mundo, onde as coisas sí£o impressas “” sem que pensem muito no que estí£o publicando, se me permite o comentário.

“” Gostaria de tentar.

E durante mais de seis meses, aquela mulher que eu julgava agitada, exuberante, incapaz de ficar quieta por um só momento, passou a me visitar todas as sextas-feiras. O filho sentava-se em um canto, pegava alguns papéis e pincéis, e dedicava-se, também ele, a manifestar em seus desenhos aquilo que os céus assim determinavam.

Eu via seu esforí§o gigantesco para manter-se quieta, na postura adequada, e perguntava: “vocíª ní£o acha melhor procurar outra coisa para distrair-se?”. Ela respondia: “Preciso disso, preciso acalmar minha alma, e ainda ní£o aprendi tudo que vocíª pode me ensinar. A luz do Vértice me disse que eu devo seguir adiante”. Nunca perguntei o que era Vértice, ní£o me interessava.

A primeira lií§í£o, e talvez a mais difí­cil, foi:

“” Paciíªncia!

Escrever ní£o era apenas um ato de expressar um pensamento, mas de refletir sobre o significado de cada palavra. Juntos comeí§amos a trabalhar em textos de um poeta árabe, já que ní£o creio que o Alcorí£o fosse indicado para uma pessoa educada em outra fé. Eu ia ditando cada letra, e assim ela se concentrava no que estava fazendo, em vez de querer saber logo o significado da palavra, da frase, ou do verso.

“” Certa vez, alguém me disse que a música tinha sido criada por Deus, e que o movimento rápido era necessário para que as pessoas entrassem em contato consigo mesmas “” disse Athena em uma das tardes que passamos juntos. “” Durante anos, vi que isso era verdade, e agora estou sendo forí§ada í  coisa mais difí­cil do mundo, desacelerar meus passos. Por que a paciíªncia é tí£o importante?

“” Porque ela nos faz prestar atení§í£o.

“” Mas eu posso daní§ar obedecendo apenas a minha alma, que me obriga a concentrar-me em algo maior do que eu mesma, e me permite entrar em contato com Deus “” se é que posso utilizar esta palavra. Isso já me ajudou a transformar muitas coisas, inclusive meu trabalho. A alma ní£o é mais importante?

“” Claro. Entretanto, se sua alma conseguir comunicar-se com seu cérebro, poderá transformar mais coisas ainda.

Continuamos nosso trabalho juntos. Eu sabia que, em determinado momento, teria que dizer algo que ela talvez ní£o estivesse pronta para escutar, de modo que procurei aproveitar cada minuto para ir preparando seu espí­rito. Expliquei que antes da palavra existe o pensamento. E, antes do pensamento, existe a centelha divina que o colocou ali. Tudo, absolutamente tudo nesta terra fazia sentido, e as menores coisas deviam ser levadas em consideraí§í£o.

“” Eduquei meu corpo para que pudesse manifestar por inteiro as sensaí§íµes da minha alma “” dizia ela.

“” Agora eduque apenas seus dedos, de modo que eles possam manifestar por inteiro as sensaí§íµes do seu corpo. Assim, sua imensa forí§a estará concentrada. “” O senhor é um mestre.

“” O que é um mestre? Pois eu lhe respondo: ní£o é aquele que ensina algo, mas aquele que inspira o aluno a dar o melhor de si para descobrir o que ele já sabe.

Pressenti que Athena já havia experimentado isso, embora ainda fosse muito jovem. Como a escrita revela a personalidade da pessoa, descobri que tinha consciíªncia de que era amada, ní£o apenas por seu filho, mas por sua famí­lia e eventualmente por um homem. Descobri também que tinha dons misteriosos, e procurei jamais demonstrar isso “” já que estes dons podiam causar seu encontro com Deus, mas também sua perdií§í£o.

Ní£o me limitava a adestrá-la na técnica; procurava também transmitir-lhe a filosofia dos calí­grafos.

“” A pena com que agora escreve estes versos é apenas um instrumento. Ela ní£o tem consciíªncia, segue o desejo daquele que a segura. E nisso se parece muito com aquilo que chamamos de “vida”. Muitas pessoas estí£o neste mundo apenas cumprindo um papel, sem entender que existe uma Mí£o Invisí­vel que as guia.

“Neste momento, em suas mí£os, no pincel que traí§a cada letra, estí£o todas as intení§íµes de sua alma. Procure entender a importí¢ncia disso.”

“” Entendo, e vejo que é importante manter certa elegí¢ncia. Porque o senhor exige que eu me sente em determinada posií§í£o, reverencie o material que vou utilizar, e só comece quando tiver feito isso.

Claro. Na medida em que respeitava o pincel, descobria que era necessário ter serenidade e elegí¢ncia para aprender a escrever. E a serenidade vem do coraí§í£o.

“” A elegí¢ncia ní£o é uma coisa superficial, mas a maneira que o homem encontrou para honrar a vida e o trabalho. Por isso, quando vocíª sentir que a postura a está incomodando, ní£o pense que ela é falsa ou artificial: ela é verdadeira porque é difí­cil. Ela faz com que tanto o papel como a pena sintam-se orgulhosos por seu esforí§o. O papel deixa de ser uma superfí­cie plana e incolor, e passa a ter a profundidade das coisas que ali sí£o colocadas.

“A elegí¢ncia é a postura mais adequada para que a escrita seja perfeita. Assim também é com a vida: quando o supérfluo é descartado, o ser humano descobre a simplicidade e a concentraí§í£o: quanto mais simples e mais sóbria a postura, mais bela ela será, embora no iní­cio pareí§a desconfortável.”

De vez em quando, ela me comentava sobre seu trabalho. Dizia que estava entusiasmada com o que fazia, e que acabara de receber uma proposta de um poderoso emir. Ele fora ao banco para ver um amigo que era diretor (os emires jamais ví£o aos bancos para retirar dinheiro, tíªm muitos empregados para fazer isso), conversando com ela mencionou que estava procurando alguém para cuidar da venda de terrenos, e gostaria de saber se estava interessada.

Quem se interessaria por comprar terrenos no meio do deserto, ou em um porto que ní£o estava no centro do mundo? Resolvi ní£o comentar nada; olhando para trás, fico contente por ter ficado em silíªncio.

Uma única vez falou do amor de um homem, embora sempre que turistas chegavam para jantar, e a encontravam ali, procurassem seduzi-la de alguma maneira. Normalmente Athena sequer se incomodava, até o dia em que um deles insinuou que conhecia seu namorado. Ela ficou pálida, e imediatamente olhou para o menino, que felizmente ní£o estava prestando atení§í£o í  conversa.

“” Conhece de onde?

“” Estou brincando “” disse o homem. “” Queria apenas saber se estava livre.

Ela ní£o respondeu nada, mas entendi que o homem que estava em sua vida ní£o era o pai do garoto. Um dia chegou mais cedo que de costume. Disse que tinha deixado o emprego no banco, comeí§ara a vender terrenos, e assim teria mais tempo livre. Expliquei que ní£o podia ensiná-la antes da hora marcada, tinha uma série de coisas para fazer.

“” Posso juntar as duas coisas: movimento e quietude. Alegria e concentraí§í£o.

Foi até o carro, pegou o gravador, e a partir daquele momento, Athena daní§ava no deserto antes de comeí§ar as aulas, enquanto a crianí§a corria e sorria í  sua volta. Quando se sentava para praticar caligrafia, sua mí£o estava mais segura do que normalmente.

“” Existem dois tipos de letras “” eu explicava. “” A primeira é feita com precisí£o, mas sem alma. Neste caso, embora o calí­grafo tenha um grande domí­nio da técnica, ele concentrou-se exclusivamente no ofí­cio “” e por causa disso ní£o evoluiu, tornou-se repetitivo, ní£o conseguiu crescer, e um dia irá deixar o exercí­cio da escrita, porque acha que tudo se transformou em rotina.

“O segundo tipo é a letra feita com técnica, mas também com alma. Para isso, é necessário que a intení§í£o de quem escreve esteja de acordo com a palavra; neste caso, os versos mais tristes deixam de ser revestidos de tragédia, e se transformam em simples fatos que estavam em nosso caminho.”

“” O que vocíª faz com os seus desenhos? “” perguntou o menino, em árabe perfeito. Embora ní£o estivesse entendendo nossa conversa, fazia o possí­vel para participar do trabalho da mí£e.

“” Eu os vendo.

“” Posso vender meus desenhos?

“” Deve vender seus desenhos. Um dia vai ficar rico com isso, e ajudar sua mí£e.

Ele ficou contente com meu comentário, e voltou para o que estava fazendo naquele momento: uma borboleta colorida.

“” E que faí§o com os meus textos? “” perguntou Athena.

“” Vocíª sabe o esforí§o que custou sentar-se na posií§í£o correta, acalmar sua alma, ter clara sua intení§í£o, respeitar cada letra de cada palavra. Mas, por enquanto, continue apenas praticando.

“Depois de muito praticar, já ní£o pensamos em todos os movimentos necessários: eles passam a fazer parte de nossa própria existíªncia. Antes de chegar a este estado, entretanto, é preciso treinar, repetir. E, como se ní£o bastasse, é preciso repetir e treinar.

“Observe um bom ferreiro trabalhando o aí§o. Para o olhar destreinado, ele está repetindo as mesmas marteladas.

“Mas quem conhece a arte da caligrafia, sabe que cada vez que ele levanta o martelo e o faz descer, a intensidade do golpe é diferente. A mí£o repete o mesmo gesto, mas, í  medida que se aproxima do ferro, ela compreende se deve tocá-lo com mais dureza ou mais suavidade. Assim é com a repetií§í£o: embora pareí§a a mesma coisa, é sempre distinta.

“Vai chegar o momento em que ní£o é mais preciso pensar no que se está fazendo. Vocíª passa a ser a letra, a tinta, o papel, e a palavra.”

Este momento chegou quase um ano depois. A esta altura, Athena já era conhecida em Dubai, indicava clientes para jantar na minha tenda, e através deles pude entender que sua carreira ia muito bem: estava vendendo pedaí§os de deserto! Certa noite, precedido de um grande séquito, apareceu o emir em pessoa. Eu fiquei assustado; ní£o estava preparado para aquilo, mas ele me tranqüilizou e me agradeceu o que estava fazendo por sua funcionária.

“” É uma pessoa excelente, e atribui suas qualidades ao que está aprendendo com o senhor. Estou pensando em dar-lhe uma parte na sociedade. Talvez seja bom enviar meus vendedores para aprender caligrafia, principalmente agora que Athena deve sair de férias por um míªs.

“” Ní£o iria adiantar nada “” respondi. “” Caligrafia é apenas uma das maneiras que Allah “” louvado seja Seu Nome! “” colocou diante de nós. Ensina objetividade e paciíªncia, respeito e elegí¢ncia, mas podemos aprender tudo isso…

“” … na daní§a “” completou Athena, que estava perto.

“” Ou vendendo imóveis “” completei.

Quando todos saí­ram, quando o menino estendeu-se em um canto da tenda, os olhos quase se fechando de sono, eu trouxe o material de caligrafia e pedi que escrevesse alguma coisa. No meio da palavra, retirei a pena de sua mí£o. Era a hora de dizer o que precisava ser dito. Sugeri que caminhássemos um pouco pelo deserto.

“” Vocíª já aprendeu o que precisava “” disse. “” Sua caligrafia está cada vez mais pessoal, mais espontí¢nea. Já ní£o é apenas uma repetií§í£o da beleza, mas um gesto de criaí§í£o pessoal. Vocíª entendeu o que os grandes pintores entendem: para esquecer as regras, é preciso conhecíª-las e respeitá-las.

“Já ní£o precisa dos instrumentos que a fizeram aprender. Já ní£o precisa do papel, da tinta, da pena, porque o caminho é mais importante que aquilo que a levou a caminhar. Certa vez vocíª me contou que a pessoa que a ensinou a daní§ar ficava imaginando músicas em sua cabeí§a “” e mesmo assim, era capaz de repetir os ritmos necessários e precisos.”

“” Isso mesmo.

“” Se as palavras estivessem todas unidas, elas ní£o fariam sentido, ou complicariam muito o seu entendimento: é necessário que existam espaí§os.

Ela concordou com a cabeí§a.

“” E apesar de vocíª dominar as palavras, ainda ní£o domina os espaí§os em branco. Sua mí£o, quando está concentrada, é perfeita. Quando salta de uma palavra para a outra, ela se perde.

“” Como o senhor sabe isso?

“” Tenho razí£o?

“” Tem toda razí£o. Em algumas fraí§íµes de segundo, antes de concentrar-me na próxima palavra, eu me perco. Coisas que eu ní£o quero pensar insistem em dominar-me.

“” E vocíª sabe exatamente o que é.

Athena sabia, mas ní£o disse nada, até voltarmos í  tenda, e poder segurar o filho adormecido no colo. Seus olhos pareciam cheios de lágrimas, embora fizesse o possí­vel para controlar-se.

“” O emir disse que vocíª iria tirar férias.

Ela abriu a porta do carro, colocou a chave na ignií§í£o, e deu a partida. Por alguns momentos, apenas o ruí­do do motor quebrava o silíªncio do deserto.

“” Sei o que o senhor está falando “” disse ela afinal. “” Quando escrevo, quando daní§o, sou guiada pela Mí£o que tudo criou. Quando olho Viorel dormindo, sei que ele sabe que é fruto de meu amor pelo pai dele, embora já ní£o o veja há mais de um ano. Mas eu…

Ficou em silíªncio de novo. O silíªncio que era o espaí§o em branco entre as palavras.

“” … mas eu ní£o conheí§o a mí£o que me embalou pela primeira vez. A mí£o que me escreveu no livro deste mundo.

Apenas balancei a cabeí§a em sinal afirmativo.

“” O senhor acha isso importante? “” Nem sempre. Mas no seu caso, enquanto ní£o tocar esta mí£o, ní£o irá melhorar… digamos… sua caligrafia.

“” Ní£o creio que seja necessário descobrir quem jamais se deu ao trabalho de me amar.

Fechou a porta, sorriu, e arrancou com o carro. Apesar de suas palavras, eu sabia qual seria seu próximo passo.

Próximo texto: 23.09.06

Séptimo Capí­tulo

Lukás Jessen-Petersen, ex marido

Cuando Viorel nació yo acababa de cumplir veintidós años. Ya no era el estudiante que acababa de casarse con una ex compañera de facultad, sino un hombre responsable del sustento de su familia, con un enorme peso sobre mis hombros.

Mis padres, por supuesto, que ni siquiera asistieron a la boda, condicionaron cualquier ayuda económica a la separación y a la custodia del niño (mejor dicho, fue mi padre el que lo comentó, porque mi madre solí­a llamarme llorando, diciéndome que yo estaba loco, pero que le gustarí­a muchí­simo coger a su nieto en brazos). Yo esperaba que a medida que entendiesen mi amor por Athena y mi decisión de seguir con ella, esa resistencia desaparecerí­a.

Pero no desaparecí­a. Y ahora tení­a que alimentar a mi mujer y a mi hijo. Cancelé la matrí­cula en la Facultad de Ingenierí­a. Recibí­ una llamada de mi padre, con amenazas y cariño: decí­a que, si seguí­a así­, iba a acabar desheredándome, pero que si volví­a a la universidad, considerarí­a ayudarme «provisionalmente», según sus palabras. Yo lo rechacé; el romanticismo de la juventud exige que tengamos siempre posiciones radicales. Le dije que podí­a resolver mis problemas yo solito. Hasta el dí­a en que Viorel nació, Athena empezaba a dejarse a que yo la entendiese mejor. Sin embargo, eso no habí­a ocurrido a través de nuestra relación sexual “”muy tí­mida, debo confesar””, sino a través de la música.

La música es tan antigua como los seres humanos, me explicaron después. Nuestros ancestros, que viajaban de caverna en caverna, no podí­an llevar muchas cosas, pero la arqueologí­a moderna demuestra que, además de lo poco que necesitaban para comer, en su equipaje siempre habí­a un instrumento musical, generalmente un tambor. La música no es simplemente algo que nos agrada, o que nos distrae, sino que además de eso, es una ideologí­a. Se conoce a la gente por el tipo de música que escucha.

Viendo a Athena bailar mientras estaba embarazada, oyéndola tocar su guitarra para que el bebé se tranquilizase y entendiese que era amado, empecé a dejar que su manera de ver el mundo también contagiase mi vida. Cuando Viorel nació, lo primero que hicimos al llegar a casa fue escuchar un adagio de Albinoni. Cuando discutí­amos, era la fuerza de la música “”aunque no logre establecer una relación lógica entre una cosa y la otra, excepto pensar en los hippies”” la que nos ayudaba a afrontar los momentos difí­ciles.

Pero todo ese romanticismo no nos ayudaba a ganar dinero. Como yo no tocaba ningún instrumento, y ni siquiera podí­a ofrecerme para distraer a los clientes en un bar, sólo pude conseguir un trabajo de aprendiz en un estudio de arquitectura, haciendo cálculos estructurales. Pagaban muy poco la hora, así­ que salí­a de casa temprano y volví­a tarde. Casi no podí­a ver a mi hijo “”que estaba siempre durmiendo””, y casi no podí­a ni hablar ni hacer el amor con mi mujer, que estaba exhausta. Todas las noches, yo me preguntaba: ¿Cuándo mejorará nuestra situación económica y tendremos la dignidad que merecemos? Aunque esté de acuerdo con Athena cuando habla de la inutilidad de un tí­tulo en la mayorí­a de los casos, en ingenierí­a (y derecho, y medicina, por ejemplo) es fundamental tener una serie de conocimientos técnicos, o estarí­amos poniendo en peligro la vida de los demás. Pero yo me habí­a visto obligado a interrumpir la búsqueda de una profesión que habí­a escogido, un sueño que era muy importante para mí­.

Empezaron las peleas. Athena se quejaba de que yo le prestaba poca atención al niño, que necesitaba un padre, que si sólo habí­a sido para tener un hijo, ella podrí­a haberlo hecho sola, sin necesidad de crearme tantos problemas. Más de una vez pegué un portazo y salí­ a caminar, gritando que ella no me entendí­a, que yo tampoco entendí­a cómo habí­a aceptado esa «locura» de tener un hijo a los veinte años, antes de haber sido capaces, al menos, de tener unas mí­nimas condiciones económicas. Poco a poco, dejamos de hacer el amor, ya fuese por cansancio, o porque siempre estábamos enfadados el uno con el otro.

Empecé a caer en la depresión, creyendo que habí­a sido utilizado y manipulado por la mujer que amaba. Athena se dio cuenta de mi estado de ánimo cada vez más extraño, y en vez de ayudarme, decidió concentrar su energí­a sólo en Viorel y en la música. Mi escape pasó a ser el trabajo. De vez en cuando hablaba con mis padres, y siempre oí­a aquella historia de que «ella tuvo un hijo para tenerte cogido».

Por otro lado, su religiosidad iba aumentando cada vez más. Pronto quiso el bautizo, con un nombre que ella misma habí­a decidido: Viorel, de origen rumano. Creo que, salvo unos pocos inmigrantes, nadie en Inglaterra se llama Viorel, pero me pareció creativo, y de nuevo pensé que estaba haciendo una conexión con un pasado que ni siquiera habí­a llegado a vivir: sus dí­as en el orfanato de Sibiu.

Yo intentaba adaptarme a todo, pero sentí­a que estaba perdiendo a Athena por culpa del niño. Nuestras peleas se hicieron más frecuentes, ella empezó a amenazarme con irse de casa, porque creí­a que Viorel estaba recibiendo las «energí­as negativas» de nuestras discusiones. Una noche, después de una amenaza más, el que se marchó de casa fui yo, creyendo que iba a volver en cuanto me calmase un poco.

Empecé a caminar sin rumbo por Londres, blasfemando contra la vida que habí­a escogido, el hijo que habí­a aceptado, la mujer que ya parecí­a no sentir el más mí­nimo interés por mí­. Entré en el primer bar, cerca de una estación de metro, y me tomé cuatro whiskys. Cuando el bar cerró, a las once, fui a una tienda de esas que están abiertas por la noche, compré más whisky, me senté en un banco de la plaza y seguí­ bebiendo. Se me acercaron un grupo de jóvenes y me pidieron que compartiese la botella con ellos, yo me negué y me pegaron. Apareció la policí­a y acabamos todos en comisarí­a.

Me soltaron después de prestar declaración. Evidentemente, no acusé a nadie; dije que habí­a sido una discusión sin importancia, o tendrí­a que pasar algunos meses de mi vida teniendo que comparecer ante tribunales, como ví­ctima de agresión. Cuando me disponí­a a salir, mi estado de embriaguez era tal que me caí­ encima de la mesa de un inspector de policí­a. Se enfadó, pero en vez de arrestarme por desacato a la autoridad, me echó hacia afuera de la comisarí­a.

Y allí­ estaba uno de mis agresores, que me agradeció no haber llevado el caso adelante. Me dijo que estaba muy sucio de barro y de sangre, y me sugirió que me pusiera otra ropa antes de volver a casa. En vez de seguir mi camino, le pedí­ que me hiciese un favor: que me escuchase, porque tení­a una necesidad inmensa de hablar. Durante una hora escuchó en silencio mis quejas.

En realidad, yo no estaba hablando con él, sino conmigo mismo, un chico con toda la vida por delante, una carrera que podrí­a ser brillante, una familia que tení­a contactos suficientes para abrir fácilmente muchas puertas, pero que ahora parecí­a uno de los mendigos de Hampstead (N. R.: Barrio de Londres), borracho, cansado, deprimido, sin dinero. Todo por culpa de una mujer que ni siquiera me prestaba atención.

Al final de mi historia, ya divisaba mejor la situación en la que me encontraba: una vida que yo habí­a escogido, creyendo que el amor puede salvarlo todo. Y no es verdad: a veces acaba llevándonos al abismo, con el agravante de que generalmente arrastramos con nosotros a las personas queridas. En este caso, yo estaba a punto de destruir no sólo mi existencia, sino también la de Athena y a Viorel.

En aquel momento, me repetí­ una vez más a mí­ mismo que yo era un hombre, y no el niño que habí­a nacido en una cuna de oro, y debí­a afrontar con dignidad todos los desafí­os que se me presentaran. Me fui a casa, Athena ya estaba durmiendo con el bebé en brazos. Me di un baño, salí­ otra vez para tirar la ropa a la papelera de la calle, y me acosté, extrañamente sobrio.

Al dí­a siguiente, le dije que querí­a el divorcio. Ella preguntó por qué.

“”Porque te amo. Amo a Viorel. Y todo lo que he hecho es culparos a vosotros dos por haber abandonado mi sueño de ser ingeniero. Si hubiésemos esperado un poco, las cosas habrí­an sido diferentes, pero tú sólo pensaste en tus planes; olvidaste incluirme en ellos.

Athena no reaccionó, como si se lo esperase, o como si, inconscientemente, estuviese provocando esa actitud.

Mi corazón sangraba, porque esperaba que me pidiese por favor que me quedase. Pero ella parecí­a tranquila, resignada, preocupada únicamente por evitar que el bebé oyese nuestra conversación. Fue en ese momento en el que tuve la seguridad de que nunca me habí­a amado, yo no habí­a sido más que un instrumento para la realización de esa locura de sueño de tener un hijo a los diecinueve años.

Le dije que podí­a quedarse con la casa y los muebles, pero los rechazó: se iba a casa de su madre por algún tiempo, buscarí­a un empleo y alquilarí­a su propio apartamento. Me preguntó si podí­a ayudarla económicamente con Viorel. Yo asentí­ al momento. Me levanté, le di un largo y último beso, volví­ a insistir en que se quedase allí­, ella volvió a decir que se iba a casa de su madre en cuanto recogiese todas sus cosas. Me hospedé en un hotel barato y me quedé esperando todas las noches a que ella me llamase para pedirme que volviera, recomenzar una nueva vida; incluso estaba dispuesto a seguir con la misma vida si era necesario, ya que el hecho de apartarme de ellos me habí­a hecho darme cuenta de que no habí­a nadie ni nada más importante en el mundo que mi mujer y mi hijo.

Una semana después, finalmente recibí­ su llamada. Pero todo lo que me dijo fue que ya habí­a recogido sus cosas y que no pensaba volver. Otras dos semanas más tarde, supe que habí­a alquilado una pequeña buhardilla en Basset Road, donde tení­a que subir todos los dí­as tres pisos de escaleras con el niño en brazos. Pasaron otros dos meses y acabamos firmando los papeles.

Mi verdadera familia se iba para siempre. Y la familia en la que nací­ me recibí­a con los brazos abiertos.

Después de nuestra separación y del inmenso sufrimiento que la siguió, me pregunté si realmente no habí­a sido una decisión equivocada, inconsecuente, propia de personas que han leí­do muchas historias de amor en la adolescencia, y que querí­an repetir a toda costa el mito de Romeo y Julieta. Cuando el dolor se calmó “”y sólo hay un remedio para eso, el paso del tiempo””, entendí­ que la vida me habí­a permitido conocer a la única mujer que serí­a capaz de amar en toda mi vida. Cada segundo pasado a su lado habí­a valido la pena; a pesar de todo lo que habí­a sucedido, volverí­a a repetir cada paso que habí­a dado.

Pero el tiempo, además de curar las heridas, me enseñó algo curioso: es posible amar a más de una persona en la vida. Me casé otra vez, soy feliz al lado de mi nueva mujer, y no puedo imaginar cómo serí­a vivir sin ella. Eso, sin embargo, no me obliga a renunciar a todo lo que viví­, siempre que tenga el cuidado de no intentar comparar ambas experiencias; no se puede medir el amor igual que medimos una carretera o la altura de un edificio.

Quedó algo muy importante de mi relación con Athena: un hijo, su gran sueño, que me fue comunicado abiertamente antes de decidirnos a casarnos. Tengo otro hijo con mi segunda mujer, ahora estoy bien preparado para los altibajos de la paternidad, no como hace doce años.

Una vez, en una de las ocasiones que la vi al ir a buscar a Viorel para pasar el fin de semana conmigo, decidí­ tocar el tema: le pregunté por qué se habí­a mostrado tan tranquila cuando supo que yo querí­a separarme.

“”Porque he aprendido a sufrir en silencio toda mi vida “”respondió.

Entonces me abrazó y lloró todas las lágrimas que le gustarí­a haber derramado aquel dí­a.

Próximo texto: 23.09.06

Edizione nº 129: Storie sull’arroganza

L’arroganza del potere

Maestro e discepolo chiacchieravano in un angolo quando una vecchia li avviciní²: “Allontanatevi dalla mia vetrina!”, urlí² la vecchia. “State ostacolando i clienti”.

Il maestro chiese scusa e cambií² marciapiede.

Continuarono a chiacchierare, quando si avviciní² un ufficiale. “Abbiamo bisogno che lei si allontani da questo marciapiede”, disse l’ufficiale. “Fra poco passerí  il conte”.

“Che il conte usi l’altro lato della strada”, rispose il maestro, senza muoversi. Poi si rivolse al suo discepolo:

“Non dimenticare: non essere mai arrogante con gli umili. E non essere mai umile con gli arroganti.”

L’arroganza della santití 

Il monaco zen passí² dieci anni meditando nella sua caverna, cercando di scoprire il cammino della Verití . Un pomeriggio, mentre pregava, si avviciní² una scimmia. Il monaco tentí² di concentrarsi. Ma la scimmia si avviciní² pian pianino e afferrí² il sandalo del monaco.

– Dannata scimmia! – disse l’eremita. – Perché sei venuto a turbare le mie preghiere?

– Ho fame – disse la scimmia.

– Vattene via! Stai ostacolando la mia comunicazione con Dio!

– Come desideri parlare con Dio, se non riesci a comunicare con i pií¹ umili, come me? – disse la scimmia.

E il monaco, vergognandosi, chiese scusa.

L’arroganza della forza

Il villaggio era minacciato da una tribí¹ di barbari. A poco a poco gli abitanti abbandonarono le loro case e fuggirono in un luogo pií¹ sicuro. Nel giro di un anno, erano andati via tutti, tranne un gruppo di gesuiti.

L’esercito barbaro entrí² nel villaggio senza trovare resistenza e fece una grande festa per celebrare la vittoria. A metí  della cena, si presentí² un prete.

“Voi siete entrati qui e avete allontanato la pace da questo posto. Vi prego di partire senza indugio.”

“Perché tu non sei ancora fuggito?”, urlí² il capo barbaro. “Non vedi che posso trafiggerti con la mia spada, senza battere ciglio?”

Il prete rispose tranquillamente:

“Non vedi che posso essere trafitto da una spada, senza battere ciglio?”.

Sorpreso dalla serenití  davanti alla morte, il capo barbaro e la sua tribí¹ abbandonarono il posto il giorno seguente.

L’arroganza dell’invidia

Nel deserto della Siria, Satana diceva ai suoi discepoli: “l’essere umano è sempre pií¹ preoccupato di augurare il male agli altri che non di fare il bene a se stesso”.

E per dimostrare cií² che diceva, decise di mettere alla prova due uomini che riposavano lí¬ vicino.

“Sono venuto a realizzare i tuoi desideri”, disse a uno di loro. “Puoi chiedere cií² che vuoi, e ti sarí  dato. Il tuo amico riceverí  la stessa cosa, ma in misura doppia”.

L’uomo rimase in silenzio per lungo tempo. Infine, disse:

“Il mio amico è contento, perché avrí  sempre il doppio, qualunque sia il mio desiderio. Ma sono riuscito a preparargli una trappola: la mia richiesta è che tu mi renda cieco di un occhio”.

Édition nº 129: Histoires au sujet de l’arrogance

L’arrogance du pouvoir

Maí®tre et disciple conversaient au coin d’une rue quand une vieille les aborda : « Ne restez pas devant ma vitrine ! s’écria-t-elle. Vous gíªnez la clientèle. »

Le maí®tre présenta ses excuses, et il changea de trottoir.

Ils poursuivirent leur conversation, quand un officier s’approcha.

« Il faut vous éloigner de ce trottoir, dit l’officier. Le comte va passer bientí´t passer par ici.

– Que le comte emprunte l’autre cí´té de la rue », répondit le maí®tre, sans bouger. Puis il se tourna vers son disciple :

« N’oublie pas cela : ne soit jamais arrogant avec les humbles. Et ne soit jamais humble avec les arrogants. »

L’arrogance de la sainteté

Le moine zen passa dix ans í  méditer dans sa caverne, cherchant í  découvrir le chemin de la Vérité. Un après-midi, tandis qu’il priait, un singe vint í  sa rencontre. Le moine essaya de se concentrer, mais le singe s’approcha sans bruit et s’empara de sa sandale.

« Singe du diable ! s’écria l’ermite. Pourquoi es-tu venu perturber mes prières ?

– J’ai faim, dit le singe.

– Fiche le camp ! Tu gíªnes ma communication avec Dieu !

– Comment pouvez-vous désirer parler avec Dieu, si vous n’arrivez pas í  communiquer avec les plus humbles, comme moi ? » demanda le singe.

Alors le moine, honteux, présenta des excuses.

L’arrogance de la force

Le village était menacé par une tribu de barbares. Les habitants abandonnèrent leurs maisons et s’enfuirent vers un lieu plus sí»r. Au bout d’un an, ils étaient tous partis, sauf un groupe de jésuites.

L’armée des barbares entra dans la ville sans qu’il y eí»t de résistance, et ils firent une grande fíªte pour célébrer la victoire. En plein dí®ner, un príªtre se présenta.

« Vous íªtes entrés ici, et vous avez éloigné la paix. Je vous en prie, partez sans attendre.

– Pourquoi n’avez-vous pas encore pris la fuite ? cria le chef des barbares. Vous ne voyez pas que je peux vous transpercer de mon épée, sans cligner un Å“il ? »

Le príªtre répondit calmement :

« Ne voyez-vous pas que je peux íªtre transpercé par une épée, sans cligner un Å“il ? »

Surpris par cette sérénité devant la mort, le chef barbare et sa tribu quittèrent l’endroit le lendemain.

L’arrogance de la jalousie

Dans le désert de Syrie, Satan disait í  ses disciples : « L’íªtre humain se soucie toujours plus de désirer du mal aux autres, qu’í  se faire du bien í  lui-míªme. »

Et pour démontrer ce propos, il décida de mettre í  l’épreuve deux hommes qui se reposaient dans les parages.

« Je suis venu réaliser vos désirs, dit-il í  l’un d’eux. Vous pouvez demander ce que vous voulez, vous l’aurez. Votre ami recevra la míªme chose, mais en double. »

L’homme demeura silencieux un long moment. Enfin, il répondit :

« Mon ami est satisfait, parce qu’il aura toujours le double, quel que soit mon désir. Mais j’ai réussi í  vous tendre un piège : ma demande est que vous me rendiez aveugle d’un Å“il. »

Edición nº 129: Historias sobre la arrogancia

La arrogancia del poder

Maestro y discí­pulo conversaban en una esquina, cuando una anciana los abordó: “¡Apártense de delante de mi escaparate!,” gritó. “¡Están estorbando a mis clientes!”

El maestro pidió disculpas, y cambió de acera.

Continuaban la conversación, cuando se les acercó un policí­a.

 “Necesitamos que se aparte de esta acera,” dijo el policí­a. “El conde va a pasar por aquí­ dentro de poco.”

“Que el conde pase por el otro lado de la calle,” respondió el maestro, sin moverse de su sitio. Después se giró a su discí­pulo:

“No lo olvides: no seas nunca arrogante con los humildes, ni humilde con los arrogantes.”

La arrogancia de la santidad

El monje zen habí­a pasado diez años meditando en su cueva, intentado descubrir el camino de la Verdad. Una tarde, mientras oraba, se le acercó un mono. El monje intentó concentrarse. El mono, sin embargo, se le acercó despacito y le quitó la sandalia.

-¡Maldito mono! -dijo el monje-. ¿por qué has venido a perturbar mis oraciones?

-Tengo hambre -dijo el mono.

-¡Largo de aquí­! ¡Estorbas mi comunicación con Dios!

-¿Cómo quieres hablar con Dios, si no eres capaz de comunicarte con los más humildes, como yo? -dijo el mono.

Y el monje, avergonzado, le pidió disculpas.

La arrogancia de la fuerza

La aldea estaba amenazada por una tribu de bárbaros. Los habitantes fueron abandonando sus casas, y huyeron hacia un lugar más seguro. Al final del año, todos habí­an partido, excepto un grupo de jesuitas.

El ejército bárbaro entró en la ciudad sin encontrar resistencia e hizo una gran fiesta para celebrar la victoria. En mitad de la comida, apareció un padre jesuita.

“Habéis entrado aquí­ y habéis echado fuera la paz. Os pido por favor que os vayáis sin demora.”

“¿Por qué no has huido todaví­a?,” gritó el jefe bárbaro. “¿No ves que puedo atravesarte con mi espada sin siquiera pestañear?”

El padre respondió con calma:

“¿No ves que yo puedo ser atravesado por una espada sin siquiera pestañear?”

Sorprendido por tan gran serenidad ante la muerte, el jefe bárbaro y su tribu abandonaron el lugar al dí­a siguiente.

La arrogancia de la envidia

En el desierto de Siria, decí­a Satanás a sus discí­pulos: “el ser humano siempre está más preocupado por desear el mal a los otros que en hacerse el bien a sí­ mismo.”

Y para probar lo que decí­a, decidió tentar a dos hombres que descansaban allí­ cerca.

“He venido para hacer realidad tus deseos,” le dijo a uno de ellos. “Puedes pedir lo que quieras, que te será dado. Tu amigo recibirá lo mismo que tú, pero el doble.”

El hombre permaneció largo tiempo en silencio. Finalmente, dijo:

“Mi amigo está contento, porque obtendrá el doble que yo, sea cual sea mi deseo. Pero he conseguido prepararle una trampa: mi deseo es que me dejes ciego de un ojo.”

Stories about arrogance

The arrogance of power

The master and his disciple were talking at a street corner when an old woman came up to them:

“Get away from my window!” shouted the old lady. “You are disturbing the customers”. The master apologized and crossed over to the other sidewalk.

They went on talking until an officer came up to them and said:

“We need you to move away from this sidewalk. The count will be passing by here in a few moments”.

“Let him use the other side of the street”, answered the master, without moving.

Then he turned to his disciple and told him: “Don’t forget: never be arrogant to the humble. And never be humble to the arrogant.”

The arrogance of sanctity

The Zen monk spent ten years meditating in his cave, trying to find out the path to the Truth. While he was praying one afternoon, a monkey came up to him. The monk tried to concentrate, but the monkey drew closer and seized the monk’s sandal.

“Damned monkey!” said the hermit. “Why have you come to disturb my prayers?”

 “I’m hungry,” said the monkey.

“Go away! You are disturbing my communicating with God!”

“How can you talk to God if you cannot manage to communicate with humble creatures like me?” said the monkey.

And the monk apologized, feeling ashamed.

The arrogance of force

The village was threatened by a tribe of barbarians. The inhabitants were abandoning their houses and fleeing to a safer place. At the end of a year they had all left – except a group of Jesuits.

The army of barbarians entered the city without any resistance and held a great feast to commemorate the victory. In the middle of the dinner a priest appeared.

“You came in here and drove out peace. I beg you to leave at once.”

“Why haven’t you fled yet?” shouted the chief of the barbarians. “Don’t you see that I can run you through with my sword without blinking an eye?”

The priest answered calmly:

“Don’t you see that I can be run through by a sword without blinking an eye?”

Surprised by such serenity before death, the chief of the barbarians and his tribe abandoned the place the next day.

The arrogance of envy

In the Syrian desert, Satan told his disciples: “Human beings are always more concerned about wishing evil on others than doing good to themselves”.

And to demonstrate what he was saying, he decided to test two men who were resting nearby.

“I have come to make your wishes come true”, he said to one of them. “Whatever you want will be given to you. Your friend will receive the same thing – except double”.

The man remained in silence for a long while, and then he finally said:

“My friend is content because he will have double, no matter what my wish is. But I have prepared a trap for him: my wish is that you make me blind in one eye”.

Edií§í£o nº 129: Histórias sobre a arrogí¢ncia

A arrogí¢ncia do poder

Mestre e discí­pulo conversavam numa esquina, quando uma velha os abordou:

“Saiam da frente da minha vitrine!”, gritou a velha. “Vocíªs estí£o atrapalhando os fregueses”.O mestre pediu desculpas, e mudou de calí§ada.

Continuaram a conversa, quando um oficial aproximou-se.

 “Precisamos que o senhor se afaste desta calí§ada”, disse o oficial. “O conde irá passar por aqui daqui a pouco”.

“Que o conde use o outro lado da rua”, respondeu o mestre, sem se mover. Depois se virou para seu discí­pulo:

“Ní£o esqueí§a: jamais seja arrogante com os humildes. E jamais seja humilde com os arrogantes.”

A arrogí¢ncia da santidade

O monge zen passou dez anos meditando em sua caverna, procurando descobrir o caminho da Verdade. Certa tarde, enquanto orava, um macaco aproximou-se.

O monge tentou concentrar-se.O macaco, porém, aproximou-se de mansinho e pegou a sandália do monge.

– Macaco danado! – disse o ermití£o. – Por que veio perturbar minhas oraí§íµes?

– Estou com fome – disse o macaco.

– Vá embora! Vocíª atrapalha minha comunicaí§í£o com Deus!

– Como deseja falar com Deus, se ní£o consegue comunicar-se com os mais humildes, como eu? – disse o macaco.

E o monge, envergonhado, pediu desculpas.

A arrogí¢ncia da forí§a

A aldeia estava ameaí§ada por uma tribo de bárbaros. Os habitantes foram abandonando suas casas, e fugindo para um local mais seguro. No final de um ano, todos haviam partido – exceto um grupo de jesuí­tas.

O exército bárbaro entrou na cidade sem resistíªncia, e fizeram uma grande festa para comemorar a vitória. No meio do jantar, um padre apareceu.

“Vocíªs entraram aqui, e afastaram a paz do lugar. Peí§o por favor que partam sem demora.”

“Por que vocíª ainda ní£o fugiu?”, gritou o chefe bárbaro. “Ní£o víª que eu posso atravessá-lo com minha espada, sem piscar um olho?”

O padre respondeu calmamente:

“Ní£o víª que eu posso ser atravessado por uma espada, sem piscar um olho?”.

Surpreso pela serenidade diante da morte, o chefe bárbaro e sua tribo abandonaram o lugar no dia seguinte.

A arrogí¢ncia da inveja

No deserto da Sí­ria, Satanás dizia aos seus discí­pulos: “o ser humano está sempre mais preocupado em desejar o mal aos outros, que em fazer o bem a si próprio”.

E para demonstrar o que dizia, resolveu testar dois homens que descansavam ali perto.

“Vim realizar seus desejos”, disse para um deles. “Pode pedir o que quiser, que lhe será dado. Seu amigo receberá a mesma coisa – só que em dobro”.

O homem permaneceu em silíªncio por longo tempo.

Finalmente, disse:

“Meu amigo está contente, porque terá sempre o dobro, seja qual for meu desejo. Mas consegui preparar-lhe uma armadilha: o meu pedido é que vocíª me deixe cego de um olho”.